Cada vez mais as oportunidades na área da tecnologia estão disponíveis tanto para homens como mulheres, mas ainda há um caminho a ser percorrido pela igualdade, que passa por uma desconstrução social e a uma educação inclusiva nas crianças.
O poder do feminino na criação de uma força tecnológica em África, nomeadamente em Cabo Verde, serviu de mote ao debate “Empreendedorismo no Feminino”, com a participação de Débora Carvalho, Primeira-Dama de Cabo Verde, Mayra Silva, Administradora da Nosi e Representante das Women in Tech Cabo Verde, Joelma Tavares, CEO da DevTrust, e Maria Cesaltina Semedo, Diretora de Inovação e Tecnologia de Informação da Enapor Cabo Verde.
A conversa aconteceu no âmbito da Leadership Summit Cabo Verde e contou com a moderação de Ayumi Moore Aoki, Presidente da “Women in Tech”.
Uma transformação digital para empoderar todas as mulheres
A Primeira-Dama pôs em evidência a importância da tecnologia para as mulheres, em particular das que são portadoras de deficiência: “Conheci a Roseane, uma jovem de 30 anos que tem paralisia cerebral. Não foi à escola, mas aprendeu a ler e escrever com o primo, e usa um telemóvel para comunicar.”

Quando se encontrou com a jovem, esta lhe contou que “tinha conhecido uns técnicos brasileiros que lhe apresentaram a comunicação aumentada alternativa”. Débora Carvalho partilha que hoje a Roseane escreve texto, que é convertido em voz, conseguindo comunicar com qualquer pessoa. Já pode ir a uma repartição das finanças ou a uma loja do cidadão.
“É assim que eu vejo como a tecnologia pode empoderar a sociedade, incluir todas e todos, e fazer com que pessoas com necessidades especiais almejem ser tão normais quanto nós”
É unânime a necessidade de incidir na educação das crianças, para que todos estejam em pé de igualdade no que toca a oportunidades e ferramentas.
Mayra Silva comentou que o programa WebLab, de capacitação das crianças, ajuda a “fazer a diferença. Estamos a dar esses instrumentos às crianças para que, de base, consigam começar a procurar os seus sonhos.”

“Fazendo isso não há género, não há diferença, porque o tratamento começa igual”, continua.
As zonas rurais são aquelas em que se nota um maior impacto por parte do projeto, nomeadamente na área da robótica: “os concursos que fazemos na área da robótico são vencidos por crianças das zonas rurais.”
“Na ilha de Santo Antão é onde as crianças são mais dinâmicas, usam robots e criam soluções”, conclui.
“Temos de quebrar essa barreira com a educação de todos, meninos e meninas. Temos de educar de forma que haja um sentimento de pertença, de equipa.”, acrescenta Maria Cesaltina Semedo.
“Temos de mostrar exemplos, não só no mês de março, não só para esta plateia, mas temos de ir ao público alvo. Temos de ir onde está o problema”, remata Joelma Tavares.
A inclusão das mulheres é urgente
Para Joelma Tavares a transformação digital para as mulheres deve acontecer na vertente da mulher enquanto utilizadora: “as mulheres têm de ter acesso à tecnologia – não podemos ter metade da sociedade para trás.”
“Se temos pessoas na nossa sociedade que não têm acesso, a própria democracia está em causa”, realça.
Tavares refere ainda a necessidade de incluir a mulher nas equipas tecnológicas não por uma “questão de justiça social”, mas sim pela “questão da diversidade ser importante. Se estamos a desenvolver produtos tecnológicos para uma sociedade que é constituída por homens e mulheres, faz sentido termos a perspetiva das mulheres nas equipas”, afirma.

Mas como é ser uma mulher num cargo de liderança, em Cabo Verde?
As barreiras que existem para as mulheres no mundo do trabalho são evidentes, e não existem só na área tecnológica. Para Maria Cesaltina Semedo, o principal desafio para as mulheres “são as ideias pré-concebidas”.
A Diretora de Inovação da Enapor Cabo Verde mencionou o facto de acharem que “a mulher tem menos disponibilidade. A mulher em si tem a condição feminina de ser mãe – nem todas querem ou podem ter -, mas essa condição não deve torná-la indisponível.”

As empresas devem hoje estar preparadas para acolher todas as pessoas, e por isso, realça Semedo, “temos de criar líderes que não sejam essenciais em termos de presença. O líder tem de ter uma equipa, e prepará-la para quando não estiver lá.”
Na sua experiência, a maior dificuldade que enfrentou foi quando aceitou o cargo de direção, e acreditavam que não ia conseguir desempenhar a sua função, sendo mulher. “Neste momento a maioria dos técnicos da direção já se encontram comigo e trazem o seu conhecimento, mas também recebem conhecimento da minha parte sobre o negócio da empresa, sobre a tecnologia a utilizar. Noto que se criou uma sinergia, e já não vejo diferença”, conclui.
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