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Leonor Wicke

António Valle é o novo Diretor-Geral do Turismo de Lisboa

26 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

O Turismo de Lisboa aprovou por unanimidade o nome de António Valle como novo Diretor-Geral. Com mais de duas décadas de percurso em funções de elevada responsabilidade no setor público e privado, António Valle integra agora a associação que conduz a promoção e competitividade de Lisboa enquanto destino turístico.

Valle sucede a Vítor Costa, que se reforma após um percurso determinante para a afirmação de Lisboa como destino turístico de referência, deixando um legado de elevado reconhecimento e projeção internacional.

«Assumo esta função com sentido de missão. Lisboa enfrenta desafios determinantes para o futuro do turismo e para a relação com residentes e visitantes. Quero contribuir para um modelo estratégico que una atratividade, sustentabilidade e qualidade de vida», afirma António Valle.

Ao longo da sua carreira, António Valle ocupou posições de relevo na Administração Pública e no setor privado. Desempenhou funções como Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, foi assessor da administração da AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, com responsabilidade na implementação da comunicação estratégica e institucional, e integrou equipas governativas como assessor do Primeiro-Ministro e do Ministro-Adjunto no XIX Governo Constitucional.

No setor privado, exerceu atividade como consultor em Reputação Corporativa para empresas de setores como banca, energia, distribuição, telecomunicações e imobiliário. É licenciado em Ciências da Informação, possui duas pós-graduações em Comunicação Empresarial e concluiu o Mestrado em Ciência Política.

O presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, sublinha a importância desta transição:

«O trabalho do Vítor Costa deixou um legado notável, a quem agradecemos todo o seu contributo. A chegada de António Valle representa um novo impulso e assegura continuidade com renovação, num momento em que o setor exige visão e capacidade de coordenação institucional.»

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Europa está na liga dos gigantes tecnológicos. O que significa para as empresas portuguesas?

25 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

O ecossistema tecnológico europeu deu um grande salto em frente, passando de um valor inferior a um bilião de euros há uma década para cerca de 3,5 biliões, atualmente. Desde 2015, os níveis de investimento aumentaram mais de dez vezes, a base de talento cresceu sete vezes, o número de empresas avaliadas acima de mil milhões de dólares mais do que triplicou e já existem cinco empresas acima dos 100 mil milhões de dólares.

O relatório ‘State of European Tech 2025’ põe a nu a evolução do setor tecnológico na Europa e revela que Portugal está igualmente bem encaminhado.

É expectável que o país capture 230 milhões de dólares em 2025, uma descida face aos 250 milhões do ano anterior. Irá desta forma ocupar a 14.ª posição na Europa em capital total investido. Está também em curso a procura de financiamento para uma gigafábrica de IA avaliada em quatro mil milhões de euros, um dos projetos de infraestrutura mais ambiciosos da Europa.

A Tekever (tecnológica portuguesa especializada no desenvolvimento de drones e sistemas autónomos) ultrapassou o valor de mercado de mil milhões de euros em 2025, colocando Portugal entre os 11 países europeus com empresas que atingiram esse marco.

Dois dos autores do relatório, Tom Wehmeier e Sarah Guemourio, explicam à Líder que, apesar de a Europa estar bem encaminhada para competir com os “gigantes” tecnológicos, falta garra e vontade. O progresso exige risco e a Europa só avança quando empreendedores, investidores e líderes escolhem dar o salto em vez de jogar pelo seguro.

Tom Wehmeier
Sarah Guemourio

 

Quais têm sido os principais motores do crescimento do setor tecnológico europeu?

Os principais motores do crescimento do setor tecnológico europeu têm sido os seguintes:

  1. O facto de o ecossistema empreendedor europeu estar mais forte do que nunca. Em 2025, o número de pessoas a criar empresas é quase 59% superior ao de 2023, ultrapassando mesmo o máximo registado em 2021. A Europa continua a liderar a nível mundial no que se refere ao número de novos empreendedores, mesmo quando os EUA registam a sua própria vaga de crescimento empreendedor, com um aumento de 63% no mesmo período. No último ano, o pool de talento europeu cresceu 4%, para 4,6 milhões. A região está ao nível dos EUA e da Ásia em termos de criação global de startups e continua a beneficiar de fluxos internacionais de talento, sendo que 81% dos fundadores europeus de empresas de inteligência artificial (IA) permanecem agora na Europa, face a 74% em 2016.
  2. Registar-se um regresso do otimismo e de fundadores orientados por uma missão. Metade dos inquiridos sente-se mais otimista em relação ao futuro da tecnologia europeia do que há 12 meses – um dos níveis mais elevados de otimismo da última década. Em Portugal, especificamente, 35% dos inquiridos estão mais otimistas em relação ao futuro da tecnologia europeia do que estavam em 2024.
  3. Existir capital em mobilização. O investimento de capital de risco (VC) aumentou 7%, para 44 mil milhões de dólares, e os fundos de pensões europeus aumentaram as suas alocações a VC em 55% em 2024 – de 650 milhões para mil milhões de dólares. A segunda metade de 2024 gerou 14,7 mil milhões de dólares em novo capital, o segundo semestre mais forte desde 2021. Embora este dinamismo seja importante, a Europa tem de ir mais longe para construir mercados de capitais com a profundidade e a liquidez ajustadas à ambição dos seus fundadores.

 

Este crescimento significa que estamos no caminho para competir com “gigantes” como os EUA ou a China? Como pode a Europa disponibilizar mais capital para o crescimento e ajudar as empresas a expandir-se a nível mundial?

A Europa está a competir com os EUA e a China, mas de forma diferente. Ao normalizarmos o funil desde a criação até aos resultados superiores a mil milhões de dólares e avaliarmos a percentagem de empresas que atingem estes marcos, e não apenas o número absoluto, verificamos que as empresas europeias são tão eficientes em termos de capital como as norte-americanas. A Europa produziu 48 empresas tecnológicas avaliadas em mais de 10 mil milhões de dólares e, só em 2025, já assistimos ao surgimento de novas empresas billion-dollar em 11 países diferentes, desde a IQM, na Finlândia, até à Tekever, em Portugal.

Além disso, o desafio da Europa não é a ambição, mas sim a escala e a velocidade. Nos primeiros nove meses de 2025, o investimento privado total em empresas tecnológicas nos EUA atingiu os 177 mil milhões de dólares, comparativamente aos 33 mil milhões na Europa. Embora a Europa crie empresas de mil milhões de dólares ao mesmo ritmo que os EUA, quando o capital é normalizado, o desafio mantém-se na fase de crescimento, com a proporção de empresas norte-americanas de deep tech a angariar rondas de financiamento superiores a 50 milhões de dólares a superar a europeia em cinco vezes.

Para colmatar esta lacuna, a Europa tem de mobilizar o seu próprio capital. Os fundos de pensões europeus continuam a ser três vezes inferiores às dos EUA. Se os fundos de pensões europeus igualassem os níveis de investimento dos principais fundos norte-americanos, poderiam entrar mais 210 mil milhões de dólares em capital de risco (VC) na próxima década. A Europa continua com uma exposição inferior a investidores privados de longo prazo em 44 pontos percentuais. Isto não é um problema de financiamento, mas sim de paciência. Sem capital capaz de apoiar empresas nas séries B, C, D e seguintes, os fundadores enfrentam uma escolha: mudar-se ou limitar a ambição.

 

O estudo indica que os níveis de investimento europeu estão novamente a subir. O que significa isto para as empresas?

Os dados mostram progressos significativos. O investimento de (VC) aumentou 7% para 44 mil milhões de dólares e o número de novas empresas avaliadas em mil milhões de dólares está a caminho do seu melhor ano desde 2022. Cerca de uma em cada quatro empresas que levantou uma ronda de financiamento da série B na primeira metade de 2024 garantiu a ronda seguinte nos 12 meses que se seguiram, aproximadamente o dobro da taxa do ano anterior.

Isto reflete para onde o capital está a fluir. A deep tech e a IA captam agora 36% do capital de risco europeu, comparativamente aos 19% registados em 2021. O financiamento para a tecnologia de defesa aumentou 55%, atingindo os 1,6 mil milhões de euros, e 31% de todo o financiamento europeu angariado em 2025 está a ser canalizado para empresas que trabalham em IA/ML. As startups europeias já não competem apenas a nível nacional ou continental – estão a vencer num palco global, de Lisboa a Estocolmo e Amesterdão.

No entanto, persistem desafios: um quarto das empresas em fase de série A contrata o seu primeiro vendedor fora do país, nos EUA, e os fundadores europeus estão quase tão aptos quanto os norte-americanos a conseguir investimento inicial, mas enfrentam uma quebra sistémica na disponibilidade de capital à medida que as empresas amadurecem.

 

Como veem a posição de Portugal dentro dos resultados globais da Europa?

Portugal está a contribuir cada vez mais para o panorama europeu da inovação. A Tekever tornou-se uma empresa avaliada em mil milhões de dólares em 2025, elevando para três o número total de unicórnios portugueses.

Olhando para o contexto mais amplo do sul da Europa, em 2024, 24% dos compromissos do Fundo Europeu de Investimento foram para equipas nesta região, refletindo um reforço do apoio institucional ao seu ecossistema tecnológico. A Europa é responsável por 27% da criação global de startups, sendo que Portugal representa 0,57% desse total, ocupando o 10.º lugar na Europa, com o Reino Unido em primeiro lugar, com 6,91%.

 

Quais são as escolhas críticas que a Europa deve fazer agora para liderar a próxima década tecnológica e onde se enquadra Portugal nesse futuro?

A Europa deve reduzir a distância entre a ambição e a execução. Apesar de produzir inovação de classe mundial, a ambição continua a superar o compromisso, com lacunas de financiamento em fases avançadas e fraca contratação pública a travar o progresso.

As decisões mais críticas centram-se em transformar a independência estratégica em vantagem competitiva duradoura. Desde 2021, apenas 9% das compras públicas na Europa foram direcionadas para a inovação, ficando muito aquém do objetivo de 20% definido pela União Europeia em 2014. Trata-se de dinheiro deixado em cima da mesa: estudos mostram que mesmo um aumento modesto de um ponto percentual poderia elevar o PIB per capita em cerca de 15%, enquanto um acréscimo de cinco pontos poderia duplicar o PIB per capita. Os governos europeus devem modernizar os seus quadros de contratação pública, tornando a inovação uma prioridade estratégica.

A Europa deve coordenar uma verdadeira agenda tecnológica pan-europeia, alinhando iniciativas nacionais para construir todo o Eurostack, que inclui fábricas de IA, capacidade de semicondutores, tecnologia dual-use e de defesa, através de infraestruturas partilhadas, coinvestimento e agregação de procura. Não se trata de protecionismo, mas sim de garantir a capacidade, a confiança e o capital necessários para moldar o futuro, mantendo a liberdade de agir de forma independente e de estabelecer parcerias a nível europeu.

As quatro missões continuam a ser urgentes: Fix the Friction para passar de um sistema fragmentado para um sistema fluido; Fund the Future para mobilizar e aprofundar o capital europeu; Empower Talent para recompensar quem assume riscos e atrair talento de classe mundial para a Europa com um visto único rápido e Champion Risk para assumir o risco como infraestrutura central.

Portugal insere-se neste futuro como parte do ecossistema europeu de inovação distribuída. A Tekever é um exemplo de como os fundadores portugueses podem criar líderes globais e as alocações dos fundos de pensões do Sul da Europa, que atualmente representam 0,022% dos ativos sob gestão para o capital de risco, mostram potencial e margem de crescimento.

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Acessibilidade para pessoas Cegas e Surdas nos media apresenta assimetrias

25 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Ao seu ritmo, o caminho rumo à inclusão tem sido traçado nos meios de comunicação portugueses. No setor público, a RTP1 lidera a oferta inclusiva na televisão, mas a rádio pública carece de ferramentas sistemáticas de acessibilidade. Já as plataformas digitais apresentam barreiras significativas para utilizadores com deficiência.

Um novo estudo desenvolvido pela NOVA FCSH, em parceria com a Access Lab, traça um retrato das práticas de acessibilidade no Serviço Público de Media, revelando um cenário de fortes contrastes.

Para a execução do relatório do estudo ‘Práticas e Políticas de Acessibilidade na RTP’ foi analisada a programação dos canais da RTP em fevereiro de 2025, realizadas entrevistas a profissionais da estação e conduzidas sessões de teste com públicos cegos e surdos.

 

Meios revelam falhas e vazios

A RTP1 destaca-se como o canal mais inclusivo, oferecendo de forma consistente as três principais ferramentas: legendagem em teletexto (67% da programação), Língua Gestual Portuguesa (24,6%) e audiodescrição (1,1%).

Em contraste, a RTP2 foca-se quase exclusivamente na legendagem, sem oferta de audiodescrição, enquanto a RTP3 e a RTP Madeira apostam na Língua Gestual, mas falham na disponibilização de legendagem para pessoas surdas.

Já em relação à rádio, o estudo aponta um ‘vazio legal’ e prático neste meio. A única exceção sistemática identificada foi o programa A1Doc.

Testes realizados com utilizadores cegos expuseram falhas na app e site da RTP Play. O botão de ‘Acessibilidades’ não permite ativar a audiodescrição e os leitores de ecrã não detetam os controlos de vídeo, tornando dificultando a navegação autónoma.

 

Dados mostram falta de estratégia integrada

O estudo identifica um padrão de afastamento da televisão pública por parte da comunidade Surda, motivado pela inconsistência na oferta de recursos. Os investigadores alertam para uma clivagem geracional: enquanto o público surdo mais velho se mantém fiel ao televisor, consumindo apenas os programas que garantem Língua Gestual Portuguesa (LGP) – muitas vezes limitados a noticiários regionais como o da RTP Madeira –, os mais jovens estão a migrar para plataformas de streaming internacionais onde a legendagem é uma garantia constante e estável.

As sessões de auscultação revelaram uma frustração comum: a falta de simultaneidade entre a LGP e a legendagem. «Se além da LGP, houvesse legendas, isso iria ajudar-nos a perceber melhor o conteúdo», aponta um dos participantes, sublinhando a diversidade da comunidade surda, onde nem todos dominam a língua gestual. O estudo destaca ainda críticas à qualidade da interpretação.

Já para a comunidade Cega ou com baixa visão, mantém-se o paradoxo da rádio e a ficção como prioridade. O estudo aponta uma lacuna crítica e paradoxal, no geral, no serviço público de rádio. Apesar de ser um meio de natureza auditiva, a rádio pública «não apresenta exigências no que diz respeito à acessibilidade», dependendo quase exclusivamente da iniciativa individual de jornalistas e não de uma estratégia estruturada. A investigação sublinha que a acessibilidade radiofónica permanece ‘marginal’ e ‘pouco explorada’, sem orientações claras por parte do regulador (ERC).

Na televisão, embora a Audiodescrição (AD) seja validada com rigor – contando inclusive com uma revisora cega externa para assegurar a qualidade -, a sua aplicação segue critérios restritivos. A prioridade é dada a séries de ficção nacional, deixando de fora programas diários ou de longa duração.

Apesar de reconhecerem a competência técnica e a consciência social das equipas da RTP, os investigadores concluem que a acessibilidade ainda não é encarada como uma estratégia transversal. Existe uma fragmentação organizacional, onde a gestão da Língua Gestual é decidida autonomamente por cada direção de programas e as equipas dedicadas estão subdimensionadas.

Arquivado em:Igualdade, Notícias

Há um novo projeto de agricultura regenerativa para estudantes e as vagas já abriram

25 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Já estão abertas as inscrições para o projeto Embaixadores Regenerativos da Fundação Mendes Gonçalves (FMG).

A iniciativa, de participação gratuita, visa envolver estudantes do ensino superior como embaixadores da agricultura regenerativa, promovendo práticas que regeneram solos, restauram ecossistemas e contribuem para sistemas alimentares resilientes. Os participantes terão acesso a experiências práticas, ações de formação e eventos colaborativos com profissionais do setor, aproximando a teoria, o saber fazer e a aplicação no terreno.

Podem candidatar-se estudantes de universidades e politécnicos de Portugal, idealmente da área agrícola. Outros graus e áreas relacionadas poderão ser aceites, desde que devidamente justificadas no formulário da candidatura. As inscrições decorrem até 20 de dezembro e podem ser efetuadas através do formulário disponível aqui.

«A agricultura regenerativa é uma mudança de paradigma na forma como cuidamos do território e garantimos o futuro das próximas gerações. Com o programa Embaixadores Regenerativos, queremos capacitar jovens para serem agentes desta transformação, criando pontes entre conhecimento, inovação e impacto real no terreno», refere Manuel Paiva dos Santos, Diretor do Programa Regenerar da Fundação Mendes Gonçalves.

 

O futuro passa pela agricultura regenerativa

Este projeto tem como objetivos criar uma ponte entre academia e prática, desenvolver capacidades de comunicação e de liderança, promover a sensibilização e capacitação em práticas regenerativas e contribuir para sistemas alimentares mais sustentáveis e resilientes.

Os participantes serão desafiados a divulgar práticas regenerativas junto das suas instituições de ensino, comunidades e explorações agrícolas da sua região; sensibilizar colegas e agricultores para a importância da regeneração do solo e da biodiversidade; aplicar conhecimentos adquiridos em projetos e experiências práticas; ser um agente de mudança, promovendo impactos positivos sociais, ambientais e económicos.

A iniciativa será enquadrada num Living Lab em desenvolvimento, que estará conectado à rede europeia de Living Labs, ampliando o impacto local através da colaboração e partilha de conhecimento a nível europeu. Dessa forma, os participantes passam a beneficiar de um conjunto de oportunidades gratuitas associadas a este ecossistema de inovação, nomeadamente acesso a atividades formativas e experimentais; participação em projetos colaborativos envolvendo agricultores, investigadores e outros agentes relevantes; integração numa rede nacional e internacional de Living Labs e de práticas regenerativas, facilitando trocas de conhecimento, eventos, visitas técnicas, partilha de dados e participação em iniciativas promovidas pela rede europeia.

Arquivado em:Educação, Notícias, Sustentabilidade

Portugal com futuro

24 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Há dois sábados atrás passei uma boa manhã na apresentação de um livro, Portugal com futuro (Caleidoscópio). Organizado por Filipe Lobo D’Avila, o volume contém 36 capítulos sobre vários temas que desafiam a nossa sociedade. Declaração de interesses: tenho lá um capítulo. Obviamente não é desse capítulo que vou falar mas do debate, moderado por João Casanova de Almeida – nova declaração de interesses: meu amigo.

Ao longo do painel, excelente, Luís Mira, Luísa Schmidt, Paulo Sande, Pedro Baganha e Rogério Alves (por ordem de entrada) apresentaram as suas visões sobre assuntos muito diferentes. Um tema foi reaparecendo: o excesso de burocracia, a torrente legislativa, o labirinto normativo. Estamos presos a um sistema asfixiante. No limite, mesmo quem quer já não consegue saber se está a respeitar a regras – tantas elas são.

Este dezembro a LÍDER apresenta uma entrevista com Mats Alvesson, da Universidade de Lund, a propósito do seu novo livro The Art of Less. Como ele explica, a proliferação asfixiante de regras cria culturas de medo e inação.  Como foi sugerido no debate, se queremos resolver problemas importantes (como a habitação), precisamos de leis de base zero. Mesmo assim vai demorar anos para ver os efeitos. Sem isso, assistamos sentados ao avanço dos populistas e ao deslaçar da sociedade. A lei, digo eu que não sou jurista, deve servir para criar sociedades mais funcionais e não para acentuar disfuncionalidades. Assim sendo…

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

COP30 deve representar «nova derrota para os negacionistas», mas acordos ficaram aquém

24 Novembro, 2025 by Leonor Wicke

Na luta para travar a subida da temperatura global, um novo inimigo ganha protagonismo: a desinformação climática.

Este foi um dos temas que marcou a abertura da COP30, que decorreu em Belém do Pará, no Brasil, quando o presidente, Lula da Silva, defendeu que a cimeira deve representar «uma nova derrota para os negacionistas» — um aviso direto num momento em que falsidades online ameaçam comprometer anos de diplomacia e ciência. Foi também a primeira vez que a COP chegou à Amazónia, o maior reservatório de biodiversidade do planeta e um dos ecossistemas mais pressionados pela desflorestação.

Em resposta ao avanço coordenado de conteúdos manipulados, 12 países assinaram a Declaração de Integridade da Informação sobre Mudanças Climáticas, comprometendo-se a combater campanhas de desinformação e ataques contra jornalistas, cientistas e investigadores que divulgam evidências sobre a crise climática. O documento foi endossado por Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, Finlândia, França, Alemanha, Espanha, Suécia, Uruguai, Países Baixos e Bélgica.

A 30.ª Conferência do Clima, que terminou na sexta-feira passada, trouxe este e outros decretos, mas as grandes conclusões foram alvo de fortes críticas. No plenário de encerramento foi assinado o documento ‘Decisão Mutirão’, com o objetivo de acelerar a transição climática através do esforço coletivo. Ainda assim, a sessão ficou marcada pela discórdia, por falhar em apresentar medidas concretas para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, considerado por muitos como o ponto central da ação climática. Organizações científicas, ativistas e delegações vulneráveis acusaram a presidência da COP30 de produzir um texto vago e insuficiente, cedendo a pressões de países produtores de petróleo.

A controvérsia agravou-se com críticas a processos pouco transparentes e à exclusão de vozes indígenas e da sociedade civil em momentos-chave das negociações — especialmente sensível numa cimeira sediada na Amazónia.

Resto da conferência não escapou a indignação 

Os onze dias em que a cimeira decorreu ficaram marcados por celeuma e polémica, que expuseram tensões profundas entre governos, ativistas e comunidades indígenas. Um dos episódios mais mediáticos ocorreu quando grupos indígenas invadiram a zona oficial da conferência, denunciando que a cimeira estava a «decidir o futuro da Amazónia sem os povos da Amazónia».

Protestos das comunidades indígenas. Agência Brasil/Bruno Peres

As manifestações surgiram em resposta a políticas consideradas contraditórias por várias lideranças indígenas, que acusaram o governo brasileiro de promover simultaneamente uma agenda ambiental e projetos de desenvolvimento que ameaçam territórios ancestrais.

António Guterres também deixou duras críticas, a começar pela cerimónia de abertura. A meta de manter o aquecimento global abaixo de 1,5º C foi tema claro durante o evento, algo que o Secretário-Geral das Nações Unidas classificou como «uma falha moral e negligência mortal». «A escolha é entre liderar ou sermos levados à ruína», acrescentou.

 

Financiamento e metas falham, mas o compromisso mantém-se

Apesar das críticas, todos os intervenientes se comprometeram com o objetivo climático, num ano que coincide com o 10º aniversário do Acordo de Paris. O European Council definiu a sua posição para a COP30, comprometendo-se com a meta de manter o aumento da temperatura global muito abaixo de 1,5 °C, reforçar a mobilização de financiamento climático e acelerar a transição energética global.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas participa da sessão Plenária Geral dos Líderes Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas. Foto Ueslei Marcelino/COP30

O financiamento climático foi outro ponto crítico do debate. Apesar de ter sido fixada a meta coletiva de mobilizar 1,1 triliões de euros por ano até 2035 para países em desenvolvimento, persistem tensões sobre o nível atual de ambição e os mecanismos de entrega.

Relatórios do Le Monde e do The Guardian destacaram que o fosso entre ambição e execução ficou patente: muitos países ainda não apresentaram planos de financiamento; outros rejeitaram novas contribuições obrigatórias. O mecanismo de perdas e danos, aprovado na COP28, também avançou pouco, continuando a gerar divisões entre países mais ricos e mais vulneráveis.

 

Segurança alimentar, pobreza e clima entram no centro da equação

A segurança alimentar, a pobreza e o clima entraram pela primeira vez no coração das negociações, marcando uma mudança de paradigma na abordagem global à crise climática. A presidência brasileira, com o apoio do Programa Mundial de Alimentos e da FAO, deixou claro que não haverá neutralidade carbónica sem sistemas alimentares resilientes — uma mensagem reforçada por vários países vulneráveis.

Como sublinha o El País, a COP30 assumiu que a ação climática não pode continuar a ignorar a fome agravada por eventos extremos, a fragilidade das pequenas agriculturas e a necessidade urgente de financiamento dedicado à adaptação agrícola. Mais do que uma questão ambiental, a política climática passa a ser, de forma explícita, económica, social e profundamente humanitária.

O presidente da COP 30, André Correa do Lago e a CEO da COP 30, Ana Toni participam de entrevista coletiva durante a 30ª Conferência das Partes. Foto de Ueslei Marcelino/COP30

Apoio às comunidades indígenas deu grandes passos

Apesar da indignação, a cimeira não esqueceu as comunidades indígenas. O Governo do Brasil anunciou, no Dia dos Povos Indígenas (17 de novembro), a assinatura de dez portarias de demarcação de terras indígenas, um passo histórico após anos de paralisação (não havia novas demarcações desde 2018). As medidas, assinadas pelo ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, em coordenação com o Ministério dos Povos Indígenas, reconhecem oficialmente territórios habitados por povos como os Tupinambá, Mura, Pataxó, Guarani-Kaiowá, Munduruku, Pankará e Guarani-Mbya, reforçando direitos territoriais e proteção cultural.

Joenia Wapichana, presidente da Fundação Nacional dos Povos Indigenas e Sonia Guajajara, Ministra dos Povos Indígenas do Brasil participam de cerimônia de assinatura da delimitação de terras com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas. Foto de Ueslei Marcelino/COP30

Com estas novas delimitações, o Brasil passa a ter 21 terras indígenas oficialmente reconhecidas desde 2024, num total de 117,4 milhões de hectares, cerca de 13,8% do território nacional — áreas essenciais para travar a desflorestação e a crise climática. Estudos da Apib, do IPAM e do CIMC indicam que ampliar as demarcações pode evitar até 20% de desflorestação adicional e reduzir 26% das emissões de carbono até 2030.

Adicionalmente, foi lançado o programa ‘Coopera+ Amazônia’, que investirá cerca de 17,3 milhões de euros para fortalecer a inovação de gestão e produtiva em 50 cooperativas extrativistas que atuam nas cadeias de valor do babaçu, açaí, castanha-do-pará e cupuaçu.

A iniciativa procura apoiar cooperativas em cinco estados da Amazónia Legal (Pará, Rondônia, Maranhão, Amazonas e Acre) ao longo de um período de 48 meses. «Esses recursos, nesta primeira etapa, agregarão valor, aumentarão a renda familiar, fortalecerão o cooperativismo na região e contribuirão para o combate às mudanças climáticas. Aproximadamente 3.500 famílias serão beneficiadas», afirmou o Vice-Presidente do Brasil Geraldo Alckmin.

 

Imagens: COP30 e Agência Brasil

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