O que a novela Anjos vs. Joana Marques nos ensina sobre liderança? Mais do que possa parecer. A expressão “bobo da corte” tem, frequentemente, uma conotação negativa. Nessa aceção, o bobo da corte é o bombo da festa, o palerma de serviço, aquele que se presta ao ridículo. É, digamos, o bobo tipo 1. Mas, […]
O que a novela Anjos vs. Joana Marques nos ensina sobre liderança? Mais do que possa parecer. A expressão “bobo da corte” tem, frequentemente, uma conotação negativa. Nessa aceção, o bobo da corte é o bombo da festa, o palerma de serviço, aquele que se presta ao ridículo. É, digamos, o bobo tipo 1. Mas, em tempos idos, o bobo da corte era alguém “insanamente inteligente”, capaz de empregar “subtis e sofisticadas” formas de crítica dirigidas ao poderoso. Este bobo, tipo 2, além de divertir a corte, criticava-a, sem receio de ser punido – pois a crítica era feita sob o manto da paródia e a corte não se sentia intimidada (verdade seja dita: a brincadeira saiu cara a alguns bobos!). O poderoso saía da bolha, tomava algum contacto com a realidade, ficava mais imune às intrigas da corte – e assim se tornava mais propenso a refletir sobre as suas decisões. Ricardo Araújo Pereira referiu o seguinte numa entrevista concedida em 23 de fevereiro de 2019:
“A rainha Vitória (…) exigia que o seu bobo fosse muito violento com ela. Quanto mais destrutivas fossem as piadas mais impassível ela ficava. (…) E era uma das maiores provas do seu poder. Podia dar-se ao luxo de ter um tipo que a destratasse diante da corte e ficava imune. Normalmente a posição dos ditadores é a contrária, o melhor é calar.”
Outro exemplo histórico de como a paródia era usada para transmitir verdades inconvenientes ao poderoso é o do bobo da corte de França que teve de relatar ao rei Filipe IV (reinou entre 1285 e 1314) uma derrota esmagadora sofrida pela frota real francesa. O bobo começou por chamar a atenção do rei gritando repetidamente “Aqueles cobardes ingleses! Aqueles medrosos ingleses”. Solicitado pelo soberano a explicar, o bobo respondeu: “Eles nem sequer têm coragem para se atirar na água como os nossos valentes franceses!” Foi assim que o soberano se deu conta de que perdera a batalha.
A figura do bobo da corte ajuda-nos a compreender a importância do humor na liderança. Mais prosaicamente: a importância de os líderes terem capacidade de encaixe. Não será por acaso que líderes autoritários tendem a detestar piadas. Alguém imagina Putin a encaixar uma brincadeira “séria”? Algum membro da sua corte terá coragem para assumir o papel que o bobo outrora exercia sobre o soberano? E o que ocorreria se um súbdito de Kim Jon-un se atrevesse a parodiar sobre o regime norte-coreano e seu líder? Pensemos em líderes políticos portugueses. Quais os mais autoritários? Quais têm maior poder de encaixar a paródia que lhes é dirigida? Quais os mais capazes de se rirem de si próprios? Líderes autoritários são revestidos de uma camada psicológica composta por arrogância e narcisismo. As piadas certeiras podem ferir os seus egos – por vezes grandiosos, outras vezes vulneráveis. A estrutura psicológica desses líderes não lhes permite encaixar a piada, pois esta remete-os para uma posição de normalidade que não se compagina com a sua autoimagem de pessoas superiores ao comum dos mortais. Esses líderes podem até rir-se dos outros, mas são incapazes de se rirem com os outros.
Um exemplo histórico de líder com grande sentido de humor e poder de encaixe é Abraham Lincoln. O 16º presidente dos EUA (1861-1865) continua a emergir em vários estudos de opinião como o presidente preferido por uma maioria de americanos (para se compreender porquê, leia-se o livro colossal “Team of Rivals”). Lincoln era um incansável contador de histórias. Recorria ao humor para quebrar o gelo e lidar com adversidades. Inúmeras vezes fez uso das mesmas, incluindo em eventos e discursos de grande formalidade. Mas Lincoln era igualmente dotado de uma combinação paradoxal de humildade e autoconfiança que lhe conferia grande poder encaixe. Conta-se que Edwin Stanton, o membro do seu governo com a pasta da defesa, terá comentado que Lincoln era um “grande idiota” por ter tomado uma dada decisão. Quando um congressista deu conta do comentário a Lincoln, este perguntou-lhe: “Stanton disse mesmo que eu era um idiota?” O congressista terá respondido: “Sim, e repetiu”. Reza a história que Lincoln terá retorquido: “Se Stanton disse que eu era um idiota, então devo sê-lo, pois está quase sempre certo e normalmente diz o que pensa. Vou passar por cima disso e encontrar-me com ele”. Quando Lincoln procurou Stanton, este persuadiu-o de que a decisão era errada – e Lincoln reconsiderou. Lincoln ria-se com os outros, não se ria dos outros.
Termino com duas perguntas. Primeira: que tipo de líder é o seu? É alguém capaz de se rir de si próprio e com os outros? Segunda: na novela Anjos vs. Joana, quem tem exercido os papeis de bobo da corte tipo 1 e tipo 2?

