A rápida evolução da tecnologia conduziu ao que é normalmente chamada a quarta revolução industrial. Resultado de uma interação entre um número grande de tecnologias, como a “Internet of Things” (IoT), a biotecnologia, a (super)computação, a inteligência artificial.
A transformação digital é resultado do rápido desenvolvimento de todas as tecnologias e, em particular, da computação. Já ouviram falar na Lei de Moore? Apesar do nome, não é realmente uma lei, mas uma constatação empírica de que o número de transístores que é possível integrar numa dada área de um circuito integrado duplica aproximadamente a cada dois anos. Isso pode não parecer muito impressionante, mas o que acontece é que se duplicarmos uma dada quantidade a cada dois anos, durante tempo suficiente, estaremos, de facto, perante uma evolução exponencial e atingiremos, num prazo comparativamente curto, valores impressionantes. Por exemplo, se um moderno telemóvel, como o que têm nos vossos bolsos ou nas vossas carteiras, fosse feito com a tecnologia de válvulas que eram usadas nos anos 50, esse telemóvel seria do tamanho de um grande estádio de futebol. Isto dá-vos uma ideia do nível de integração e do nível de evolução tecnológica que as tecnologias digitais, em geral, e a eletrónica, em particular, conseguiram, uma evolução que não tem paralelo em nenhuma outra área tecnológica, com uma possível exceção: a tecnologia de sequenciação do DNA.
Quarta revolução industrial
Tipicamente considera-se que tiveram lugar duas revoluções industriais nos séculos XVIII e XIX, que aconteceram em rápida sucessão: a primeira com a máquina a vapor e a segunda com a eletricidade, e diversas tecnologias relacionadas com transportes e produção industrial. Já a terceira revolução industrial, que apareceu com os computadores algures na década de 60 do século XX, precedeu a quarta que resultará de um número grande de tecnologias. Não será possível analisá-las todas aqui e irei apenas referir algumas. A primeira tecnologia que importa referir é a “Internet of Things” (IoT). A internet das coisas é baseada na ideia de que praticamente cada objeto, seja uma peça de roupa ou um produto no frigorífico, vai provavelmente, num futuro não muito distante, ter um endereço de internet e estar ligado à internet. Obviamente os frigoríficos vão estar ligados à internet, mas o que está dentro dos frigoríficos também, bem como as nossas peças de roupa, entre muitas outras coisas. Na prática isso cria no mundo digital uma cópia ou um registo digital de todos os objetos do mundo físico. Isto, obviamente, tem um potencial enorme na indústria, na distribuição, na logística, mas também muda a nossa vida do dia-a-dia e terá impactos extremamente profundos, económicos e sociais.
A segunda grande tecnologia que faz parte desta quarta revolução industrial é a biotecnologia e, em particular, a interação entre o digital e tudo o que é biológico, sejam os corpos humanos, as células, os micróbios ou as plantas. Mas, naturalmente, estamos em particular muito interessados no corpo humano, o qual é bastante importante para cada um de nós. Os nossos conhecimentos de genética e da forma como funcionam os sistemas biológicos, assim como a capacidade que temos de perceber não só a genética de cada célula, mas também os mecanismos que estão por trás dos desenvolvimentos das células, dos tecidos, dos corpos e das doenças abrem novas possibilidades. Este conhecimento, junto com a capacidade de analisar grandes volumes de dados, potenciada pelas tecnologias de bioinformática, conduzem na prática a uma possibilidade de que se fala muito, a medicina personalizada. Esta é a ideia de que nas próximas dezenas de anos iremos assistir a uma alteração profunda nesta área. Deixaremos de usar um só medicamento ou tratamento para todos. Cada um de nós terá o seu medicamento específico, o seu tratamento, o seu diagnóstico e, provavelmente, um agente inteligente que nos acompanhará no dia-a-dia, fazendo recomendações e assinalando informação nos registos médicos.
A terceira grande componente desta área é a computação. Vem desde os anos 50 e vai continuar a desenvolver-se cada vez mais. Embora a Lei de Moore não vá durar para sempre, porque sabemos que nenhuma tendência exponencial pode durar eternamente, ela já perdurou muito mais do que se esperava. Tem-se falado muito na computação quântica, mas não estou convencido que por si só vá representar uma revolução muito profunda na área. Pode ter alguns impactos importantes em algumas subáreas, nomeadamente, em questões de segurança e em comunicações, uma vez que existem aplicações nessas áreas. Porém, em termos de computação, a computação quântica não irá seguramente, pelo menos não durante a minha vida, trazer nenhuma revolução significativa. E a supercomputação continuará a avançar rapidamente. A supercomputação é precisamente esta ideia de que teremos computadores cada vez mais poderosos, que terão a possibilidade de simular sistemas cada vez mais complexos, entre os quais sistemas biológicos, órgãos, partes do cérebro humano e até mesmo, eventualmente, um cérebro humano completo, daqui a umas dezenas de anos.
A quarta grande tendência é claramente a inteligência artificial. Tem-se falado muito deste tema, mas o que é, exatamente, a inteligência artificial (IA)? Pode ser simplesmente definida como uma tecnologia que permite aos computadores desempenharem tarefas que requerem inteligência se forem desempenhadas pelo ser humano. É uma definição um bocadinho redonda, porque é difícil definir inteligência. A principal razão é que a inteligência artificial é um alvo móvel. Quando foi definida e estudada pela primeira vez pensou-se que se um computador conseguisse jogar bem xadrez, teríamos atingido o objetivo de desenvolver a IA. Ao princípio até se começou com o jogo das damas, que era mais fácil. Existem diversas tarefas que, se forem executadas por um computador, como por exemplo reconhecer linguagem falada, demonstram que esse computador exibe inteligência artificial. À medida que cada uma destas tarefas foi sendo conquistada o objetivo foi mudando. Hoje temos computadores que são os melhores a jogar xadrez do que qualquer ser humano, e até outros jogos mais complexos, e, porém, não se considera isso verdadeira IA. A inteligência artificial teve muitos altos e baixos, causados por um fenómeno que é conhecido como Paradoxo de Moravec: é fácil para os computadores executarem algumas tarefas que são difíceis para nós, mas é extremamente difícil para eles executarem algumas tarefas que são fáceis para nós. Por exemplo, é muito fácil pôr um computador a demonstrar teoremas matemáticos. É também razoavelmente fácil pôr um computador a jogar xadrez ao nível do campeão do mundo ou até muito melhor.
No entanto, é extremamente difícil escrever um programa de computador que olhe para uma sala e reconheça que nela estão cadeiras, uma mesa, uma garrafa de água, e pessoas a dormir ou acordadas, conforme o caso. Executar uma tarefa como essa é extremamente difícil e esse desafio resistiu ao trabalho de milhares de investigadores durante mais de meio século. Isso levou a que muitos investigadores perdessem ânimo e a que as agências de financiamento deixassem de financiar a IA. Porém, com a mesma regularidade, assiste-se a um ressurgimento, um novo entusiasmo sobre o tema. O que estamos a assistir agora é provavelmente ao maior ressurgimento de entusiasmo do último meio século. Ainda estamos para ver se virá um novo inverno de IA, quando as tecnologias atuais se vierem, talvez, a revelar incapazes de resolver alguns problemas.
Acredito que o próximo inverno da inteligência artificial não será para breve e que, pelo contrário, as tecnologias que estamos a desenvolver agora conduzirão nas próximas décadas a alterações significativas na economia, pelo impacto que terão de facto no emprego, porque muitas funções que são desempenhadas por seres humanos neste momento, poderão ser desempenhadas, de forma economicamente vantajosa, por sistemas baseados em IA.
Este artigo foi publicado na edição especial da revista Líder Cabo Verde.
Subscreva a Líder AQUI.















