Depois de algumas vindas a Cabo Verde, em conversas com muitos cabo-verdianos, de todas as proveniências sociais, de todas as áreas de atividade foi para mim evidente a força das pessoas deste país. Não é uma força qualquer, porque ela não é meramente física, é aquela capacidade de acreditar na vida e nas suas potencialidades, também a de acreditar nas pessoas e na arte da empatia. Quando somos desafiados pelo clima, pela natureza e pela insularidade para sobrevivermos, essa capacidade de sobrevivência enraíza-se e passa a ser constitutiva da personalidade, de uma certa maneira de ser. Como se no peito crescessem montanhas, nas pernas corressem rios, nas mãos se acomodassem pássaros e todas as espécies animais, como se na alma se instalasse uma orquestra vital que é música e, ao mesmo tempo, força motriz.
Assim se é em Cabo Verde, há uma força vital única, uma capacidade de resistir, de improvisar, de inventar; há arte em todos os poros de pele e há alegria. No outro dia, num hotel, pedi na receção que avisassem uns hóspedes que faziam muito barulho, riam, riam. A rececionista respondeu-me corajosamente: “É assim que nós somos, nós rimos, nós gostamos de conviver.” Não tive coragem de lhe pedir mais nada e ela resolveu, apesar de tudo, o meu problema, talvez um falso problema. Também quando chego com cinco minutos de antecedência a uma reunião e fico nervosa depois de passarem 3 minutos da hora combinada, a seguir penso que o meu tempo não é o tempo de Cabo Verde e devo aprender a doce morabeza que só me dará saúde e força.
Não deixei de fazer nenhuma reunião, nem de tratar de nenhum assunto e por isso, os três minutos são só o tempo dos relógios, o tempo em Cabo Verde tem a profundidade e a doçura dos vales naqueles dias em que a água chega para os pintar de verde. No meio do Atlântico, muitas vezes penso que não escolhemos o sítio onde nascemos, não escolhemos os nossos pais, nem sequer os nossos filhos e na verdade o mais importante que temos na vida não resulta da nossa escolha.
O país onde nascemos é sempre o nosso país. Quando perguntei a José Maria Neves com que líderes contava para fazer crescer o país, a resposta foi clara: “com os cabo-verdianos que estão cá e com a Diáspora cabo-verdiana”. São esses os líderes deste país, é para estes que a Líder vai procurar trabalhar, dando o seu melhor para que o conhecimento do que melhor se faz pelo mundo aqui chegue e inspire estes homens e mulheres que no meio do Atlântico são de uma singularidade surpreendente, não são africanos, nem europeus e tão pouco americanos, são atlânticos, e ter todo um oceano que os classifica é na verdade a relação mais profunda e bonita que se pode ter com a água que por aqui escasseia. O momento agora é para fazer clique.
Este artigo foi publicado na edição especial da revista Líder Cabo Verde.
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