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Leonor Wicke

Abril

4 Maio, 2026 by Leonor Wicke

  • Andou por aí grande preocupação com a possível imposição de níveis mínimos de literacia para o acesso ao superior. Interessante. ‘Perigo de exclusão’, brada-se com preocupação. Eis a pergunta: como andam as chamadas aprendizagens até à universidade? Pelos vistos, dada a preocupação, mal.
  • «O wokismo e o anti-wokismo estão bem um para o outro mas são o retrato da pobreza intelectual, cultural, dos nossos dias» (Pacheco Pereira). Ditto.
  • Diz uma especialista que «quando se fala em masculinidade, é quase sempre pela negativa.» E que “pensa-se logo num lado violento.” Com efeito, quando a palavra ‘masculinidade’ serve tantas vezes para preceder o adjetivo “tóxico” não surpreende o aparecimento, como escrevia o Expresso, de uma geração de “rapazes zangados”… Talvez valesse a pena pensar sobre este assunto.
  • O facto de o primeiro-ministro não ter colocado o cinto de segurança numa deslocação tornou-se uma espécie de caso político. Os virgens que nunca pecaram vieram logo revelar a sua indignação. Um dia ainda será notícia o facto de um político de quem não gostamos ter fumado um cigarro às escondidas. Será mesmo este o tipo de escrutínio de que necessitamos?
  • A guerra na Ucrânia continua, apesar de Trump, que prometeu acabar com ela em três dias. Neste momento, o presidente dos EUA parece mais preocupado em ajudar o amigo russo.
  • Amigo russo esse que se deve estar a rir. Depois da limpeza na Venezuela, cito Gideon Rachman, «a vitória rápida e decisiva de que Trump e Netanyahu falaram não aconteceu». O homem que resolve problemas em três dias tem tido vários choques de realidade. Mas o amigo russo também.
  • Tenho-me lembrado muito de um grande livro de David Owen sobre a saúde – física, mental – dos líderes, Na Doença e no Poder. Será o comportamento errático de Trump evidência de que nem tudo vai bem?
  • As imagens de Trump como Jesus são a coisa mais kitsch que a humanidade terá produzido desde o menino da lágrima.
  • Sobre Putin, vale muito a pena ver Dentro da guerra da Rússia, uma reportagem que passou na SIC-N. Ajuda a perceber de que lado é preciso fazer uma desnazificação… Terrível.
  • O mundo nacional da bola, clubismos à parte, tornou-se ridículo. Os senhores dirigentes não são capazes de fazer melhor? Não parece difícil.
  • A UE é uma espécie de milagre imperfeito da política mundial. História concisa da União Europeia, de Kiran Klaus Patel, ajuda a explicar porquê. Por exemplo, durante a Idade Média, a simples ideia de “Europa” era desconhecida da maioria das pessoas.
  • Um livro a ler: Refém de Eli Sharabi, prisioneiro do Hamas. E no polo literário oposto, em boa hora regressa a extraordinária dupla Calvin & Hobbes com o clássico Há monstros debaixo da cama. Uma viagem de regresso à infância em cerca de 130 páginas.
  • Na música tenho andado deliciado com o novo dos Altin Gü Uma maravilha.
  • E há um novo filme de Sorrentino, La Grazia. Há quem não goste. Eu gosto, Muito.

Arquivado em:Opinião

Virgílio Castelo: «A vida nunca será fácil». E ainda bem.

4 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Ator e autor, nascido e criado na era do analógico, o seu percurso é feito de experiências diversas, nem sempre lineares e de uma relação contínua com a imaginação e o desconhecido. Há uma ‘inquietação positiva’ na forma como se revê na sua condição humana e com o mundo, logo à partida quando diz que «a vida nunca será fácil». Sobretudo no desafio que é «ninguém saber o que anda aqui a fazer», e acrescenta: «É como se a tecnologia insinuasse que é possível a vida ser fácil quando não é! Isso pode ser perigoso, porque quanto mais a pessoa se debruça e se alimenta do virtual, quando encontrar o real, menos preparação vai ter.» 

Nunca lhe passou pela cabeça ser ator, «há pessoas que nascem com a sorte de, aos quatro anos, saber que queriam ser atores». A sorte é um outro elemento que aponta como impossível de replicar através da tecnologia, é algo que ninguém consegue explicar, uma «coisa distribuída com misteriosa parcimónia».

 

Das limpezas em Paris até aos palcos

A infância decorreu num contexto distante do atual, cresceu num meio pobre, onde a rua ocupava um lugar central. «Tenho memória de não haver tempos mortos, o tempo era todo passado na rua, com qualquer coisa física», recorda. As brincadeiras, os jogos improvisados e incursões por terrenos desconhecidos faziam parte do quotidiano. Encontrar uma vocação, fazer o que mais se gosta nem sempre é fácil, e no caso de Virgílio Castelo apareceu com alguma dor. «Sempre gostei, desde criança, da ideia do desconhecido. Tudo o que eu não conhecia era uma coisa que me interessava e não tinha medo.»

Quando não estava a brincar ou a explorar, estava a ler. «Eu tinha uma vaga ideia de que a minha vida não poderia passar por coisas que não me deixassem em liberdade, não me deixassem com tempo para imaginar e sonhar. Eu passo a vida a imaginar, o meu processo diário é um processo de imaginação, às vezes até pouco realista.» 

No início do seu caminho profissional, os seis meses de «tortura» em que trabalhou como funcionário público no Ministério das Finanças, revelaram um lado «cinzento» que sabia não ter capacidade de aguentar. Sai de Portugal, o apelo do «lá fora» leva-o até Paris. Trabalha nas obras de limpeza finais da nova gare do aeroporto de Orly e depois no restaurante Le Petit Victor Hugo no seizième, onde festeja a sua maioridade. Regressa, trabalha em publicidade, desfiles de moda e sessões fotográficas. Até que em 1974 a atriz Helena Isabel convida-o para secretário de um grupo de Teatro recém-formado; três semanas depois perguntam-lhe se quer experimentar ser ator. Sorte.

A vida é sempre mais sábia do que nós, acaba por nos empurrar para aquilo para o qual temos mais capacidades.

Teve as suas primeiras férias ao fim de três anos de trabalho ininterrupto no Teatro: duas sessões diárias, três sessões aos domingos, para além de peças infantis. Essa experiência serve de contraponto ao presente. Sobre as gerações mais novas, observa o impacto das tecnologias no modo como se relacionam com a realidade. «A inteligência artificial tem contribuído para alimentar o lado mais leve e despreocupado da existência», afirma, acrescentando uma reserva: «Tenho a sensação de que este lado virtual está a afastar as pessoas dos reais problemas da vida.» A questão não está na quantidade da informação, mas na forma como é apreendida. «Estão a adquirir informação que existe, mas não é real.»  

 

A arte como salvação 

Sobre o papel da tecnologia na criação artística, reconhece a sua utilidade. «A tecnologia sempre ajudou a arte», refere. A IA surge, no seu entendimento, como uma ferramenta relevante. «É fantástica do ponto de vista da pesquisa, não pode é substituir a arte.» A arte como forma de permanência acompanha-o desde cedo. Refere uma frase de Camões, de Os Lusíadas, que marca o seu percurso: «E aqueles, que por obras valerosas / Se vão da lei da morte libertando.» A explicação recebida na adolescência, pelo professor de Português do antigo 5º ano, mantém-se atual. A ‘lei da morte’ é o esquecimento. Criar, nesse sentido, corresponde a produzir algo que possa ser partilhado e que permaneça para além da experiência individual. «Criar qualquer coisa que fique, que seja dada aos outros é uma maneira de se salvar; porque é inevitável, é inexorável que vai haver o esquecimento, o desaparecimento de tudo isso.» Refere ainda uma dimensão mais ampla da arte, ligada à contribuição: «Todos temos a obrigação de tentar melhorar um bocadinho o mundo no qual nos calhou viver.» 

 

Ter tempo para falhar  

Quanto às novas gerações, destaca a complexidade do contexto atual. «A exigência da sociedade  é muito maior do que era no meu tempo.» A possibilidade de falhar, que considera importante no seu percurso, parece hoje mais limitada. «No meu tempo dava-se tempo à vida para se falhar, atualmente os miúdos estão proibidos de falhar.» A pressão e a competitividade são fatores que identifica como condicionantes.  

Sobre o futuro, considera existir um momento em que cada percurso se define. «Há um momento da nossa vida em que as coisas acontecem.» A capacidade de reconhecer esse momento e de agir sobre ele assume importância central. Mesmo quando as escolhas não são as mais acertadas, refere ser possível o recomeço, algo que associa à sua própria experiência. «É preciso que os jovens tenham paciência no sentido de intuírem, que mais cedo ou mais tarde, aquilo que é a razão da sua existência vai aparecer. Tenho a certeza de que, para todos nós, há um momento da nossa vida em que é preciso tomar uma decisão. E mesmo assim, quando tomamos a decisão errada, há tempo, ou pelo menos no meu tempo havia tempo para se voltar a tentar outra coisa.»

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Nacional, Notícias

Do Zero ao Negócio: «Não esperem pelo momento perfeito para empreender»

4 Maio, 2026 by Leonor Wicke

À Líder fala sobre o salto para o empreendedorismo, os desafios de começar do zero, o papel da liderança consciente e como é possível construir um negócio com propósito num mercado competitivo.

Esta é a primeira entrevista da série de artigos Do Zero ao Negócio, que pretende explorar as histórias por trás de marcas e startups: das decisões iniciais aos momentos de ruptura, revelando tudo o que está na origem de um negócio.

Depois de mais de 30 anos numa carreira corporativa, o que a levou a dar o salto para o empreendedorismo e porque escolheu o café?

Na verdade, não foi uma decisão planeada, foi consequência de uma porta que se fechou. Após 31 anos na mesma empresa, no período pós-pandemia, houve uma reestruturação e o meu cargo foi extinto. Foi um momento de grande surpresa, sobretudo depois de 3 décadas de entrega e construção profissional na mesma organização.

Senti um impacto muito forte, como se o chão me tivesse sido retirado dos pés. Mas foi também nesse momento que percebi algo essencial: quando um ciclo termina, outro começa. E que era tempo de me reinventar, com rapidez, mas também com confiança.

Foi aí que tudo o que tinha vivido ganhou um novo sentido, desde os valores da infância, à minha experiência profissional, ao percurso como estrangeira em Portugal, ao facto de ser mãe e também à minha experiência como voluntária em missões de ajuda a pessoas em situações de grande vulnerabilidade, em diferentes países e contextos de extrema necessidade. Tudo isso se alinhou e ganhou forma.

O nome Nena surgiu de forma muito natural. É como a minha família e amigos mais próximos me chamam e significa ‘menina pequenina’ em castelhano. Quando o escolhi, senti que fazia todo o sentido: era como dar espaço à minha criança interior para finalmente crescer, abrir asas e viver com liberdade, com valores, missão e propósito.

A fé tem um papel muito importante na minha vida. Costumo lembrar um versículo que me acompanha em muitas decisões: «sem fé é impossível agradar a Deus». E gosto de acrescentar, com leveza mas com verdade: sem fé é impossível agradar a Deus… e sem café muito menos!

Foi exatamente isso que senti neste percurso: um chamamento. O café deixou de ser apenas algo de que sempre gostei e passou a ser propósito. Tornou-se uma descoberta profunda, uma ligação à terra, às origens e às pessoas.

Ao conhecer mais de perto a realidade dos produtores, percebi não só os desafios, mas também a enorme dignidade, resiliência e paixão que existem na origem. Foi esse universo que me fez mergulhar por completo no mundo do café e dar vida à Nena.

Que competências da sua experiência anterior foram mais decisivas na criação da Nena?

Destacaria quatro fundamentais: gestão, liderança, inteligência emocional e visão estratégica. Ao longo da minha carreira, tive a oportunidade de gerir equipas multinacionais, em diferentes contextos culturais e linguísticos, o que me obrigou não só a liderar, mas também a aprender, inclusive novos idiomas, para comunicar melhor e criar ligações reais.

Essa experiência ensinou-me algo muito importante: liderar não é apenas dirigir, é compreender, adaptar e conectar.

Mas talvez a competência mais determinante tenha sido, sem dúvida, a capacidade de adaptação. E essa não vem apenas do percurso profissional, vem também da minha experiência como estrangeira em Portugal, de recomeçar, de me integrar, de construir um caminho num contexto diferente.

Hoje, acredito profundamente que um dos maiores sinais de força num ser humano não é aquilo que sabe, mas a sua capacidade de se adaptar às mudanças, às culturas, às oportunidades e até aos momentos mais desafiantes da vida.

Foi essa capacidade que me permitiu transformar uma fase de incerteza na criação da minha empresa: Nena Selected Coffee.

 

Quais foram os maiores desafios deste processo? Que erros evitava hoje, se estivesse a começar novamente?

O maior desafio foi, sem dúvida, a incerteza. De repente, passei a ter de tomar decisões constantes, muitas vezes sem o apoio de uma equipa, o que tornou o processo exigente e, por vezes, solitário.

No inicio, foi um período difícil, e continua desafiante, mas também muito transformador. É nesses momentos que entram em ação os pilares mais importantes: os amigos, a família, a confiança em nós próprios. Até coisas simples, como voltar a livros que estavam na prateleira, ganham um novo significado. A fé, a resiliência e a capacidade de continuar tornam-se essenciais. Ao mesmo tempo, vive-se a construção da empresa de forma muito intensa, praticamente 24 horas por dia.

Se pudesse identificar um erro, diria que foi não pedir ajuda às pessoas certas no momento certo. Por vezes por receio, outras por insegurança, acabei por tentar resolver tudo sozinha. Hoje faria diferente: procuraria apoio mais cedo, de forma mais estratégica e consciente. Pedir ajuda não é um sinal de fraqueza é, muitas vezes, o que permite crescer de forma mais sólida e sustentável.

Como se constrói uma marca diferenciadora num mercado tão competitivo como o do café?

Constrói-se com verdade. Num mercado competitivo, o consumidor percebe rapidamente quando há autenticidade e qualidade.

No caso da Nena, a diferenciação vem da ligação real à origem, do respeito pelos produtores e da forma como contamos essas histórias. Cada café tem um rosto, uma família, uma história e fazemos questão de manter essa ligação viva.

Mais do que vender café, criamos uma experiência consciente. E essa consistência entre propósito, produto e comunicação é o que constrói uma marca sólida.

 

Hoje fala-se muito de negócios com impacto e responsabilidade. Acredita que é possível crescer sem comprometer esse propósito?

Acredito que é possível e necessário. Para mim, o propósito não é um complemento, é a base do negócio e da minha realização como ser humano.

Quando as decisões são tomadas com base em valores claros e propósito, o crescimento acontece de forma mais equilibrada. Pode não ser o caminho mais rápido nem o mais fácil, mas é certamente mais sustentável e consistente a longo prazo.

Em tudo o que fazemos podemos gerar impacto social, ambiental e até na herança que queremos deixar. E isso traz também uma grande responsabilidade perante o olhar dos outros, que muitas vezes não estão atentos às vitórias, mas sobretudo aos momentos de falha.

Por isso, ter a coragem de criar um negócio com impacto social é de elevadíssima responsabilidade. Esse compromisso não pode ser comprometido, porque quando ele falha, tudo o resto perde a sua base.

 

O consumidor português já está disposto a pagar mais por um produto com origem e impacto claros?

Vejo uma mudança clara, embora ainda em evolução. O consumidor está mais informado, mais curioso e mais atento à qualidade e à origem.

Existe uma crescente valorização de produtos com história e transparência, mas continua a ser essencial educar e comunicar bem. Quando o consumidor entende o valor e vive uma experiencia, não só do produto, mas de toda a cadeia, está mais disponível para fazer essa escolha.

 

Como descreve o seu estilo de liderança enquanto fundadora?

Cada dia descubro que liderar é um ato diário, e não apenas uma consequência do papel de fundadora.

Diria que é uma liderança próxima, consciente e muito orientada por valores. A minha própria experiência ensinou-me a importância de reconhecer as pessoas e de criar um ambiente onde cada um sente que contribui para algo maior, incluindo o consumidor final.

Liderar é, para mim, um ato de amor constante, mas também de firmeza. Só assim é possível criar impacto positivo e gerar verdadeira ligação e confiança.

Gosto de dar autonomia, mas com direção clara. E valorizo muito a transparência e o respeito, fundamentais para construir equipas fortes, coesas e comprometidas.

 

Que dicas deixa a todos os empreendedores que estão a começar ou ainda não deram o primeiro passo?

Diria, antes de tudo, que não esperem pelo momento perfeito, ele não existe. Muitas vezes, é precisamente nos momentos mais desafiantes que surgem as maiores oportunidades.

Depois, é importante confiar no próprio percurso. Tudo o que vivemos, pessoal e profissionalmente, pode ser transformado em valor.

E, por fim, ter um propósito claro. Porque empreender não é um caminho linear, e é esse propósito que nos mantém firmes quando surgem as dificuldades.

Arquivado em:Liderança, Nacional, Notícias

Não é falta de tempo. É falta de sistema

4 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Em Portugal, este é um fenómeno cada vez mais visível, mas ainda pouco quantificado. Mais de meio milhão de pessoas com mais de 65 anos vivem sozinhas, num país onde quase um quarto da população já está nesta faixa etária. A solidão prolongada tem impactos reais na saúde física e mental, afeta a autonomia e agrava outras condições, mas raramente ocupa o centro da discussão pública.

Existe outra dimensão menos visível, mas igualmente relevante: os cuidadores. Filhos, familiares e profissionais vivem sob pressão constante, ao tentar equilibrar o trabalho, a vida pessoal e a responsabilidade de cuidar. A falta de tempo, energia e apoio cria uma tensão difícil de gerir, acompanhada de um sentimento silencioso de culpa.

Ao longo do trabalho que tenho desenvolvido no terreno, reparo que os padrões repetem-se. Idosos que passam dias sem qualquer interação significativa, famílias a tentar equilibrar agendas e distâncias, profissionais sobrecarregados e instituições a operar no limite.

É neste contexto que a inteligência artificial começa a ganhar relevância. Não como um substituto da relação humana, mas como uma ferramenta de suporte e antecipação. A análise de dados permite identificar padrões e transformar sinais dispersos em informação acionável.

Frequência de contacto, alterações de comportamento, níveis de atividade ou ausência de rotinas podem ser indicadores precoces de isolamento. Ao utilizar estes dados, passamos de uma lógica reativa para uma abordagem preventiva, identificando situações antes de se tornarem críticas e intervindo atempadamente.

Este potencial é especialmente relevante para organizações sociais e políticas públicas. Mapear vulnerabilidades, antecipar necessidades e ajustar a alocação de recursos pode melhorar a eficácia das respostas, não necessariamente com mais meios, mas com melhor informação.

Mas esta evolução não é neutra. A utilização de dados levanta questões sobre privacidade, representatividade e risco de enviesamento. Modelos mal treinados, com informação incompleta ou desequilibrada, podem reforçar desigualdades em vez de as mitigar. A tecnologia reflete sempre as decisões de quem a constrói e implementa.

Por isso, a aplicação de inteligência artificial neste cenário exige critérios claros: transparência, supervisão humana e inclusão. A inovação tecnológica, por si só, não garante impacto social positivo.

A solidão não se resolve apenas com proximidade física. Requer continuidade, estrutura e capacidade de antecipação. A inteligência artificial pode contribuir para essa base, desde que usada com responsabilidade e alinhada com a realidade de quem mais precisa. Não substitui relações, mas pode ajudar a garantir que estas não falham por ausência de sistema.

Arquivado em:Opinião

83% das marcas em Portugal já apostam no áudio e investimento vai crescer, revela estudo

2 Maio, 2026 by Leonor Wicke

O estudo, que inquiriu mais de mil profissionais em oito países europeus, incluindo 174 em Portugal, aponta para um mercado em crescimento, com sinais claros de maturidade e confiança por parte das marcas.

Áudio reforça presença das marcas ao longo do tempo

Mais do que alcance, o áudio destaca-se pela sua capacidade de gerar frequência e consistência na comunicação. Em Portugal, 70% dos inquiridos afirmam que este meio é eficaz a manter as marcas top of mind, permitindo uma presença contínua junto das audiências.

Este posicionamento diferencia o mercado português de outros países europeus, onde o foco continua mais centrado na escala.

Áudio digital cresce com integração nos hábitos diários

O estudo evidencia também o papel crescente do áudio digital, cada vez mais integrado no quotidiano dos consumidores. Quase metade dos profissionais (48%) considera que este formato permite alcançar audiências contextualmente relevantes, combinando alcance com utilidade e proximidade.

Este fator reforça a importância do áudio digital nos planos de media, sobretudo num contexto em que os hábitos de consumo se tornam mais fragmentados e personalizados.

Podcasts impulsionam engagement, mas medição continua a ser desafio

O podcasting surge como um dos motores de crescimento do setor. De acordo com o Sound Check 2026:

  • 76% dos profissionais acreditam que os podcasts atingem audiências altamente envolvidas;
  • 48% prevê aumentar o investimento neste formato no próximo ano.

Apesar do potencial, a medição de resultados continua a ser uma barreira. Cerca de 72% dos anunciantes afirmam que investiriam mais em áudio se existissem métricas mais precisas, apontando a necessidade de evolução tecnológica nesta área.

Inteligência artificial traz oportunidades, com reservas

A integração da inteligência artificial no ecossistema áudio já é uma realidade, com mais de metade dos profissionais (52%) a afirmar utilizá-la para ganhos de eficiência operacional e criatividade.

Ainda assim, persistem preocupações: 36% apontam riscos associados à confiança e à segurança das marcas, evidenciando uma adoção cautelosa.

Um meio mais próximo, personalizado e integrado

O futuro do áudio em Portugal passa por uma maior integração com conteúdos e experiências.
Segundo o estudo, 49% dos inquiridos acreditam que o áudio digital estará profundamente integrado nos conteúdos e 38% antecipam uma maior personalização da experiência de consumo.

Para Rita Sobral, VP Revenue Growth da Bauer Media Audio Portugal, «o desafio já não é provar o valor do áudio, mas dar-lhe um papel mais central nas estratégias de comunicação.»

Arquivado em:Cultura e Lifestyle

Trabalhar em Lisboa rende mais: diferença salarial pode chegar a três ordenados por ano

1 Maio, 2026 by Leonor Wicke

O estudo, divulgado no âmbito do Dia do Trabalhador, revela um país marcado por fortes desigualdades regionais, tanto ao nível dos salários como das oportunidades de carreira, qualificação e intensidade laboral.

Lisboa concentra salários mais elevados e oportunidades de liderança

Lisboa destaca-se como a região com maior valorização salarial e maior concentração de talento qualificado. O salário médio líquido ultrapassa os 1.469 euros mensais, sendo a única região acima dos 1.400 euros. Ao mesmo tempo, concentra cerca de 42,3% de profissionais em funções qualificadas ou de liderança, mais do dobro de algumas regiões.

Em contraste, regiões como os Açores e a Madeira apresentam níveis muito inferiores de chefias, com apenas 1,6% e 2,0%, respetivamente, abaixo da média nacional. Estas diferenças refletem-se também na estrutura do emprego, com maior incidência de trabalhadores não qualificados em regiões como os Açores, Madeira e Alentejo.

Diferença salarial em Portugal pode chegar a três salários anuais

Quando se analisam as remunerações declaradas, o fosso acentua-se. Em Lisboa, os salários aproximam-se dos 1.800 euros mensais, enquanto em várias regiões do interior permanecem abaixo dos 1.300 euros.

A diferença mensal de 525 euros traduz-se, na prática, em quase três salários adicionais ao final do ano, evidenciando o impacto da localização geográfica no rendimento dos trabalhadores em Portugal.

Mais qualificação implica maior carga horária

A maior valorização salarial está também associada a uma maior intensidade laboral. Em Lisboa, 21,5% dos trabalhadores ultrapassam as 40 horas semanais, refletindo o peso de funções mais qualificadas e de maior responsabilidade.

Noutras regiões, como o Norte, predomina o horário padrão entre as 36 e as 40 horas, sobretudo devido ao peso do setor industrial. Nos Açores, Madeira e Alentejo, são mais frequentes horários mais curtos, muitas vezes associados ao setor público.

Economia regional em Portugal divide-se entre indústria, serviços e turismo

A análise evidencia uma forte especialização regional da economia portuguesa. O Norte (32,6%) e o Centro (29,9%) afirmam-se como o principal eixo industrial do país.

Já o Algarve (14,6%) e a Madeira (14,2%) dependem estruturalmente do turismo, enquanto Lisboa e a Península de Setúbal concentram atividades ligadas ao comércio e aos serviços. No Alentejo, a administração pública representa 12,7% do emprego regional.

Desemprego de longa duração varia entre regiões

As diferenças regionais estendem-se também ao desemprego. A taxa de desemprego de longa duração atinge 43,5% no Alentejo e 41,7% no Norte, acima da média nacional de 36,8%.

Setúbal regista a taxa de desemprego mais elevada do país, com 8%. Em sentido inverso, o Centro apresenta uma taxa de desemprego de 5%, enquanto o Algarve evidencia maior capacidade de absorção, ainda que influenciada pela sazonalidade.

Mercado de trabalho em Portugal continua marcado por assimetrias regionais

Apesar do crescimento do emprego, com 5,28 milhões de pessoas empregadas em 2025, mais 3,2% face ao ano anterior, o estudo conclui que o mercado de trabalho português continua condicionado pela geografia.

Para Isabel Roseiro, diretora de Marketing da Randstad Portugal, «o mercado de trabalho em Portugal continua condicionado pela geografia, não apenas em termos de salário, mas também no acesso a funções de decisão e progressão profissional», sublinhando a necessidade de uma abordagem integrada que promova maior coesão territorial.

Arquivado em:Nacional, Notícias

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