Ser artista é uma profissão ou uma Condição Humana?
A arte surgiu como uma continuação, e também uma transformação, da minha precoce atividade política, que marcou a minha vida, entre 11 e os 15 anos, logo após a revolução. A minha inquietação nunca me permitiu permanecer presa a formas rígidas de interpretar o mundo. Para mim, o mundo é algo em constante abertura e construção, um espaço de descoberta permanente. Foi esse desejo insaciável de compreender, aliado a um profundo compromisso com a justiça e a igualdade, que me conduziu inevitavelmente à prática artística. Ela é impossível de separar do resto da minha vida. Um artista está sempre a trabalhar. Só quando desaparece o desejo, pode parar.
O que permanece humano numa era de aceleração tecnológica?
O humano é impossível de destruir. Não se pode transformar o ser humano noutra coisa. Por isso existem tentativas cada vez mais rebuscadas e terríveis para o fazer. Existem pessoas que esquecem a sua humanidade e isso acontece quando são incapazes de sentir empatia ou sentido de comunidade. A tecnologia faz parte do desejo do ser humano em querer descobrir. O problema é o uso da tecnologia pelo capitalismo selvagem, cujo último objetivo é o lucro. Como dizia o escritor John Updike, «no vocabulário do lucro não existe a palavra compaixão», frase que já usei em várias das minhas obras e que emprestei para uma faixa usada em manifestações de luta pelo direito à habitação.

A Inteligência Artificial tem lugar na criação artística?
Não uso essa ferramenta no processo de criação artística. Ainda encontro muitas fontes de inspiração no espaço físico, no contexto social e político, nas pessoas. Recorro frequentemente aos livros de História e Crítica de Arte, não para repetir o que já foi dito ou feito, mas para trazer à superfície autoras tornadas invisíveis pela ausência de reconhecimento e desvalorização das suas ideias. Resgatar essas vozes silenciadas por uma sociedade patriarcal é, para mim, não apenas uma escolha, mas uma responsabilidade e um dever. Mas existem artistas que usam a IA de forma muito crítica por ser não só uma ferramenta de inovação, mas também de apropriação indevida de propriedade intelectual e de perigosa e assustadora manipulação social.
O que é para si uma vida com propósito?
Pensar, questionar e saborear o mundo. Cruzar saberes. Respeitar todos os seres. Preservar o planeta. Lutar pela igualdade e a justiça. Coisas tão simples e óbvias, muitas vezes perdidas. Se a arte existe para atuar sobre o humano, para que este procure o seu sentido, então arte é política.
Perante um mundo que parece estar perdido, a arte salva?
Na arte encontrei uma forma de pensar que questiona, que levanta dúvidas, que cruza diferentes saberes e que torna visível aquilo que muitas vezes permanece oculto, mas que faz parte da realidade. A arte ensina-nos a ver para além do óbvio. A obra de arte existe antes e depois do pensamento – e é precisamente esse antes e esse depois, impossíveis de explicar por completo, que mais me fascinam.
Não sei se a arte salva, mas certamente faz parte da vida e ajuda-nos a viver, sendo o trabalho do artista transformar sonhos em responsabilidade.
Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.
