Liderou o projeto do “campus” da Nova SBE em Carcavelos, onde foi Professor de Finanças, e no verão de 2020, em plena Pandemia, abriu a escola de programação, Escola 42, no bairro lisboeta de Penha de França. Na Escola 42 não há professores, nem horários ou propinas e foi recentemente reconhecida entre as 10 primeiras […]
Liderou o projeto do “campus” da Nova SBE em Carcavelos, onde foi Professor de Finanças, e no verão de 2020, em plena Pandemia, abriu a escola de programação, Escola 42, no bairro lisboeta de Penha de França. Na Escola 42 não há professores, nem horários ou propinas e foi recentemente reconhecida entre as 10 primeiras instituições no ranking Global Top 100 Innovative Universities e o primeiro lugar no Top 50 – Ethical Value. Doutorado em Gestão pelo INSEAD, Pedro Santa Clara partilhou as suas lições da Pandemia e os seus receios como a falta de pensar, de vontade de discutir e envolver as pessoas.
A entrevista foi conduzida por Francisco X. Froes (Consultor Executivo nas áreas de Liderança e Trabalho de Equipa), no âmbito de um projeto académico desenvolvido em conjunto com Miguel Pina e Cunha (Professor de Liderança da NOVA SBE e Diretor da revista Líder) e Arménio Rego (Professor da Católica Porto Business School e Diretor do LEAD.Lab) durante o período de confinamento em maio de 2020.
O que é que ouviste, quando e como?
A Shaken é uma empresa que faz projetos com impacto social na área da educação, entre os quais a 42 Lisboa. No princípio de março, passámos a trabalho remoto sem grande dificuldade uma vez que toda a infraestrutura da empresa estava já na cloud e estávamos habituados trabalhar em projetos à distância. Não houve grande interrupção nos processos correntes, mas é mais difícil coordenar todo o trabalho necessário para lançar novas iniciativas.
Qual o vosso logo, tema em termos culturais?
(Empowering Future Generations) Estamos muito virados para a educação, numa lógica de pensar em novos modelos, promover soluções inovadoras para a educação e empoderar as gerações futuras.
Reações e sentimentos?
Uma das coisas que fiz e tenho feito desde aí foi passar a ter um papel muito mais interventivo na sociedade, através de várias iniciativas: desde escrever artigos de opinião, intervenção nas redes sociais e ter promovido uma carta assinada por quase 400 pessoas para o Presidente da República, Primeiro-ministro e Presidente da Assembleia a propor a reabertura da economia com uma série de medidas de proteção. Acho que nestas alturas temos o dever moral de ter uma intervenção cívica, e talvez isso tenha sido a alteração maior no meu dia-a-dia: menos reuniões presenciais e muito mais trabalho.
Como reagiram o Presidente da República e o Primeiro Ministro a essa carta?
Tivemos um proforma em que o Primeiro-ministro disse que tinha a reenviado à Ministra da Saúde. O Presidente da Assembleia da República disse que tinha enviado aos grupos relevantes, o Presidente da República não respondeu.
Ainda que formalmente não tivesse tido resposta, na prática teve um grande impacto. Marcou o início da discussão destes temas e hoje em dia quase todas as medidas que preconizávamos estão a ser aplicadas ou discutidas. Mas é uma reação pouco frontal: ignorar a carta mesmo que acabemos por adotar muito do seu conteúdo. Há falta de vontade de discutir e envolver as pessoas, e isto preocupa-me muito porque o envolvimento da sociedade é fundamental em Democracia.
Preocupações estratégicas a curto e médio prazo?
A longo prazo a missão da empresa sai muito reforçada pois a crise realçou a importância da educação e do desenvolvimento de pessoas. E as áreas digitais tornaram-se ainda mais urgentes do que já eram. Agora a curto prazo surgem dificuldades acrescidas a este tipo de projetos como uma sociedade que se irá tornar mais pobre durante muito tempo.
Como é que isto vai reequilibrar a hard part e a soft part?
Esta é uma empresa que é toda soft (risos J). Temos um escritório pequeno em que não há lugares marcados, trabalhávamos à volta de uma grande mesa e agora trabalhamos remotamente. Eu sou um grande fã de tudo o que é tecnologia e modelos de colaboração, mas continuo a achar que não há substituto para a presença física.
Descoberta mais surpreendente?
Assistir a medidas políticas sem precedentes e, a parte que mais me incomoda, a um conformismo, uma falta de debate e uma uniformidade de opinião que não entendo e me deixa desgostado. Há aqui uma falta de vontade de pensar, vejo os direitos liberdades, e garantias a terem um abalo com não há memória neste país. Nem sequer há uma discussão crítica, uma vontade de participar. Há uma acefalia coletiva que me deixa preocupado. Acho que estamos a regressar assustadoramente ao Estado Novo. Vejo uma infantilização das pessoas pelo governo mas também a facilidade com que as pessoas se deixam infantilizar. As duas coisas acho aflitivas.
O que é que aprendeste como gestor, pai de família?
Aprendi que a nossa sociedade é muito frágil. Não tirando a gravidade desta epidemia, isto é um pequeno abanão, não é uma guerra, não é uma grande epidemia, não é um grande tremor de terra, não é uma catástrofe. Mas como um pequeno abanão põe em causa tantas coisas que nós damos como adquiridas. Preocupa-me esta vertente de falta participação cívica.
O que passas aos teus filhos?
Temos falado muito destas coisas. Intervenção e responsabilidade coletiva. Os meus filhos já são crescidos, têm participado muito.
O COVID-19 numa palavra?
Medo. Não meu, mas no geral. Aflige-me porque o medo é muito mau conselheiro. Leva ao conformismo. Esta história do “vamos ficar em casa para achatar a curva” é ainda mais tremenda de passividade. Não é vamos ficar em casa a escrever um livro, a aprender qualquer coisa ou vamos ser criativos e contribuir de alguma maneira. Não, é ficar em casa para achatar a curva. Acho uma mensagem lamentável.


