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Denise Calado

“Estamos a ‘milésimos de segundos’ de não conseguir manter o planeta” – Sofia Santos, economista especialista em financiamento verde

18 Abril, 2022 by Denise Calado

A especialista em financiamento verde, climático e sustentável, quer deixar uma marca positiva na sociedade e no sistema económico. Para Sofia Santos a felicidade é agir para fazer os outros mais felizes e essa urgência na ação leva-a a afirmar perentoriamente que estamos no limite de salvar o planeta. Em entrevista à Líder, a fundadora da Systemic, empresa que desenvolve projetos na área da sustentabilidade, acredita que para uma economia prosperar é necessária uma maior consciência ética e de justiça em cada um de nós. Sofia Santos é também cocoordenadora do primeiro curso em Portugal para executivos em Sustainable Finance do ISEG, onde é professora associada.

Durante o seu percurso, que episódios a marcaram e a encaminharam profissionalmente para as áreas ligadas ao desenvolvimento económico, ambiental e social?

Dois episódios. O primeiro; em 1998, quando eu trabalhava no Research Department do Merrill Lynch em Londres, na equipa de Estratégia Global, a dada altura, o meu chefe que tinha 28 anos (e eu 22), exclamou: “Ótimo! A taxa de desemprego aumentou!” O que, na teoria económica e em tempos de inflação, faz sentido, pois aumento de desemprego implica pressão à baixa da inflação e isso cria pressão ao aumento dos preços. Apesar de a teoria económica justificar esta abordagem, achei que não fazia sentido nenhum e perguntei-lhe: “Se fosse a tua mulher a ser despedida, dirias o mesmo?”, e ele virou-me as costas. O segundo; em 2001, tive a sorte de ir trabalhar para a CELPA [Associação da Indústria Papeleira], estando o Luís Costa Leal como secretário-geral. Aí tomei contacto com o tema da gestão florestal sustentável e fui muito influenciada pelo carácter e forma de estar do Luís Leal, que me inspirou imenso em muitas decisões que tomei daí em frente.

Quais as principais resistências que tem encontrado no caminho para se alcançar uma economia verde, circular, justa e inclusiva?

Tenho encontrado os receios naturais dos seres humanos: medo, receio à mudança, querer ser aceite pelo outro, sentido de oportunidade. Implementar verdadeiramente os temas da sustentabilidade vem mexer com a ordem existente na forma de “fazer as coisas” e, por isso, tudo o que é novo pode trazer oposição e traz algum medo. Esse medo traz um receio em se defender um tema que ainda não é bem aceite por todos, porque, no fundo, todos ambicionamos ser percecionados como “dizendo as coisas certas nos sítios certos”. E estamos habituados a potencialmente sofrer algumas consequências negativas se não o fazemos bem, o que nos pode prejudicar. Mas também me tenho cruzado com pessoas muito resilientes, motivadoras e que gostam de fazer acontecer e não têm receio de enfrentar e justificar a novidade. Seria muito melhor se mais fossem assim.

Como se combatem esses entraves, para que possamos ter uma economia verdadeiramente mais próspera?

Com capacitação sobre a importância que cada um de nós tem como ser humano na mudança das organizações e das sociedades, ou seja, com o aumento da nossa consciência como seres humanos e humanistas, e com um aumento de conhecimento sobre os temas ambientais e sociais no mundo. Com formação sobre a importância que os temas da sustentabilidade têm para a economia, finanças, sociedade e pessoas. Com o aumento da consciência ética e de justiça em cada um de nós.

Que histórias a marcaram no esforço que tem vindo desenvolver na esfera empresarial?

Tenho-me cruzado com pessoas que são excecionais e com as quais acabo por criar relações de amizade. Existem vários casos que me marcam positivamente pelo envolvimento e evolução da organização no seu empenho com o tema e na ambição e ações realizadas. A Companhia das Lezírias e o Crédito Agrícola são algumas das organizações que demorei anos a tentar conseguir ajudar. Mas trouxe uma satisfação especial pela evolução de práticas alcançadas e pelas relações estabelecidas com muitos dos colaboradores.

E quais as menos positivas?

Há também muitas pessoas que não querem mudar pois estão na sua zona de conforto e esperam que sejam os outros a agir. Por vezes, penso que estando nós no século 21, seria de esperar que fôssemos mais desenvolvidos e mais preocupados com “o outro” e com o impacto que queremos deixar neste mundo. Mas esse processo é um processo individual e todos nós temos os nossos timings.

Que tipo de investimento é necessário no setor ambiental e para onde deve ser direcionado?

Essencialmente para as áreas da produtividade da energia, economia circular e serviços dos ecossistemas. Ou seja, para as áreas das energias renováveis, da eletrificação, da eficiência energética no equipamento e nos processos, na diminuição da produção de resíduos e desenvolvimento de produtos e serviços reutilizáveis e “servitizáveis”. No ecodesign e na valorização da natureza como entidade que é capaz de gerar um conjunto de serviços que o mercado não valoriza, mas que devia valorizar, pois é o que nos permite ter alimentos, água, ar limpo entre muitos outros. Quem tem terrenos onde não pode construir, porque na realidade produzem serviços de ecossistemas, não deveria ser remunerado pelos serviços que está a prestar a outros setores? Eu diria que sim.

A União Europeia tem o objetivo de zero emissões líquidas até 2050. Acha exequível?

Mais uma vez, as pessoas. Seria exequível se todos nós quiséssemos fazer esse esforço. Tecnologia há. Dinheiro também. O que falta é uma capacidade de as pessoas – consumidores, empresários, setor público e políticos – serem pró-ativas e capazes de encontrar consensos. É por isso que a regulação europeia começa a ser tão expressiva, para nos forçar a todos a acelerar nestes processos de decisão empresarial e de consumo que estejam mais ligados com a diminuição do consumo de recursos e diminuição de emissões de CO2.

Qual o papel dos investimentos públicos e privados durante este caminho?

É essencial. Há muito dinheiro pelo mundo fora. A aposta numa economia verde, ou seja, num modelo económico que seja capaz de criar emprego e diminuir a sua pegada ecológica e ser neutro em carbono até 2050, vai implicar investimentos adicionais em várias áreas e em todos os setores. Como aprendemos na economia, o investimento faz subir o PIB e cria emprego. Por isso, se conseguirmos que os setores privado e público invistam em projetos verdes, a economia vai prosperar e empregos serão criados. Bem sei que alguns empregos serão também eliminados neste processo de transição, mas sempre foi assim em épocas de mudanças estruturais da economia – e hoje temos mais conhecimento do que nunca. O fundamental é antecipar os setores em que esses empregos vão deixar de existir e capacitar as pessoas para que possam adaptar o seu conhecimento técnico para outras áreas do futuro.

Chegou a referir a criação de um rating ambiental para as empresas. De que forma é que esta situação está a ser posta em prática?

Estou a trabalhar com o Crédito Agrícola precisamente nisso, e, desde julho de 2021, qualquer empresa que solicite um empréstimo a este banco terá de preencher questionários para se compreender o seu alinhamento com a sustentabilidade. Isto, por um lado, ajuda as empresas a anteciparem muitas das exigências que os próprios financiamentos europeus irão ter já no próximo quadro comunitário, e ajuda a preparar a sua gestão e práticas para conseguirem dar as respostas que são necessárias para se ter bons projetos. Por outro, os bancos irão necessitar de compreender a percentagem de empréstimos que estão alinhados com a sustentabilidade, pois os seus requisitos de capital estarão associados a essa informação. Ou seja, bancos com mais empréstimos alinhados com a sustentabilidade serão vistos pelos supervisores como bancos com menos risco, logo mais seguros.

Como se explica que todos têm uma tarefa a desempenhar neste objetivo global de sustentabilidade?

É difícil explicar que estamos a “milésimos de segundos” de não conseguir manter o planeta com condições que permitam a melhoria da qualidade de vida dos humanos. Sinceramente, acho que só conseguimos quando as pessoas sentem que, de facto, têm o dever como cidadãos de proteger os mais desfavorecidos e o futuro. Há um vídeo de um discurso de dois minutos do Paul Polman nas Nações Unidas que explicita o que estou a dizer. Ou seja, queremos ser responsáveis pela má qualidade de vida das pessoas noutros planetas? Se não temos de agir já. Vale a pena ver este vídeo.

“Felicidade é aquilo que ganhamos pelo agir.” De que forma é que esta frase de Adam Smith, filósofo e economista britânico, ganha eco em si?

É o meu drive do dia a dia. Eu só me sinto feliz se agir. Se conseguir criar algo melhor a alguém, se conseguir fazer com que alguém se sinta melhor, se sentir que estou a fazer o que consigo para cuidar das pessoas e do planeta. Parece muito poético e cliché, mas é a pura verdade. E, ao longo dos anos, aprendi a gostar de pessoas, e gosto de contribuir para a felicidade delas, reconhecendo que nem sempre o consigo fazer. Também sou humana e com muitos defeitos, mas com coração aberto para ser cada vez um melhor ser humano.

© by-artur.com

Arquivado em:Entrevistas

Os extremos abraçam-se

18 Abril, 2022 by Denise Calado

A invasão da Ucrânia permitiu reformular uma velha ideia: sabia-se que os extremos se tocam; agora sabemos que às vezes se abraçam. O abraço une extrema-esquerda e extrema direita num amplexo inesperado – ou talvez não. O que junta estes opostos polares, além de alegados apoios materiais e eleitorais, é o facto de neste momento todos caírem na categoria a que Gideon Rachman chamava no Financial Times “Putin understanders”. Quem são estes “compreendedores” de Putin?

 

À direita encontram-se os nacionalistas deste mundo, saudosos de um sistema verticalmente estruturado, baseado na ordem e no controlo pelo líder, um traço próximo dos velhos fascismos, facto assinalado por Mikhail Khodorkovsky em texto assinado no mesmo jornal britânico. Timothy Snyder escreveu sobre Putin: “Putin é um ditador de extrema-direita admirado por supremacistas brancos de todo o mundo.” O encanto deste grupo por Putin é fácil de compreender: o homem quer restaurar o orgulho pátrio, a ordem e o respeito pelo seu país. Tem o beneplácito do topo da Igreja Ortodoxa russa. Coloca os militares (e a ordem) no centro da sociedade.

 

À esquerda, a compreensão também se compreende: o inimigo do meu inimigo meu amigo é. A guerra revelou que o ódio aos EUA e ao Ocidente constitui o cerne da ideologia destas esquerdas iliberais, elas próprias atraídas pela ordem vinda do topo (do Estado, neste caso) e pela necessidade de atacar os símbolos do Ocidente. Apoiar um país imperialista e agressor parece não constituir um grande problema para estes lados, agora unidos em torno do desejo de paz, que em alguns casos não passa de um pacifismo de lobos com pele de cordeiro. Interessante é o facto de, deste lado da barricada, se ouvirem frequentes queixas de pressão para o cancelamento provenientes do poder político e mediático. Os anteriores censuradores sentem-se censurados.

 

O que esta guerra revela é que a democracia é, de facto, um sistema frágil. Enquanto os democratas se aliam aos não-democratas por razões táticas, como por cá tem acontecido, o tecido democrático continua a ser deslaçado. Façamo-lo com consciência do facto e por nossa conta e risco.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Livros: Sugestões Líder

14 Abril, 2022 by Denise Calado

Aqui ficam algumas sugestões de livros para as Lideranças. Boas leituras!

Beyond Digital

Paul Leinwand, Mahadeva Matt Mani

Harvard Business Review Press

Através dos casos de sucesso e fracasso de doze empresas que navegaram pela transformação digital, os autores partilham os exemplos da reinvenção da Philips à reformulação da Microsoft, entre outros. O livro identifica sete princípios de liderança para moldar o futuro das empresas numa era em que é preciso perceber que a natureza da vantagem competitiva mudou – e que ser digital não é suficiente.

 

 

Privacidade é Poder

Carissa Véliz

Temas & Debates

Reivindicar a nossa privacidade é a única maneira de podermos retomar o controlo das nossas vidas e das nossas sociedades. Os governos e as companhias detêm demasiado poder, e esse poder tem origem em nós – nos nossos dados. A privacidade é tanto coletiva como pessoal, e chegou o momento de recuperarmos o controlo sobre ela. Este livro explica-lhe como o conseguir. Exige o fim da economia de dados e propõe medidas concretas para alcançar esse objetivo, mediante soluções práticas, tanto para os legisladores como para os cidadãos comuns.

 

 

The Year in Tech, 2022

Harvard Business Review

A série Insights You Need, da Harvard Business Review reúne o essencial sobre a tecnologia para 2022. Da computação quântica à formação em RV, e da impressão 3D à interface cérebro–computador, as novas tecnologias estão a mudar os negócios do chão de fábrica às lideranças nível C. O livro partilha reflexões e caminhos para as empresas tirarem partido das novas oportunidades que essas tecnologias estão a criar e evitar ser vítimas de paragens dos negócios.

 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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Arquivado em:Livros e Revistas

Projeto piloto de apoio à produção de óleo de palma sem desflorestação

14 Abril, 2022 by Denise Calado

Um projeto piloto com vista a incrementar a rastreabilidade e a transparência na cadeia de abastecimento mundial de óleo de palma, foi levado a cabo com sucesso, na Indonésia, pela Unilever e a SAP. Na prova de conceito, a Unilever aplicou a tecnologia blockchain da SAP, GreenToken, no rastreio de mais de 188.000 toneladas de fruta de óleo de palma. A solução permitiu à Golden Agri-Resources e a outros fornecedores da empresa criar fichas que espelham o fluxo material do óleo de palma em toda a cadeia de abastecimento, captando as características únicas ligadas à origem desta matéria.

Produtos como o óleo de palma são frequentemente misturados com outras matérias-primas fisicamente idênticas, provenientes de fontes verificadas e não verificadas como sustentáveis, logo após a “primeira milha” da cadeia de abastecimento e que motivam a perda ou a falta da informação de origem.

A solução Green Token permite às empresas informar qual a percentagem de produtos de óleo de palma que compraram com origem sustentável e acompanhá-los até ao produto que será adquirido pelo consumidor final. Neste caso, ajudou a Unilever a localizar, verificar e reportar quase em tempo real a origem e o percurso do óleo de palma na sua longa e complexa cadeia de abastecimento.

De acordo com a porta-voz da empresa, a Unilever está empenhada em atingir uma cadeia de abastecimento livre de desflorestação até 2023, e a tecnologia blockchain tem o potencial de ajudar empresas a traçar as suas cadeias de abastecimento para garantir que as matérias adquiridas respeitam as pessoas e o planeta.

 

 

 

Arquivado em:Notícias, Sustentabilidade

Alimentação plant-based: a pensar no presente e no futuro

14 Abril, 2022 by Denise Calado

Os padrões alimentares adotados atualmente pelas sociedades ocidentais, na qual podemos incluir a sociedade portuguesa, mais baseados em alimentos de origem animal e produtos com maior densidade energética, estão associados a múltiplos impactos para o meio ambiente, bem-estar da vida animal e a riscos para a saúde humana, nomeadamente uma elevada prevalência de obesidade e outras doenças crónicas não-transmissíveis1.

O caminho para a adoção de padrões alimentares mais sustentáveis e saudáveis constitui, assim, um dos desafios mais significativos da humanidade. Este desafio impõe-se com urgência atendendo às necessidades de alimentar toda a população humana a nível mundial e aos efeitos simultâneos das alterações climáticas, o que ameaça ecossistemas e a produção alimentar a nível global1.

Na União Europeia (UE), consomem-se cerca de 950 kg de alimentos per capita por ano, que estão associados a cerca de 27% da pegada ambiental global proveniente dos consumos totais da UE, tendo os produtos de origem animal uma grande representação. Além disso, os consumos alimentares na UE contribuem também para as emissões globais de gases com efeito estufa, desflorestação e perda de biodiversidade através de importações agrícolas e do comércio internacional1.

Os atuais sistemas alimentares causam, portanto, uma tensão nos recursos naturais do Planeta e é por esse motivo que se torna urgente e necessário haver sistemas de produção alimentar que sejam sustentáveis. Os problemas ambientais mais comuns na indústria alimentar estão relacionados com o desperdício alimentar que ocorre em várias etapas desde a produção de alimentos ao embalamento, a eficiência energética, transporte, consumo de água e gestão de resíduos2.

A resiliência dos sistemas alimentares para ultrapassar crises como a Pandemia de COVID-19 está diretamente relacionada com a sua sustentabilidade, pelo que em 2020, a Comissão Europeia introduziu novos objetivos para alcançar sistemas alimentares sustentáveis através da “Farm to Fork Strategy”3 como pontos fulcrais do Pacto Verde da UE4, que vão também ao alcance dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável enunciados pelas Nações Unidas5.

Nos últimos anos, diversos estudos investigaram e compararam diferentes padrões alimentares das populações para perceber os que têm um impacto ambiental menor e ao mesmo tempo asseguram as necessidades nutricionais e promovem a saúde humana. Desses estudos, existe evidência científica consistente e robusta que indica que padrões alimentares com um elevado consumo de alimentos de origem vegetal e um consumo reduzido de alimentos de origem animal (especialmente carnes vermelhas e os seus produtos), bem como com um aporte energético que não ultrapassa as necessidades energéticas diárias de quem é destinado, é simultaneamente mais saudável e está associado a um menor impacto para o meio ambiente6.

A Plant-Based Diet, conceito introduzido por T. Colin Campbell na década de 80 do século XX, consiste numa dieta de base vegetal que é caracterizada pelo consumo de alimentos de origem vegetal no seu estado mais natural, completos, não refinados e minimamente processados (frutas, vegetais, cereais integrais, tubérculos, leguminosas, frutos oleaginosos, sementes, ervas aromáticas e especiarias), que exclui todos os alimentos de origem animal (incluindo as carnes vermelhas, carnes de aves, ovos, pescado e produtos lácteos), além de ser nutricionalmente adequada, nomeadamente por conter níveis baixos de gordura saturada e produtos refinados como o açúcar7,8.

Estas características conferem-lhe vários benefícios para a saúde, tais como: a redução do risco de desenvolver obesidade através de uma gestão de peso mais adequada; a proteção contra doenças cardiovasculares, diabetes melitus tipo 2 (através de um melhor controlo dos níveis de açúcar no sangue) e vários tipos de cancro; ajuda a reduzir os níveis de colesterol a pressão arterial; promove uma maior longevidade; melhora o funcionamento do metabolismo e regula a microbiota intestinal7.

A adoção deste padrão alimentar de base vegetal é também considerada mais amiga do meio ambiente, atendendo a que a produção animal tem um contributo significativo para a emissão de gases com efeito estufa7.

Para que haja uma transição adequada para uma alimentação de base vegetal, a educação, a promoção da literacia (em saúde, alimentar e nutricional) e o empoderamento de cada um é essencial para que se possa aplicar uma mudança consciente que seja promotora da saúde e que vá ao encontro dos objetivos de sustentabilidade.

No Holmes Place, acreditamos que ao desenvolver um projeto como a Plant Based Kitchen estamos a caminhar nesse sentido. A Plant Based Kitchen by Holmes Place é “uma cozinha inovadora, educativa e inclusiva”. Através deste projeto que nasceu em 2019, conseguimos dar ferramentas às pessoas para colocarem em prática uma alimentação mais saudável e amiga do ambiente, através do desenvolvimento de capacidades e competências ao nível do “saber fazer”.

Nas diversas atividades desenvolvidas na Plant Based Kitchen, como os Workshops, Ateliers e Team Buildings há um processo de empoderamento que passa pela utilização de técnicas de educação não-formal que permitem uma abordagem lúdica e educativa que tem aplicações reais e concretas no dia-a-dia. O facto de se aprender a cozinhar pratos apelativos, saborosos e nutricionalmente equilibrados, vai permitir aos utilizadores da Plant Based Kitchen terem uma experiência enriquecedora e com uma aplicação prática e tão necessária.

Isso vai permitir a cada um a diminuição do desperdício alimentar e a adoção de uma alimentação que promove a sua saúde, o bem-estar animal e que é mais amiga do meio ambiente.

Pensemos assim na Plant Based Diet como uma oportunidade para um melhor presente e futuro, através da aplicação do conhecimento que temos acerca dela e façamos algo que está ao nosso alcance, para o bem individual e comum.

 

Referências Bibliográficas:

1Paris J., et al., 2022. Changing dietary patterns is necessary to improve the sustainability of Western diets from a One Health perspective. Science of the Total Environment. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2021.151437
2Alsaffar A., 2015. Sustainable diets: The interaction between food industry, nutrition, health and the environment. Food Science and Technology International. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1082013215572029
3European Commission. 2020. Farm to Fork Strategy for a fair, healthy and environmentally-friendly food system. Disponível em: https://ec.europa.eu/food/system/files/2020-05/f2f_action-plan_2020_strategy-info_en.pdf
4European Commision. 2021. A European Green Deal. Striving to be the first climate-neutral continent.
Disponível em: https://ec.europa.eu/info/strategy/priorities-2019-2024/european-green-deal_en
5United Nations – Department of Economic and Social Affairs. 2015. Sustainable Development Goals.
Disponível em: https://sdgs.un.org/goals
6Nelson M.E., et al., 2016. Alignment of Healthy Dietary Patterns and Environmental Sustainability: A Systematic Review. Advances in Nutrition – An International Review Journal. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5105037/
7Havermans. R.C., Rutten G., Bartelet D., 2021. Adolescent’s Willingness to Adopt a More Plant-Based Diet: A Theory-Based Interview Study. Frontiers in Nutrition. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34527686/
8Ostfeld R. J., 2017. Definition of a plant-based diet and overview of this special issue. Journal of Geriatric Cardiology. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5466934/pdf/jgc-14-05-315.pdf

 

Este artigo foi publicado na edição de primavera da revista Líder
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Zelensky e o poder da resiliência

14 Abril, 2022 by Denise Calado

Muito se tem falado em resiliência nos últimos anos. Durante a pandemia, que pôs o mundo às avessas, não havia político que não falasse da importância da resiliência. Até temos um Plano de Recuperação e Resiliência até 2026. Mas, mais gritante tem sido a resiliência do povo ucraniano e do seu presidente, face à invasão da Rússia.

Há muitas definições de resiliência. O termo vem da física, e consiste na propriedade pela qual a energia armazenada num corpo deformado é devolvida, quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica. Podemos ver a resiliência como um elástico que pode ser esticado quase até ao ponto de rutura e, uma vez liberto da ação anterior, é capaz de retomar a forma original.

Volodymyr Zelensky tem sido um exemplo de resiliência, na medida que tem demonstrado uma capacidade de lidar com a pressão, encontrando estratégias adaptativas. A sua bravura e assertividade na forma como tem liderado a ofensiva militar da Rússia estão a coloca-lo como o herói do momento. Carl Jung, um dos maiores psicanalistas da história, fala de arquétipos, que são padrões de personalidade inatos do ser humano. E o arquétipo do herói é movido pelo impulso de justiça e igualdade. Zelensky encarna este arquétipo.

Daniel Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, sugere que quase 90% das competências necessárias para o sucesso da liderança, são de natureza social e emocional. Aos 17 anos, Zelensky participou e venceu uma competição humorística do “Clube das Pessoas Divertidas e Inventivas”. Zelensky foi o presidente mais jovem da história da Ucrânia, tinha pouca experiência em política, mas não restam dúvidas que surpreendeu o mundo pela positiva na forma como tem gerido esta guerra, defendendo os valores fundamentais da humanidade.

 

Aqui ficam alguns traços em comum dos líderes resilientes:

Coragem – um líder corajoso transforma a sua equipa num batalhão. A sua atitude audaz de colocar a sua vida e da sua família em risco, para defender o seu povo e a sua terra, fazem nascer a esperança, para os 40 milhões de ucranianos.

Autoconfiança – Sem autoconfiança não vamos longe. O discurso de tomada de posse de Zelensky é prova disso: “Eu não quero a minha fotografia nos vossos escritórios: um presidente não é um ícone, um ídolo ou um retrato. Em vez disso, pendurem as fotografias dos vossos filhos e olhem para elas sempre que tiverem que tomar uma decisão”. Ele desafia-nos a acreditar na nossa intuição. Trata-nos como adultos responsáveis por pensar pela própria cabeça e com coração.

Autorregulação emocional – ao regular os impulsos emocionais conseguimos agir intencionalmente em vez de reactivamente. Somos capazes de visualizar os objetivos a alcançar, de compreender e tomar as ações e os passos necessários para os concretizar. As emoções passam a ser utilizadas como uma força positiva e mobilizadora, capaz de nos guiar até ao fim.

Propósito de vida – o presidente da Ucrânia tem claro que o seu propósito é servir o seu país. Quando temos a consciência de ter uma missão a cumprir na vida, a nossa capacidade de superação, resistência aos problemas e dificuldades torna-se numa arma poderosa.

Determinação em resolver os problemas – assumem a responsabilidade das suas atitudes, são pró-ativos na tomada de decisões e sabem escolher os momentos mais apropriados para o fazer. Não têm uma postura de vítima, mas de autor da própria vida.

Capacidade de comunicação – é uma arma fundamental, pois as guerras terminam com negociações, tal como a saída de um emprego ou um divórcio. O impacto emocional das mensagens é ampliado pela postura, a expressão facial, o tom de voz, as pausas e as palavras utilizadas. E Zelensky é mestre na assertividade.

Capacidade de pedir ajuda – Esta atitude de humildade é sinal de grande sabedoria. Ao pedir ajuda, Zelensky fá-lo com o coração, transformando o problema do seu país numa questão para ser tratada por toda a humanidade.

A resiliência não elimina os problemas da nossa vida, mas dá-nos a força para ultrapassar as adversidades, recuperar o equilíbrio e permite-nos prosperar.

Como diz o ditado, “Depois da batalha, aparecem os valentes.” Eu prefiro acreditar que antes da batalha se preparam os homens para ser corajosos, durante a batalha irrompem os resilientes, que lutam com o que têm e o que são e, depois da batalha crescem os que escolhem aceitar a realidade e transformá-la com dignidade.

No meio deste caos, é inspirador estar ao lado desta gente cheia de luz.

Nota: este artigo é dedicado à Yullia Prybytkova, refugiada ucraniana a viver em Portugal.

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