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Denise Calado

Corpo e Alma em defesa da nossa Liberdade

1 Março, 2022 by Denise Calado

(Dušu j tilo my položym za našu svobodu, Hino Ucraniano)

 

É impossível deixar de citar Erich Hartmann nos dias que correm. Afinal, é importante voltarmos todos a relembrar que as guerras são “o lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam entre si, por decisão de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam”. Sabemos que esta é uma frase de redenção, um pedido de perdão de alguém que teve uma carreira militar ao serviço de um regime criminoso. E sabemos, também, que velhos eram estes. Eram os Líderes.

 

Hoje multiplicaram-se as palavras duras e as críticas severas por parte da maioria das individualidades políticas e diplomáticas. Porém, as palavras de hoje não podem ser apenas retóricas adequadas ao momento, uma vez que a liberdade e a defesa dos direitos humanos devem ser a prioridade máxima, sempre e acima de tudo.

 

A retórica de hoje de nada serve, se pensarmos que estas individualidades e lideranças não impediram que Putin – desprezando, completamente, todos os apelos à Paz e à Diplomacia – tenha tido caminho aberto para planear, organizar e estacionar os seus exércitos ao longo das fronteiras ucranianas e tenha posto em prática as suas ambições de autocratismo imperialista na passada madrugada de 24 de fevereiro.

 

Os discursos que agora se repetem em exposições de solidariedade para com o povo ucraniano, não são reflexo das atuações de liderança que, não tendo sido tomadas, não impediram Putin de preparar os exercícios militares massivos na fronteira da Ucrânia com a Bielorrússia; nem impediram Putin de reconhecer a independência dos territórios separatistas nas províncias de Luhansk e Donetsk, numa atitude de absoluta violação do direito internacional e da soberania ucraniana.

 

Parece-me tão óbvio, quanto assustador, que Putin não vai ficar por aqui pelo que, o momento de hoje já não é o da retórica, tem de ser o da Ação:

 

  • Ação Humanitária: todo o apoio que seja necessário ao povo ucraniano que necessite de auxílio ou refúgio, bem como, apoio total a toda a comunidade ucraniana, residente em Portugal;
  • Ação Económica: apoiar todas as decisões sobre as sanções drásticas à Rússia, independentemente de as mesmas poderem vir a ter impactos económicos em Portugal;
  • Ação Militar: reforçar a aliança e asseverar que as nações democráticas estão unidas e alinhadas para atuar de forma indúctil, caso haja a mínima hipótese de ameaça a um dos parceiros da NATO ou da União Europeia.

 

É por isso crítico relembrar três pontos:

  • Em 2019 Vladimir Putin afirmava que o liberalismo se havia tornado “obsoleto” e dizia ele que as ideias liberais sobre refugiados, imigração e questões LGBT estavam já a ser “fortemente” combatidas pela “esmagadora maioria” da população. No que toca ao meu país, fico feliz que as últimas eleições de 2022 tenham mostrado a Putin o quão estava errado;
  • Na realidade, Putin tem medo de que o seu povo perceba que a democracia liberal é o único sistema político que lhes pode trazer mais prosperidade e uma vida melhor e o exijam, depondo o atual regime autocrático. Os crescimentos das democracias liberais às suas portas comprovam, de dia para dia, que os governantes russos falharam, clamorosamente, o desenvolvimento económico do seu país, que hoje tem um PIB per capita que é menos de metade do português, enquanto outros Estados vizinhos que adotaram a democracia liberal e políticas liberais são hoje mais ricos do que Portugal e proporcionaram ao seu povo melhores condições de vida com mais liberdade individual, pelo que, a agressão expansionista é uma tentativa desesperada de Putin, para manter o poder;
  • Os inimigos da Democracia e da Liberdade estão presentes em todos os extremos do hemiciclo português, não só no extremo direito, mas igualmente no extremo esquerdo onde, infelizmente, ainda figuram partidos políticos que não se coíbem, e muito menos se envergonham, de manifestar o seu apoio às ações imperialistas da Rússia e ao perfil autocrático de Putin.

 

A agressão russa é um ataque feroz aos valores da democracia liberal. Dito isto, só há uma conclusão a tirar: quem acredita que a democracia liberal está obsoleta acaba por agir em conformidade e abre guerra, não só às liberdades individuais, bem como, ao Estado de Direito e Democracia, e por fim, aos direitos humanos.

 

Este é um momento em que não podem existir hesitações das lideranças democráticas: o lado certo é o lado da democracia liberal e de todos os povos que a ambicionem e lutem contra quem a quer reprimir usando violência de Estado ao serviço dos interesses da sua classe política.

 

#StandWithUkraine

 

Por Vânia Guerreiro, Diretora de Marketing e Comunicação da iServices

 

Arquivado em:Opinião

O lado destruidor da liderança – Destruir não é desconstruir!

28 Fevereiro, 2022 by Denise Calado

Existe um lado perverso da liderança que muitas vezes é menos considerado nas abordagens que fazemos sobre o papel dos líderes na mobilização das suas equipas tendo em vista o atingimento de determinados resultados. Refiro-me concretamente a algo que poderíamos quase designar de modelos de “auto proclamação da verdade”, das suas verdades, que não são mais do que a sua visão do mundo, com as suas lentes mais ou menos ajustadas e atualizadas em face do contextos, e, bem assim, do desejo do protagonismo de concretização efetiva dessa sua verdade – que, como sabemos, não é mais do que a sua interpretação sobre a tal realidade com as lentes e as suas eventuais limitações ou dificuldades de visão.

Efetivamente, no cerne da questão, e na minha opinião, está uma enorme confusão entre os conceitos de “Destruir”, independentemente de eventuais “bondades” de visão e abordagem sobre a necessidade de romper com algo que na sua visão se apresente como nefasto ou indesejável tendo em vista os tais objetivos preconizados por si e que só são visíveis com as lentes de posicionamento ou as eventuais deficiências ao nível da visão, com o conceito de “Desconstruir”, que é algo bem diferente!

Entendo que muitas das ações com impactos negativos, com extensão prolongada no tempo nas sociedades e no mundo em geral, têm a ver com uma tentativa de intervenção e mobilização por parte de lideranças exercidas sob a “capa” de eventuais intenções (mais ou menos ocultas ou assumidas) de “desconstrução” de uma realidade que, afinal, é apenas a sua. “Desconstruir” conceitos, modelos ou ideologias deveriam ser, na verdade, uma oportunidade incrível de pôr em causa determinados preconceitos, valores ou até crenças, com reais intenções de crescimento e desenvolvimento dos grupos, das sociedades e do mundo. Uma real “desconstrução” implica uma visão multifocada, voltada para um eficaz conhecimento e compreensão de “cada uma das peças” envolvidas, bem como da real importância de cada uma destas no quadro de um mundo visto com lentes variadas, e voltada para uma (re)construção com um foco na agregação de valor, na cooperação efetiva e numa lógica de modelo de liderança agregadora, construtora e fortemente apostada numa apropriação de sentido de diversidade cognitiva.

Pelo contrário, assistimos hoje a uma liderança com efetiva aposta numa lógica de “destruição”, impondo apenas o seu olhar e a sua visão do mundo e que quase sempre está fortemente movida por uma lógica de ação individualizada e egocêntrica. Este modelo que (quase) poderemos apelidar de “liderança destruidora” está movida por crenças e valores unilaterais, que fomenta o contrário de diversidade e que, nessa lógica de unicidade pretende impor uma “verdade” que só o próprio consegue enxergar.

A forte vocação de determinar, mais do que inspirar ou influenciar, corresponde à célebre “cereja no topo do bolo” desta liderança cuja pegada deixada é de elevado grau de “destruição” e que, infelizmente, faz desacreditar no papel das lideranças para um mundo melhor e de necessidade de (re)construção permanente, e traz à luz do dia o lado negro “destruidor” de uma certa liderança.

Não podemos ficar indiferentes quando prevalece uma intensa ação de “destruição” resultante da tal visão desfocada do mundo por parte de uma “liderança destruidora” e certamente sentir-nos-emos mobilizados para apelar a uma “liderança (des)construtora” que sendo capaz de desmontar a realidade, de forma agregadora, continua a acreditar num modelo inspirado e inspirador que produza uma pegada de construção e integração de um mundo multifocal e melhor para todos.

 

Por Pedro Ramos, CEO da Keeptalent Portugal

Arquivado em:Opinião

A Liderança do agora

28 Fevereiro, 2022 by Denise Calado

Ao longo do dia de hoje já escutei por várias vezes afirmações como “agora que conseguimos lidar com a pandemia Covid-19, eis que também temos de lidar com uma guerra na Europa”. A questão, se me permitem, é bem maior que isto. Não se trata de nós termos de lidar com a situação. Este tipo de pensamento é redutor, egoísta se me permitem. Estamos todos à espera do impacto, e a assistir às imagens horríveis que passam na televisão. Não nos passa pela cabeça como é que os cidadãos da Ucrânia se possam estar a sentir. Há momentos vi uma imagem arrepiante de uma mulher completamente sem rumo no meio da rua, a gritar que não tinha para onde fugir. Acredito que essa imagem nunca mais me vai sair da cabeça. Mas, mais uma vez: não é sobre mim, nem sobre o leitor. É sobre algo bem maior.

Esperamos assim que a Liderança Mundial chegue a um acordo, pela paz, pelas pessoas. Sim, porque liderar agora, no âmbito político, tem que ver com pessoas. Ou melhor: devia de ter que ver com pessoas… Mas a verdade é que outros “valores mais altos” se levantam, no meio desta triste realidade. Perdem-se vidas, destroem-se famílias. Temos “déjà-vus” que nos arrepiam a espinha, de situações passadas, mas que pelos vistos de nada serviram, dado que estamos a passar por algo parecido. Como é possível que os nossos Líderes tenham permitido isto?

A paz encontra-se nas mãos de Líderes mundiais, uns com boas intenções, outros apenas com interesse louco e descabido. Um ego em limites, que foi alimentado sem darmos conta disso. É isto que me assusta: o nosso destino está nas mãos de pessoas em quem decidimos confiar, mas que agora nos permitem questionar se realmente merecem a nossa total confiança. Falo em nós porque olho para as pessoas como um todo. Somos iguais. Aqui, na Ucrânia ou na China.

A liderança tem que ver com pessoas. As pessoas estão a sofrer. Será que a verdadeira liderança, no verdadeiro sentido da palavra, está a ser devidamente aplicada? Sejamos todos líderes, com uma causa comum. Se somos capazes? Tenho a certeza. Em “equipa” vamos muito mais longe. Dizemos esta afirmação nos mais diferentes contextos de liderança, e depois esquecemos de a implementar nestas alturas. Eu, você, todos nós, somos líderes. Sejamos também nesta causa comum, que é a recuperação da paz. Infelizmente já não se trata de agir preventivamente. Passou de ser algo importante a algo urgente, e quando assim o é, na minha opinião, é sinal de má gestão.

Rezemos pela Ucrânia, e por todos nós. Que alguma força divina nos traga a capacidade de liderança que o mundo precisa. Todos somos um activo nesta equação. Todos temos o dever de não permitir que a História se repita.

Por Mafalda Almeida, Executive Coach & Mentor,  CEO Rising Group

 

Arquivado em:Opinião

Valores: a prova do século

27 Fevereiro, 2022 by Denise Calado

Começou aquele que pode ser o grande conflito global deste século. Estamos a falar de guerra. Acabados de sair de dois anos de guerra pela saúde pública, combatendo uma das mais ferozes pandemias de que há memória, eis que nos vemos, perplexos, a assistir ao eclodir da mais injustificável invasão de um país soberano por uma grande potência em decadência, num grito de conquista imperialista como já não nos lembrávamos.

Na verdade, já poucos restam vivos que tenham memória do que foi o grande conflito do século passado – a II Guerra Mundial. É assim para as gerações atuais uma prova decisiva aquilo que vamos viver. Um teste de fogo para as lideranças mundiais, nascidas num contexto de paz e prosperidade que foi posta em causa por um líder sem valores, que joga um jogo sem regras para fazer valer a sua agenda pessoal. Uma agenda pessoal que passa não só por acumulação de poder como por uma ambição desmedida de acumulação de riqueza. Vladimir Putin, um dos líderes com maior fortuna pessoal acumulada é, segundo algumas opiniões, um líder capaz de criar um conflito armado para poder beneficiar da aquisição de participações acionistas compradas em baixa, de forma a posteriormente as vender em alta, com enormes mais-valias especulativas. Um líder sem valores. Um perigo inaceitável para a civilização como a conhecemos e para o futuro que aspiramos.

Ao contrário do que Neville Chamberlain pensava quando tentava negociar com Hitler, a paz não é um fim em si mesmo. É o caminho que devemos tentar alcançar sempre, desde que os valores fundamentais da nossa civilização não sejam ameaçados. Os valores da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. E sempre que estes valores são ameaçados, as lideranças devem ter a coragem de não ceder na sua defesa, por muitos sacrifícios que isso implique.

Se há coisa que a pandemia nos ensinou foi que os povos estão dispostos a fazer sacrifícios sempre que vale a pena, sempre que esteja em causa um bem maior. E os países onde impera a liberdade e a democracia foram os melhores exemplos de civismo, disciplina, entrega e espírito de sacrifício no combate à pandemia, com resultados que estão à vista de todos. Um grupo de países do qual nos podemos orgulhar de pertencer.

Se a pandemia parecia o teste derradeiro deste século, o conflito que hoje começou mostra que o curso da História não para de nos surpreender. E hoje começa muito provavelmente o derradeiro teste deste século às lideranças: uma liderança com a coragem de não abdicar dos nossos valores fundamentais. Uma liderança que ao enfrentar a Rússia sabe que vai, no mínimo, sofrer um forte impacto económico. Mas uma liderança que tem de aceitar que o sacrifício, seja económico, seja em vidas humanas, pode ser o preço a pagar pelo nosso futuro. Uma liderança inspirada no exemplo de Winston Churchill, que teve a coragem de ousar combater uma aparente ameaça imparável ao nosso modo de vida, sem olhar a ciclos eleitorais ou a popularidade.

Saibamos todos dar o exemplo, cada um na sua esfera, para que todos possamos aspirar a ter um futuro. Porque liderar com valores vai ser a prova do século.

 

Por Ricardo Fortes da Costa, Partner da The Key Talent Portugal e Professor do ISEG

 

Arquivado em:Opinião

O futuro da razão ou a razão sem futuro

26 Fevereiro, 2022 by Denise Calado

Para aqueles que ainda olham para os acrónimos como se fossem uma mera caricatura grosseira da realidade, aqui estamos perante uma evidência dramática e (infelizmente) muito real da irrupção de um acontecimento que claramente podemos incluir nos contextos daquilo que vem sendo designado como um “mundo BANI”, ou “FANI”, na tradução portuguesa (Frágil, Ansioso, Não-Linear e Incompreensível): A invasão da Ucrânia.

É um episódio negro que marca o presente da pior maneira e marcará seguramente o futuro de uma forma atualmente ainda imprevisível, lançando os povos numa espiral de estupefação, ansiedade e com o sabor amargo do confronto inapelável com o absurdo.

Estamos de facto perante uma realidade que considerávamos impossível nos dias de hoje, incompreensível para as nossas mentes habituadas ao conforto do bom  funcionamento (aparente) dos sistemas periciais, não-linear relativamente à nossa confiança numa arquitetura da racionalidade tão solidamente sedimentada que a tornaria imune aos eventuais ímpetos irracionais de dirigentes e líderes sem escrúpulos; uma realidade em suma que denuncia, de forma brutal, a fragilidade das estruturas sociais onde habitamos e onde construímos mais ou menos serenamente os nossos horizontes de futuro.

Perante os factos, inéditos desde a eclosão da Segunda Guerra Mundial, que vemos desfilar no quotidiano dos serviços informativos da comunicação social, e depois da estupefação inicial que tais acontecimentos nos provocaram, vamos ansiosamente começando a admitir que tais factos não só não configuram uma situação passageira, que os sofisticados e globalizados processos da diplomacia facilmente resolveriam, mas é algo que “está para durar” e que vai trazer muito sérias implicações nos nossos modos de vida, cuja extensão e gravidade ainda não conseguimos prever.

São também factos que, pela sua inquietante similitude com os acontecimentos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, em que Hitler, rompendo descarada e traiçoeiramente os acordos estabelecidos com o Primeiro Ministro inglês, invadiu a Polónia, lançando a faísca que desencadeou a deflagração, nos fazem lembrar como os sistemas aparentemente sólidos de organização e regulação social cedem facilmente perante a insensatez de líderes autoritários que nada mais veem para além da alucinação  das suas ambições tresloucadas.

Tais líderes, que utilizam os recursos e o poder que têm como instrumentos do seu ego exacerbado e do delirante e insaciável desejo de domínio, não cedem nem perante elementares princípios de justiça nem sentimentos de compaixão pelo género humano, não hesitando em praticar atos que apenas deixam atrás de si o horrível legado de uma imensa planície de devastação.

Vivemos um momento crítico da nossa História recente, em que um líder prepotente se acha acima de qualquer lei que não seja por ele ditada, que não reconhece legitimidade à livre manifestação da vontade de um povo soberano que ousou sair do seu raio de ação e que, por isso, e ignorando todos os apelos feitos por um grande conjunto de outros líderes da comunidade internacional, colocou o mundo numa enorme tensão e ansiedade e submetido à convulsão de Lideranças em Guerra, ameaçando com isso os valores da Razão  que, por um determinado período de tempo, parece perdida.

Mas a História também nos diz que, apesar da sua aparência de poder ilimitado, esses líderes no final, mais cedo ou mais tarde, acabam derrotados e atirados para o “caixote de lixo da História”. E depois deles o Mundo sempre renasce, sempre tem renascido, fazendo prevalecer a paz, a liberdade e a justiça, reinventando finalmente um novo futuro para a Razão.

Por Mário Ceitil, Presidente da Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas e Professor universitário

Arquivado em:Opinião

LIDERANÇAS EM GUERRA – A esperança das Nações Unidas

25 Fevereiro, 2022 by Denise Calado

Seremos muitos em todo o mundo a refletir sobre a guerra Rússia – Ucrânia neste início de 2022. Mas apenas alguns compreenderão o ato histórico do Secretário-Geral ao fazer um apelo ao Presidente da Federação Russa em nome da Humanidade.

 

António Guterres, como Secretario Geral das Nações Unidas é a única pessoa que tem o direito e a obrigação de falar em nome da Humanidade. Mas enquanto ele o faz, o Presidente Putin fala em nome da defesa e dos interesses da Rússia, o Presidente Biden fala em nome da soberania da Ucrânia, e da missão da Nato, a União Europeia fala da sua defesa e do acesso ao Gás, a China do seu interesse em obter energia barata da Rússia, a Venezuela rejubila com a subida dos preços do petróleo, a Austrália mantêm o negócio anglo-saxónico dos submarinos e declara apoiar a soberania da Ucrânia, Taiwan condena a Rússia para condenar a China, que pelo seu lado confirma o seu apoio aos direitos soberanos da Sérvia (quem sabe se quererá no futuro ter bases militares chinesas ou russas) e por aí fora.

Onde está a Humanidade? Parece só haver Nações, mais ou menos ameaçadas, umas que recordam a História e a querem reverter, outras que não querem voltar ao passado mas pretendem que o futuro também seja nacionalista, todas em nome dos seus Povos, da sua defesa, da sua (forma própria) de democracia, todas em nome dos seus direitos soberanos.

 

E aqui está o cerne da questão e do Futuro da Humanidade.

 

Na qualidade em que aqui escrevo, presidente de uma rede  de Empresas que subscreveram os 10 Princípios do Global Compact das Nações Unidas, não tenho qualquer opinião ou posição política. Saber quem (se alguém) tem razão neste imbróglio não me compete nem teria forma de o apurar. Mas compete-me refletir sobre o que isto significa para as Organizações e em particular para as Empresas, o “Business Sector”.

 

Lembremos as realidades:

  • Já poucas empresas (e muito pequenas) estão reduzidas a um mercado doméstico. O normal é a inclusão em cadeias de valor (em diversos ramos) que atravessam todo o mundo, cruzando sistemas financeiros, fiscais, legislativos e normativos, bem como obtendo contributos de Pessoas de todas as religiões, etnias e culturas. As Empresas vivem e criam um Mundo Global. As Lideranças Organizacionais souberam e sabem lidar com a diversidade, todos os dias, centradas num único Propósito – resolver problemas, proporcionar soluções, criar valor, gerar riqueza para o seu ecossistema.
  • A emergência climática é REAL e não conhece fronteiras nem egoísmos nacionais. Pelo contrário apela a uma cooperação internacional sem reservas para que as novas gerações (de qualquer parte do Planeta) possam ter uma vida digna e melhor que a nossa. Isso foi proclamado na Assembleia Geral das Nações Unidas e aprovada a Agenda 2030 e os ODS. As Lideranças Organizacionais orientaram os seus negócios para a Sustentabilidade, antes de mais por ser uma exigência das Pessoas e porque entenderam a oportunidade de inovação inerente à construção de um novo modelo de desenvolvimento.
  • A Humanidade está a crescer em número. Esse crescimento é inversamente proporcional ao nível de desenvolvimento. Isso arrasta milhões de Pessoas a fugir da Fome e da Pobreza, as irmãs que geram também guerras e doenças. As grandes migrações ainda não são massivas, mas podem vir a ser, se não conseguirmos disseminar o desenvolvimento e erradicar esses flagelos. O mundo gera riqueza suficiente para todos saírem desses limiares, mas temos um sério problema de distribuição equitativa da riqueza produzida. Sem a resolução destas questões básicas (ODS 1 e 2) todo o nosso desenvolvimento pode ser submerso por vagas de deserdados que, sem mais nada a perder, criarão ruturas sem remédio. As Lideranças Organizacionais estão prontas a criar soluções para o desenvolvimento, pela educação, localização de empresas, transferência de saberes e tecnologias, entre outros meios.

 

O adversário que cria obstáculos a este Futuro é o egoísmo nacionalista, corporizado em elites que vêm na sobrevivência do velho conceito de Estado Nação a sua própria sobrevivência. Os Estados terão de aprender ser administradores de geografias que lhes foram confiadas, guardiões de culturas que foram desenvolvidas e que importa preservar, responsáveis por Pessoas que nele habitam e de que têm de cuidar, e por aí fora. O Estados devem reconhecer a sua limitação de soberania ou mesmo eliminar tal palavra, pois já nem os Reis são soberanos senão no plano simbólico. Os Estados não têm capacidade para gerir os seus assuntos se não o fizerem em cooperação, em harmonia (dinâmica, claro) com os seus parceiros, em respeito pelos interesses dos outros, sempre procurando o resultado win-win.

A única Soberania será da Humanidade e mesmo essa não é soberana sobre a Biosfera, sobre a Vida que a acompanha e viabiliza sobre a Terra e nos Oceanos.

 

As Lideranças Organizacionais estão ( cada vez mais ) cientes disto, mas não têm poder político, porque os dois mundos raramente se tocam por boas razões. Temos de corrigir isso. No fim de tudo as Pessoas são as vítimas dos egoísmos e das cegueiras, e pagam o preço sob a forma de desemprego, infelicidade, angústia e privações. As empresas são vítimas porque vêm a sua atividade em risco e as suas partes interessadas em crise. Haverá quem ganhe? Sem dúvida, sempre há quem ganhe quando a casa cai, mais que não seja o fornecedor de tendas. Mas no fim perdemos todos.

 

É tempo dos Líderes Empresariais, em particular e Organizacionais em geral, regressarem ao envolvimento na “res publica”, à participação aberta na Governação da comunidade, trazendo para o serviço da Sociedade o que aprendem na Administração das sociedades que lhes estão confiadas e disseminando esse conceito histórico – já somos uma só Humanidade, todos usamos e beneficiamos de produtos e serviços globais, todos cooperamos enquanto trabalhadores, todos viajamos e desfrutamos da Natureza. Chega de egoísmos populistas e nacionalistas. Se o não fizermos a tempo será muito mais difícil quando os tempos a isso nos obrigarem.

Contamos com as Nações Unidas, contamos com o Secretário-Geral. Por isso advogo uma maior ligação de Portugal ao Sistema das Nações Unidas, melhor compreensão da sua mensagem e do seu papel no mundo, maior envolvimento nas suas causas, maior empenho na cooperação internacional. Será o seguimento da vocação universalista de Portugal, será também uma forma de elevar as competências dos portugueses e portanto da competitividade da nossa economia.

Se desta guerra resultar maior abertura da nossa sociedade ao mundo e das nossas lideranças às dinâmicas do desenvolvimento e da cooperação, teremos algo de positivo como lição que emerge da tragédia de gente simples e trabalhadora que não sabe ao certo porque tem de viver pior, pagar mais, sofrer má sorte, ainda por cima logo a seguir à Pandemia, fruto de uma guerra que lhe chega pela TV, com os rótulos de “bons e maus” já atribuídos.

 

Por Mário Parra da Silva, Chair of the Board, Network Portugal do UN Global Compact

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