Antes de invadir a Ucrânia, Putin foi escrevendo vários ensaios sobre a sua visão da Mãe Rússia. Estes estranhos textos, “entediantes solilóquios sobre História”, como lhes chamou no Expresso Lourenço Pereira Coutinho, têm uma dupla missão: justificar o que não tem justificação e dar uma patine filosófica às ações do líder messiânico que, mais que cumprir um desejo individual, leva a cabo uma necessária correção histórica.
O processo não é novo. Mesmo os ditadores precisam de justificar as suas ações. Nas sociedades laicas, a vontade dos deuses tornou-se insuficiente, pelo que se apela à nova fonte de conhecimento: a ciência e a filosofia, ou melhor, a teoria da conspiração mascarada de ciência e filosofia. Neste caso a ciência dá lugar à pseudociência e a filosofia serve para impedir o pensamento e não para o expandir. A lógica da desconfirmação é substituída pela da confirmação: todos os argumentos servem para provar a razão do ditador.
Os nazis usaram e abusaram deste estratagema, tal como ilustrado num livro recente, O Delírio Nazi, de Heather Pringle (Casa das Letras). Na sua teoria, uma raça superior mais não almejaria que reclamar o seu lugar no mundo e o direito ao espaço vital, o lebensraum. O ditador russo alinha pelo mesmo diapasão com uma mistura de teorias de conspiração e filosofia de pacotilha, como vários analistas têm mostrado. Eis a trágica conclusão: a ciência busca a verdade mas às vezes as visões pseudocientíficas de quem manda obrigam milhões a engolir patranhas.