Certo domingo, pela manhã, durante o conturbado período da Guerra de Secessão nos EUA, o Secretário de Estado de então, William Seward, entrou de rompante no gabinete do Presidente Lincoln. Estava agitado e preocupado com os ataques da imprensa britânica. Orville Browning, então senador, estava a tomar chá com o presidente e desvalorizou as preocupações de Seward. Insistiu que a Inglaterra “não faria uma coisa tão tola” como declarar guerra aos EUA. Lincoln, mais cético, contou a história de um famoso e feroz bulldog da sua terra-natal. Os vizinhos convenceram-se de que nada havia a temer. Mas um homem sábio fez a seguinte observação: “Sei que o bulldog não morderá. Vocês sabem que ele não morderá. Mas saberá o bulldog que não morderá?”
Esta pergunta terá emergido na mente de Angela Merkel quando, em 2001, Putin se dirigiu ao parlamento alemão. Acanhado e aparentemente humilde, o líder russo exprimiu, num alemão perfeito, o desejo de desenvolver laços com o Ocidente. Garantiu que as duas nações estavam do mesmo lado. Afirmou que “a ideologia totalitária estalinista já não podia opor-se às ideias de liberdade e democracia”. E acrescentou: “A Rússia é uma nação europeia e amistosa”. Os deputados levantaram-se e aplaudiram entusiasticamente. Mas a futura chanceler, na segunda fila do hemiciclo, com ar sério, não se levantou e quase não bateu palmas.
Nascida na Alemanha de Leste e ciente da tirania soviética, Merkel estava ciente de que o cérebro de um agente do KGB não se reconfigura facilmente. Sabia que o bulldog não sabia que não morderia. Madeleine Albright, ex-Secretária de Estado da Administração de Bill Clinton, que visitara Putin em 2000, também o sabia. No encontro, deu-se conta de que o autocrata falava, sem emoção, sobre a sua determinação em ressuscitar a economia russa e extinguir os rebeldes chechenos. Regressada a casa, escreveu que Putin “é tão frio que chega a ser quase reptiliano. (…). Está envergonhado com o que ocorreu ao seu país [colapso da URSS] e determinado a restaurar a sua grandeza”.
O bulldog, tirano e vértice de uma cleptocracia, atacou, mordeu e continuará a matar. E outros bulldogs continuarão a morder, com o beneplácito perigoso de figuras sem pudor, sem remorosos e sem alma. Quando Putin reconheceu a independência das autoproclamadas repúblicas de Lugansk e Donetsk, Trump afirmou que o autocrata russo “é muito esperto” e elogiou a sua “jogada de “génio”. Sugeriu que estratégia similar poderia ser usada pelos EUA na fronteira ao Sul – ou seja, com o México, para evitar que “milhões de vagabundos” entrassem nos EUA. Pouco depois, receoso da perda de apoio entre a sua base republicana, lamentou a invasão da Ucrânia e denominou o seu presidente como “valente”. Ao mesmo tempo, referiu-se aos líderes americanos como “idiotas”. Afirmou ainda que, se a eleição não lhe tivesse sido roubada, nada do que está a acontecer ocorreria sob a sua presidência. A ideia de que Trump liderou os EUA e se prepara para se recandidatar ao cargo é assustadora. Não porque Trump seja perigoso – que o é – mas porque é apoiado por milhões e milhões de seres humanos que alinham pela mesma bitola ou subestimam os perigos deste tipo de liderança para as liberdades, as democracias e a dignidade da pessoa humana.
Quando procuramos compreender os comportamentos dos líderes (e das pessoas em geral), tendemos a imaginar o que faríamos se estivéssemos no lugar deles. Todavia, este é um exercício votado ao fracasso quando estamos a lidar com lideranças psicopatas. O líder psicopata é, na condição menos perversa, indiferente ao sofrimento dos outros. É desprovido de empatia. Na condição mais maligna, obtém prazer do sofrimento dos outros. Instrumentaliza-os enquanto lhe são úteis e logo os descarta. Socorre-se de todos meios, incluindo a persuasão e a sedução, para progredir na escada do poder. E, quando alcança o topo, revela a sua natureza em toda a sua amplitude. Mordendo quem o contraria, fica rodeado de espécies da mesma matilha. As suas decisões tornam-se ainda mais perigosas. Putin está a demonstrá-lo à saciedade. A vida empresarial, terreno competitivo e por vezes feroz, não é imune a este perfil de liderança.
No nosso mundo “privilegiado”, habituados à paz e ao exercício das liberdades, tomamos como adquirido que o mundo caminha para um futuro melhor. Baixamos as nossas guardas perante os perigos. Ignoramos que a natureza humana é dotada da bondade, mas também da maldade. Somos anjos – e grandes bestas. Agora que o bulldog voltou a morder, deixamos de ter desculpas para a nossa ingenuidade. Podemos, no entanto, fazer algo mais do que manifestações. Se me permite: faça um donativo à UNICEF. Mitigará o inacreditável sofrimento de crianças.
Em tempo de Pandemia, “na prática (…) o grande desafio foi conseguir duplicar em casa condições muito semelhantes das que tínhamos no escritório”, revelou Pedro Coelho, Area Category Manager da HP Portugal, na sessão “Make hybrid work, work”, do