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Leonor Wicke

Volatilidade geopolítica integra pela primeira vez os principais riscos para as empresas portuguesas

20 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

O risco de volatilidade geopolítica integra, pela primeira vez em quase duas décadas, o top 10 dos principais riscos para as empresas portuguesas.

De acordo com as conclusões do Global Risk Management Survey realizado pela Aon, empresa de serviços nas áreas de risco, reforma, saúde e pessoas, esta preocupação alcançou a sexta posição no ranking. Os resultados revelam que a volatilidade geopolítica teve um aumento significativo, o que reflete a crescente instabilidade entre as regiões, com implicações para as cadeias de abastecimento e de distribuição, os ambientes regulatórios e o desempenho financeiro em todo o mundo.

Além disso, também o ‘risco de abrandamento económico / recuperação lenta’ integra o top 10 pela primeira vez. Num contexto global marcado pela incerteza, os riscos relacionados com esta dimensão afetam diretamente a capacidade das empresas de crescer, investir e inovar, refletindo mudanças profundas na dinâmica dos mercados.

Também as questões relacionadas com o capital humano, um dos ativos mais vulneráveis para as organizações, continuam a ter um grande destaque na análise dos gestores portugueses. A dificuldade na captação ou retenção de talento (5ª posição) e a carência de mão-de-obra (9ª posição) integram o top 10 dos riscos para 2025 para as empresas portuguesas.

Risco cibernético emerge, mas sem IA

O risco cibernético continua a ser a principal preocupação das empresas, não apenas das portuguesas, mas também a nível global, mantendo-se na primeira posição do ranking. À medida que o mundo se torna mais conectado e a crescente digitalização expõe as empresas a riscos tecnológicos, acentuam-se os ataques cibernéticos e os episódios de violação de dados em todo o mundo, exigindo uma abordagem integrada na gestão eficaz dos riscos.

Ainda assim, a IA não integra a hierarquia das preocupações atuais, e Carlos Freire, CEO da Aon, explica porquê. «A Inteligência Artificial apenas foi considerada como um risco emergente para os próximos anos, mas não identificada como um dos 10 principais riscos atuais. Do meu ponto de vista, isto deve-se ao facto de a maioria das organizações ainda olharem para a IA como risco futuro e não imediato».

«A escala e a complexidade dos riscos estão mais disseminadas e, com o uso da inteligência artificial a tornar-se mais amplo, é necessário que os gestores desbloqueiem e invistam em oportunidades de crescimento», acrescenta.

Principais riscos globais e o impacto da volatilidade geopolítica

Da análise realizada a nível global, o estudo revela que os riscos de ‘ataques informáticos / fuga de dados’, ‘interrupção de negócio’ e ‘abrandamento económico / recuperação lenta’ continuam a ser os principais riscos, ocupando as três primeiras posições quando comparados com os dados do estudo de 2023.

Os ataques cibernéticos são o principal risco, e a volatilidade geopolítica ganha grande destaque com a sua integração, pela primeira vez, em todas as regiões analisadas no estudo – a nível global, Europa e Portugal. Os riscos devem ser geridos de forma interligada e estratégica, com foco na resiliência operacional, que visa reforçar a capacidade de adaptação em contextos económicos desfavoráveis e num mercado global profundamente conectado.

Sobre a possível correlação entre volatilidade geopolítica e abrandamento económico, Carlos Freire garante que existe, «mas não é uma correlação direta». «É mais uma interdependência que amplifica riscos. Neste caso, as tarifas impostas pelos EUA terão também de alguma forma influenciado a opinião de quem respondeu», explica.

Como exemplos, avança o «impacto nas cadeias de abastecimento, com os conflitos geopolíticos e sanções comerciais a aumentarem custos e a reduzirem a disponibilidade de matérias-primas, o que contribui para a desaceleração económica».

Evidencia ainda a «incerteza nos mercados, com a instabilidade política a gerar volatilidade cambial e retração de investimento, fatores que agravam o abrandamento económico».

Portugal vs. Mundo: prioridades de risco distintas

Ainda assim, Portugal diverge de alguns aspetos do ranking global. Carlos Freire afirma que o estudo «evidencia diferenças claras entre as prioridades globais e regionais, quer no ranking dos riscos, quer na natureza dos mesmos.»

No ranking global surgem riscos como o aumento da concorrência ou o risco de liquidez, «que não figuram entre as principais preocupações das empresas portuguesas». Em Portugal, há outras questões que ganham maior relevância, como «os desafios ligados ao talento, nomeadamente a dificuldade em atrair e reter profissionais qualificados ou a escassez de mão-de-obra», que não aparecem entre os dez principais riscos globais.

«Além disso, o abrandamento económico é considerado mais crítico a nível mundial do que em Portugal, enquanto as alterações legislativas e regulatórias assumem maior peso no contexto nacional, refletindo a complexidade do enquadramento legal e a perceção de incerteza regulatória», acrescenta.

Estas diferenças devem-se a fatores estruturais. A demografia e a dificuldade em atrair talento qualificado tornam a gestão de recursos humanos um desafio particularmente relevante para as empresas nacionais. «Acresce que a complexidade das normas europeias e nacionais é frequentemente vista como densa e pouco previsível, reforçando o peso das preocupações regulatórias em Portugal», conclui.

IA entra no top 5 dos riscos futuros para as empresas portuguesas

Por fim, o estudo faz uma previsão do que será o cenário de risco daqui a três anos e, pela primeira vez, a Inteligência Artificial (IA) surge entre os cinco riscos futuros mais críticos para as empresas nacionais. Apesar das oportunidades que a IA traz para as organizações, os gestores portugueses estão conscientes de que irá transformar o panorama em todos os setores, introduzindo novos desafios éticos, jurídicos e operacionais, e alterando a gravidade e a velocidade de mudança de riscos existentes.

A previsão para daqui a três anos indica que o “risco de ataques informáticos / fuga de dados” se manterá no topo do ranking, com os “riscos de volatilidade geopolítica”, “inteligência artificial”, “alterações legislativas e regulatórias”, “abrandamento económico / recuperação lenta” e “risco do preço das matérias-primas / escassez de materiais” a integrarem o top 5.

Como prioridades para as empresas, Carlos Freire destaca que as organizações enfrentarão sobretudo desafios relacionados com cibersegurança, volatilidade geopolítica e Inteligência Artificial. «Isto significa que, para além de reforçarem a proteção contra ataques informáticos e fugas de dados, as empresas devem preparar-se para um ambiente internacional mais instável e para os impactos crescentes da IA, desde as questões éticas e regulatórias até à transformação dos modelos de negócio», garante.

A definição de políticas claras de utilização da IA, o reforço das capacidades de resposta a incidentes e o desenvolvimento de estratégias de resiliência geopolítica serão determinantes.

Adicionalmente, os líderes que enfrentam este novo contexto precisam de combinar visão estratégica com capacidade de antecipação e agilidade. «Devem saber atuar rapidamente perante riscos emergentes, investir de forma consistente em cibersegurança, promover a formação contínua das equipas, diversificar mercados e fornecedores para reduzir vulnerabilidades geopolíticas e implementar uma governação robusta da IA, assente em princípios de ética, transparência e literacia digital. Estas capacidades são essenciais para construir organizações mais resilientes e preparadas para um futuro marcado pela incerteza», avança o CEO.

Realizado de dois em dois anos desde 2007, o Global Risk Management Survey da Aon fornece dados e insights que permitem uma melhor tomada de decisão num ambiente de negócios cada vez mais volátil e complexo. A edição deste ano reuniu cerca de 3.000 inquiridos em 63 países e 16 setores de atividade para identificar os principais riscos e desafios que os gestores enfrentam nas suas organizações.

Arquivado em:Economia, Gestão de Pessoas, Notícias

Hoje é o Dia Mundial da Filosofia – pensemos seriamente neste assunto

20 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Dizermo-nos Zaratustras sem sabermos quem foi Nietzsche, ou declararmos que existimos sem que isso decorra do facto de pensarmos, porque já não duvidamos nem metódica nem radicalmente, não quer dizer absolutamente nada sobre nós, mas sobre uma entidade que se deixou silenciosamente alienar. Hoje, dia 20, terceira quinta-feira do mês de novembro, é o dia da Filosofia.

Em 2002 a UNESCO instituiu o Dia Mundial da Filosofia, como resultado da necessidade da humanidade refletir sobre os acontecimentos atuais, fomentando-se o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção da tolerância e da paz.

Se em 2002 as necessidades acima referidas foram consideradas importantes para ser assinada a Declaração de Paris ( ver em baixo), em 2025, com a polarização das sociedades, com a inteligência artificial a ganhar terreno, os conflitos bélicos a acontecerem pelo mundo, as alterações climáticas a mostrarem que não devemos brincar com a natureza, e, acima de tudo, com o flagelo da alienação em que vivemos dia após dia, reféns de entretenimento, de redes sociais, de algoritmos, do stresse de fazer tudo a todo o tempo e em todos os lugares, talvez seja este o momento de parar para pensar.

Nunca pensei que esta frase tivesse tanto sentido prático como nos dias de hoje, mas confesso que hoje não vejo muitas outras saídas: a Filosofia pode salvar-nos. Se na Europa nos começamos a apetrechar para uma eventual guerra contra a Rússia, ou se nos laboratórios procuramos investigar para vivermos mais anos e sermos cada vez mais jovens, se treinamos a inteligência artificial para ela vir a ser mais inteligente do que nós, talvez seja o momento de começarmos a investir em nós humanos e naquilo que nos ajudou a ficar no topo da cadeia alimentar, Pensar.

Investir no pensamento, treiná-lo e colocá-lo ao serviço do ser humano pode valer a pena. Porque estarmos no topo da cadeia alimentar e perdermos a capacidade que nos conduziu a essa posição seria paradoxal, ou até hilariante, de repente já não é um bisonte ou um animal de grande porte que nos atropela, mas o nosso cérebro que se reforma antecipadamente, deixando-nos a sós com o nosso corpo. Imaginem o que seremos eternamente jovens, mas sem uma pinga de sentido critico, sem uma pitada de humor, sem compreendermos o que se está a passar à nossa volta, obedecendo sem consciência de o estarmos a fazer, sermos comandados sem encontrarmos o comandante.

Dizermo-nos Zaratustra sem sabermos quem foi Nietzsche, ou declararmos que existimos sem que isso decorra do facto de pensarmos, porque já não duvidamos nem metódica nem radicalmente, não quer dizer absolutamente nada sobre nós, mas sobre uma entidade que se deixou silenciosamente alienar.

Contra o vício de consumir já pensado, pense pela sua cabeça. Antes de falar, pense, antes de opinar, verifique, antes de fazer scrolling, desligue.

 

Declaração de Paris para a Filosofia

Nós, participantes das jornadas internacionais de estudo “Filosofia e democracia no mundo”,  organizadas  pela  UNESCO,  que  ocorreram  em  Paris, nos dias 15 e 16 de fevereiro de 1995,

Constatamos que os problemas de que trata a filosofia são os da vida e da existência dos homens considerados universalmente,

Estimamos que a reflexão filosófica pode e deve contribuir para a compreensão e  conduta dos afazeres humanos.

Consideramos que a atividade filosófica, que não subtrai nenhuma ideia à livre discussão, que se esforça em precisar as definições exatas das noções utilizadas, em verificar a validade dos raciocínios, em examinar com atenção os argumentos dos outros, permite a cada um aprender a pensar por si mesmo.

Sublinhamos que o ensino de filosofia  favorece a abertura do espírito, a responsabilidade  cívica, a compreensão e a tolerância entre os indivíduos e entre os grupos.

Reafirmamos que a educação filosófica, formando espíritos livres e reflexivos – capazes de resistir às diversas formas de propaganda, de fanatismo, de exclusão e de intolerância – contribui para a paz  e prepara cada um a assumir suas responsabilidades face às grandes interrogações contemporâneas, notadamente no domínio da ética.

Julgamos que o desenvolvimento da reflexão filosófica, no ensino e na vida cultural, contribui de maneira importante para a formação de cidadãos, no exercício de sua capacidade de julgamento, elemento fundamental de toda democracia.

É por isso que,  engajando-nos em fazer  tudo o que esteja em nosso poder – nas  nossas instituições e em nossos respetivos países – para realizar tais objetivos,  declaramos que:

Uma atividade filosófica livre deve ser garantida por toda parte – sob todas as formas e em todos os lugares onde ela possa se exercer – a todos os indivíduos;

O ensino de filosofia deve ser preservado ou estendido onde já existe, criado onde ainda não exista, e  denominado explicitamente ‘filosofia’;

O ensino de filosofia deve ser assegurado por professores competentes, especialmente formados para esse fim, e não pode estar subordinado a nenhum imperativo económico, técnico, religioso, político ou ideológico;

Permanecendo totalmente autónomo, o ensino de filosofia deve ser,  em toda parte onde isto é possível ,  efetivamente associado – e não simplesmente justaposto –  às formações universitárias ou profissionais, em todos os domínios;

A difusão de livros acessíveis a um largo público, tanto por sua linguagem quanto por seu preço de venda, a geração de emissões de rádio ou de televisão, de audiocassetes ou videocassetes, a utilização pedagógica de todos os meios audiovisuais e informáticos, a criação de múltiplos espaços de debates livres, e todas as iniciativas suscetíveis de fazer aceder  um maior número a uma  primeira compreensão das questões e dos métodos filosóficos devem ser encorajadas,  a fim de constituir  uma educação filosófica de adultos;

O conhecimento das reflexões filosóficas das diferentes culturas, a comparação de seus aportes respetivos e a análise daquilo que os aproxima e daquilo que os opõe, devem ser  perseguidos e sustentados pelas instituições de pesquisa e de ensino;

A atividade filosófica, como prática livre da reflexão, não pode considerar alguma verdade como definitivamente alcançada, e incita a respeitar as convicções de cada um;  mas ela não deve, em nenhum caso, sob pena de negar-se a si mesma, aceitar  doutrinas que neguem a liberdade de outrem, injuriando a dignidade humana e engendrando a barbárie.

Esta declaração foi subscrita por:

Prof. Ruben G. Apressian (Instituto de  Filosofia da Academia de Ciências  de  Moscou,  Federação  Russa),  Prof. Tanella  Boni-Koné (Universidade de Abidjan, Costa do Marfim), Prof. Tzotcho Boyadjiev (Universidade Saint Klément Ohridski, Sófia, Bulgária), Prof. In-Suk Cha (Secretário Geral da Comissão Nacional para a UNESCO da República da Coréia, Seul, República da Coréia ), Prof. Marilena Chaui (Universidade de Säo Paulo, Brasil), Prof. Donald Davidson (Universidade de Berkeley, USA), Prof. Souleymane Bachir Diagne (Universidade de Dakar, Senegal ), Prof. François Dossou (Universidade Nacional do Benin, Cotonou, Benin), Prof. Michaël Dummett (Oxford, Reino Unido), Prof. Artan Fuga (Universidade de
Tirana, Albânia), Prof. Humberto Gianini (Universidade de San Tiago do Chile, Chile), Prof. Paulin J. Houtondji (Universidade Nacional do Benin, Benin), Prof. Joanna Kuçuradi (Secretária Geral da Federação Internacional das Sociedades de Filosofia, Ancara, Turquia), Prof. Dominique Lecourt (Universidade de Paris VII, Paris, França), Prof. Nelly Motroshilova (Universidade de Moscou, Federaçäo da Rússia), Prof. Satchidananda Murty (Vice-Presidente da Federaçäo Internacional das Sociedades de Filosofia, Índia), Prof.  Ulrich Johannes Schneider (Universidade de Leipzig, Alemanha), Prof. Peter Serracino Inglott (Reitor da Universidade de Malta), S. E. Mohammed Allal Sinaceur  (Antigo Diretor da Divisäo de Filosofia da UNESCO, Rabat, Marrocos), Prof. Richard Susterman (Temple University, Filadélfia, USA), Prof. Fathi Triki ( Decano da Faculdade de Letras e Ciências Humanas de Sfax, Tunísia), Prof. Susana Villavicencio (Universidade de Buenos Aires, Argentina).”

Extraído de : UNESCO.  Philosophie et Démocratie dans le Monde  – Une enquête de l’UNESCO.  Librairie Génerale Française, 1995, p. 13-14

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Notícias

Simão José Simão assume Direção Comercial do Real Hotels Group

20 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

O Real Hotels Group (RHG) acaba de anunciar a nomeação de Simão José Simão como o novo Diretor Comercial do Grupo e Diretor de Operações das unidades de cinco estrelas.

Nesta nova etapa no Grupo, Simão José Simão terá a seu cargo um orçamento de vendas superior a 120M euros e a liderança de cerca de 300 pessoas, das quais 17 são chefias – e a coordenação global da estratégia comercial. Em 2026, o Grupo entrará numa nova fase de estratégia comercial relacional para os segmentos MICE, Corporate e Grupos, assim como uma nova fase de transformação digital do setor e eficiência operacional.

Simão José Simão acumula ainda a sua experiência consolidada na Direção de Operações das unidades cinco estrelas do grupo, as marcas icónicas Real e Grande Real do RHG como o Grande Real Villa Itália Hotel & Spa (Cascais), o Grande Real Santa Eulália Resort & Hotel Spa (Albufeira), o Real Marina Hotel & Spa (Olhão) e o Real Palácio Hotel, em Lisboa.

Com mais de 40 anos de carreira na hotelaria nacional, Simão José Simão traz consigo um percurso sólido e transversal, marcado pela direção de operações e liderança de equipas em alguns dos mais prestigiados grupos hoteleiros do país. Formado com o curso de Gestão e Técnica Hoteleira na Escola de Hotelaria e Turismo do Porto, bem como Bacharelato de Gestão e Técnica Hoteleira na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril,

Simão José Simão é natural do Norte, mas iniciou o seu percurso profissional no Algarve, na cadeia Dom Pedro Hotels, onde começou como rececionista e ascendeu consistentemente a Diretor Comercial do grupo, cargo que lhe abriu as portas para uma trajetória de excelência no setor.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Murros na mesa, ‘melhorais’ e pactos em Belém: o debate onde o teatro falou mais alto do que as propostas

19 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Quem viu o debate entre António José Seguro e André Ventura com o jantar na mão talvez tenha sentido que estava perante mais um granel em horário nobre. As vozes subiram de tom, as interrupções foram constantes e houve pouco tempo para discutir em detalhe as leis laborais que abriram a emissão. Mas quando se retira o ruído emocional e se observa o que cada um estava realmente a tentar fazer, o debate revela duas ideias muito diferentes de Presidência e duas formas opostas de falar ao país.

O início até foi relativamente sereno. Seguro recusa a revisão da lei laboral “nesses termos” e descreve a proposta como desequilibrada e não sufragada. Ventura responde que é preciso rever a lei, mas em poucos segundos sai do plano técnico e entra em modo narrativa. Fala de sindicatos “tipos que não trabalham há 20 anos e há 30” e de um país que recompensa quem não faz nada e em que quem paga sente que outros passam à frente. Aqui está o contraste central. Um tenta discutir políticas e enquadramento institucional. O outro transforma políticas em histórias de frustração e injustiça. Ambos tocam em problemas reais, mas em linguagens diferentes.

 

Ventura, o furacão dos dilemas rápidos e frases que colam

André Ventura entrou no estúdio como quem entra num ringue. Ataca primeiro. Tanto pode ser o PS, os sindicatos, Marcelo Rebelo de Sousa, o “sistema” ou o próprio Seguro. Depois conta a história concreta. O passageiro sem comboio por causa da greve. O doente que chega ao hospital e não é atendido. A família que paga impostos e sente que outros passam à frente. No fim aterra sempre numa frase curta, agressiva e fácil de repetir. É desse padrão que nasce o momento em que reduz Seguro a um “Melhoral, não faz bem nem faz mal”. Não é argumentação, é rotulagem com efeito imediato.

Ventura é também muito forte na construção de dilemas dramáticos. Ou se defende o país com dureza em Angola ou se falha ao dever de Estado. Ou o Presidente “dá murros na mesa” ou é inútil. Ou se coloca os portugueses primeiro ou se está do lado dos imigrantes. Ao mesmo tempo, levanta questões verdadeiras sobre pressão nos serviços públicos, imigração menos regulada no passado e perceção de insegurança. O problema não é falar desses temas. É o formato binário em que são apresentados.

 

Seguro, o moderador institucional entre a solidez e a falta de ritmo

Seguro apresentou-se como o candidato moderador. Fala de pactos, de Constituição, de diálogo e de estabilidade. Assume o passado no PS com naturalidade, mas insiste que a eleição presidencial é outra coisa. Não quer disputar o governo, quer ocupar o papel de árbitro institucional.

Teve momentos de precisão política que ficaram. Quando diz que Ventura está “na eleição errada”, em tom calmo, resume numa frase a crítica de fundo ao estilo combativo do adversário. Quando afirma que precisa de se “resguardar” porque pode vir a receber Ventura em Belém como líder partidário, desenha uma imagem muito clara do tipo de Presidente que quer ser. Nestes instantes, foi cirúrgico.

Teve também instantes menos felizes. Ao ler o guião do pacto para a saúde, o debate perdeu ritmo. A lista é coerente do ponto de vista técnico, mas não foi pensada para televisão. Seguro pensa como Presidente, mas nem sempre traduz isso em frases simples e memoráveis. Ventura dispara foguetes. Seguro por vezes fala como se estivesse a ler uma ata.

 

Os truques de argumentação que moldaram o debate

Numa noite tão carregada de retórica, houve truques evidentes. Do ponto de vista da análise da comunicação, vale a pena olhar para isso com frieza.

Um dos momentos mais claros do lado de Ventura é um falso dilema. Quando afirma “apareceu um português e um do Bangladesh, é a mesma coisa. É a mesma coisa. Diga lá, é a mesma coisa”, está a reduzir o debate a duas escolhas artificiais: ou Seguro aceita a frase e arrisca parecer indiferente à situação de muitos portugueses, ou recusa e arrisca parecer discriminatório. Seguro nunca disse que “um português e um do Bangladesh” são a mesma coisa nesse sentido simplista. O dilema não nasce do que ele afirmou, nasce do enquadramento que Ventura constrói para o forçar a escolher entre duas posições tóxicas.

Do lado de Seguro, surge um deslize diferente. Quando lembra que Ventura andou há poucos meses a pedir votos para outro cargo e sugere que isso fere o “contrato de confiança” com os eleitores, ataca a coerência pessoal do adversário mais do que o argumento em discussão. É um ad hominem circunstancial, típico da política, que diz mais sobre a estratégia de desgaste do que sobre o papel do Presidente da República.

Ventura recorre ainda a generalizações apressadas. Quando fala da “conversa da treta de há anos” que teria permitido que “alguns possam fazer tudo enquanto outros só contribuem”, mistura grupos e situações muito diferentes num único bloco de aproveitadores. É uma mensagem simples e poderosa para quem já se sente injustiçado, mas assenta num retrato coletivo pouco rigoroso.

Seguro também cai na generalização quando afirma que Ventura está sempre a pôr pessoas umas contra as outras e a dividir entre bons e maus. É uma leitura global da intenção do adversário que não decorre de uma única frase específica, mas de uma interpretação do seu estilo. Pode ser compreensível em contexto de confronto mas não traduz com exatidão o conteúdo daquela intervenção em concreto.

Por fim, Ventura usa o clássico declive escorregadio. Liga a abertura migratória, o fim do SEF e a desautorização das polícias ao “caos migratório” atual, como se houvesse um caminho direto e inevitável entre uma decisão e a outra. É uma narrativa forte, com começo e fim bem marcados, mas sem explicar mecanismos, dados ou alternativas intermédias. É mais enredo do que demonstração causal.

 

As respostas que ficaram por dar

Seguro podia ter aproveitado melhor alguns momentos para devolver a simplicidade em seu favor. Quando Ventura insiste na ideia de que imigrantes “passam à frente dos portugueses na saúde”, Seguro podia ter usado uma imagem muito concreta. Algo como: não existem duas portas nos hospitais, uma para portugueses e outra para imigrantes. Existe uma porta só e o que está bloqueado são as listas de espera. Teria ajudado a recentrar a discussão na gestão e não na origem das pessoas.

Perante o rótulo do “Melhoral”, podia ter devolvido com uma frase seca e eficaz. Uma resposta possível seria: insultos não reduzem listas de espera, decisões reduzem. Não precisava de mais do que isto para esvaziar o ataque e voltar ao essencial.

 

O corpo também debateu

Na comunicação não verbal, os dois contaram histórias muito diferentes. Ventura usou gestos amplos, dedos apontados, tronco inclinado para a frente e olhar intenso. O corpo dizia combate, urgência e confronto permanente. Seguro manteve postura mais estável, gestos redondos, mãos abertas e expressão contida. Em geral, o corpo dele dizia calma, prudência e controlo.

Houve, contudo, um momento em que a máscara institucional abriu uma fenda. Perante uma tirada mais agressiva, Seguro sorriu com ironia. Ventura reagiu com “Está a rir-se do quê?”. Seguro respondeu “De si”. Nesse instante, o candidato moderado mostrou que também sabe ser ácido.

 

Os arquétipos que estiveram em jogo

Debaixo das frases e dos gestos, havia duas figuras muito claras. Ventura encarnou o guerreiro indignado, o rebelde contra o sistema, o homem que promete dar murros na mesa e dizer o que muitos pensam. Seguro encarnou o cuidador institucional, o moderador que fala de pactos de regime, de Constituição e de proteção de direitos fundamentais.

Nenhum destes arquétipos é neutro. Cada um fala a partes diferentes do país. A uns seduz a ideia de choque frontal. A outros tranquiliza a imagem de um Presidente que baixa a temperatura.

 

Um formato que favorece quem faz mais barulho

Ao longo do debate, o moderador José Alberto Carvalho tentou várias vezes recentrar a discussão nas leis laborais, na saúde e no papel do Presidente. Foi muitas vezes engolido pelo duelo retórico. O formato televisivo recompensa quem cria conflito, dispara frases curtas e simplifica dilemas.

Ventura sente-se muito à vontade nesse ambiente. Seguro traz uma linguagem mais próxima de um Conselho de Estado. Em televisão isso raramente gera o título do dia seguinte, mesmo quando a substância é mais cuidada.

 

A pergunta útil não é quem ganhou

No fim, a pergunta menos interessante é quem ganhou o debate. A mais interessante é outra: como é que cada um tentou ganhar.

Ventura tentou ganhar pela emoção, pelos dilemas fortes e pela identificação com frustrações reais de muita gente. Seguro tentou ganhar pela instituição, pela serenidade, pelos princípios e pela visão de um país organizado e previsível.

Um venceu na adrenalina. O outro na serenidade.

Arquivado em:Opinião

Saramago em órbita; Pilar dá-lhe sentido: «Nós somos o outro do outro»

19 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

A LusoSpace chama-lhe ‘Constelação Lusíada’, e a imagem tem qualquer coisa de excessivamente bela para não ser levada a sério: poetas portugueses a viajar em órbita, como se o cânone literário tivesse pedido um bilhete de ida para além da linha azul que separa a atmosfera dos mistérios das galáxias. 

Além disso, há ainda uma camada que não cabe nos desenhos de órbitas nem nos comunicados técnicos: a de quem pensa o céu a partir da terra. Pilar del Río traz essa camada. Olha para a constelação com a serenidade crítica de quem compreendeu José Saramago por dentro e por fora. Para ela, o satélite não leva apenas nomes; leva também uma responsabilidade. E uma frase: ‘Nós somos o outro do outro’. É a chave para entrar na sua leitura do projeto. 

Pilar del Río esteve presente na inauguração do satélite José Saramago, na sede da LusoSpace.

Como explicou Pilar à Líder, em exclusivo, esta constelação «é um sinal de otimismo», não só pela inovação que a caracteriza, mas pelo significado de enviar estas personalidades para o espaço. «Algo estamos a fazer bem se, ao invés de batizar satélites com nomes de guerreiros ou líderes, usamos escritores, poetas, pessoas que fecundam o mundo.» 

 

O Waze dos oceanos 

No mesmo sentido, Ivo Vieira, fundador e CEO da LusoSpace, acredita que o projeto ultrapassa a engenharia e entra no território da identidade. Chama-lhe um «gesto simbólico fortíssimo». E percebe-se porquê. «É a primeira vez que Portugal lança uma constelação completa», diz. Depois, acrescenta com simplicidade, o que faz do projeto uma narrativa de peso: «O facto de termos nomes dos nossos poetas nos satélites significa que o nome dos nosso poetas vai para o espaço». Mas o que está por trás não cabe numa frase. 

Se o simbolismo puxa para o alto, a função puxa para o chão – ou, mais precisamente, para o mar. A Constelação Lusíada tem um propósito concreto: criar um sistema global de comunicações marítimas capaz de ligar qualquer navio, em qualquer latitude, através de mensagens curtas enviadas para os satélites. 

Ivo Vieira, fundador e CEO da LusoSpace

«Isto que permite criar o Waze dos oceanos», explica. O termo pode soar informal demais para um projeto tecnológico, mas funciona. Os navios passam a poder partilhar informação em tempo real sobre rotas, acidentes, manchas de óleo, icebergs à deriva e até indícios de pirataria. «Infelizmente ainda há piratas nos mares», diz Ivo, sem metáfora, apenas constatação. 

O efeito prático é direto: mais segurança, mais eficiência, mais capacidade de resposta das autoridades. Uma espécie de mapa vivo dos oceanos, atualizado por quem neles vive e navega. 

A LusoSpace não se fica por aqui. Para lá do mar, olha para a esfera mais densa da inovação: comunicações laser, tecnologias de segurança e sistemas que as Forças Armadas – Força Aérea, Marinha, Exército – têm observado com interesse crescente. «Na área da defesa, a questão da segurança é essencial», diz Ivo. Não entra em pormenores, mas deixa claro que o país tem ali mais do que apenas um projeto bonito para mostrar. 

 

Na grandeza do espaço brilha a pequenez do ser humano 

Esta homenagem poderia ser vista como uma provocação às crenças de Saramago, sempre cético e pouco dado a louvores. Já o diz o seu epitáfio: ‘Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia’. Mas é às estrelas que sobe o inovador satélite, carregando a frase ‘Nós somos o outro do outro’, do livro O Homem Duplicado. Talvez assim a afronta seja menor, pois não quereria o escritor outra coisa que partilhar as suas palavras com o mundo – ou mundos. 

Pilar del Río colou os autocolantes no satélite, um com o nome do escritor e outro com a célebre frase: «Nós somos o outro do outro»

Porque foi sempre na imensidão da pequenez de cada um que Saramago encontrou o seu lugar na escrita, no meio do significado das palavras e dos seus pensamentos. Se é sobre isso e o céu está descrito, falta o chão. Pilar del Río lembra que Saramago escreveu sobre pequenas pessoas que enfrentavam grandes sistemas. E é a partir dessa memória que a sua companheira lê este gesto espacial. 

Às vezes sentimos que há pessoas que são grandes e pessoas que são pequenas. Resulta que todas as pessoas, as que aparentemente são grandes porque nascem em casas reais ou grandes impérios, e as que nascem de pais analfabetos, como Saramago, podem chegar longe, desde que trabalhem, estudem e respeitem os outros. Se usamos a razão e a consciência, podemos chegar longe, todos.

Mas também não duvida de qual seria a reação do escritor. Basta ter lido um livro seu ou visto dez segundos de qualquer entrevista para adivinhar o timbre. «O primeiro que diria seria: ‘Estão doidos! Que loucura é esta?’» A frase surge quase como se o ouvíssemos ali, a entrar pela sala adentro com a sua ironia luminosa. 

E, no entanto, também Saramago se debruçou sobre as incógnitas do cosmos, na obra menos conhecida do grande público, Um azul para Marte. Nessa noite, que dura dez anos, o escritor visita um planeta com hospitais, escolas e marcianos – mas sem azul. Quando os extraterrestres decidem vir à Terra procurar a cor perdida, Saramago corta-lhes o impulso: não iriam gostar do que cá encontrariam. «Tanta guerra, tanta violência, tanta falta de respeito, desprezo pelos outros. Saramago disse que seria melhor ficarem sem o azul», recorda Pilar. «Pode ser que agora o satélite lhes leve um pouco de luz.»

 

A importância das estrelas terem nomes 

Devidamente equipados para evitar contaminações do exterior, os convidados observaram a eterna companheira de Saramago a colá-lo ao seu lugar. Pilar sublinha que o satélite «está onde tem de estar» e que este passo, aparentemente «pequeno para a humanidade e também para a ciência», tem uma importância que ultrapassa a engenharia. «É importante que as estrelas tenham nomes, tal como é importante que um satélite tenha o nome de uma mulher, como a Agustina Bessa Luís», declara. 

E também a Terra precisa de mais luz, clareza e paz. Nos momentos perniciosos que atravessamos, quando a verdade se dissolve em slogans e as frases feitas reinam, a literatura e a literacia tornam-se, no olhar da jornalista, urgentes. 

É importante encontrar capacidade de reflexão, de beleza, de construção de paisagens e de seres humanos. A literatura torna-nos mais consistentes – é uma necessidade. Caso contrário, seremos apenas seres de slogans, que voam de um dia para o outro, que nos dizem que devemos votar neles ou odiar os imigrantes. E vamos acreditar em tudo se não formos capazes de refletir e dizer a frase que está no satélite: Nós somos o outro do outro. Isso é o mais importante.

Depois, há uma ideia que mexe com qualquer pessoa que alguma vez tenha lido um poema português com a sensação de estar a tocar num país inteiro. A LusoSpace decidiu abrir um espaço a quem quiser. Literalmente: qualquer pessoa pode ter o seu nome no espaço. «Por que não?», pergunta Ivo Vieira. Criaram a campanha nas redes sociais, bastando comentar e seguir a página para entrar na seleção. A iniciativa é simples, democrática e, ao mesmo tempo, tem aquele toque quase infantil de maravilha: a possibilidade de ver o próprio nome a viajar num satélite, à boleia de Camões ou Agustina Bessa-Luís.

Laboratório de memórias que orbitam a 600km de altitude 

Nenhum projeto se sustenta apenas em sonho. «Temos de articular todos os nossos instrumentos», sublinha o CEO. A Constelação Lusíada foi financiada pelo PRR, garantindo o impulso inicial. Segue-se a ESA, a Agência Espacial Europeia, onde Portugal precisa de investir e continuar a desenvolver a indústria nacional. «É importante que haja continuidade e investimento significativo, de forma que a indústria portuguesa possa crescer e crescer com valor acrescentado.» Ivo diz isto com a calma de quem trabalha com prazos que não se medem ao mês, mas o aviso fica implícito: não há constelações duradouras sem estratégia duradoura. 

No laboratório, o cenário é quase mágico. Engenheiros e investigadores zelam religiosamente pelo material, as mesas de trabalho e monitores projetam órbitas e trajetórias, enquanto descansam os restantes satélites da Constelação Lusíada, quase prontos para serem lançados, em fevereiro do ano que vem.

A equipa LusoSpace com Pilar del Río e o satélite José Saramago

A casa recebeu os familiares vivos de todos os que integram a comitiva espacial ao longo das últimas semanas, numa presença silenciosa e emotiva, exceto Camões, que, como se sabe, viaja apenas através da memória e da literatura.  

Ali, da ciência às recordações, da engenharia ao simbolismo, o gesto de colocar os poetas no espaço deixa de ser apenas técnico: torna-se ritual, celebração e promessa ao mesmo tempo. A LusoSpace está a escrever uma nova geografia portuguesa, não a dos limites do território, mas a dos seus símbolos. Uma geografia que começa nos livros e termina a orbitar a 600 quilómetros de altitude. 

E, estranhamente, faz todo o sentido. 

 

Fotografias: Leonor Wicke

Arquivado em:Reportagens

«Já não podemos confiar da mesma forma nos Estados Unidos», afirma Carlos Leitão

19 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

A relação entre Portugal e o Canadá não é recente e vai além de conexões diplomáticas e históricas. Do ponto de vista económico, existe o Acordo Económico e Comercial Global entre a União Europeia e o Canadá (CETA), que tem como objetivo reduzir barreiras alfandegárias, facilitar o investimento e agilizar a mobilidade económica, estando em aplicação provisória há cerca de oito anos.

Paralelamente, existem pressões que assombram muitos mercados de ambos os países, derivadas das medidas taxativas da Administração Trump relativas às exportações. Ampliar as cadeias de exportação revela-se mais do que uma mera escolha estratégica.

Para Carlos Leitão, Secretário Parlamentar do Ministro da Indústria e Membro do Parlamento do Canadá, a questão é inequívoca: «A nossa soberania depende da capacidade de diversificar o comércio». O deputado participou digitalmente no EuroAmericas Forum, em Carcavelos, num painel que juntou vozes de Portugal e do Canadá para discutir o papel do CETA.

Em palco estiveram também António Leão Rocha, Embaixador de Portugal no Canadá, Élise Racicot, Embaixadora do Canadá em Portugal, Gilda Pereira, CEO da Ei! Migratory Advisory e Nuno Schaller Gonçalves, Sócio da Deloitte Portugal. A moderação ficou a cargo de Victor Severino, VP de Capacitação Empresarial da Câmara de Comércio da Região de Toronto.

A nova geoeconomia baseia-se em diversificar para sobreviver

Carlos Leitão não poupou nas palavras: a política comercial norte-americana é «caótica» e já não pode continuar a ser a âncora quase exclusiva da economia canadiana. Atualmente, 80% das exportações do Canadá têm como destino os Estados Unidos, mas o objetivo político é claro: duplicar as exportações para fora da América do Norte na próxima década. «A Europa está no centro dos nossos objetivos de exportação», destacou o deputado.

A estratégia de diversificação avança em paralelo para a Ásia e a América do Sul. Para a tornar viável, o Canadá lançou o Trade Diversification Corridor Fund, com cerca de cinco mil milhões de dólares canadianos em sete anos, destinado a modernizar portos, reforçar corredores ferroviários e criar novas vias de ligação tanto para o Atlântico como para o Pacífico.

Portugal–Canadá: comércio cresce, potencial por explorar

Do lado português, António Leão Rocha destacou que o CETA, mesmo ainda em aplicação provisória, já produziu resultados concretos: o comércio bilateral cresceu cerca de 53% desde 2017.

O Canadá é hoje um mercado importante para setores tradicionais portugueses — como vinhos, agroalimentar, calçado e artigos para casa — mas o embaixador sublinha que o verdadeiro potencial está noutros domínios: engenharia avançada, automóvel, base tecnológica, defesa e farmacêutica.

Contudo, permanecem obstáculos estruturais: distância, logística complexa e um mercado altamente fragmentado em nível provincial. Para as PME portuguesas, isto significa que o Canadá não pode ser abordado como um mercado único; é essencial investir em soft landing, gestão local e compreensão das especificidades de cada província.

António Leão Rocha, Embaixador de Portugal no Canadá

Já Élise Racicot sublinhou que setores como minerais críticos, alta tecnologia e defesa são prioritários e dependem fortemente de relações com países like-minded, que partilham valores democráticos e sistemas regulatórios compatíveis. A cooperação através do Horizon Europe, parcerias energéticas, tecnológicas e farmacêuticas, bem como o quadro estratégico da NATO, reforçam um ambiente de confiança regulatória — condição indispensável para investimentos de longo prazo.

«A prova está nos resultados: se mostrarmos claramente os benefícios económicos do CETA, muitos dos que hoje resistem acabam por se convencer», sublinhou.

Élise Racicot, Embaixadora do Canadá em Portugal

As empresas já estão envolvidas, mas há falta de conhecimentos

Do lado das empresas, Gilda Pereira e Nuno Schaller Gonçalves mostraram que, apesar de terem já apoiado centenas de profissionais em mobilidade entre Portugal e o Canadá, a literacia sobre o CETA continua limitada no tecido empresarial.

Gilda destacou que «ainda existe muito desconhecimento sobre o que o CETA realmente permite», explicando que muitas empresas só descobrem as oportunidades quando já estão envolvidas em processos transatlânticos. Quando conhecem o acordo, procuram sobretudo maior mobilidade para talento qualificado, reconhecimento mútuo de qualificações e menos burocracia.

Gilda Pereira, CEO da Ei! Migratory Advisory

Nuno Schaller Gonçalves reforçou que o CETA pode ser um acelerador de inovação e competitividade, mas que «muito do financiamento disponível continua por explorar por falta de divulgação».

Ambos sublinham também o interesse crescente das empresas em incentivos ligados à sustentabilidade e projetos carbono zero, áreas onde o acordo pode desempenhar um papel decisivo. Em síntese, o potencial existe, mas falta transformá-lo em prática através de mais informação, articulação e uso efetivo dos instrumentos já disponíveis.

Nuno Schaller Gonçalves, Sócio da Deloitte Portugal

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