O Dia Internacional da Literacia, assinalado a 8 de setembro desde 1967, sob alçada da UNESCO, continua a lembrar-nos que saber ler e escrever é o alicerce da cidadania, da justiça social e da autonomia. Entretanto, apesar dos progressos visíveis em Portugal, as desigualdades regionais persistem — entre o litoral urbano e o interior envelhecido.
Os Censos de 2021 registaram uma taxa de analfabetismo de 3,08%, uma queda face aos 5,22% de 2011 Instituto Nacional de Estatística. Ainda assim, este progresso não foi homogéneo. Em Lisboa, por exemplo, a taxa ronda os 2%, enquanto no Alentejo chega a 5,4%, duas vezes mais que a média nacional.
No interior rural — esse espaço silenciado — estas percentagens traduzem-se em ausência de bibliotecas, concreto numa escola, silêncio no centro de uma aldeia. E continuam a mostrar que, quando não se lida com o livro, também se falha na leitura do mundo.
Norte versus Sul: um país com ritmos distintos na escola
Os indicadores mostram que o abandono escolar precoce caiu para mínimos históricos: apenas 5,9% em 2023, conforme estatísticas da Direção-Geral da Educação. Contudo, esse valor disfarça as assimetrias regionais. No Norte, o abandono foi ainda menor — 4,1% — enquanto no Sul persistem fragilidades educacionais (Algarve e Alentejo).
A leitura funcional, que deveria ser uma ponte entre aprender e pensar, encontra contudo barreiras no acesso polarizado à escola, às bibliotecas, ao ensino de qualidade.
Além dos dados nacionais, há outro gráfico que escolhe não aparecer: aquele dos adultos analfabetos no interior. Estimativas indicam que, entre os 10 e os 64 anos, existem centenas de milhares com leitura precária — muitos invisíveis para as estatísticas oficiais.
Aqui, a luta pela literacia é dupla: contra o analfabetismo literal e contra a longa sombra do analfabetismo funcional — aquele que impede interpretar um texto ou compreender as notícias que nos chegam todos os dias.
Lápis, ecrãs… e conexão digital desigual
O tema de 2025 — ‘Promover a literacia na era digital’ — coloca o dedo num nervo vivo do país. As escolas mais remotas do interior muitas vezes não chegam a tempo ao mundo digital. E isso acentua uma distância que já era sócio- educativa, transformando-a em digital.
O desafio não é só distribuir tablets, mas ensinar a pensar com eles e garantir que os jovens de aldeias se inscrevem na esfera pública — com literacia, com voz, com sentido de cidadania.
Portugal já reduziu o analfabetismo mais do que muitos países europeus. Passamos de 25,7% em 1970 para 3,1% em 2021 como nos dizem dados do PORDATA. Mas os mapas mostram que o país ainda está riscado por fronteiras invisíveis — entre litoral e interior, Norte e Sul.
Se a leitura é direito humano, é tempo de levar a biblioteca ao centro de todas as aldeias, de garantir formação de adultos longe das capitais, de digitalizar com dignidade. Porque, sem literacia, não se lê apenas menos livros: não se lê o país.
