Aristóteles, Tomás de Aquino e Jean-Jacques Rousseau. Três grandes pensadores, uma longa história de preconceito.
Em O Poder das Mulheres, que a Temas e Debates publica a 3 de março, Giulia Sissa documenta as razões da não inclusão das mulheres na atividade democrática, traçando uma interessantíssima história cultural que culmina no mundo democrático de hoje, numa obra que se impõe também como uma intervenção crítica sobre a linguagem dos feminismos contemporâneos.
«O homem é capaz de determinar o que fazer. A mulher, cuja faculdade deliberativa é inválida, não sabe resolver-se. O homem tem uma inclinação para dirigir. A mulher acomoda-se à submissão. O homem é um animal político. A mulher, um animal doméstico.»
Do ponto de vista do liberalismo moderno, a democracia antiga é profundamente antidemocrática. A mulher da Antiguidade não era admitida ao direito de cidadania. Considerada impotente, irracional e imprevisível, não tinha lugar na arena política. A sua faculdade deliberativa, afirmava Aristóteles, era «inválida».
Mais tarde, o cristianismo e o pensamento árabe perpetuaram estas e outras noções – com teóricos medievais como Tomás de Aquino e Alberto Magno a amplificar a invalidez decisória das mulheres – e, em pleno Século das Luzes, Jean-Jacques Rousseau considerava «inútil» a instrução igualitária.
Seria apenas com vultos como Condorcet – que substituiu as leis da natureza pelos direitos humanos – que a igualdade e a emancipação dariam os primeiros passos.
Este livro reconstrói os aspetos discursivos deste relato. Detendo-se em momentos cruciais, Giulia Sissa traça com brilhantismo, eloquência e humor uma história cultural numa obra que se impõe também como uma intervenção crítica sobre a linguagem dos feminismos contemporâneos.