Perto dos 50 anos de idade, iniciou-se nas corridas, por carolice, mas com a metodologia e a perseverança que deposita em tudo. Na sua rotina de empresário e gestor, no seu papel de pai, na sua missão de voluntário em instituições sociais. Falo de João Netto. CEO da empresa que fundou há 26 anos na área das telecomunicações, empreendedor desde a juventude, líder nato e com uma energia contagiante que transferiu para as 30 corridas que coleciona, incluindo as mais radicais e extremas do mundo. É um permanente aprendiz. Não há meta que o satisfaça. Não há erro que o demova. Não há limite que o espante. Do desporto para a vida leva lições fortes. É feliz e é um homem de fé.
Paula Perfeito (PP): Com 47 anos de idade, tiveste uma experiência inaugural: a primeira participação numa maratona: a Maratona de Lisboa, em 2013. Que te levou a outras maratonas e a contabilizar hoje 30 corridas completas, entre maratonas e ultramaratonas. Como explicas a chegada das maratonas nessa fase da sua vida?
Para quem tem uma vida intensa e com as responsabilidades que eu tenho, confesso que por vezes me faltam tempo e concentração, tudo é muito rápido, a maioria das vezes atuo sem ter tempo para definir estratégias. Ora, o desporto individual dá-nos isso que por vezes nos falta, enquanto corremos, nadamos ou andamos de bicicleta longas horas, temos essa benesse e eu aproveito-a ao limite. E, como sou uma pessoa em permanente desenvolvimento, nunca acho que já dei tudo. As maratonas, até ao início de 2013, eram completamente impensáveis para mim, que não corria 400 metros! No entanto, depois de começar, efetivamente surge uma necessidade constante de ir cada vez mais longe e é essa a magia da distância. Neste momento, mais importante do que as distâncias, é o grau de dificuldade das provas. Cada prova é uma prova, como é reconhecido por todos nós, temos estados físicos e psicológicos diferentes todos os dias. E terminar uma maratona ou uma ultramaratona é sempre um acontecimento especial, porque colocamos à prova todos os nossos limites e fico sempre com a agradável sensação de realização, de concluir mais um projeto, à semelhança do que me acontece quando concluo algo importante para a minha organização profissional.
PP: Tens presença registada em algumas das provas mais exigentes e extremas do mundo, como a Maratona do Polo Norte, a experiência das 7 maratonas em 7 dias em 7 continentes, ou a Maratona no Monte Everest. Que características consideras ter para integrar o grupo tão exclusivo dos atletas que competiram nestes cenários?
É sempre difícil quando falamos de nós próprios. À semelhança de muitos outros atletas, tenho características singulares, nunca estou completamente satisfeito com nenhum resultado, seja ele qual for! Desde que me conheço, sou uma pessoa de certa forma autossuficiente e muito pouco dependente de terceiros. Desde muito cedo, comecei a fazer a minha gestão autonomamente, comecei a trabalhar muito cedo, acumulei trabalho com os estudos e, rapidamente, progredi quer pessoalmente, quer profissionalmente a outros patamares. A dedicação, a capacidade de esforço e de superação tornam-nos pessoas diferenciadoras. Sou, pois, uma pessoa muito competitiva, muito perseverante e nunca desisto de nada. No entanto, não vou a nenhuma prova sem fazer o devido trabalho de casa. Normalmente, dizem que sou louco! Todos nós que nos metemos neste tipo de desafios somos um pouco loucos, mas não tanto como as pessoas imaginam. Uma pessoa que não faça a devida preparação para este tipo de desafios corre sérios riscos e esses sim podem ser considerados loucos. A minha principal característica, em suma, como referi, talvez seja nunca desistir de nada do que quero, esforço-me até conseguir e, quando consigo, passo sempre para o nível seguinte e é isso que me mantém ativo, a encarar a vida com a vontade de viver que todos me reconhecem. Diz o velho ditado: “Nunca deixes para amanhã aquilo que podes fazer hoje”. É exatamente o que faço, tento viver cada experiência como se fosse a última oportunidade para a viver.
PP: A Maratona do Polo Norte, para nos focarmos num dos exemplos mais ilustrativos da exigência colocada à prova, decorre em condições limite. Descreve-nos o ambiente específico. Que obstáculos/desafios enfrentaste?
É, de facto, uma prova absolutamente incrível, realizada em condições completamente ao limite do suportável para um ser humano. O diretor da organização tinha-nos informado, no briefing antes da prova, que a maratona teria 13 voltas e disse-nos que não nos devíamos esgotar nalgumas zonas do percurso, porque iríamos despender muita energia fundamental para concluir a prova. Ora, em cada volta, o percurso torna-se cada vez mais num verdadeiro pântano gelado e é efetivamente a melhor definição para aquele tipo de terreno. Entre muitas outras situações, quando se vai à tenda mudar a roupa por estar já congelada, é extremamente difícil voltar à prova e não desistir… Convém relembrar que na tenda estão cerca de 35 graus positivos e, cá fora, no final, temos uma sensação térmica de cerca de 40/50 graus negativos. Com esta diferença, torna-se somente acessível a um grupo muito restrito de pessoas, que tenham uma força de vontade absolutamente fora do normal. Tentei sempre correr tão rápido quanto possível, tendo chegado a cerca do km 11, sem nunca ter parado. Tive de optar entre abrandar ou arriscar não chegar ao fim. Mas desistir era impensável para uma pessoa como eu, o objetivo era concluir.
Ora, e a equipa organizadora é constituída por pessoas com muita experiência na realização deste tipo de eventos, que não deixam nada ao acaso, tentando minimizar ao máximo todos os riscos. A logística é incrível, dado tratar-se de um evento realizado a 70Kms do Polo Norte geográfico, onde as temperaturas chegam naquela época do ano a provocar sensações térmicas de -50 graus, como foi o caso nas últimas três horas de prova! Naquele local, não existe absolutamente nada, tudo tem de ser transportado de avião de muito longe para ser somente utilizado durante 3 semanas por ano. Depois tudo é desmontado novamente. As tendas são militares, proporcionando um desconforto incrível e sendo os únicos abrigos durante os três dias que lá passamos, pois cá fora é impossível permanecer mais de 5 minutos. O acampamento “Barneo Ice Camp” está assente na calote de gelo polar que se descola cerca de 200 metros/dia sobre o leito do Oceano Ártico.
PP: Em cada prova, competes sozinho. Mas até iniciares as corridas há uma equipa de profissionais em que te suportas na tua preparação multidisciplinar. Qual a importância desse suporte?
No início fazia efetivamente tudo sozinho, era completamente autodidata, a roçar mesmo o inconsciente, pois por desconhecimento não tinha consciência das asneiras que fazia nos treinos… Entretanto, tendo em conta o nível das provas em que comecei a participar, obriguei-me a crescer, a juntar uma equipa que me acompanha aconselhando dia a dia. Não é possível participar, por exemplo, numa World Marathon Challenge sem uma equipa a trabalhar connosco e para nós… Tenho um treinador / preparador físico, o Paulo Conde, pessoa sensata que me orienta dia a dia e me trava nos eventuais exageros…Todos os dias, literalmente todos os dias, envio um relatório de check-up ao acordar, sendo a partir desses resultados decidido o que, e como treinar nesse dia… Tenho médicos especialistas, fisioterapeutas sempre disponíveis, enfim, sozinhos vamos eventualmente mais rápido, mas juntos vamos seguramente mais longe… À semelhança das organizações profissionais, é fundamental trabalhar em equipa, de outra forma estamos, mais tarde ou mais cedo, condenados ao insucesso.
PP: A tua experiência simboliza que se pode correr pelo impossível, ultrapassar todos os obstáculos. No desporto, nas organizações, na vida… És gestor de equipas de profissionais com vocação comercial. Que ensinamentos é que as corridas te dão e que possam ser transportados para quem trabalha numa organização e, assim como no desporto, tem objetivos tão aguerridos?
A situação que mais me faz confusão é a falta de dedicação e de método da maioria dos profissionais dos nossos dias. Eu tento, através dos meus exemplos, demonstrar que nada é impossível e que se nos esforçarmos conseguimos tudo na vida. Precisamos de 30% de sorte e 70% de trabalho para o alcance dos objetivos. O principal ensinamento é que, perante um cenário extremo, temos de ser perseverantes, muito modestos e não subestimar toda e qualquer circunstância naquele meio ambiente.
PP: Vivemos hoje perante um paradigma organizacional em constante mudança, em permanente crise e com fatores de imprevisibilidade grandes. O mundo está a mudar muito rapidamente e temos de acompanhar essa mudança. Por isso, nas organizações há uma tendência crescente para valorizar a versatilidade, o maior número de competências, a inteligência emocional… A participação nas corridas ajuda-te a ganhar este “mundo”?
A versatilidade, um elevado número de competências e a inteligência emocional são sem dúvida alguns dos meus pontos fortes, tanto no desporto, como na vida profissional, assim como na pessoal. Desde muito novo que reúno essas características. Trabalho há mais de 38 anos na área das telecomunicações, que está em constante mudança e que exige versatilidade. A título de exemplo, enquanto estudante, comercializava motas e por vezes carros. Fui sócio-gerente de uma empresa familiar de exploração marítima durante 11 anos e, ao mesmo tempo que tinha essa empresa, era um quadro coordenador numa organização de referência e líder no mercado nacional. Fui quadro de topo em multinacionais, etc. Teria sido bem mais seguro e confortável ter seguido a carreira por conta de outrem, tendo em conta o patamar que já havia alcançado, mas a minha inteligência emocional permitiu-me arriscar mais, culminando na criação de uma organização que hoje já conta com 26 anos de laboração contínua.
PP: Dessa síntese entre a vida profissional e as maratonas, percebo que levas também para casa as melhores lições. Que valores acabas por transmitir, enquanto maratonista, aos teus filhos?
A família é um dos principais bens que nós possuímos! Para melhor consubstanciar a educação/formação dos meus filhos, tento aproveitar as minhas experiências, espírito evidente de sacrifício, dedicação e priorização de objetivos, por forma a que lhes sirva de exemplo.
PP: És um homem de fé. Que ferramentas da tua espiritualidade transportas para a perseverança exigida a um ultramaratonista? E vice-versa? Como vais reconstruindo a tua fé a partir das especificidades das maratonas?
Sou efetivamente um homem de fé. O que mais aprecio neste desporto são as provas de longa distância conhecidas como ultramaratonas, pelo seu grau de dificuldade. Ora, quando estou perante um desafio de extrema exigência, normalmente a fé vem sempre ao de cima. Sou um felizardo porque Deus me permite que eu ali esteja, tenho família que me proporciona essa disponibilidade, tenho saúde e capacidade financeira que me permitem ter esse privilégio e tenho, lá está, um espírito de sacrifício infindável. Já me aconteceu de tudo! Lembro-me, por exemplo, ao Km 25 na maratona de NYC (2014), de ter tido uma lesão na perna esquerda que me obrigou a arrastar-me em esforço até à conclusão da prova. A pensar que tinha uma gripe, tendo em conta a febre na véspera, corri a maratona do Porto com uma diverticulite, que me obrigou a um internamento hospitalar de cerca de 9 dias e a uma recuperação a antibióticos de 3 meses.
Mas primeiro concluí a prova e recebi a minha merecida medalha. A primeira vez que fui a Fátima a pé, partindo de Lisboa, na sequência de uma má escolha de calçado e ainda em Alverca, tive uma bolha no pé de tal dimensão de que ainda hoje me lembro. Os meus dois parceiros de peregrinação (ambos médicos) acharam que eu iria desistir, pois ainda faltava andar cerca de 120Kms em apenas dois dias. Só a fé me transportou até ao final. Na maratona de Atenas, uma inflamação extrema na perna esquerda, para a qual um médico grego no Metropolitan Hospital na véspera da prova me deu 3 injeções, sugerindo que eu rezasse, não foi suficiente para me impedir de chegar com sucesso ao fim. A fé acompanha-me sempre em tudo o que faço.
PP: A maratona, na sua essência, é também uma forma de trabalhar a felicidade, certo?
Claro que é! Poucas coisas me dão maior felicidade do que a sensação de liberdade que a corrida me proporciona.
Créditos de imagem: Isabel Nolasco
Esta entrevista é parte do livro “As perguntas que somos”, uma compilação de 34 conversas, que a partir da pergunta, mostra os olhares de personalidades desassossegadas, inquietantes, com histórias de vida, trajetos profissionais e domínio de saberes diversificados e relevantes. O projeto inicial partiu no Entre | Vistas, plataforma digital de comunicação cultural fundada por Paula Perfeito, em novembro de 2014.
Uma seleção de oito conversas será publicada, todas as sextas-feiras, até ao dia 5 de maio.
Saiba mais sobre “As perguntas que somos” aqui.

