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Titiana Barroso

«Sou a capitã da minha vida. O navio é meu e só me afundo se quiser», diz Marta Leite Castro

1 Junho, 2021 by Titiana Barroso

Dos ecrãs da televisão a fundadora da plataforma online N 360, Marta Leite Castro aliou a sua experiência em contar histórias e a fazer entrevistas, ao crescimento do digital, na criação do conceito Business Stories – “If You have a Business, You have a story”, uma resposta para as empresas que queiram contar a sua história, customizando-a à medida do que pretendem.

Esta plataforma conecta as pessoas e os seus negócios, mostra a novidade, o sucesso, a inovação, o empreendedorismo e o pulsar do nosso País.

Paralelamente, apresenta o programa de televisão da RTP Internacional, Network Negócios, dedicado à economia, aos novos negócios e ao empreendedorismo, com exemplos de portugueses que se destacam internacionalmente nas mais diversas áreas, em busca dos segredos por detrás do sucesso.

A capacidade de transformação e adaptação à mudança foram alguns dos temas da entrevista conduzida por Francisco X. Froes (Consultor Executivo nas áreas de Liderança e Trabalho de Equipa), no âmbito de um projeto académico desenvolvido em conjunto com Miguel Pina e Cunha (Professor de Liderança da NOVA SBE e Diretor da revista Líder) e Arménio Rego (Professor da Católica Porto Business School e Diretor do LEAD.Lab) durante o período de confinamento em maio de 2020.

O que é que ouviste, quando e como?
Cheguei de Nova Iorque a 1 março, onde nem se falava do assunto, e tomei a decisão de reagir de forma preventiva, não saindo mais à rua. Ia ser a apresentadora do lançamento do Plano de Transição Digital, com o Ministro da Economia e o Secretário de Estado, e uma vez que não foi cancelado, resolvi ir sem máscara (não se usava), mas com álcool, e não iria cumprimentar ninguém com um beijinho.

Fiz as últimas entrevistas que tinha agendadas e resolvi não dar mais aulas, tal como não gravar mais e ficar em casa, coordenando tudo com os meus parceiros. Decidi recuar e perceber melhor o que aí vinha.

Ninguém estava preparado para a minha antecipação, o que me trouxe algum stress, pois senti que parecia mal ter receio de me expor, as pessoas não o compreendiam.

Tive também de negociar, como por exemplo, com a RTP, que percebeu a minha atitude de não me expor a um perigo desconhecido, mas a empresa que produz, tinha já gravações feitas para programas que não iam ser gravados nessa fase. Para quem, como nós, é prestador de um serviço, isso significa não faturar.

Que preparação prévia tinham? Improvisações?
A mudança profissional que tinha feito cinco anos antes impôs muito rigor e por isso, para além da minha experiência, senti que tinha preparação. Fiz muitos cortes e fechei-me em casa muito tempo a estudar, não sentindo por isso a diferença entre o meu dia-a-dia normal e a quarentena, tirando a parte do risco de saúde.

O vosso lema ajudou?
“Se tens um negócio, tens uma história. Deixa-me contar a tua história”. Há sempre uma maneira de contar uma história, seja em vídeo, TV ou fotos, e a vida, até à data de hoje, é feita de histórias. O COVID vai fazer parte da História. Estou ligada a tudo o que é história, a toda a atualidade. O meu lema não podia ser mais atual e milenar.


Primeiras reações e sentimentos?
Já falei das emocionais. Agora práticas: quantas faturas passei e quantas tenho que passar para estar meio ano em casa? Um pensamento que tenho: não devemos estar no fio da navalha quando falamos de negócios. Devemos ter uma almofada. Devemos ter sempre projetos em avanço. É o que eu faço.

Fiz todo o acompanhamento dos apoios do Governo, tanto com a minha contabilista como com o Grupo Your, para perceber as regalias e benefícios e pus o apoio à família para a minha filha mais nova, que é menor. O que interessa é o que não se perde, e não aquilo que não se ganha, e o que se vai fazer a partir daí para se ajustar ao momento da retoma. Há uma expressão que se enquadra na perfeição: “Durante a quarentena estávamos todos de paraquedas. A maneira como vais aterrar é que faz a diferença”. Não foi logo claro para mim, mas tinha a noção que precisava desse tempo e muita calma.

Decisões em real time?
De repente, abriu-se um novo mundo e transformei os meus projetos em novos formatos, como Podcasts, e com o canal SAPO como parceiro de negócio. Isto permitiu alargar a minha área de negócios, com uma grande oportunidade pois quando as coisas melhorarem vou continuar a moderar debates e apresentar eventos. Inspirei-me num atrigo do Bill Gates: “Tem um evento com sponsor? Reinvente-se. Faça um evento na sua tela”.

 Preocupações / alterações estratégicas a curto e médio prazo?
Voltar ao estúdio da RTP com todos os cuidados. Quis ganhar tempo para as pessoas se ajustarem e os mecanismos estarem mais oleados de forma a garantir maior segurança. Mal a minha equipa entrou em quarentena, pu-la a gravar para um cliente, colocando no ativo o que podia, não eu, pois estou sempre exposta e não podia estar com máscara, mas a minha equipa sim, desde que em segurança.

Criei um novo projeto, um podcast “Work at home”, com o pressuposto de que as pessoas não vão ter a mesma vida e as empresas vão realizar que gastam menos com as pessoas em casa. Eu desconfiava que o estilo híbrido iria perdurar e em alguns casos ficar. Isto é tema para dois anos, semanalmente. Já apresentei o projeto a duas empresas, vamos ver, se calhar são precisas 100.

Descoberta mais surpreendente?
Sou a capitã da minha vida. O navio é meu e eu só me afundo se eu quiser.

O que é que aprendeste. Qual a grande lição?
Mais do que aprender, validei uma série de coisas. A decisão que tomei de me tornar independente, ou seja, ter a minha produtora de conteúdos, senti que foi bem tomada. Também aprendi que quando estou a fazer uma coisa é melhor não estar a fazer 10. Aprendi que o foco em menos projetos não era tão redutor como eu pensava. Apesar do meu foco passar também por fazer bem, pela perfeição, sem dúvida que houve algo que eu tive de aprender que passou por me dedicar às coisas com o seu devido tempo e também tirar parte desse tempo para mim.


O que passas às tuas filhas, de 15 e 6 anos?
Coisas exigentes e boas ao mesmo tempo, como termos de nos aguentar quando é preciso e elas aguentaram-se muito bem. Tive um orgulho enorme nas minhas filhas.

Brincámos juntas, cozinhámos juntas. Lembrámos a minha mãe que morreu muito cedo, aos 43 anos, quem as minhas filhas nunca conheceram, mas ouviram e ouvem falar como se estivesse connosco. Nunca nos podemos esquecer do amor, do amor e do afeto mesmo quando estamos a trabalhar. Somos humanos e o amor humaniza-nos.

A Retoma, Cautelas, ideias, festejos?
Não ter grandes contactos/ eventos físicos e os que se tiverem que se tomem todos os cuidados e no restante usar o digital.

O COVID-19 numa palavra?
Oportunidade.

Arquivado em:Entrevistas

Da Walt Disney para a EDP. Catarina Barradas é a nova Diretora de Marca

31 Maio, 2021 by Titiana Barroso


Catarina Barradas é a mais recente aposta da EDP para gerir a estratégia global de marca da empresa. A juntar à larga experiência em empresas com dimensão multinacional, e em setores como as Telecomunicações e os Media, a profissional de marketing assume agora a liderança da Marca do grupo EDP, empresa presente em 20 países.

Formada em Engenharia Civil pelo Instituto Superior Técnico, Catarina Barradas, de 47 anos, iniciou o seu percurso profissional como projetista, mas acabou por trocar a engenharia por um percurso ligado ao multimédia: entre 1999 e 2001, estudou cinema em Nova Iorque, na American Film Academy, tendo trabalhado em vários projetos de cinema e como realizadora em publicidade. Em 2007, e já com dois filhos, Catarina Barradas integra a PT como consultora com foco na produção audiovisual.

Ao longo do percurso, continuou a apostar na formação, tendo feito um Executive MBA na AESE/IESE. O perfil e experiência profissional diversificada captaram a atenção da Fox Networks Group Portugal que, em 2015, a convidou para o lugar de Diretora de Marketing da empresa, que viria a ser adquirida pela The Walt Disney Company em 2019. Foi responsável pela estratégia de marca e comunicação de todas as marcas do Grupo, onde se incluem marcas como Fox, Fox Life, Fox Comedy, Fox Crime e Fox Movies, além da National Geographic, 24Kitchen, e mais recentemente a marca Disney.

O trabalho feito com estas marcas tem sido amplamente reconhecido com vários prémios internacionais e nacionais. Participou ainda na equipa executiva que reestruturou a estratégia e operação do grupo em Portugal, tendo ainda colaborado na definição da estratégia de um novo canal em Angola e Moçambique.

Mais recentemente, em setembro de 2020, foi responsável pela estratégia de Marketing para o lançamento da nova plataforma de streaming da Disney + em Portugal. Catarina Barradas é também vice-presidente da APPM, a Associação Portuguesa dos Profissionais de Marketing.

A entrada na EDP marca agora o início de uma nova experiência profissional e uma estreia no setor da energia. Vai liderar uma equipa com mais de 20 pessoas, que irá definir e executar a estratégia global de marca do grupo EDP, uma marca que é avaliada como uma das mais valiosas e reconhecidas de Portugal.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

O lucro, que horror

31 Maio, 2021 by Titiana Barroso

Lê-se e custa a acreditar que um ministro se exalta porque a Ryanair se preocupa com os lucros. É surpreendente que a ideia de lucro continue aparentemente a parecer uma coisa repugnante aos políticos que nos governam. Mas então uma empresa haveria de se preocupar com o quê? Obter prejuízos? Este ato hostil e interferente não só não faz sentido como tem o efeito perverso de tornar quase simpática uma empresa tão antipática como a Ryanair.

As práticas de gestão da Ryanair têm sido criticadas e com boas razões, mas o papel do Estado é gerir o que lhe compete e não andar a opinar sobre a gestão das empresas privadas. E se estas incumprem a lei, a resolução do problema cabe à justiça. Esta incapacidade de perceber que o domínio das empresas deve ficar a cargo da regulação e da lei e não das vontades ministeriais torna Portugal uma espécie de república bananeira onde conta menos o estado de direito que as vontades dos ocupantes de cargos políticos.

Por outro lado, e mais preocupante: os nossos políticos parecem continuar a considerar que o Estado existe numa espécie de combate maniqueísta contra as empresas e os capitalistas, essa associação de malfeitores. É um argumento que ajuda a explicar porque não saímos da cepa torta: enquanto tivermos de fazer um esgar de nojo à escuta da palavra “lucro”, estaremos condenados a distribuir pobreza porque riqueza é um resultado normalmente gerado pelas boas empresas. Será isto assim tão difícil de perceber?


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

A (não) Estratégia de Rio?

31 Maio, 2021 by Titiana Barroso

No chamado “congresso das direitas” recentemente realizado no nosso país, Rui Rio afirmou que “o PSD não é um partido de direita”. Sabendo que também não é um partido de esquerda, é um partido de quê?

Uma das coisas que sabemos em gestão é que estratégia tem a ver com escolhas. A estratégia é o caminho escolhido sobre “como” chegar onde se pretende, e tal implica necessariamente saber para onde se quer ir e como. Mesmo que se pretenda chegar a um público-alvo mais alargado, que inclua “targets” diferentes e heterogéneos, é necessário definir estratégias para cada um deles e ir conquistando um a um. Não escolher é normalmente receita para o desastre.

Um dos modelos de eficácia organizacional mais conhecidos na área da gestão, o chamado “modelo dos valores contrastantes” (do inglês “competing” values model), proposto por Robert Quinn e colegas, chama a atenção para isso mesmo, para a impossibilidade de valorizar tudo e todos. Daí o termo “competing values”. Podemos escolher fazer bem ou fazer depressa. Mas como diz o ditado, “depressa e bem…”. Dizer que não se é de direita nem de esquerda, liberal ou conservador, a favor ou contra algo, pode parecer confortável, mas pode também revelar uma ausência de estratégia que acabara, mais tarde ou mais cedo, por não atrair ninguém.

Mas note-se que Rui Rio também referiu que o PSD é um partido “do centro”. Será este o seu foco estratégico? Se assim for, Rio poderá demonstrar que afinal existe uma estratégia para o seu PSD. Resta saber se este “target” lhe trará o poder que tanto deseja. Um pouco por toda a Europa, e ao contrário de Portugal, existem há décadas partidos que se posicionam neste segmento do “centro”, mas são normalmente pequenos partidos que raramente conseguem afirmar-se como partidos políticos de “poder” e governação, provavelmente porque, como refeririam Robert Quinn e colegas, essa opção não é clara para os cidadãos eleitores e pode parecer apenas uma ausência de estratégia ou fuga à clarificação.

O tempo dirá, neste caso, se o modelo dos valores contrastantes necessita de remodelação e atualização, e se a (não) estratégia de Rio triunfará. Podemos achar o modelo dos valores contrastantes demasiado dicotómico e dialético, e achar que o mundo é mais complexo e paradoxal. Até à data, tem-se revelado um referencial muito prático e útil para quem realiza análise organizacional e social, mas como diria Kurt Lewin, o pai fundador da Psicologia Social moderna americana, “não há nada tão prático como uma boa teoria”. Esperemos então pelos próximos capítulos e pelo episódio final.


Por Miguel Pereira Lopes, Presidente do Centro de Administração e Políticas Públicas (CAPP) da Universidade de Lisboa

Arquivado em:Opinião

Fomos viajar pelo labirinto da evolução humana com Juan Luis Arsuaga

31 Maio, 2021 by Titiana Barroso

Reconhecido Cientista, Paleontólogo e um dos principais divulgadores de Ciência mundiais Juan Luis Arsuaga procura responder à mais antiga pergunta que assombra a Humanidade: porque estamos aqui?

A origem da vida e a evolução das espécies e do Homem é um tema que apaixona Cientistas, Filósofos e pensadores, numa busca constante de recolha de dados e informações acerca do passado para com isso traçar o futuro da Humanidade.

Há cerca de 4 mil milhões de anos a vida apareceu na Terra, mas como aconteceu? Foi um fenómeno improvável ou seria inevitável a nossa existência? E como irá avançar a evolução nos próximos tempos?

A partir de perguntas como estas, e das diversas respostas científicas que lhes têm sido dadas ao longo dos anos, Juan Luis Arsuaga tornou-se num reputado especialista na história do Homo sapiens e dos seus antepassados.


Capa da revista Nature, com a descoberta do crânio número 5, o mais completo do registo fóssil da Humanidade, o professor catedrático esteve em Lisboa na apresentação do seu recente livro Vida, a Grande História – Uma viagem pelo labirinto da evolução, da Temas e Debates, no Museu Nacional de Arqueologia.

É aqui que se encontra em exposição o crânio Aroeira-3, o mais antigo de Portugal e descoberto no complexo arqueológico do Almonda, em Torres Novas, em escavações lideradas pelo paleoantropólogo João Zilhão, também presente no evento, e cujos trabalhos de estudo e restauro foram realizados em colaboração com Juan Luis Arsuaga.

No momento em que se assinalam os 150 anos desde a publicação da segunda obra mais importante de Charles Darwin, A Origem do Homem (1871), o autor refere a importância de se perceber a beleza da vida, e de que apesar de todo o conhecimento que hoje existe, ainda há questões para as quais a Ciência não tem respostas.

Apaixonado pelo passado e contador de histórias, Juan Luis Arsuaga coloca o desafio pelas questões e reflexão sobre a evolução, da origem do cosmos à origem da vida.

“Sou um colecionador de perguntas”

Mais do que investigar e especializar-se numa única área, os cientistas devem ter uma perspetiva maior sobre as coisas, “voando mais alto” e fazer o exercício intelectual de ver para além do que está à sua frente. Está-se a perder a oportunidade de ver outras coisas e deve haver um “despertar para a vida” de forma consciente com a capacidade de examinar e manter um “espírito pelas questões interiores”. É pela reflexão consciente da vida humana que percebemos que estamos vivos.

“Nesta etapa da minha carreira científica, tenho cada vez mais perguntas e menos certezas. Sou um colecionador de perguntas.” Algo que o autor refere com prazer, pois essa é para si a atitude certa na Ciência – as perguntas fazem avançar o conhecimento.

Autoconhecimento e avanço científico

Na sua intervenção, João Zilhão, reforçou que apesar de haver menos certezas à medida que se avança na investigação, tal não significa que se saiba menos, uma vez que o conhecimento é um procedimento acumulativo. Cada vez que se responde a um problema, levantam-se novas questões e é dessa dinâmica que surge o avanço.

Hoje a Ciência evoluiu pelas questões, e sobretudo neste último ano, “transformou-se num debate constante e permanente entre diferentes perspetivas e é dessa confrontação de ideias que nasce o esclarecimento das principais questões e as soluções para os problemas.”

Numa interrogação sobre questões que estão à vista de todos, mas que não foram ainda feitas, a Ciência é atualmente uma atividade coletiva e internacional. A divulgação do trabalho científico, como o que tem sido feito nos últimos anos por Juan Luis Arsuaga, tem implicações na nossa vida, e na questão socrática “conhece-te a ti mesmo”, não só como pessoa, mas como parte da Humanidade.

O futuro do Homem

Apesar de a Paleontologia ser o estudo do passado, desde o tempo do Big Bang, aos dinossauros e vestígios do primeiro Australopithecus, Juan Luis Arsuaga refere a importância de agrupar todo esse conhecimento para se ir até ao futuro. Para que um dia o Homem possa viajar sem limites pelo Espaço, e compreender outras formas de vida, de espécies e de inteligência, é necessário o estudo de toda a evolução e isso faz-se através da Paleontologia – ou seja, projetar o futuro da existência só é possível com o conhecimento do caminho feito até agora.

Talvez daqui a muitos milhares de anos se diga que o século XXI foi um momento extraordinário, quando a espécie humana desenvolveu uma técnica que permite modificar e editar o seu próprio genoma, algo que o autor considera comparável à revolução do neolítico.

Desde o início da vida na Terra que o motor da evolução é a seleção natural, em que a genética vai-se modificando e as mutações favoráveis são selecionadas. Hoje, há um novo elemento que é a seleção artificial e por isso estamos a viver a “terceira grande revolução da história da Humanidade”, em que no futuro todas as espécies estarão mudadas geneticamente.

Acerca deste cenário evolutivo, João Zilhão, chama a atenção para as questões morais e éticas, em que a Ciência consegue resolver muitas coisas, “mas as decisões sobre o que se pode ou não fazer, não deve ser dos Cientistas, mas sim da comunidade e da sociedade”. Para a investigação científica impõe-se uma “certa humildade”, em aceitar os limites para aquilo que se pode ou deve fazer.

O COVID-19 é um vírus do século XXI

As ameaças infeciosas fazem parte da evolução da vida na Terra – vírus e bactérias existiram desde sempre na história da Humanidade e é graças a isso que o Homem desenvolveu um sistema imunitário. Os agentes patogénicos são parte da evolução, e condicionam a progressão das espécies, através da seleção natural. Segundo o autor, o progresso pode ser visto como uma “corrida ao armamento”, numa alusão ao fenómeno da guerra fria, em que um país procura armar-se com o intuito de se proteger contra outro, em que o paralelismo é feito entre o Homem e o vírus.

Hoje, há predadores e presas, parasitas e agentes patogénicos – e este conjunto da evolução é o resultado de várias corridas aos armamentos. O Homem vai ganhado competências e capacidades ao longo da sua evolução e o sistema imunitário é diferente de há 100 anos. É uma escalada que diz que “quanto mais moderna é uma espécie, melhor” – será? Na sua visão, isso pode ser verdade no campo tecnológico, em que a tecnologia humana é sempre melhor – e na Biologia? Pode-se dizer que qualquer espécie atual é superior a uma espécie do passado? A evolução é uma competição entre agentes biológicos e outros, como os agentes climáticos, explicando por isso que as espécies estão adaptadas ao seu clima e ao seu tempo.

Relativamente à presente crise pandémica, o autor refere que “esta Pandemia é um produto do ano 2020 – este é um vírus perfeito para o século XXI, que não teria funcionado tão bem no século XX”, pela forma como vivemos, em grandes concentrações e como nos deslocamos à volta do globo. Para que um evento exterior produza o colapso de uma sociedade tem de ter um período de recorrência curto, ou seja, na sua opinião, não existe uma ameaça à vida humana se existir uma Pandemia de 100 em 100 anos, mas se ela se tornar frequente isso já seria alarmante – “há que evitar um novo coronavírus nos próximos cinco a 10 anos”, afirma.

Por Rita Saldanha

Arquivado em:Ciência, Notícias

Líderes histriónicos!

31 Maio, 2021 by Titiana Barroso

Na nossa história evolutiva o caminho para o poder tem sido pavimentado por duas estratégias de liderança essenciais: a dominação (mais antiga) e o prestígio (mais recente).

Na primeira, o líder usa a força, a intimidação e a coerção em situações grupais, ou evoca  ameaças reais ou imaginárias ao grupo, convencendo-o de que ele, e só ele, é capaz de o defender. É assim que é escolhido, o chamado “líder guerreiro”.

A preferência por este tipo de líderes (autoritários, agressivos, com necessidade constante de atenção e com comportamentos excessivamente dramáticos), tende a aumentar quando aumenta a perceção da incerteza e de ameaças por parte de um grupo num dado ambiente ou circunstâncias. Porquê? Porque quando os indivíduos se sentem ameaçados e com um sentimento de falta de controlo das suas vidas ou de escassez de oportunidades, tendem a acreditar e a favorecer estes líderes, como alguém capaz de “mostrar o caminho” para lutar contra as ameaças percebidas, criando assim a ilusória sensação de proteção.

Os líderes histriónicos exercem o poder oscilando entre a agressividade e o exibicionismo através da intimidação, da mímica, da ameaça e da reiteração, por vezes histriónica também, da sua presença e, sobretudo, da sua importância, promovendo a submissão dentro do grupo. Para os que aceitam a dominação trata-se de minimizar as perdas através de comportamentos de evitação de confronto, oposição ao líder, complacência, bajulação, ou simplesmente pelo prazer de servir alguém considerado socialmente importante. Ou tudo isto ao mesmo tempo!

É comum a estes líderes apresentarem traços de personalidade considerados subclínicos (border line), que se caracterizam pela agressividade e a manipulação, caindo facilmente na chamada “tríade negra da liderança”[1] e chegam mesmo a encarar os membros do grupo ora como aliados, ora como inimigos, eliminando-os se necessário.

Então, por que razão alguém quererá seguir um líder histriónico? Essencialmente, porque aos olhos dos grupos humanos que se sentem ameaçados, estes líderes parecem mais atrativos do que os traços de um líder que baseia o seu comportamento no prestígio e no reconhecimento. A agressividade e mesmo a obsessão pelo poder parecem ser atrativas em certas circunstâncias, pelo menos para certos grupos de seguidores.

Não é surpreendente que os líderes dominadores, com um perfil histriónico, continuem a fazer parte da coreografia no mundo empresarial, no desporto ou na política. Sempre que há retrocessos no progresso social e estados de crise acentuada, os líderes dominadores e autoritários tendem a ser selecionados e dá-se aquilo a que chamei noutro local, uma «regressão evolutiva».[2]

Em resumo, tudo nos incita a acreditar que isto faz parte da nossa natureza, porém, se tivermos consciência disso, podemos mais facilmente tentar controlar e contrariar as nossas tendências mais profundas que nos podem levar a escolhas (tão) erradas no domínio da liderança. Afinal, bons líderes salvam vidas, maus líderes…matam!


Por Paulo Finuras, PhD Prof. Associado Convidado no ISG Business & Economics School

[1] Nomeadamente, maquiavelismo, narcisismo e psicopatia. Vd. Finuras, P. (2018). Bioliderança: por que seguimos quem seguimos? Edições Sílabo.

[2] Vd. Finuras (2018).Bioliderança. Ed. Sílabo.

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