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Leonor Wicke

Fernanda Fragateiro: «Um artista está sempre a trabalhar. Só quando desaparece o desejo, pode parar.»

30 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Ser artista é uma profissão ou uma Condição Humana? 

A arte surgiu como uma continuação, e também uma transformação, da minha precoce atividade política, que marcou a minha vida, entre 11 e os 15 anos, logo após a revolução. A minha inquietação nunca me permitiu permanecer presa a formas rígidas de interpretar o mundo. Para mim, o mundo é algo em constante abertura e construção, um espaço de descoberta permanente. Foi esse desejo insaciável de compreender, aliado a um profundo compromisso com a justiça e a igualdade, que me conduziu inevitavelmente à prática artística. Ela é impossível de separar do resto da minha vida. Um artista está sempre a trabalhar. Só quando desaparece o desejo, pode parar. 

 

O que permanece humano numa era de aceleração tecnológica? 

O humano é impossível de destruir. Não se pode transformar o ser humano noutra coisa. Por isso existem tentativas cada vez mais rebuscadas e terríveis para o fazer. Existem pessoas que esquecem a sua humanidade e isso acontece quando são incapazes de sentir empatia ou sentido de comunidade. A tecnologia faz parte do desejo do ser humano em querer descobrir. O problema é o uso da tecnologia pelo capitalismo selvagem, cujo último objetivo é o lucro. Como dizia o escritor John Updike, «no vocabulário do lucro não existe a palavra compaixão», frase que já usei em várias das minhas obras e que emprestei para uma faixa usada em manifestações de luta pelo direito à habitação. 

A Inteligência Artificial tem lugar na criação artística? 

Não uso essa ferramenta no processo de criação artística. Ainda encontro muitas fontes de inspiração no espaço físico, no contexto social e político, nas pessoas. Recorro frequentemente aos livros de História e Crítica de Arte, não para repetir o que já foi dito ou feito, mas para trazer à superfície autoras tornadas invisíveis pela ausência de reconhecimento e desvalorização das suas ideias. Resgatar essas vozes silenciadas por uma sociedade patriarcal é, para mim, não apenas uma escolha, mas uma responsabilidade e um dever. Mas existem artistas que usam a IA de forma muito crítica por ser não só uma ferramenta de inovação, mas também de apropriação indevida de propriedade intelectual e de perigosa e assustadora manipulação social.  

 

O que é para si uma vida com propósito? 

Pensar, questionar e saborear o mundo. Cruzar saberes. Respeitar todos os seres. Preservar o planeta. Lutar pela igualdade e a justiça. Coisas tão simples e óbvias, muitas vezes perdidas. Se a arte existe para atuar sobre o humano, para que este procure o seu sentido, então arte é política.  

 

Perante um mundo que parece estar perdido, a arte salva? 

Na arte encontrei uma forma de pensar que questiona, que levanta dúvidas, que cruza diferentes saberes e que torna visível aquilo que muitas vezes permanece oculto, mas que faz parte da realidade. A arte ensina-nos a ver para além do óbvio. A obra de arte existe antes e depois do pensamento – e é precisamente esse antes e esse depois, impossíveis de explicar por completo, que mais me fascinam.

Não sei se a arte salva, mas certamente faz parte da vida e ajuda-nos a viver, sendo o trabalho do artista transformar sonhos em responsabilidade.

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Nacional, Notícias

Leadership Summit Portugal: 10 Anos a Construir o Futuro da Liderança

30 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Por ser uma edição comemorativa e de celebração, a Leadership Summit Portugal irá reunir no dia 24 de setembro, no Salão Preto e Prata, do Casino Estoril um conjunto de oradores nacionais e internacionais das mais diversas áreas. Prevê-se um dia inteiro de programa preenchido por talks e debates perante uma audiência de mais de 800 líderes de empresas e organizações, entre vários momentos de networking.

O futuro chegou e hoje é o tempo do “depois do amanhã”. A Inteligência Artificial está ligada aos humanos, e as organizações preparam-se para liderar num ecossistema de vidas híbridas, decisões preditivas e novos valores algorítmicos. Neste contexto de aceleração, fragmentação e reinvenção, como liderar depois do amanhã? After Tomorrow não é uma visão distante, é o tempo que começa agora. A liderança do futuro é sobre poder ou propósito? Que legado queremos deixar after tomorrow?

Destaque para as participações de Zarifa Ghafari, Ex-Autarca Afegã, Defensora dos Direitos Humanos, Nomeada para Prémio Nobel da Paz 2023 e 2024, David Simas, Diretor Executivo da Emerson Collective, Ex-Presidente da Fundação Obama, Alberto Levy, Global Keynote Speaker, Professor New York University, Diana Dayub, Co-Fundadora SupportUkraineNOW, Luís Portela, Presidente da Fundação BIAL, Vanessa Arelle, Founder of Welcome Chaos and originator of Actionism, Elisa Farri, Vice-President, Head of Capgemini Invent’s Management Lab, Armindo Monteiro, Presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal e Nuno Piteira Lopes, Presidente da Camara Municipal de Cascais, entre muitos outros que serão anunciados nos próximos meses.

Nelma Serpa Pinto, Jornalista da SIC, é a host do evento.

A Leadership Summit Portugal é uma iniciativa da Tema Central, do Lisbon Hub dos Global Shapers do Fórum Económico Mundial e da Câmara Municipal de Cascais, com a parceria institucional da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, UNRIC– Centro Regional de Informação das Nações Unidas para a Europa Ocidental, International Club of Portugal, APG – Associação Portuguesa de Gestão de Pessoas, World Trade Center Lisboa e Associação Empresarial do Minho.

O evento conta com o apoio da Bankinter, Capgemini, Fidelidade, Wellow Network, Tabaqueira, TAP Air Portugal, Asus, Claranet, Grupo FF, ISQe, NOVA SBE, Randstad, ISQ Academy, Peugeot, Magnesio Supremo, Ticket Serviços, Hospedeiras de Portugal, Casino Estoril, Clan, Casa do Preto, Delta Cafés, Holmes Place, HR After Work, iServices, Líder Events, Pulso Portugal, Jaba Recordati, White Way, 3cket e Turismo de Portugal.

 

Vendas de bilhetes Early Bird disponíveis até 31 de maio:

Bilhetes Leadership Summit | Portugal 2026 – Ticketline

Mais informações no site:

https://leadershipsummitportugal.com/

 

Arquivado em:Liderança, Nacional, Notícias

Neuroleadership: o equilíbrio entre a razão e a empatia

30 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Investigadores do Neuroleadership Institute têm vindo a decifrar um dos maiores dilemas da gestão: a forma como o cérebro perceciona o poder. À medida que um indivíduo ascende e sente maior autonomia no processo de decisão, o seu cérebro tende a tornar-se mais otimista, o que pode resultar na definição de objetivos e expectativas mais ambiciosos. Este fenómeno neurológico cria um distanciamento, um fosso entre a visão estratégica da liderança e a realidade emocional das equipas. É aqui que a Neurociência e a Inteligência Emocional surgem como o «manual de instruções» para criar culturas mais empáticas e sustentáveis. 

 

O cérebro ao serviço da cultura 

Para que uma organização seja verdadeiramente eficiente, a estratégia deve estar ligada com o propósito.

Liderar com base na neurociência significa compreender que o cérebro humano procura, acima de tudo, segurança e sentido de pertença.

Quando as lideranças se focam exclusivamente em resultados e negligenciam a empatia, ativam sistemas de alerta que bloqueiam a colaboração e a inovação. 

Atualmente, a estabilidade profissional já não reside no conceito de «emprego para a vida».  

O talento de hoje move-se por: 

  • Propósito claro: sentir que o seu contributo tem um impacto positivo real e compreende a missão da organização. 
  • Equilíbrio genuíno: a percepção de que a empresa valoriza o bem-estar e a conciliação entre a vida profissional e pessoal. 
  • Liderança inspiradora: o acesso a líderes que desafiam com objetivos claros, mas que oferecem feedback permanente e promovem a inclusão. 

 

A decisão consciente como pilar de gestão 

Como equilibrar incentivos financeiros com o bem-estar mental? A neurociência demonstra que o investimento no colaborador, através de programas de up-skilling, benefícios flexíveis e suporte psicológico, é um fator determinante para a sustentabilidade do negócio. 

A eficácia de um líder depende da sua agilidade neurocognitiva. Num mercado global que não permite pausas, a capacidade de decidir com precisão nasce de uma cultura onde a empatia não é um conceito abstrato, mas uma ferramenta de gestão. Ao alinhar a visão analítica com a consciência emocional, as organizações garantem que o crescimento é impulsionado por pessoas motivadas, valorizadas e, acima de tudo, preparadas para os desafios do futuro. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Opinião

Talenter mobiliza vários candidatos com Open Days

30 Abril, 2026 by Leonor Wicke

A Talenter, empresa de Recursos Humanos, concluiu três das quatro sessões do seu ciclo de Open Days, uma iniciativa que tem vindo a aproximar candidatos de oportunidades reais de emprego em diferentes regiões do país.

A iniciativa encerra no próximo dia 13 de maio, em Aveiro, com foco no setor da Indústria, mantendo-se ativo mais de 300 vagas de emprego distribuídas por quatro áreas estratégicas: Indústria (+150), Hotelaria, Serviços e Logística.

«Num contexto de elevada procura por profissionais, aproximar candidatos de oportunidades reais é essencial para acelerar a empregabilidade e responder às exigências atuais do tecido económico», refere Nuno Cochicho, Chief Operations Officer da Talenter. As sessões já realizadas no Porto (Logística), Carnaxide (Serviços) e Algés (Hotelaria) registaram uma excelente adesão, reforçando a importância deste formato presencial na dinamização do mercado de trabalho e na resposta às necessidades imediatas das empresas.

Este volume de oportunidades reflete a procura crescente por perfis operacionais e técnicos em setores críticos da economia nacional.

Ao longo dos Open Days, os candidatos tiveram a possibilidade de conhecer de perto a Talenter e a Wellow Network, explorar oportunidades de carreira e realizar entrevistas no próprio dia, promovendo uma ligação direta e imediata entre talento e empregadores.

As funções em recrutamento abrangem uma vasta tipologia de perfis, incluindo cozinheiros, operadores de armazém, técnicos de manutenção, comerciais, operadores de contact center, eletricistas, entre outros.

Entre os principais indicadores da Talenter destacam-se:

  • +6.000 colaboradores cedidos
  • +600 clientes
  • 67,9 milhões de euros de volume de negócios

Há mais de 26 anos, a Talenter afirma-se como um elo ativo entre talento e oportunidades, contribuindo de forma consistente para o desenvolvimento económico e social do país.

 

Este artigo integra o espaço branded content da Líder e foi produzido em parceria com a Talenter.

Arquivado em:Líder Corner

Seniores em Portugal sustentam famílias, mas priorizam lazer, revela estudo

29 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Num país onde 31% da população já tem mais de 60 anos, esta geração revela-se simultaneamente resiliente, digital e determinante para a estabilidade intergeracional.

Uma geração que sustenta e preocupa-se com o futuro

O estudo mostra que os seniores portugueses não são apenas consumidores, mas também um suporte essencial das famílias. O apoio financeiro aos mais jovens é visto como fundamental por 92% dos inquiridos, refletindo uma preocupação transversal com o futuro das novas gerações.

Mais do que uma tendência conjuntural, este comportamento revela uma mudança estrutural: num cenário de incerteza económica, os seniores assumem um papel ativo na coesão social e na redistribuição de rendimento.

Do apoio familiar ao consumo digital

Ao mesmo tempo, esta geração está a acompanhar a transformação digital. Cerca de 21% dos seniores em Portugal têm hábitos digitais regulares, acima da média europeia, e essa mudança já se reflete nos padrões de consumo.

No comércio eletrónico, o turismo destaca-se: 43% dos seniores que compram online adquirem viagens, num sinal claro de que o lazer ganhou centralidade nesta fase da vida. Seguem-se produtos culturais, eletrónica e vestuário, enquanto o consumo de conteúdos digitais também cresce, com forte adesão a plataformas de streaming.

O dado mais revelador é talvez este: 76% dos seniores portugueses colocam o lazer como prioridade, acima da média europeia, um indicador de que esta geração procura qualidade de vida, não apenas segurança.

Entre o prazer e a racionalidade

Apesar desta abertura ao consumo, o comportamento mantém-se equilibrado. A maioria admite querer ‘mimar-se’ ocasionalmente, mas o preço continua a ser decisivo. 83% consideram o preço um fator determinante e mais de metade é particularmente sensível a promoções, evidenciando uma lógica de consumo consciente.

Há também sinais de maior atenção à sustentabilidade, com uma parte relevante dos seniores a optar por reparar produtos ou adquirir artigos recondicionados.

Envelhecer com autonomia e com melhores respostas públicas

Se há uma preferência clara, é a de manter a independência: 83% querem envelhecer na sua própria casa. Esta ambição levanta, no entanto, desafios estruturais, desde a adaptação das habitações ao acesso a cuidados de saúde.

Neste campo, quase metade dos seniores aponta o reforço do sistema de saúde como prioridade, num contexto de pressão crescente sobre os serviços e de aumento da despesa global em saúde, que já ultrapassa os 35 mil milhões de euros em Portugal.

O envelhecimento é, aliás, percebido como um dos grandes temas nacionais: 62% dos portugueses consideram-no uma questão muito importante, a taxa mais elevada da Europa.

Um novo papel na sociedade com novos desafios

O retrato traçado pelo Barómetro Cetelem é claro: os ‘novos seniores’ são mais ativos, mais digitais e mais relevantes do que nunca. Sustentam famílias, consomem, viajam e procuram bem-estar.

Mas este protagonismo traz também exigências. Garantir o seu poder de compra, reforçar os sistemas de saúde e adaptar o mundo do trabalho e da habitação serão fatores decisivos para responder ao chamado ‘choque demográfico’.

Num país que envelhece rapidamente, esta geração deixou de ser apenas um grupo a proteger e passou a ser um dos principais motores de estabilidade económica e social.

Arquivado em:Nacional, Notícias

Uma em cada 11 mulheres terá cancro da mama: Ana Varges Gomes alerta para desigualdades no diagnóstico na Europa

29 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Em entrevista à Líder, a médica oncologista na ULS do Algarve e responsável pela comunicação do projeto European Network of Comprehensive Cancer Centres reflete sobre o panorama europeu e português, bem como o impacto que a doença tem em todos os aspetos da vida da mulher, incluindo o trabalho.

Ana Varges Gomes a debater o projeto no Parlamento Europeu.

O cancro da mama continua a ser o mais incidente na Europa. Porque é que, apesar dos avanços médicos, persistem desigualdades tão marcadas no acesso ao rastreio e tratamento entre países europeus?

Apesar dos enormes avanços científicos, a inovação não chega da mesma forma a todas as mulheres europeias. Continuamos a ter diferenças muito relevantes na capacidade de rastreio organizado, na rapidez do diagnóstico, no acesso a centros especializados, à imagiologia, à cirurgia diferenciada, à radioterapia e aos tratamentos mais inovadores.

O problema é que a Europa tem excelência, mas essa excelência ainda está distribuída de forma desigual. O local onde a mulher vive continua, demasiadas vezes, a influenciar a probabilidade de diagnóstico precoce, o tempo até iniciar tratamento e até os resultados em saúde. Por isso, hoje, o desafio já não é apenas descobrir melhores tratamentos. É garantir que aquilo que já sabemos fazer bem chega de forma equitativa a toda a população.

 

Quando olhamos para a União Europeia como um todo, onde é que estão hoje as maiores falhas nos sistemas de saúde no combate ao cancro da mama?

As maiores falhas estão sobretudo na fragmentação. Muitas vezes os sistemas ainda funcionam em silos: rastreio, diagnóstico, cirurgia, oncologia médica, radioterapia, reabilitação, apoio psicológico e seguimento nem sempre estão verdadeiramente integrados.

Outra falha importante é a desigualdade na qualidade dos percursos assistenciais. Não basta existir acesso formal ao sistema; é preciso que o percurso seja atempado, coordenado e baseado em standards de qualidade.

E há ainda um terceiro ponto essencial: medimos pouco de forma comparável. Se não tivermos indicadores robustos, transparentes e partilhados, torna-se muito difícil identificar onde estamos a falhar e corrigir essas falhas de forma sustentada.

 

A European Network of Comprehensive Cancer Centres tem vindo a promover uma abordagem mais integrada. Que impacto concreto pode esta rede ter na redução das disparidades?

A grande mais-valia desta rede é precisamente transformar excelência isolada em capacidade europeia partilhada. O impacto concreto está em criar referenciais comuns de qualidade, promover modelos organizativos mais integrados e facilitar a aprendizagem entre centros e países.

Não se trata apenas de ligar instituições; trata-se de transferir conhecimento, boas práticas e metodologia. Um centro que desenvolveu um percurso mais eficiente, um modelo inovador de navegação do doente ou uma estratégia mais robusta de avaliação de qualidade pode inspirar outros contextos e acelerar melhorias noutros países.

Além disso, a rede ajuda a colocar o tema da equidade no centro da agenda: não basta haver centros muito bons, é necessário que eles funcionem como motores de melhoria para todo o ecossistema oncológico europeu.

 

Em que ponto está Portugal neste contexto europeu?

Portugal tem profissionais muito qualificados, centros com elevada diferenciação e capacidade clínica e científica reconhecida. Temos competência, experiência e uma cultura assistencial muito forte.
Mas, como noutros países, também temos desafios: variabilidade regional, necessidade de maior integração entre níveis de cuidados, necessidade de reforçar estruturas de dados, indicadores, investigação clínica e modelos de governação oncológica mais articulados.

Eu diria que Portugal tem condições para afirmar um papel relevante neste contexto europeu, mas para isso precisa de consolidar estratégia, organização e visão a médio prazo. Temos talento e compromisso; o passo seguinte é transformar isso de forma mais sistemática em rede, qualidade mensurável e capacidade de influência.

 

Estamos a falar de um problema de financiamento, organização dos sistemas de saúde ou de prioridade política?

Estamos a falar das três coisas, mas sobretudo de alinhamento entre elas. O financiamento é importante, naturalmente, mas o investimento sem boa organização nem sempre se traduz em melhores resultados.
Há sistemas com recursos limitados que conseguem fazer muito bem algumas coisas porque têm percursos claros, decisões baseadas em dados e liderança forte. E há sistemas com mais recursos que perdem eficiência por falta de coordenação.

No fundo, o cancro da mama deve ser encarado como uma prioridade política real, porque isso determina financiamento, organização e responsabilização. Quando a prioridade política é clara, os sistemas reorganizam-se mais depressa e com mais coerência.

 

Para além do impacto na saúde e vida pessoal, que efeitos tem o cancro da mama na vida profissional das mulheres?

Tem um impacto muito profundo. Muitas mulheres enfrentam não só o peso físico e emocional da doença, mas também a incerteza laboral, a perda de rendimento, a dificuldade em manter o mesmo ritmo profissional e, em alguns casos, o receio de estigmatização.

O cancro da mama pode interromper trajetórias profissionais, atrasar progressões, fragilizar a autonomia económica e criar uma carga invisível muito relevante, sobretudo em mulheres em idade ativa e com responsabilidades familiares.

Por isso, falar de cancro da mama é também falar de dignidade, inclusão e proteção social. O regresso ao trabalho não deve ser visto apenas como uma questão administrativa; deve ser entendido como parte do processo de recuperação e reintegração da pessoa na sua vida.

 

As empresas e organizações estão preparadas para lidar com esta realidade? Que mudanças ainda são necessárias no mundo do trabalho?

Ainda não de forma suficiente. Há mais sensibilidade do que no passado, mas muitas organizações continuam sem respostas estruturadas.

É necessário promover maior flexibilidade laboral, adaptação de horários, possibilidade de teletrabalho quando adequado, regressos progressivos e uma cultura organizacional menos penalizadora da doença. Também é essencial formar lideranças intermédias e departamentos de recursos humanos para saberem acompanhar estas situações com humanidade e sem paternalismo.

O mundo do trabalho precisa de evoluir para modelos mais inclusivos, que reconheçam que uma pessoa pode atravessar uma doença oncológica e continuar a ter valor, competência e capacidade de contribuir. Esse é um sinal de maturidade social.

 

Ainda há um défice de liderança feminina nas áreas científicas e de decisão em saúde. Sente que isso está a mudar?

Sim, está a mudar, mas ainda não à velocidade desejável. Hoje vemos mais mulheres em posições de visibilidade, liderança científica e decisão, mas ainda persistem barreiras estruturais e culturais.
Muitas mulheres continuam a ter de provar mais, conciliar mais e superar expectativas contraditórias. E isso acontece mesmo em áreas como a saúde, onde a presença feminina é muito significativa.

A mudança verdadeira não passa apenas por haver mais mulheres em cargos de topo; passa por normalizar essa presença, criar oportunidades reais de progressão, reconhecer mérito com equidade e garantir que a liderança pode ser exercida de formas diversas, sem obedecer a um único modelo tradicional.

Que características são hoje essenciais para liderar na área da saúde?

Hoje liderar na saúde exige visão, capacidade de execução e, acima de tudo, sentido de missão. É preciso compreender a complexidade dos sistemas, tomar decisões com base em evidência, saber trabalhar em rede e conseguir mobilizar equipas em torno de objetivos comuns.

Mas há outras características que considero fundamentais: escuta, resiliência, capacidade de comunicação e coragem para mudar. A saúde vive uma enorme pressão assistencial, tecnológica e humana, e por isso a liderança não pode ser apenas técnica ou administrativa. Tem de ser profundamente humana.
Para mim, um verdadeiro líder na saúde é alguém que consegue manter o foco na qualidade, na equidade e nas pessoas – tanto nos doentes como nos profissionais.

Arquivado em:Entrevistas, Nacional, Notícias, Saúde

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