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Denise Calado

O empreendedorismo feminino reforça a inclusão de todos na jornada digital

6 Abril, 2023 by Denise Calado

Cada vez mais as oportunidades na área da tecnologia estão disponíveis tanto para homens como mulheres, mas ainda há um caminho a ser percorrido pela igualdade, que passa por uma desconstrução social e a uma educação inclusiva nas crianças.

O poder do feminino na criação de uma força tecnológica em África, nomeadamente em Cabo Verde, serviu de mote ao debate “Empreendedorismo no Feminino”, com a participação de Débora Carvalho, Primeira-Dama de Cabo Verde, Mayra Silva, Administradora da Nosi e Representante das Women in Tech Cabo Verde, Joelma Tavares, CEO da DevTrust, e Maria Cesaltina Semedo, Diretora de Inovação e Tecnologia de Informação da Enapor Cabo Verde.

A conversa aconteceu no âmbito da Leadership Summit Cabo Verde e contou com a moderação de Ayumi Moore Aoki, Presidente da “Women in Tech”.

Uma transformação digital para empoderar todas as mulheres

A Primeira-Dama pôs em evidência a importância da tecnologia para as mulheres, em particular das que são portadoras de deficiência: “Conheci a Roseane, uma jovem de 30 anos que tem paralisia cerebral. Não foi à escola, mas aprendeu a ler e escrever com o primo, e usa um telemóvel para comunicar.”

Quando se encontrou com a jovem, esta lhe contou que “tinha conhecido uns técnicos brasileiros que lhe apresentaram a comunicação aumentada alternativa”. Débora Carvalho partilha que hoje a Roseane escreve texto, que é convertido em voz, conseguindo comunicar com qualquer pessoa. Já pode ir a uma repartição das finanças ou a uma loja do cidadão.

“É assim que eu vejo como a tecnologia pode empoderar a sociedade, incluir todas e todos, e fazer com que pessoas com necessidades especiais almejem ser tão normais quanto nós”

É unânime a necessidade de incidir na educação das crianças, para que todos estejam em pé de igualdade no que toca a oportunidades e ferramentas.

Mayra Silva comentou que o programa WebLab, de capacitação das crianças, ajuda a “fazer a diferença. Estamos a dar esses instrumentos às crianças para que, de base, consigam começar a procurar os seus sonhos.”

“Fazendo isso não há género, não há diferença, porque o tratamento começa igual”, continua. 

As zonas rurais são aquelas em que se nota um maior impacto por parte do projeto, nomeadamente na área da robótica: “os concursos que fazemos na área da robótico são vencidos por crianças das zonas rurais.”

“Na ilha de Santo Antão é onde as crianças são mais dinâmicas, usam robots e criam soluções”, conclui.

“Temos de quebrar essa barreira com a educação de todos, meninos e meninas. Temos de educar de forma que haja um sentimento de pertença, de equipa.”, acrescenta Maria Cesaltina Semedo.

“Temos de mostrar exemplos, não só no mês de março, não só para esta plateia, mas temos de ir ao público alvo. Temos de ir onde está o problema”, remata Joelma Tavares.

A inclusão das mulheres é urgente

Para Joelma Tavares a transformação digital para as mulheres deve acontecer na vertente da mulher enquanto utilizadora: “as mulheres têm de ter acesso à tecnologia – não podemos ter metade da sociedade para trás.”

“Se temos pessoas na nossa sociedade que não têm acesso, a própria democracia está em causa”, realça.

Tavares refere ainda a necessidade de incluir a mulher nas equipas tecnológicas não por uma “questão de justiça social”, mas sim pela “questão da diversidade ser importante. Se estamos a desenvolver produtos tecnológicos para uma sociedade que é constituída por homens e mulheres, faz sentido termos a perspetiva das mulheres nas equipas”, afirma.

Mas como é ser uma mulher num cargo de liderança, em Cabo Verde?

As barreiras que existem para as mulheres no mundo do trabalho são evidentes, e não existem só na área tecnológica. Para Maria Cesaltina Semedo, o principal desafio para as mulheres “são as ideias pré-concebidas”.

A Diretora de Inovação da Enapor Cabo Verde mencionou o facto de acharem que “a mulher tem menos disponibilidade. A mulher em si tem a condição feminina de ser mãe – nem todas querem ou podem ter -, mas essa condição não deve torná-la indisponível.”

As empresas devem hoje estar preparadas para acolher todas as pessoas, e por isso, realça Semedo, “temos de criar líderes que não sejam essenciais em termos de presença. O líder tem de ter uma equipa, e prepará-la para quando não estiver lá.”

Na sua experiência, a maior dificuldade que enfrentou foi quando aceitou o cargo de direção, e acreditavam que não ia conseguir desempenhar a sua função, sendo mulher. “Neste momento a maioria dos técnicos da direção já se encontram comigo e trazem o seu conhecimento, mas também recebem conhecimento da minha parte sobre o negócio da empresa, sobre a tecnologia a utilizar. Noto que se criou uma sinergia, e já não vejo diferença”, conclui.

 

Assista à talk e a todas as intervenções da Leadership Summit Cabo Verde 2023, disponível on demand, com acesso universal e gratuito, na Líder TV na posição 165 do MEO e 560 da NOS.

Disponível online aqui.

Tenha acesso à galeria de imagens da Leadership Summit Cabo Verde aqui.

 

Por Denise Calado

Arquivado em:África, Cabo Verde, Notícias, Trabalho

“The Matrix unleashed” – potencial e desafios das interfaces Homem-máquina

6 Abril, 2023 by Denise Calado

“The Matrix” é um filme de ficção científica dirigido pelos irmãos Wachowski e lançado em 1999. O filme retrata um futuro distópico onde o mundo é na verdade uma simulação de computador denominada “Matrix”, criada por meio de tecnologia evoluída para manter a humanidade sob controle. Para quem viu e se recorda, a ligação a este mundo virtual era feita através de uma ligação/interface Homem-máquina.

As interfaces neuronais, também conhecidas como interfaces cérebro-computador (BCIs, do inglês brain-computer interface) ou mais recentemente BMIs (brain-machine interface), são tecnologias que permitem a comunicação direta entre o cérebro e um computador ou outro dispositivo eletrónico. A sua evolução tem sido extremamente rápida, a par do avanço da tecnologia que permite miniaturizar dispositivos de forma cada vez mais eficiente, com consequente diminuição dos riscos da sua utilização.

A primeira demonstração de uma interface cérebro-computador foi feita no início dos anos 70 pelo Dr. Eberhard Fetz, neurofisiologista da Universidade de Washington. Demonstrou que os macacos podem aprender a controlar a atividade de neurónios individuais no cérebro por meio do condicionamento, que envolvia recompensar os animais quando estes produziam a atividade neuronal desejada. Outra figura chave foi o Dr. Jacques Vidal, um cientista da computação que propôs o termo “interface cérebro-computador” num artigo em 1973. Ele postulava que os sinais de EEG (electroencefalografia) pudessem ser usados ​​para controlar um cursor de computador e demonstrou esse conceito numa série de experiências nas décadas de 1970 e 1980.

Existem vários tipos de BMIs que diferem na forma como interagem com o cérebro e no tipo de sinais que registam ou estimulam. As BMIs invasivas requerem implantação cirúrgica de elétrodos diretamente no cérebro. Podem registar sinais de neurónios individuais ou de grupos de neurónios e também podem ser usadas ​​para estimular células nervosas. Um dos exemplos famosos foi a pioneira cirurgia de Dobelle, com a criação do olho biónico para pacientes cegos. O sistema consistia numa câmara montada na cabeça do paciente, cujo vídeo é enviado para um processador de computador, que por sua vez envia sinais elétricos para elétrodos implantados no córtex visual, gerando percepções visuais. Jens Naumann tornou-se o paciente mais famoso de Dobelle depois de viajar para Portugal para uma cirurgia experimental em 2002, cuja equipa incluía o neurocirurgião João Lobo Antunes. Este primeiro dispositivo degradou-se depois de alguns meses e o novo mundo visual de Naumann desapareceu, mas ele continuou a fazer campanha ao longo dos anos em defesa do desenvolvimento desta tecnologia. Este é o mesmo princípio usado para estimular córtex auditivo em pessoas surdas ou controlar próteses de membros amputados.

Por outro lado, as BMIs não invasivas não requerem cirurgia e geralmente são baseados em técnicas como EEG, magnetoencefalografia (MEG) ou ressonância magnética funcional (fMRI). Essas técnicas registam a atividade cerebral no exterior do crânio. São tecnologias menos precisas do que as BMIs invasivas ou semi-invasivas, mas são mais seguras e aplicação mais simples.

Uma das aplicações é no denominado Neurofeedback.  Numa sessão de Neurofeedback, os indivíduos são convidados a ver um filme e/ou a jogar um jogo, enquanto a atividade neuronal é registada através do EEG quantitativo – registo de ondas cerebrais através de sensores que se colocam no couro cabeludo. As componentes são extraídas, analisadas e o “feedback” em tempo real enviado na forma de áudio, vídeo ou sua combinação. A hipótese é de que ao longo do tempo, o cérebro vá tentar reproduzir e manter o novo padrão de funcionamento cerebral e a equilibrar o seu desempenho, mesmo fora das sessões. O neurofeedback tem sido aplicado em transtorno de défice de atenção/hiperatividade (TDAH), doenças do espetro do autismo, ansiedade, depressão, epilepsia e distúrbios do sono. Também é cada vez mais usado em testes para melhorar o desempenho criativo e aumentar a concentração.

O potencial das BMIs é vasto e é difícil prever o seu alcance. À medida que a compreensão do cérebro e os avanços da tecnologia continuam a evoluir, é provável que possamos desenvolver BMIs que permitam um controle mais sofisticado e preciso sobre máquinas, próteses e quem sabe, até mesmo outras pessoas. Postula-se que possamos recorrer a esta tecnologia ​​para melhorar as capacidades físicas e cognitivas, permitindo-nos realizar tarefas e ultrapassar limites antes considerados impossíveis. No entanto, à medida que ultrapassamos estes limites, também devemos estar atentos às implicações éticas dessa tecnologia, incluindo questões de privacidade, consentimento e equidade.

Mais info se necessário 

A Eletrocorticografia (ECoG) é um tipo de BMI que usa uma rede de elétrodos colocados na superfície do cérebro. O ECoG situa-se num meio-termo entre a precisão dos métodos invasivos e a segurança dos não invasivos. Esta técnica tem sido crucial na gestão cirúrgica de pacientes com epilepsia refractária, uma vez que permite localizar o foco epiléptico, mapear a função cortical e avaliar o prognóstico de uma eventual cirurgia. A Estimulação magnética transcraniana (TMS) recorre a campos magnéticos para estimular neurónios cerebrais. Tem sido testada na depressão, enxaqueca e outras condições, e também pode ser usado para estudar a função cerebral.

Uma tecnologia muito promissora, mas ainda não transposta para pacientes, é a optogenética. É um tipo de tecnologia que usa proteínas sensíveis à luz para controlar a atividade dos neurónios no cérebro. Exige implantação de elétrodos no cérebro e tem sido muito usada em contexto de investigação em animais, mas tem um enorme potencial para uso em humanos se a segurança e eficácia se comprovarem.

 

A publicação deste artigo é parte do novo Projeto editorial da Líder “Os futuristas: o futuro do futuro”.

Saiba mais sobre Os futuristas aqui.

 

Arquivado em:Futuristas, Notícias

Competitividade da economia portuguesa: quais os desafios e que caminho devem as empresas seguir?

6 Abril, 2023 by Denise Calado

A competitividade da economia portuguesa e em particular a das indústrias transformadoras é um tema crítico, não só dos empresários, mas também dos interlocutores governamentais, académicos e institucionais.

Maximizar o potencial da indústria portuguesa foi o mote para o encontro que decorreu em Lisboa, no ISCTE, sob o tema “Investir em Portugal: Transformação, inovação e competitividade”, que contou com a apresentação do estudo “Impacto económico e social da indústria de tabaco em Portugal”, e posterior realização de um debate.

Os desafios das exportações e da competitividade em Portugal

Nas notas de abertura, Eurico Brilhante Dias, líder do grupo parlamentar do PS, reforçou o caracter crucial da competitividade em Portugal. No ano 2022, o peso das exportações portuguesas chegou a 50%, um “número record e inédito”.

“A captação de investimento estrangeiro atingiu o maior número de stock de sempre. E somos dentro da OCDE um dos países com mais peso, do IDE (Investimento Direto Estrangeiro), em função do PIB”, afirmou.

Sobre os desafios a enfrentar, “só combinando mais capital e abertura há mais oportunidades de melhores rendimentos e salários. Sem mais intensidade de capital não temos mais intensidade de conhecimento”, afirmou o deputado.

Essa é também a visão partilhada por Rui Vinhas da Silva, ex-presidente do COMPETE e Professor. Na sua perspetiva, o principal problema da economia portuguesa está na natureza das suas vantagens competitivas, nomeadamente na “incapacidade de arranjar vantagens competitivas que sejam mais do que efémeras e que sejam sustentáveis no longo prazo”. Portugal “nunca será uma Califórnia da Europa, mas temos mil anos de história e coisas boas, com uma base tecnológica forte, que nos pode distinguir”, concluiu.

Retrato da indústria do tabaco em Portugal

Luís Martins Costa, líder da equipa de investigação do ISCTE, apresentou o estudo de caso “Impacto económico e social da indústria de tabaco em Portugal”, solicitado pela Tabaqueira| PMI, subsidiária da Philip Morris International em Portugal. A análise, referente ao último trimestre de 2022, versou sobre as empresas, do setor do Tabaco, que têm produção em Portugal – Tabaqueira, Fábrica de Tabacos Micaelense e Empresa Madeirense de Tabacos (EMT).

Em 2021, o PIB português foi cerca de 200 mil milhões de euros, e a produção de tabaco na UE foi responsável por 4 mil milhões de euros. Neste âmbito, Portugal é o segundo país da UE com mais quota em valor de produção (15%) de produtos de tabaco, a seguir à Polónia. Ou seja, o peso da produção nacional de produtos de tabaco nas vendas totais na EU (15%) é 10 vezes superior ao peso da economia nacional no PIB Europeu. De acordo com o estudo, tal “demonstra a elevada importância que Portugal assume hoje na produção destes produtos e que tem conseguido preservar”.

O setor das empresas com fabricas em território nacional contribuiu, em 2021, com cerca de 1 200 milhões de euros em receitas fiscais. A Tabaqueira| PMI, sobre este valor total, contribui com cerca de 98,6% (1 178 milhões) e é “uma das maiores empresas nacionais, em volume de negócios”, cuja atividade impacta direta e indiretamente cerca de 42.800 pessoas.

Seguiu-se o debate “A indústria portuguesa é competitiva? Estratégias e casos práticos” que juntou Mafalda Vasconcelos, Executive Board Member na EDP Comercial, Marcelo Nico, General Manager na Tabaqueira, Grupo Phillip Morris International, Vítor Coelho, Public Affairs Director na The Navigator Company e Nuno Fernandes Thomaz, Presidente da Centromarca e Administrador da SOGEPOC, com a moderação de Isabel Canha, Fundadora e Diretora da Executiva.pt.

O desafio da descarbonização é o foco da EDP, que até 2030 quer tornar-se um negócio all green e chegar a carbon neutral em 2040. Também a neutralidade carbónica está no foco da The Navigator, empresa de produção e comercialização de papel, em 3º lugar das principais exportadoras nacionais. A imposição da transformação e da emergência climática afeta também a atividade da Sogepoc, no setor da agricultura, onde Nuno Fernandes Thomaz, destaca os desafios emergentes da transição climática, envelhecimento da população e de “fazer mais pela soberania alimentar”.

E pelo caminho da transformação, Marcelo Nico destaca como a Tabaqueira|PMI está a fazer das maiores transformações, partilhando que os números refletidos no estudo são atualmente maiores – há mais investimento, mais exportações e empregam-se mais trabalhadores. A Tabaqueira|PMI tem investido cerca de 15 milhões euros por ano em Portugal e exporta 87% da sua produção. “A ideia é continuar a transformar, mas a relevância da Tabaqueira no setor económico português surpreendeu-me”, referindo-se ainda ao futuro da empresa que assenta na relação entre tecnologia e ciência, e no objetivo de deixar de vender cigarros e criar alternativas menos nocivas para os consumidores. Nesse marco global “claramente que um dos objetivos fundamentais é que as regulações vão em linha com as transformações do setor”.

Para o gestor, atualmente, o mais importante é haver “um diálogo” e revelou ter encontrado essa plataforma de partilha em Portugal. Sobre o talento e captação de perfis, referiu encontrar muita capacidade no país. “Há muito talento e capacidade de investir”, concluiu, reforçando ainda o papel da ciência e da tecnologia como pontos fundamentais para a continuação do investimento. “Há que fomentar as oportunidades das novas tecnologias para desenvolver talento que fique cá e que vá”, rematou.

 

Por Rita Rugeroni Saldanha 

Arquivado em:Economia, Notícias

Bancos investem menos nas micro e pequenas empresas

6 Abril, 2023 by Denise Calado

O montante de novos empréstimos às PME atingiu em fevereiro o valor mais baixo de sempre. Segundo dados do Banco de Portugal, o novo crédito bancário para as PME inverteu a tendência e está em queda pela primeira vez desde abril de 2019.

A informação é divulgada pela empresa de financiamento Raize que refere que “em fevereiro, foram realizados apenas 700 milhões de novos empréstimos”. Trata-se de o valor mais baixo de sempre. Esta é uma das razões apontadas pelas micro e pequenas empresas para as dificuldades em investir no atual ciclo económico. Devido à fraca capacidade de autofinanciamento as PME têm necessidade de obter financiamento externo, o que nem sempre é fácil.

Os dados do Banco de Portugal indicam ainda que a maioria das PME nacionais apenas tem acesso a financiamento de curto-prazo, nomeadamente contas correntes, livranças ou contas de cheques pré-datados/factoring. Este foco no curto-prazo tem um efeito prejudicial nos novos investimentos e no crescimento da economia – em particular das empresas mais pequenas. Em 2022, apenas 18% dos novos empréstimos a PME foi com um prazo superior a 1 ano (ou seja, adequados para a realização de investimentos).

Arquivado em:Economia, Notícias

Quem é responsável pelo desenvolvimento profissional e construção de carreira?

6 Abril, 2023 by Denise Calado

O 9º episódio do People First, o podcast da Fidelidade, sobre a gestão do ativo mais importante das empresas – as suas pessoas, desvenda o dilema sobre a responsabilidade no desenvolvimento profissional e na construção de carreira.

Quem é o responsável por esta evolução? O colaborador, a empresa ou ambos?

Neste episódio, Nilton conversa com Paula Gramacho e Pedro Peres, ambos colaboradores do Grupo Fidelidade em áreas e níveis hierárquicos distintos, mas com percursos peculiares. Paula Gramacho, formada em Psicologia, está na área TIC há 4 anos, e Pedro Peres, conta com 20 anos de experiência na área comercial.

Episódio disponível aqui.

Arquivado em:Notícias

Nhos terra, nha cretcheu

6 Abril, 2023 by Denise Calado

Era interessante eu saber escrever crioulo de Cabo Verde para construir todo um texto. Não sei. Nem mesmo sei se o título está correto… Será que reflete o que quero dizer? Acho que sim, mas sou inseguro. De qualquer modo, entre uma “terra escalabrode”, enrugada, sulcada, como se diz numa canção que adoro, e esta Nhos terra (que eu penso querer dizer Vossa terra, ao contrário do que parece) nha cretcheu (meu amor), optei por este título.

Não é por acaso que falo de música. Uma das mornas que mais gosto é “Lua nha testemunha”, como de “Areia di Salamansa” ou o simples e dolente som da rabeca tocada por Travadinha – e nem pensem que me esqueci de Cesária, Bana ou Ildo Lobo, nem sequer do Funanight de Mário Lúcio; o melhor de Cabo Verde é imaterial. Tão imaterial que não posso falar com quem não conhece; não posso mostrar, se não houver quem saiba ver; não posso explicar por que motivo um país pequeno no meio do Atlântico tem tanta música boa e bonita, tanta letra terna e envolvente; tanta dança, tanta alegria e tristeza, que ambas parecem devida e solenemente apropriadas a todas as situações.

Desmaterializar não significa deixar de existir, diz-se nos tópicos da Leadership Summit Cabo Verde. Pois não. Desmaterializar significa existir por todo o lado. Na Praia e no Mindelo, na Assomada, em São Filipe, e até no Tarrafal, terra que deixou má fama para portugueses, mas que tem uma praia – essa materializada – que é fantástica. Esta existência omnipresente espalha-se na diáspora – por Lisboa e todo o território de Portugal; nos Estados Unidos, nomeadamente em Boston, onde conheci e convivi com tantos caboverdianos; na Holanda e mais onde houver quem tenha nascido ou conheça as ilhas do arquipélago. Quem sabe o que é uma morna, uma coladera, um funaná ou um batuque; a quem já pegou num ferro todo serrilhado, e com um acordeão como acompanhamento, ouviu o ferro gaita.

E não se pense que é apenas música. Há desmaterializações sucessivas que se atingem com o grogue – a literatura é outro portento, e qualquer natural de  Cabo Verde que se queira culto sabe escrever, sabe compor, sabe cantar e sabe bailar.

Escreveu Pessoa, um poeta que por ser tão grande é de toda a língua portuguesa “que Deus ao mar o perigo e o abismo deu/ mas nele é que espelhou o céu”. Pois Cabo Verde se não é o espelho do céu, rodeado que está desse mar abissal e perigoso, reflete o cruzamento de todas as vidas, de todos os meios, de todas as culturas, de Norte, Sul, Este e Oeste – é universal. Tão universal, como pode ser a música. Mário Fonseca, que com Arménio Vieira elevou a cultura caboverdiana (e que depois de tantos anos no Senegal e na Mauritânia escrevia poesia em português, crioulo e francês) tem um verso que diz tudo: “Mon pays est une musique”.

Antes de falar sobre coisas tão úteis como a desmaterialização, o digital, a cibersegurança e o empreendedorismo, ouçam a música, leiam os livros, tentem compreender o que se diz; só assim vão perceber o que é um país maior do que o mundo.

 

Este artigo foi publicado na edição especial da revista Líder Cabo Verde.

Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

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