Muito se tem falado em resiliência nos últimos anos. Durante a pandemia, que pôs o mundo às avessas, não havia político que não falasse da importância da resiliência. Até temos um Plano de Recuperação e Resiliência até 2026. Mas, mais gritante tem sido a resiliência do povo ucraniano e do seu presidente, face à invasão […]
Muito se tem falado em resiliência nos últimos anos. Durante a pandemia, que pôs o mundo às avessas, não havia político que não falasse da importância da resiliência. Até temos um Plano de Recuperação e Resiliência até 2026. Mas, mais gritante tem sido a resiliência do povo ucraniano e do seu presidente, face à invasão da Rússia.
Há muitas definições de resiliência. O termo vem da física, e consiste na propriedade pela qual a energia armazenada num corpo deformado é devolvida, quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica. Podemos ver a resiliência como um elástico que pode ser esticado quase até ao ponto de rutura e, uma vez liberto da ação anterior, é capaz de retomar a forma original.
Volodymyr Zelensky tem sido um exemplo de resiliência, na medida que tem demonstrado uma capacidade de lidar com a pressão, encontrando estratégias adaptativas. A sua bravura e assertividade na forma como tem liderado a ofensiva militar da Rússia estão a coloca-lo como o herói do momento. Carl Jung, um dos maiores psicanalistas da história, fala de arquétipos, que são padrões de personalidade inatos do ser humano. E o arquétipo do herói é movido pelo impulso de justiça e igualdade. Zelensky encarna este arquétipo.
Daniel Goleman, autor do livro Inteligência Emocional, sugere que quase 90% das competências necessárias para o sucesso da liderança, são de natureza social e emocional. Aos 17 anos, Zelensky participou e venceu uma competição humorística do “Clube das Pessoas Divertidas e Inventivas”. Zelensky foi o presidente mais jovem da história da Ucrânia, tinha pouca experiência em política, mas não restam dúvidas que surpreendeu o mundo pela positiva na forma como tem gerido esta guerra, defendendo os valores fundamentais da humanidade.
Aqui ficam alguns traços em comum dos líderes resilientes:
Coragem – um líder corajoso transforma a sua equipa num batalhão. A sua atitude audaz de colocar a sua vida e da sua família em risco, para defender o seu povo e a sua terra, fazem nascer a esperança, para os 40 milhões de ucranianos.
Autoconfiança – Sem autoconfiança não vamos longe. O discurso de tomada de posse de Zelensky é prova disso: “Eu não quero a minha fotografia nos vossos escritórios: um presidente não é um ícone, um ídolo ou um retrato. Em vez disso, pendurem as fotografias dos vossos filhos e olhem para elas sempre que tiverem que tomar uma decisão”. Ele desafia-nos a acreditar na nossa intuição. Trata-nos como adultos responsáveis por pensar pela própria cabeça e com coração.
Autorregulação emocional – ao regular os impulsos emocionais conseguimos agir intencionalmente em vez de reactivamente. Somos capazes de visualizar os objetivos a alcançar, de compreender e tomar as ações e os passos necessários para os concretizar. As emoções passam a ser utilizadas como uma força positiva e mobilizadora, capaz de nos guiar até ao fim.
Propósito de vida – o presidente da Ucrânia tem claro que o seu propósito é servir o seu país. Quando temos a consciência de ter uma missão a cumprir na vida, a nossa capacidade de superação, resistência aos problemas e dificuldades torna-se numa arma poderosa.
Determinação em resolver os problemas – assumem a responsabilidade das suas atitudes, são pró-ativos na tomada de decisões e sabem escolher os momentos mais apropriados para o fazer. Não têm uma postura de vítima, mas de autor da própria vida.
Capacidade de comunicação – é uma arma fundamental, pois as guerras terminam com negociações, tal como a saída de um emprego ou um divórcio. O impacto emocional das mensagens é ampliado pela postura, a expressão facial, o tom de voz, as pausas e as palavras utilizadas. E Zelensky é mestre na assertividade.
Capacidade de pedir ajuda – Esta atitude de humildade é sinal de grande sabedoria. Ao pedir ajuda, Zelensky fá-lo com o coração, transformando o problema do seu país numa questão para ser tratada por toda a humanidade.
A resiliência não elimina os problemas da nossa vida, mas dá-nos a força para ultrapassar as adversidades, recuperar o equilíbrio e permite-nos prosperar.
Como diz o ditado, “Depois da batalha, aparecem os valentes.” Eu prefiro acreditar que antes da batalha se preparam os homens para ser corajosos, durante a batalha irrompem os resilientes, que lutam com o que têm e o que são e, depois da batalha crescem os que escolhem aceitar a realidade e transformá-la com dignidade.
No meio deste caos, é inspirador estar ao lado desta gente cheia de luz.
Nota: este artigo é dedicado à Yullia Prybytkova, refugiada ucraniana a viver em Portugal.

