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Denise Calado

Acontecem hoje as Masterclasses Líder no Campus da Universidade de Cabo Verde

24 Março, 2023 by Denise Calado

No âmbito da Leadership Summit Cabo Verde, o dia de hoje decorre no Campus da Universidade de Cabo Verde com várias Masterclasses.

Um dia pleno de conhecimento sob o mote “Empreender – A Urgência de Novos Líderes”. O digital como acelerador do empreendedorismo em benefício das organizações e da comunidade e também da diversidade. O papel dos jovens para uma sociedade justa e próspera.

José Arlindo Barreto, Reitor e Professor da Universidade de Cabo Verde, deu as boas-vindas na abertura oficial. E fez das palavras de Hannah Arendt suas: «É exatamente para preservar o que há de novo e revolucionário em cada criança que a educação deve ser conservadora».

Como formadores das Masterclasses contamos com Ayumi Moore Aoki, Presidente da Women in Tech Global, que traz o tema “As Competências de Liderança para Promover a Mudança”; Bruno Castro, CEO da VisionWare, fala sobre “Gestão de Incidentes: O que fazer se a sua organização sofrer um ciberataque”; Telma Silva, Responsável pelo Programa do Laboratório de Matemática da Universidade de Cabo Verde, e Maria Hermínia Cabral, Diretora do Programa Gulbenkian Parcerias para África, cuidam do tema “No Princípio é a Matemática” ; Rute Almeida, Diretora da Made2Web, dá uma formação com o tema “Inteligência Artificial, Metaverso e a Personalização no Marketing das Empresas”; Eugénia Teixeira, Fiscalista, fala sobre “Empreendedorismo de Negócios: A Transformação Digital na Saúde Financeira e na Política Fiscal”; Zedilson Almeida, Young Leader da Fundação Obama para Angola e Cofundador da Manifexto e Kioxke, traz o tema “O segredo para uma startup de sucesso: a construção de uma comunidade”; Harrison Phillips, Fundador da Banfana, fala sobre “Google Ads para E-commerce”; e Ricardo Martins, Administrador da Pedago Portugal e da Plurália África, traz o tema “e-Participação e corrersponsabilização dos jovens nas políticas públicas”.

Arquivado em:África, Cabo Verde, Notícias

Economia digital ambiciona representar 25% do PIB de Cabo Verde 

24 Março, 2023 by Denise Calado

De acordo com o Primeiro-Ministro de Cabo Verde, Ulisses Correia e Silva, o país está a crescer economicamente pelo forte impacto do turismo, mas a aposta é também noutros sectores da economia, como por exemplo: a economia digital – que se pretende que venha a atingir 25% do PIB – as pescas e a educação. O empreendedorismo, inovação, e igualdade de género são também objetivos estratégicos desta governação. Afirmar Cabo Verde no mundo, reduzindo a pobreza absoluta e erradicando a pobreza extrema, para consolidar e afirmar uma verdadeira democracia o mais imune possível aos populismos, nacionalismos e extremismos é “um imperativo da dignidade da pessoa e da liberdade”. Por isso, fica a mensagem do Primeiro-Ministro para todas as lideranças do país: “é necessária disponibilidade de tempo, energia, capacidade de trabalho e de motivação dos colaboradores. Coloquem essas qualidades pessoais ao serviço de um projeto, de uma ambição, de um propósito, seja nível político, empresarial, institucional, social ou cultural”.  

 

Quando falamos de novas lideranças digitais o que espera o Executivo que elas sejam ou possam vir a representar para o país? 

Quando falamos de novas lideranças digitais, espera-se que elas tragam consigo a habilidade de inovar e de aplicar tecnologias emergentes para impulsionar o desenvolvimento económico e social do país. Essas lideranças podem representar um fator de transformação no setor empresarial e governamental, contribuindo para o aumento da produtividade, competitividade e eficiência nos negócios e no setor público. As novas lideranças têm necessariamente de pensar como colocar a inteligência artificial, a realidade aumentada, a impressão 3D e outras tecnologias ao serviço do país, das pessoas e das organizações, mas igualmente aplicar a tecnologia de forma ética, e com uma responsabilidade de inclusão.    

   

Cabo Verde tem um conjunto de desafios pela frente que podem ser enfrentados com a ajuda da tecnologia. Quais são as principais prioridades a este nível e os planos da governação? 

As prioridades estão centradas na aceleração da transformação digital para a modernização da administração pública, para a melhoria do ambiente de negócios e para a eficiência da economia. Somos ilhas, o digital é um instrumento importante para reduzir as assimetrias regionais e facilitar o acesso a serviços da educação, saúde, comunicação, entre outros, com idênticos padrões de qualidade. A telemedicina, o ensino e a formação à distância são bons exemplos. Existem e estão a ser amplificados. Prioridade nas conectividades. Somos ilhas e as ilhas têm necessidade de romper fronteiras. É por isso que as conectividades são um fator critico. O digital é a ferramenta ideal para o efeito. Por isso é que apostamos em conectividades via conhecimento e qualificações com padrões convergentes com a OCDE, via domínio da língua inglesa e qualidade das telecomunicações e da internet. Prioridade no fomento empresarial e exportação de serviços através do desenvolvimento da economia digital e do posicionamento de Cabo Verde como um hub digital. As nossas prioridades passam ainda pelo reforço da literacia digital com programas como o WebLab nas escolas, plano de transição digital no sistema educativo e nos programas de formação e declaração de internet como um bem essencial com tarifa social e acesso facilitado.  

 

A questão da segurança é fundamental pois não chega digitalizar e desenvolver um Estado tecnologicamente, é preciso acautelar o cibercrime e a segurança das empresas e organizações.  Nesse capítulo o que já está a ser feito? 

Cabo Verde aderiu em 2018 à Convenção sobre o Cibercrime, também conhecida como Convenção de Budapeste e à Convenção para a Proteção de Dados Pessoais. Cabo Verde também ratificou a Convenção de Malabo. Sabemos que a segurança cibernética é um tema crucial para qualquer país que esteja a desenvolver a sua economia digital. Investimos em medidas de prevenção e proteção contra o cibercrime. No quadro da parceria especial com a União Europeia, colocámos a cibersegurança como tema prioritário para vantagens mútuas.  

  

Que tipos de estímulos podem ser criados para que as novas lideranças digitais, de Cabo Verde e estrangeiras, olhem para Cabo Verde como um país de oportunidades? 

Já temos e vamos reforçar estímulos e incentivos económicos e fiscais com a criação de Zona Económica Especial para a Tecnologia que disponibiliza um ambiente de negócios favorável à inovação e ao empreendedorismo. Vamos continuar a investir na capacitação digital dos jovens e na formação de parcerias para aumentar a presença do país no cenário internacional de tecnologia. O nosso programa de nómadas digitais vai ser reforçado para ganhar maior dimensão.  

   

Quando falamos de liderança, quais são os principais fatores de força do país e os pontos mais frágeis onde importa uma atuação urgente? 

Cabo Verde é um país com estabilidade e boa governança, requisitos importantes para a confiança e despoletar de lideranças. O país tem ainda um dividendo demográfico de uma população jovem, o nível de escolarização é relativamente elevado, o ensino básico e secundário público é gratuito, existe um ecossistema de fomento empresarial favorável ao empreendedorismo e à inovação (formação profissional, assistência técnica, financiamento e fiscalidade), existem talentos num país aberto ao mundo e com uma vasta diáspora que o torna cosmopolita. Estes são os pontos fortes. Os pontos mais frágeis são a taxa de pobreza ainda relativamente alta e a igualdade e equidade de género. São constrangimentos ao desenvolvimento do potencial humano. Temos tido bons progressos na política de igualdade e equidade de género particularmente dirigida ao empoderamento económico e social das mulheres. Temos como objetivo reduzir significativamente a pobreza absoluta e erradicar a pobreza extrema até 2026. 

 
A economia de Cabo Verde está a crescer, esse crescimento assenta em que áreas de atividade? 

Turismo é o setor com maior contribuição no PIB, mais dinâmico e com bom potencial para crescer em todas as ilhas. 
 

Que outras áreas podem ter campo de crescimento? 

As pescas, a aquacultura e a indústria conserveira pesqueira vão crescer e aumentar as exportações do país. Investimentos em entrepostos de pesca, rede de cais e equipamentos de apoio à pesca e no desenvolvimento da pesca industrial estão previstos. Na aquacultura, o investimento em curso da empresa norueguesa Nortuna vai posicionar S. Vicente no mercado de exportação do atum rabilho. 
A economia digital é outro setor com alto potencial de crescimento e de exportação de serviços. A nossa ambição é que venha a atingir 25% do PIB. Em breve teremos concluído os parques tecnológicos da Praia e de S. Vicente. Para além do investimento da EllaLink, perspetivamos outros para posicionar Cabo Verde na rota de cabos submarinos de fibra ótica valorizando a localização do país. Desde 2017, que temos implementada uma estratégia intencional de qualificação de jovens talentos e fomento do empreendedorismo digital.  

 
Além das lideranças digitais, que tipos de novos líderes precisa Cabo Verde? 

Lideres empreendedores nas áreas fundamentais para o aumento da resiliência do país que reduza a dependência dos combustíveis fosseis através de energias renováveis e da eficiência energética e aumente a segurança alimentar através de uma agricultura inteligente com base em dessalinização da água, reutilização segura das águas residuais, massificação da rega gota a gota, tecnologias de produção menos exigentes no consumo de água, um forte nexo água/ energias renováveis, uso dos serviços da I&D e do digital, para melhorar os processos produtivos. Em qualquer destas áreas, jovens empreendedores podem fazer a diferença entre o tradicional e o moderno, o passado e o futuro, convergindo com as prioridades de desenvolvimento do país. 

 
Há questões mais estruturais que ajudam e promovem o desenvolvimento, estamos a pensar na saúde pública, segurança, educação e desburocratização dos processos. Estes aspetos estão na agenda da governação? O que se pode esperar para os próximos tempos? 

São prioridades da nossa agenda. Com a pandemia da COVID 19, a saúde pública e a segurança sanitária ganharam maior relevância a nível mundial e para Cabo Verde obviamente. Fizemos um bom combate à COVID, aumentámos o investimento do SNS e vamos continuar a investir. A segurança pública tem estado no centro da nossa atenção através da prevenção e ação policial, judicial e de políticas de inclusão social. A educação é a prioridade das prioridades para a coesão social e o desenvolvimento do país. Hoje, em Cabo Verde o ensino básico e secundário é gratuito, o investimento na ação social escolar é forte e foram implementadas e estão em curso reformas para melhorar a qualidade. Desburocratização e melhoria do ambiente de negócios vão ser acelerados com a transformação digital e consequentes reformas legislativas com particular incidência nos serviços da administração pública e da justiça. 

   
Cabo Verde é uma democracia que está a amadurecer, consegue identificar-nos quais os seus perigos e riscos e como se pode ainda consolidar mais? 
 

Os perigos e os riscos como o populismo, o nacionalismo e o extremismo tendem a globalizar-se e a provocar mimetismos. Nenhum país está imune a estes fenómenos, por isso, proteger, cuidar e aprimorar a democracia é preciso permanentemente. Não sendo possível eliminar a toxidade do populismo, a melhor resposta é fortalecer a democracia e isso faz-se com o reforço da confiança dos cidadãos nos políticos, no sistema político, nas instituições públicas, na colocação da corrupção a níveis baixos e no reforço da coesão económica e social, particularmente na redução da pobreza absoluta e na erradicação da pobreza extrema. Em Cabo Verde temos como objetivo eliminar a pobreza extrema como um desígnio nacional e um imperativo da dignidade da pessoa e da liberdade e democracia.   

Pedíamos-lhe uma mensagem para todos os cabo-verdianos que acreditam que podem ser líderes no seu país, nas suas empresas, nas suas comunidades? 

Liderança exige muito do ponto de vista pessoal, disponibilidade de tempo, energia, capacidade de trabalho e de motivação dos colaboradores. Coloquem essas qualidades pessoais ao serviço de um projeto, de uma ambição, de um propósito seja a nível político, empresarial, institucional, social ou cultural.    

 

 

Imagens: Direitos reservados Governo de Cabo Verde 

 

Esta entrevista foi publicada na edição especial da revista Líder Cabo Verde. 

Subscreva a Líder AQUI.  

Arquivado em:África, Cabo Verde, Entrevistas

«Nós somos o reflexo de onde e como vivemos», diz Joana Marcelino

24 Março, 2023 by Denise Calado

Quis o destino que acontecesse em 2020 a minha visita a Joana Marcelino, no seu Studio, em Leiria, o espaço de arquitetura que fundou e onde exerce a sua vocação profissional. Nesse 2020, dizia, que a todos trouxe uma nova relação com o espaço, estive então nesse lugar de trabalho da Joana, que é também de proximidade e identificação com o local habitado e que revela de forma singular, talvez, o que a Joana descobriu desde criança que queria ser: arquiteta.  

À arquitetura, junta arte, design e moda, numa abordagem multidisciplinar. Colaborou em inúmeros projetos de relevo, entre os quais, como diretora criativa de ambientes, para o lançamento da marca Casa Alegre por Vista Alegre, com sessões para a Bordallo Pinheiro e Vista Alegre. Assumiu a curadoria da primeira FlagshipStore, a Wewood Portuguese Joinery. Com as próprias mãos, desenha coleções de mármore e cerâmica para marcas de estatuto internacional, como Lovetiles, Pavigrés ou Pedrantiqua. Tem ainda o reconhecimento do Prémio de Honra de Mérito da 11.ª Edição da Gala Portugueses de Valor, atribuído pela Lusopress em Valenton, França. Joana Marcelino é, acima de tudo, uma embaixadora do ser português. 

Paula Perfeito (PP): A arquitetura ainda existe? Ou está reduzida à legislação do pé direito e afins? 

A arquitetura existe e de forma nenhuma poderá estar reduzida à legislação do pé-direito, a paredes e portas. Arquitetura é arte, arquitetura é futuro, arquitetura é o espaço que respiramos. 

PP: Li há tempos uma entrevista realizada na década de 1970 pela escritora Clarice Lispector ao escultor Bruno Giorgi, em que se explora a importância do desenho, sobre o qual o artista lhe diz: «Sempre me preocupei com o desenho e nada realizei sem severo estudo prévio de desenho». Funciona assim contigo, na arquitetura?    

O desenho são as perspetivas por mim imaginadas que se concretizam mais tarde, exatamente como as desenhei, quer em obra, numa decoração, numa peça de design ou num arranjo de flores. Sou muito visual e, para mim, tudo se constrói na cabeça através de um desenho, um desenho será sempre o reflexo mais verdadeiro da criatividade. Por isso admiro tanto o trabalho de um artista plástico, por exemplo. Não passa por nenhuma espécie de triagem, sai diretamente da sua essência para a concretização da obra. 

PP: O que é mais desafiante? A conciliação entre a utilidade e a estética ou a estética como objetivo único?   

A conciliação entre a utilidade e a estética, pois desbravará caminhos e conseguirá resultados finais únicos, com uma identidade muito própria. A estética também estará na utilidade, na prática, no entendimento, sempre! 

PP: Olhemos para uma frase que conseguirá sempre expressar-se melhor em inglês: a house is not a home. O que podemos ter apreendido, com os isolamentos impostos pela pandemia, sobre o espaço que habitamos?  

Ai a casa… a casa sempre foi, é e será, para mim, o tipo de projeto mais incrivelmente desafiante. Se, por um lado, temos a dinâmica da família e a identidade de cada um, por outro lado, temos o lugar e um sem número de variantes, como orçamento, processo burocrático, construtivo. No final, e ultrapassados todos estes obstáculos, tem que ser qualquer coisa como a nossa segunda pele. O que nos envolve, o que nos deixa sermos nós próprios, o que nos permite chorar, rir, adormecer, sonhar, acordar. Se, até à pandemia, quando descrevia a casa, a maioria das pessoas, ficava um pouco atónita a olhar para mim, agora sinto que me compreendem mais do que nunca. Este ano tornou-nos mais conscientes sobre o que somos, como nos movemos e como habitamos. Seria irresponsável voltar a olhar para a casa com a mesma descrença. Ouve-se muito: nós somos aquilo de que nos alimentamos, mas do meu ponto de vista também somos muito o reflexo de onde e como vivemos. Já Charles Eames dizia: «At all times love and discipline have led to a beautiful environment and a good life». 

PP: O Joana Marcelino Studio desenvolve projetos de arquitetura e design de interiores para as áreas residencial, comercial e industrial, centrando-se em qualquer um dos segmentos nas pessoas. Perante as exigências económicas mundiais e os efeitos de uma globalização em crise, ainda é possível refletir o homem e o seu ambiente? 

Somos seres em constante mutação, com necessidades a alterar a uma velocidade incrível. Somos também seres humanos, que fazemos parte deste querido planeta que se chama Terra e a Terra será sempre a nossa casa. Tenho uma máxima: a primeira pedra de uma construção deve ser uma árvore. Cada vez mais, acho que o projeto deve começar pelo espaço que não é construído, olhando para ele, respeitando-o e recriando um universo em perfeita sintonia. Quando não existe, que possamos aproveitar a oportunidade de construir também com e para a natureza, fifty, fifty. Este será o ambiente natural do homem, onde nos iremos sentir confortáveis, felizes, em paz. O restante vem por acréscimo. 

PP: Este projeto Joana Marcelino Studio está enraizado em Leiria, como poderia estar numa qualquer capital cosmopolita do mundo. Houve, da tua parte, uma aposta de empreendedorismo consciente em estreita relação com a cidade? Fala-nos também da janela que, numas obras que fizeste no Studio, abriste para o exterior… 

Sempre tive os meus sentidos muito despertos para o que de melhor se faz lá fora, com os pés bem assentes cá dentro. Nasci na rua onde moro, onde trabalho. Valorizo um lugar onde me sinta bem, onde possa ser livre na criação sem muito ruído à volta, onde possa contar com os vários tipos de equipa, artesãos e onde possa por outro lado estar em família, em segurança. Sempre tentei ser eu própria e acredito piamente que o Joana Marcelino Studio seria o mesmo no centro de Paris, Londres ou Nova Iorque. O empreendedorismo parte de cada um, da sua essência. Em Leiria, movo montanhas, mas com esperança que, em muito pouco tempo, trilhe apenas caminhos. O studio, a minha casa, está em Leiria, a base do meu trabalho estará sempre cá com os olhos postos lá fora. Recentemente, tive a oportunidade de mudar não só o meu studio, mas o edifício, a sua relação com a cidade. Incrível como habito e trabalho neste espaço desde 2007 e agora com esta remodelação encontro novas perspetivas, uma luz e um movimento que desconhecia existir. Criei o meu mundo cá dentro, mas sinto que também devolvi um pouco dele à cidade. Os alecrins que rodeiam o Studio são exemplo disso mesmo, a fragrância que deixam na rua, em pleno coração da cidade… 

PP: A tua visão multidisciplinar – que junta a arquitetura à arte, ao design e à moda – permite-te trabalhar a obra (residencial, comercial ou industrial) de forma holística, certo?   

Exato, são áreas complementares, inspiradoras. Existe tanto de arquitetura na moda, existe tanto de arte em ambas. Todas procuram o detalhe, a essência, a unicidade. Em última instância, seremos uma só! 

PP: Para além da combinação de diferentes disciplinas, valorizas os elementos especiais e o que eles despertam nos sentidos. Refiro-me, por exemplo, às flores, através das quais lançaste uma nova abordagem de decoração. Queres comentar?  

Ainda há pouco referi a minha admiração pelos artistas plásticos, a forma como constroem a obra com uma autenticidade inigualável sem estar sujeita a algum tipo de restrição ou modelo. Consegui encontrar uma matéria que me dá esse poder: as flores. Através delas consigo complementar, transformar, cuidar, sensibilizar, inspirar, sendo eu própria, com base na experimentação, no entendimento, quer das formas, texturas, fragrâncias, quer pela sua composição. É também algo muito imediato, faz-me feliz e acredito que faz feliz também as pessoas, os espaços. 

PP: Falaste-me, um dia, de um casal francês que te procurou – tinhas na altura apenas 26 anos – para a remodelação de uma moradia em Toulouse que deveria acompanhar a evolução da família cujos filhos haviam saído de casa para casar. O que foi decisivo, do teu ponto de vista, para que te tenham escolhido a ti?   

A forma como os ouvi e tentei entender. A compreensão de uma conversa sobre a forma como imaginam a casa ou qualquer outro tipo de espaço, para mim, são as palavras escritas de um livro. Começamos a ler e automaticamente criamos imagens, espaços na nossa cabeça. Só o conseguimos fazer quando estamos verdadeiramente dedicados à leitura, libertos no pensamento. Foi o que fiz com eles e o que continuo a fazer todos os dias. 

PP: Tens marcado presença regular em eventos internacionais de arquitetura, como a Milan Design Week. O que levas e trazes desses eventos?   

Levo uma ansiedade, curiosidade imensa e uns quantos desenhos debaixo do braço. Levo também muitos sonhos. Trago sempre, essencialmente, o coração cheio, pelo que vi, senti, pela concretização de alguns desafios a que me propus, pelas conversas infindáveis com as pessoas do meio, com as que revejo e com as que conheci e uma inspiração sem fim. Uma curiosidade: em 2017, houve greve dos transportes em Milão, a meio da semana. O metro parou quando estava a caminho da feira. De repente, vi-me sozinha sem grandes meios para ir para onde quer que fosse. Olhei para o lado e comecei a conversar com uma pessoa que estava exatamente na mesma situação que eu. Foi assim que conheci a Alejandra Gandia-Blasco. Nada será tão importante como as relações humanas que criamos. 

PP: Há uma arquitetura portuguesa?  

Havia uma arquitetura portuguesa, neste momento há um país aberto ao mundo e o mundo a ele, o que me deixa fascinada. A interpretação arquitetónica e a criação que muitos jovens arquitetos portugueses ou estrangeiros têm feito é notável. Abriram-se novos caminhos, novas formas de olhar a arquitetura, o espaço e o lugar, as matérias. 

PP: Projetar uma cidade – como o fez Oscar Niemeyer em Brasília – é uma ambição comum para qualquer arquiteto? Ou a projeção de uma simples parede pode ter lá tudo?  

A projeção da parede ou a ausência da mesma pode ser tudo. Para mim, todos os desafios são válidos, quer esteja a trabalhar num detalhe, quer a construir um lugar de grande dimensão. Na base estarão sempre a essência, os valores, o querer fazer bem e melhor, numa perspetiva global e se possível acrescentar algo mais. 

PP: Que cliente te desafiou mais até hoje? 

Sinceramente? Talvez uma família para a qual trabalhei há uns anos, que apostou todas as economias na compra de uma vivenda e em mim, no meu trabalho, depois de 20 anos a viver num apartamento muito pequeno com 2 filhos… Confesso que, na primeira reunião para apresentação do projeto, eu estava mais nervosa do que eles! Queria muito corresponder aos seus sonhos e torna-los possíveis. Como poderia não o fazer? Não o concretizar? 

PP: És mãe de três filhos. É esse o teu maior edifício? Como defines o papel da (tua) família na construção da casa?     

Escrevi um texto em maio de 2019, que recupero aqui, esperando com ele responder à tua pergunta. Intitulei-o de “Metro quadrado”: 

O meu/nosso maior e desafiante projeto. Fizemos as fundações, criámos uma casa estável e equilibrada, desenhámos os interiores. Temos tempestades, mas temos muito mais bom tempo. A meteorologia costuma estar a nosso favor. Estamos orgulhosos do nosso trabalho, ou não fosse o amor que nos move. Esperamos subir em conjunto as escadas da vida, por outras casas que os nossos filhos nos irão mostrar. Esperamos estar cá para ver, para habitar, para amar. Esperamos também que o céu estrelado e que o lindo sol sobre a nossa casa nos proteja… sempre. 

 

Créditos de imagem: Isabel Nolasco 

Esta entrevista é parte do livro “As perguntas que somos”, uma compilação de 34 conversas, que a partir da pergunta, mostra os olhares de personalidades desassossegadas, inquietantes, com histórias de vida, trajetos profissionais e domínio de saberes diversificados e relevantes. O projeto inicial partiu no Entre | Vistas, plataforma digital de comunicação cultural fundada por Paula Perfeito, em novembro de 2014.  

  

Uma seleção de oito conversas será publicada, todas as sextas-feiras, até ao dia 5 de maio. 

Saiba mais sobre “As perguntas que somos” aqui. 

 

Arquivado em:Entrevistas

E se oferecer um subsídio de bem-estar aos seus colaboradores ?

24 Março, 2023 by Denise Calado

É um benefício que pode ajudar a reter talento, e que promove a saúde mental e física dos seus colaboradores: o subsídio de “wellness” pretende equiparar-se ao subsídio de alimentação e tornar-se a norma na oferta de benefícios das empresas portuguesas. 

A Líder conversou com Miguel Ribeiro, Founder e CEO da SheerME Benefits, a start-up portuguesa que em 2021 lançou o subsídio de bem-estar, para entender como funciona este benefício, e quem pode usufruir dele. 

Como surgiu a ideia de criar um subsídio de bem-estar? 

A sheerME foi desafiada por algumas empresas parceiras a criar um produto que, tal como o subsídio de alimentação, pudesse dar a opção as empresas de investir no bem-estar dos seus colaboradores.  

Acreditamos que temos uma solução muito abrangente em termos de serviços que as empresas e os seus colaboradores valorizam e procuram, de modo a melhorar o seu bem-estar.  

Os serviços da sheerME tocam nas seis dimensões do bem-estar: Melhor Saúde, Fitness, Aparência, Mindfulness, Nutrição e um Sono recuperador. Desta forma, acreditamos que conseguimos dar opções diversificadas e valorizadas por quem procura cuidar melhor de si. 

Por que devem as empresas investir num subsídio de bem-estar para os seus colaboradores? 

Acreditamos que empresas que investem no bem-estar dos seus colaboradores não só vão ao encontro de necessidades atuais, como têm colaboradores mais felizes, confiantes e eficientes.  

Isto é especialmente reconhecido entre os Millennials e a Geração Z, que procuram em média mais 6% a 7% por este tipo de serviços que as restantes gerações. 

Como funciona o subsídio quando o montante fica disponível na carteira virtual? 

A partir do momento que a empresa parceira decide atribuir o subsídio de bem-estar da sheerME Benefits aos seus colaboradores, e define qual é o montante que pretendem carregar mensalmente na carteira virtual destes, a própria empresa pode carregar uma lista de e-mails dos colaboradores e valores atribuídos, e todos os meses o mesmo valor será carregado em wallet.  

Os colaboradores recebem um email-convite para eles criarem uma conta na sheerME, e o valor fica em wallet e pronto a ser usado. 

Acredita que o subsídio de wellness no futuro pode tornar-se parte fundamental nos rendimentos, como o subsídio de alimentação e transporte? 

Sim, absolutamente, e deveria ser desde já.  

As pesquisas e tendências já o dizem: o bem-estar tem se tornado uma prioridade para todas as pessoas. Levando este cenário para o ambiente corporativo, fica ainda mais evidente que as empresas terão de olhar para essa necessidade dos colaboradores, não somente por competitividade, mas também para cultivar um ambiente de trabalho de qualidade, com colaboradores mais produtivos e eficientes. 

A que tipo de empresas ou setor se destina o subsídio? Como se faz a adesão? 

Todas empresas que se preocupam com o bem-estar dos seus colaborares, podem e devem aderir. 

Para aderir, basta preencher o formulário na página da sheerME, e entraremos em contacto para dar acesso às plataformas sheerME Benefits.  

A sheerME não tem qualquer comissão sobre o serviço. Todo o valor carregado pela empresa estará refletido na wallet do seu colaborador. 

Que impacto espera que o este serviço tenha em Portugal, tendo em conta que mais de metade dos portugueses está disposto a investir entre 10 e 50% do seu rendimento no bem-estar em 2022, de acordo com um estudo da Católica Lisbon? 

Sabemos que o impacto da sheerME na vida das pessoas é extremamente positivo, não somente pelo feedback que recebemos, mas também com base em inúmeros estudos como este, que apontam a prioridade crescente que as pessoas têm dado ao seu bem-estar, principalmente após a pandemia.  

Pelo ponto de vista económico, também trazemos grande impacto aos prestadores de serviços de bem-estar. Primeiro, porque através da nossa plataforma digital a visibilidade destes profissionais aumenta consideravelmente e, consequentemente, o fluxo de novos clientes. Assim, aumentamos a competitividade no setor, e também o nível qualidade dos serviços. 

Para o consumidor, trazemos mais opções, mais visibilidade de serviços que poderiam não conhecer e levamos a eficiência de conseguirem marcar a qualquer hora e em qualquer lugar. Ainda mais com um incentivo oferecido pelo empregador, acreditamos que a sheerME será o canal de marcações mais usado num futuro próximo. 

 

Por Denise Calado 

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Empreender – a urgência de novos líderes

24 Março, 2023 by Denise Calado

No mundo actual em rápida mudança e cada vez mais digital, todos os líderes estão a ser forçados a mudar a um ritmo cada vez mais acelerado para não ficarem para trás. E a velocidade da mudança vai continuar a aumentar. Todos os líderes e negócios que recusem a mudança ficarão pelo caminho, porque, neste momento, a evolução trata-se de uma questão de sobrevivência já que o mundo atualmente cresce ao ritmo da inovação e a exponencialidade da tecnologia é apenas mais uma ferramenta pronta a ser usada. 

Neste contexto VUCA, que se alimenta de pandemias, conflitos armados e alterações climáticas, o verdadeiro empreendedorismo surge (não conjugo o verbo no futuro porque é uma tendência a que já estamos a assistir) a partir das tecnologias exponenciais. São elas o verdadeiro catalisador de novas ideias e do desenvolvimento de novos negócios. E, portanto, os próximos líderes a criar verdadeiro impacto serão os que conseguirem empreender neste novo contexto de mudança, aplicado à tecnologia e alicerçado pela Transformação Digital a que temos vindo a assistir nos últimos anos.  

Nesse sentido, é legítimo dizer que a digitalização, entre outros factores, veio acelerar o processo de inovação nas empresas e atualmente é difícil conceber qualquer tipo de negócio que não tenha dependência de algum meio digital, quer seja no processo de criação de um produto, na sua promoção ou distribuição. Aliás, nas palavras de Eduardo Ibrahim (Speaker da SingularityU Brasil e expert em Economia Exponencial e Inteligência Artificial), “Não tem nada no mundo que possa ser digitalizado, que não será digitalizado”. Se associarmos esta inevitabilidade à exponencialidade do digital alcançamos um estado em que tudo nos é permitido e tudo é alcançável obrigando as novas lideranças a confrontarem-se com o dilema de empreender, gerando novos negócios para enfrentar problemas antigos ou intra-empreender (geralmente no contexto de grandes empresas) procurando novas soluções para negócios antigos. 

Ora, esta exigência urgente de novos líderes em empreendedorismo é impulsionada pela necessidade de tirar partido da (r)evolução digital e do seu potencial para criar oportunidades quer para o indivíduo como para a comunidade. Num paralelismo com o cinema mais recente, esta nova liderança digital, principalmente nas gerações mais novas, está obrigada a empreender num contexto de “Tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo” e dão-se bem com isso. 

No entanto, os conceitos Nativo Digital e Mindset Digital não são exactamente idênticos, pelo que se torna crítica a necessidade de proporcionar aos jovens educação e formação nas competências necessárias para que possam ter uma voz activa no empreendedorismo motivado pelo Digital. Organizações como a NOVA School of Business and Economics, através do Haddad Entrepreneuship Institute e a própria SingularityU Portugal são um bom exemplo de um modelo que não só incentiva e apoia o empreendedorismo como dá destaque ao papel cada vez mais relevante da convergência das tecnologias exponenciais nos dias de hoje. 

Finalmente, importa referir a crescente consciencialização por parte daquela que já foi apelidada de “GenTech” – nativos digitais entre 19 e 24 anos – da falta de diversidade de género e cognitiva nas organizações, dos problemas sociais e ambientais cujas consequências são imediatas nas suas vidas e da falta de alinhamento do mercado de trabalho entre propósito da organização e força de trabalho. Se atentarmos ainda ao facto de actualmente, a média de empregabilidade nas principais empresas tecnológicas ser inferior a três anos, percebemos rapidamente que todas estas divergências, aliadas à quase interação natural dos jovens com tudo o que é digital, está a forjar uma nova liderança que recebe e aceita o empreendedorismo como o caminho a seguir para mudar o mundo, apoiando-se no digital como pano de fundo desta nova realidade. 

 

Arquivado em:Opinião

Mariana Victorino é a nova Head of Communications & Marketing da Foundever

24 Março, 2023 by Denise Calado

Mariana Victorino assume dois cargos na área da Comunicação e Marketing da Foundever, empresa de serviços de Customer Experience Management (CX), anterior Sitel Group. Enquanto Head of EMEA Communications será responsável por 24 países da região EMEA (Europa, Médio Oriente e África); como Multilingual Region Marketing Director terá a seu cargo 8 países (Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Roménia, Bulgária, Hungria e Egipto). 

Mariana Victorino irá definir e implementar uma estratégia articulada e consistente nos vários países e aumentar a notoriedade da nova marca Foundever no mercado, resultante do rebranding do Sitel Group que aconteceu no início do mês de março. Os mercados que vai coordenar integram Foundever Multilingual Hubs, hubs multilíngues de suporte ao cliente. 

Com mais de 25 anos de experiência nas áreas de marketing, comunicação e relações públicas, Mariana Victorino tem um percurso em empresas e agências tendo sido, até fevereiro deste ano, Managing Diretor do Omnicom Public Relations Group (Porter Novelli, Ketchum e FleishmanHillard), em Portugal e membro da comissão executiva do grupo na Península Ibérica, onde esteve mais de 20 anos. Antes disso, trabalhou no Omnicom Media Group, na Emirec Comunicação, na TBWA e na Siemens. 

Doutorada em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, onde é professora e investigadora é também coordenadora da Pós-graduação em Comunicação Estratégica e da Formação Avançada em Gestão da Reputação e Comunicação de Crise na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa e Professora convidada no Mestrado Executivo Avançado em Gestão, na NOVA – School of Business and Economics.   

É com enorme entusiasmo que aceito este novo desafio, com o foco de poder contribuir com o meu know how e experiência para o crescimento e consolidação da Foundever nos diferentes mercados como a empresa maior e mais inovadora na área de CX BPO”, refere Mariana Victorino. “A minha integração coincidiu com o rebranding da marca de Sitel Group para Foundever, por isso, será um novo começo para ambos enquanto Foundever”, refere a nova Head of EMEA Communications & Multilingual Region Marketing Director da Foundever 

Mariana Victorino, Head of EMEA Communications & Multilingual Region Marketing Director da Foundever

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