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Denise Calado

Admirável Mundo Novo

27 Março, 2023 by Denise Calado

A rápida evolução da tecnologia conduziu ao que é normalmente chamada a quarta revolução industrial. Resultado de uma interação entre um número grande de tecnologias, como a “Internet of Things” (IoT), a biotecnologia, a (super)computação, a inteligência artificial. 

A transformação digital é resultado do rápido desenvolvimento de todas as tecnologias e, em particular, da computação. Já ouviram falar na Lei de Moore? Apesar do nome, não é realmente uma lei, mas uma constatação empírica de que o número de transístores que é possível integrar numa dada área de um circuito integrado duplica aproximadamente a cada dois anos. Isso pode não parecer muito impressionante, mas o que acontece é que se duplicarmos uma dada quantidade a cada dois anos, durante tempo suficiente, estaremos, de facto, perante uma evolução exponencial e atingiremos, num prazo comparativamente curto, valores impressionantes. Por exemplo, se um moderno telemóvel, como o que têm nos vossos bolsos ou nas vossas carteiras, fosse feito com a tecnologia de válvulas que eram usadas nos anos 50, esse telemóvel seria do tamanho de um grande estádio de futebol. Isto dá-vos uma ideia do nível de integração e do nível de evolução tecnológica que as tecnologias digitais, em geral, e a eletrónica, em particular, conseguiram, uma evolução que não tem paralelo em nenhuma outra área tecnológica, com uma possível exceção: a tecnologia de sequenciação do DNA.  

Quarta revolução industrial  

Tipicamente considera-se que tiveram lugar duas revoluções industriais nos séculos XVIII e XIX, que aconteceram em rápida sucessão: a primeira com a máquina a vapor e a segunda com a eletricidade, e diversas tecnologias relacionadas com transportes e produção industrial. Já a terceira revolução industrial, que apareceu com os computadores algures na década de 60 do século XX, precedeu a quarta que resultará de um número grande de tecnologias. Não será possível analisá-las todas aqui e irei apenas referir algumas. A primeira tecnologia que importa referir é a “Internet of Things” (IoT). A internet das coisas é baseada na ideia de que praticamente cada objeto, seja uma peça de roupa ou um produto no frigorífico, vai provavelmente, num futuro não muito distante, ter um endereço de internet e estar ligado à internet. Obviamente os frigoríficos vão estar ligados à internet, mas o que está dentro dos frigoríficos também, bem como as nossas peças de roupa, entre muitas outras coisas. Na prática isso cria no mundo digital uma cópia ou um registo digital de todos os objetos do mundo físico. Isto, obviamente, tem um potencial enorme na indústria, na distribuição, na logística, mas também muda a nossa vida do dia-a-dia e terá impactos extremamente profundos, económicos e sociais.  

A segunda grande tecnologia que faz parte desta quarta revolução industrial é a biotecnologia e, em particular, a interação entre o digital e tudo o que é biológico, sejam os corpos humanos, as células, os micróbios ou as plantas. Mas, naturalmente, estamos em particular muito interessados no corpo humano, o qual é bastante importante para cada um de nós. Os nossos conhecimentos de genética e da forma como funcionam os sistemas biológicos, assim como a capacidade que temos de perceber não só a genética de cada célula, mas também os mecanismos que estão por trás dos desenvolvimentos das células, dos tecidos, dos corpos e das doenças abrem novas possibilidades. Este conhecimento, junto com a capacidade de analisar grandes volumes de dados, potenciada pelas tecnologias de bioinformática, conduzem na prática a uma possibilidade de que se fala muito, a medicina personalizada. Esta é a ideia de que nas próximas dezenas de anos iremos assistir a uma alteração profunda nesta área. Deixaremos de usar um só medicamento ou tratamento para todos. Cada um de nós terá o seu medicamento específico, o seu tratamento, o seu diagnóstico e, provavelmente, um agente inteligente que nos acompanhará no dia-a-dia, fazendo recomendações e assinalando informação nos registos médicos.  

A terceira grande componente desta área é a computação. Vem desde os anos 50 e vai continuar a desenvolver-se cada vez mais. Embora a Lei de Moore não vá durar para sempre, porque sabemos que nenhuma tendência exponencial pode durar eternamente, ela já perdurou muito mais do que se esperava. Tem-se falado muito na computação quântica, mas não estou convencido que por si só vá representar uma revolução muito profunda na área. Pode ter alguns impactos importantes em algumas subáreas, nomeadamente, em questões de segurança e em comunicações, uma vez que existem aplicações nessas áreas. Porém, em termos de computação, a computação quântica não irá seguramente, pelo menos não durante a minha vida, trazer nenhuma revolução significativa. E a supercomputação continuará a avançar rapidamente. A supercomputação é precisamente esta ideia de que teremos computadores cada vez mais poderosos, que terão a possibilidade de simular sistemas cada vez mais complexos, entre os quais sistemas biológicos, órgãos, partes do cérebro humano e até mesmo, eventualmente, um cérebro humano completo, daqui a umas dezenas de anos.  

A quarta grande tendência é claramente a inteligência artificial. Tem-se falado muito deste tema, mas o que é, exatamente, a inteligência artificial (IA)? Pode ser simplesmente definida como uma tecnologia que permite aos computadores desempenharem tarefas que requerem inteligência se forem desempenhadas pelo ser humano. É uma definição um bocadinho redonda, porque é difícil definir inteligência. A principal razão é que a inteligência artificial é um alvo móvel. Quando foi definida e estudada pela primeira vez pensou-se que se um computador conseguisse jogar bem xadrez, teríamos atingido o objetivo de desenvolver a IA. Ao princípio até se começou com o jogo das damas, que era mais fácil. Existem diversas tarefas que, se forem executadas por um computador, como por exemplo reconhecer linguagem falada, demonstram que esse computador exibe inteligência artificial. À medida que cada uma destas tarefas foi sendo conquistada o objetivo foi mudando. Hoje temos computadores que são os melhores a jogar xadrez do que qualquer ser humano, e até outros jogos mais complexos, e, porém, não se considera isso verdadeira IA. A inteligência artificial teve muitos altos e baixos, causados por um fenómeno que é conhecido como Paradoxo de Moravec: é fácil para os computadores executarem algumas tarefas que são difíceis para nós, mas é extremamente difícil para eles executarem algumas tarefas que são fáceis para nós. Por exemplo, é muito fácil pôr um computador a demonstrar teoremas matemáticos. É também razoavelmente fácil pôr um computador a jogar xadrez ao nível do campeão do mundo ou até muito melhor.  

No entanto, é extremamente difícil escrever um programa de computador que olhe para uma sala e reconheça que nela estão cadeiras, uma mesa, uma garrafa de água, e pessoas a dormir ou acordadas, conforme o caso. Executar uma tarefa como essa é extremamente difícil e esse desafio resistiu ao trabalho de milhares de investigadores durante mais de meio século. Isso levou a que muitos investigadores perdessem ânimo e a que as agências de financiamento deixassem de financiar a IA. Porém, com a mesma regularidade, assiste-se a um ressurgimento, um novo entusiasmo sobre o tema. O que estamos a assistir agora é provavelmente ao maior ressurgimento de entusiasmo do último meio século. Ainda estamos para ver se virá um novo inverno de IA, quando as tecnologias atuais se vierem, talvez, a revelar incapazes de resolver alguns problemas.  

Acredito que o próximo inverno da inteligência artificial não será para breve e que, pelo contrário, as tecnologias que estamos a desenvolver agora conduzirão nas próximas décadas a alterações significativas na economia, pelo impacto que terão de facto no emprego, porque muitas funções que são desempenhadas por seres humanos neste momento, poderão ser desempenhadas, de forma economicamente vantajosa, por sistemas baseados em IA. 

 

Este artigo foi publicado na edição especial da revista Líder Cabo Verde.  

Subscreva a Líder AQUI.   

Arquivado em:Artigos, Leadership

PMEs portuguesas mostram-se otimistas

27 Março, 2023 by Denise Calado

De acordo com dados da Pordata, 99% do tecido empresarial português é constituído por Pequenas e Médias Empresas (PMEs). O que esperam as PMEs para 2023, um ano que será marcado pela instabilidade política e económica? 

O barómetro empresarial “Perspetivas das PME para 2023” elaborado pela Scoring, uma empresa de serviços nas áreas de gestão estratégica e financeira, concluiu que as empresas portuguesas estão otimistas no que diz respeito a negócios, novos recrutamentos e formação de colaboradores. 

Deixamos-lhe as principais conclusões: 

Perspetivas de crescimento

Os resultados do barómetro empresarial – “Perspetivas das PME para 2023” mostram, entre outros dados, que os efeitos da covid-19 já passaram e que os da guerra não afetaram a dinâmica empresarial das empresas.  

 

Além disso, as PME portuguesas perspetivam 2023 como um ano de crescimento do volume de negócios: as respostas ao inquérito revelam que mais de 45 por cento das PME acredita que o mercado onde atua vai crescer;  

60% das Pequenas e Médias Empresas considera também realizar investimentos na área de Marketing e Vendas para os mercados internos, contra 25% que irá investir no mercado da exportação.  

Para assegurar este crescimento, mais de metade das empresas respondeu que, em 2023, vai lançar novos serviços e/ou produtos.  

Aposta nos Recursos Humanos

Muitas das PMEs inquiridas afirmaram que vão fazer uma aposta nos recursos humanos, de forma a reforçar as suas equipas, tendo como investimento prioritário a formação e a motivação dos colaboradores.  

Está também no topo da agenda para 2023, o investimento na sustentabilidade/ESG (Environment, Social and Governance) e na Transformação Digital/TI.  

No que respeita aos apoios do Estado, os participantes do barómetro não consideram que a intervenção do mesmo para apoiar as PME seja uma oportunidade, sendo que 47,5% das empresas respondentes consideram mesmo que os projetos e investimentos públicos são irrelevantes. Para 40,5%, têm baixa relevância.  

Inflação entre as principais ameaças para 2023

Relativamente a potenciais ameaças, dada a conjuntura de 2022, as empresas identificam a inflação, a instabilidade internacional e os custos das matérias-primas como as principais ameaças para 2023, uma vez tratar-se de fatores que não conseguem controlar. 

Apesar de todas as incertezas, e da mudança das perspetivas económicas e consequentemente das perspetivas de negócio, as empresas estão confiantes e o Banco de Portugal aponta um crescimento de 1,5%, em 2023. 

O barómetro empresarial “Perspetivas PME 2023”, foi realizado pela SCORING – Informação e Sistemas de Gestão, Lda., através de um inquérito enviado por e-mail a uma subamostra das PME portuguesas.  

No total, foram enviados 9.778 inquéritos entre 15 e 27 de dezembro de 2022, tendo sido registada uma taxa de resposta de aproximadamente 6 por cento.  

Arquivado em:Economia, Notícias

Três dicas para apostar no talento com a transformação digital

27 Março, 2023 by Denise Calado

Lideranças na área da manufatura e operações industriais entendem que a transformação digital é um investimento crucial.  

Na verdade, espera-se que os gastos com transformação digital cheguem aos 2,8 triliões de dólares em 2025, de acordo com o mais recente “Worldwide Digital Transformation Spending Guide” da IDC.  

No entanto, observa-se que 70 a 95% dessas transformações digitais não conseguem alcançar o ROI prometido. Qual é o motivo? As empresas não estão a abordar a dimensão humana na equação homem-máquina.  

Assim, a Korn Ferry deixa três dicas para melhorar a transformação digital, focando-se também no talento. 

Redefinir a liderança digital

Se os seus investimentos em tecnologia não estão a compensar, está na hora de considerar como é que a sua liderança deve evoluir e como se deve reposicionar, incentivando skills fundamentalmente diferentes. 

Existem seis áreas que a liderança deve modernizar para melhor apoiar a transformação digital: comportamentos, habilidades e experiências, populações para liderar, formas de construir equipas, decisões a tomar e formas de crescimento. 

Os líderes digitais de alto desempenho de hoje têm um conjunto único de características (tendências naturais), competências (habilidades e comportamentos) e valores. São pessoas curiosas, adaptáveis, colaborativas, confiantes e assertivas. A transformação digital requer uma mudança comportamental fundamental. 

Anteriormente, os líderes eram mais técnicos, orientados para o processo, reativos e preocupados com a perfeição. Confiavam na autoridade e experiência, e precisavam de dados completos para tomar decisões.  

Os novos líderes podem tirar partido da influência e elevar a criatividade para inovar para o futuro, mesmo com dados incompletos. Não têm medo de experimentar e concentrar-se na excelência e na velocidade. 

Estes novos líderes podem ser candidatos internos, que têm a vantagem de conhecer a organização, bem como conexões pessoais que podem ajudar as equipas a receberem novas tecnologias e processos.  

Podem também ser candidatos externos que oferecem novas perspetivas, especialmente os que têm carreiras não convencionais e que são curiosos o suficiente para tentar novos empreendimentos com alta tolerância à ambiguidade. 

Reinventar as operações digitais

Enquanto os avanços tecnológicos melhoram a visibilidade e a acessibilidade a produtos, pessoas e informações, as empresas precisam de formas mais ágeis de trabalhar e novos fluxos de trabalho que ajudem todos a atingir os seus objetivos.  

O planeamento e execução, por exemplo, já não são apenas mais um exercício isolado, mas sim um processo contínuo e iterativo. 

As empresas de alto desempenho aproveitam o valor da Indústria 4.0 ao voltar a projetar o trabalho, desenvolvendo o seu pessoal e fortalecendo as habilidades e mentalidades de que precisam. 

Comprar apenas uma nova tecnologia não trará resultados. Os líderes também devem defender as tecnologias mais recentes e apoiar as equipas à medida que os seus cargos mudam.  

Requalificar a sua força de trabalho digital

A verdadeira transformação ocorrerá quando a força de trabalho do futuro estiver preparada e devidamente apoiada.  

Para reconhecer o retorno do investimento em tecnologia de automação, as organizações devem construir uma força de trabalho qualificada e requalificada que preencha a lacuna entre pessoas e máquinas, dedicando recursos à formação e ao desenvolvimento. 

Simultaneamente, os funcionários devem ser encorajados a aprender novas habilidades e a assumir novas responsabilidades. À medida que a próxima revolução industrial se desenrola, as empresas precisam de funcionários com novas skills para atuar num ambiente de trabalho mais dinâmico e digitalizado.  

Uma força de trabalho digital não requer apenas altos níveis de habilidade em fluência de dados, mentalidade de sistemas e tomada de decisão rápida, mas também agilidade de formação, adaptabilidade, colaboração, comunicação eficaz e tolerância à ambiguidade. 

 

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

Raul Azevedo é o novo CEO da Ivity

27 Março, 2023 by Denise Calado

A Ivity Brand Corp, empresa liderada por Carlos Coelho e Paulo Rocha, que recentemente integrou duas novas sócias – Diana Carvalhido e Rita Pinto – reforça agora a equipa de gestão com a contratação de um novo CEO, Raul Azevedo. 

Ao longo de uma carreira de 25 anos, o responsável foi Vice-Presidente Comercial do Rock in Rio para os USA, Brasil e América Latina; Diretor de Desenvolvimento de Negócios e Marketing, Grupo SIC Televisão; Consultor na McKinsey & Company em Portugal e em Angola; Gestor de Expansão Internacional e Marketing para o Sudoeste Asiático e Europa de Leste da EFACEC; e Fundador e CEO da smallWORLD Entertainment Destination Management, Hong Kong e Macau.  

Desde 2014 até ao presente, tem sido consultor independente sénior, com funções de liderança em projetos de estratégia e de Project Management Officer (PMO), em vários setores, como Telecomunicações, Media e Entretenimento, Turismo, Desenvolvimento Urbano, Farmacêutica, Banca, Seguros e Energia, tendo aconselhado grandes grupos corporativos internacionais, os Governos da Arábia Saudita, Dubai, Angola e Macau, pequenas e médias empresas e Private Equities.  

É licenciado em Engenheira Eletrotécnica e de Computadores, pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP). Tem um MBA em gestão estratégica, na Rotterdam School of Management nos Países Baixos.  

 

Sinto-me muito entusiasmado por fazer parte desta casa de marcas que é a Ivity, e por poder contribuir para re-inovar uma Ivity, onde impera a imaginação e a liberdade criativa. Integro hoje uma Ivity conectada com uma nova geração, aberta a novos modelos de negócio digitais e posicionada para se internacionalizar 

Raul Azevedo, CEO da Ivity

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Desafios de liderança num mundo digital   

27 Março, 2023 by Denise Calado

As sociedades contemporâneas atravessam uma vaga de transformação normalmente conhecida como “transformação digital”. Por vezes afirmada como uma quarta revolução industrial, esta vaga tem na sua base o uso de dados para transformar o modo como vivemos, como trabalhamos, como usamos o nosso tempo de lazer. Como aconteceu com todas as outras grandes vagas de mudança, também esta traz oportunidades e ameaças.   

Entre as oportunidades, encontram-se novos produtos e serviços que podem tornar as nossas vidas mais fáceis. No trabalho, oferecem oportunidades de flexibilização inimagináveis há uns anos. Este artigo foi escrito no Cairo e enviado para Lisboa com destino a Cabo Verde. Tudo feito numa única máquina facilmente transportável. É possível, a partir de um ponto do globo, trabalhar para o lado oposto do mundo.

Ferramentas como videoconferência tipo Zoom pertenciam ao domínio da ficção científica. Víamo-las em Star Trek; agora entraram nas nossas vidas quotidianas.     

Estas possibilidades estão a transformar as organizações: as estruturas hierárquicas dominantes vão dando lugar a novas formas, desejavelmente mais ágeis. Estes novos formatos obrigam a repensar a liderança e a gestão. Para prosperar nestes ambientes, as organizações precisam de fazer da aprendizagem, da inovação e do desenvolvimento humano, facetas fundamentais da vida organizacional. A aposta nas pessoas e no capital humano, mais que uma frase de ocasião, deve constituir um desígnio organizacional.  

Mas o digital não traz apenas oportunidades. As ameaças proliferam. O controlo dos nossos dados por organizações legítimas e ilegítimas é feito à margem do nosso próprio conhecimento; ou seja, não sabemos quem acede à nossa persona digital. Esses dados são por vezes usados para nos enganar quando compramos online. A guerra tornou-se, vista ao longe, mais parecida com um videogame. O trabalho digital ameaça deslaçar o capital social das organizações e o mesmo acontece com as redes sociais relativamente às sociedades. As ciberameaças deixaram de ser uma ameaça distante para se tornarem um facto concreto. As nossas organizações estão hoje ao alcance de intrusos digitais provenientes de qualquer parte do mundo. O que levanta novos desafios e preocupações.  

Ou seja, estamos a entrar num novo mundo. Como todos os novos mundos, também este trará picos de entusiasmo e vales de desencanto.

Importa sobretudo não esquecer: para o bem e para o mal, este é o momento em que mais precisamos de líderes, isto é, de guias para uma viagem num mundo desconhecido.   

 

Este artigo foi publicado na edição especial da revista Líder Cabo Verde.  

Subscreva a Líder AQUI.   

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Leadership Summit Cabo Verde de A a Z

24 Março, 2023 by Denise Calado

A 1.ª edição da Leadership Summit Cabo Verde levou ao palco da Assembleia Nacional, na Cidade da Praia, mais de 30 oradores, nacionais e internacionais, para refletir e pensar sobre a tecnologia e a urgência das novas lideranças, sob o tema “Nova Liderança Digital”, junto de uma audiência de 627 pessoas.  

Discursos Institucionais

Nas palavras de José Maria Neves, Presidente da República de Cabo Verde: “o papel das lideranças é crucial” e hoje, mais do que nunca, “necessitamos de líderes inteligentes”, de forma a enfrentar “a imprevisibilidades e caos” que tomou conta de uma nova realidade. Não se pode ficar por “repostas assustadoramente simplistas”, que abrem o caminho a uma democracia marcada pelo populismo. “É necessária uma grande inteligência adaptativa e uma enorme capacidade de inovar, ou seja, de transformar positivamente os sistemas organizacionais, a formação das decisões e a forma de fazer as coisas. Do conceito de destruição criativa, estaremos a evoluir para um conceito de inovação disruptiva”, rematou.  

O Primeiro-Ministro de Cabo Verde, José Ulisses Correia e Silva, referiu no discurso de abertura a esperança de que a realização desta Cimeira “seja uma aposta para ficar” sendo que “do lado de Cabo Verde há a vontade de fazer juntos boas parcerias”. O responsável destacou a “capacidade e a plasticidade de adaptação e integração”, do povo cabo-verdiano, resultado de uma “cultura construída há mais cinco séculos e meio, com uma forte diáspora pelo mundo”, dando ênfase à atuação artística de abertura, em que pela primeira vez, em Cabo Verde, ouviu-se o fado “Barco Negro”, acompanhado pelo batuku e pela dança, com as Batucadeiras Mondon e a voz de Rhaya Monteiro.  

“Cabo Verde tem condições intangíveis importantes para se tornar um líder no plano da transição digital”, afirmou o Primeiro-Ministro, marcando a confiança que o país congrega, como ponto fundamental para quem investe. Território arquipelágico com caraterísticas de “cosmopolitismo e conexão natural com o mundo”, Cabo Verde tem muito a ganhar com a transição digital, um tema pertinente e de alta prioridade.  

Notas de Boas-Vindas

Nas notas de Boas-Vindas dadas pela organização, Filipe Vaz, CEO da Tema Central, realçou o propósito do Projeto Leadership Summit Portugal, que já por “sete edições, prossegue o objetivo de produção de conhecimento para lideranças. Em Cabo Verde, com “líderes de diferentes gerações e proveniências”, as prioridades centrais estão na tríade “Homem, Sociedade e Planeta”. Sem ignorar os desafios e os riscos, “este é o tempo de aproveitar as oportunidades de transição digital”.  

A importância da realização desta Cimeira e o contributo para o “desenvolvimento dos jovens, das competências de Recursos Humanos e para o crescimento de Cabo Verde”, foi referida por Ricardo Henriques Tomás, Partner da The Office. O intuito é o de deixar uma “marca forte na comunidade e que perdure no tempo”.  Com uma nova liderança digital, surgem os novos líderes digitais, e Cabo Verde tem “demonstrado dar passos firmes no caminho para a transição digital”.  

Desmaterializar – liderança digital num admirável mundo novo

A abertura do primeiro slot da manhã, contou com a videoparticipação de Paddy Cosgrave, Fundador e CEO da Web Summit, que em 2018 esteve em Cabo Verde e conhece de perto o desenvolvimento de startups no País. Paddy Cosgrave reconheceu o caráter fundamental da relação entre o setor público e privado e o desafio de criar um ecossistema tecnológico, e de uma liderança das pessoas, a partir das Ilhas. Também ele de origem insular, por ser natural da Irlanda, realçou a cultura particular dessa condição “fantástica e rica pela força da sua diáspora”. 

“Quem lidera a inovação, o público ou o privado?”, foi o mote para a conversa que se seguiu entre Pedro Lopes, Secretário de Estado da Economia Digital de Cabo Verde, e Ricardo Lima, Head of Startups da Web Summit. 

Pedro Lopes afirmou o caráter “inovador e ousado” do evento, sendo que a “ousadia faz parte da identidade de Cabo Verde”. O país quer-se definir como uma “porta de entrada para o continente do futuro, que é o continente africano”. São os jovens que consomem e fazem a tecnologia e serão eles que vão contar a história do país, dando ênfase para a “estabilidade e segurança”, como a marca de Cabo Verde. Destaque ainda para a capacidade tecnológica das máquinas, mas que nunca serão capazes de recriar “o amor e a vontade de criar com propósito”.  

De seguida, o debate “Digitalização das organizações e das empresas” contou com a participação de Miguel Monteiro, Presidente da Bolsa de Valores de Cabo Verde, Manuel Conde, Customer Transformation Partner da PwC, Victor Andrade, Diretor de Marketing Produtos e Dinamização de Canais da Garantia Seguros, e Pedro Barros, Presidente do Fundo Soberano.  

O momento moderado por Catarina G. Barosa, Diretora Editorial da Revista Líder Magazine, realçou a inevitabilidade da jornada digital e da sustentabilidade para as organizações. Miguel Monteiro referiu que para Cabo Verde “a sustentabilidade não é uma opção, é uma aposta necessária” e partilha que se está a preparar a primeira green bond. A importância da economia digital é nefrálgica, e Pedro Barros reforça: “o impacto de 100 milhões ECV representa 5% do PIB, e se a perspetiva no curso prazo passar para 200 milhões ECV, e no prazo, que está à vista de cinco anos, para 500 milhões ECV, o impacto é enormíssimo”.  

Manuel Conde destacou o papel do Homem: “a tecnologia juntamente com as pessoas é o que vai fazer a transformação digital”. Para Victor Andrade, “as pessoas são sempre o centro de todas as nossas divisões”, no que respeita aos campos da sustentabilidade e da inovação.  

Antes da pausa da manhã, momento para mais uma conversa. “Oportunidades do mundo digital para os estados e municípios”, com a participação de Edna Oliveira, Ministra da Modernização do Estado e da Administração Pública de Cabo Verde, Herménio Fernandes, Presidente da Associação Nacional de Municípios de Cabo Verde, Janira Hopffer Almada, Advogada e Política, e João Mota Lopes, Public Sector Lead na Oracle e Docente no ISEC, que contou com a moderação de Marco Rocha, Jornalista da Televisão de Cabo Verde.  

Entre o painel foi reforçada a ideia de que não há “outro caminho que não seja a criação de cidades inteligentes e digitais”, refere Herménio Fernandes e que os desafios dos municípios são a modernização dos serviços públicos para um “embarque urgente na dinamização e transformação digital”. Sob o ponto de vista do quadro regulatório, Janira Hopffer Almada definiu duas metas essenciais para Cabo Verde, enquanto nação, tais como o índice de desenvolvimento tecnológico e a taxa de penetração de internet. Edna de Oliveira realçou a “posição estratégica de Cabo Verde em África” e a prioridade de definir “uma política de dados para atingir a transparência”, com respeito ao acesso à tecnologia e a dados igualitária para todos os cidadãos. João Mota Lopes também afirmou o papel da inclusão digital. “Quando o cidadão é informado, ele terá mais conhecimento para poder participar na vida política, pois as tecnologias são também um meio para democratizar o Estado”, concluiu. 

Assegurar – Liderança Cibersegura

Em Portugal assistiu-se a um aumento de cerca de 44% de ciberataques, em 2022, e o paradoxo da “alta densidade digital versus a baixa literacia digital”, trazem consigo o risco profuso e diversificado da proliferação do cibercrime. António Gameiro Marques, Diretor-geral do Gabinete Nacional de Segurança em Portugal, na abertura do segundo slot, destacou estes dados na sua talk “O papel das lideranças no incremento da maturidade de cibersegurança nas organizações”.  

“Não há desenvolvimento económico sustentável sem segurança” e as organizações têm de estar alertas para a segurança dos dados e da informação – “a informação é a essência do nosso conhecimento, pois somos um mundo denso em termos digitais”. Os ciberataques são hoje uma realidade cada vez mais presente e com um objetivo muito concreto de “destruir a informação que é a essência patrimonial e a memória das organizações”.  

O Contra-Almirante juntou-se ao debate, “A Segurança dos dados e das Comunicações”, com Eduardo Trigueiros Mendes, Consultor Sénior do Grupo CVTelecom, Bruno Castro, CEO da VisionWare, Arlindo Oliveira da Veiga, Docente e Pró-reitor da Universidade de Cabo Verde, e Inoweze Ferreira, Administrador da Unitel T+ e Diretor Geral, num encontro moderado por Carlota Barbosa, Jornalista da Televisão de Cabo Verde. 

“A transformação já começou, e isso acarreta riscos. Estamos constantemente debaixo de fogo, e isso tem a ver com a nossa não preparação para a transformação digital”, alertou Bruno Castro. Para Inoweze Ferreira, os desafios da cibersegurança passam pelo fator humano: “O mais importante para ter um ecossistema de infraestruturas, tecnológico, é que as pessoas não fiquem excluídas. É preciso trazer conhecimento e dar formação às pessoas”. Arlindo Veiga chamou a atenção para a “formação académica na área da segurança tecnológica”, sobretudo no ensino secundário, o que seria uma prioridade. Acerca da criação de uma cultura de proteção, Eduardo Trigo Mendes reforçou que “as maiores vulnerabilidades são criadas por pessoas”. “Deve haver formação, sensibilização e informação para as pessoas reagirem de forma adequada às ameaças”, concluiu. 

Humanizar – Liderança Social e Inclusiva 

Após a pausa para o almoço, William L. Jorgensen, Professor na Universidade de Yale, avançou com a talk “Os avanços computacionais que transformam a descoberta dos medicamentos”, que abriu o terceiro e último slot do programa. O investigador desenvolveu medicamentos para o tratamento do HIV e do Coronavírus e explicou a timeline para o desenvolvimento das terapêuticas para o qual a tecnologia tem um papel preponderante.  

Seguiu-se Ayumi Moore Aoki, Presidente da Women in Tech Global (WIT), na Talk “Women in Tech: A chave para as sociedades resilientes”, onde contou a sua história de empoderamento de mulheres através da tecnologia. Realçou o Tech Gap que existe: cerca de 3,5 mil milhões de pessoas não tem acesso à internet e a sua maioria são mulheres. Hoje, somente 20% da força tecnológica é feminina.  

Momento para a constituição oficial da Women in Tech Cabo Verde, com a presença de Débora Carvalho, Primeira-dama de Cabo Verde, Mayra Silva, Representante da Women in Tech Cabo Verde, e Ayumi Moore Aoki. A organização tem no país a missão de incrementar competências tecnológicas junto de raparigas e pessoas com necessidades especiais. “Juntas não trabalhamos só para as mulheres, os homens não ficam para trás”, realçou Débora Carvalho.  

E sobre o poder do feminino na liderança de uma transformação digital, seguiu-se o debate “Empreendedorismo no feminino”, a que se juntou Cesaltina Mendonça Semedo, Diretora de Inovação e Tecnologia de Informação da Enapor Cabo Verde e Joelma Tavares.  

Sobre uma mulher a trabalhar num mundo dominado pelos homens, como é o da tecnologia, Mayra Silva partilhou que “sempre participei nas áreas mais masculinas, mas nunca senti nenhum tipo de desvantagem por ser mulher porque tive as mesmas ferramentas e as mesmas oportunidades”. Fazer a diferença começa pelas crianças, dando-lhes o instrumento de base para “começarem a procurar os seus sonhos”. 

“O desafio que deixo é que nós mulheres, que estamos noutro patamar de empreendedorismo, devemos dar acesso tecnológico aos nossos filhos”, afirmou a Primeira-Dama. Joelma Tavares apontou para a importância de um trabalho em conjunto, “se só uma avançar” não é suficiente. E a aposta na educação digital das mulheres é fundamental. Para Maria Cesaltina, “as barreiras são essencialmente as ideias preconcebidas”, a mulher tem menos disponibilidade, isso é um preconceito.  

Tempo para a última talk do dia, com Ricardo Martins, Administrador da Pedago Portugal e da Plurália África a partilhar como “(e-)Liderar, (e-)Educar e (e-)Inspirar para o Empoderamento social”. Chamou-se a atenção para o facto de 60% dos cabo-verdianos contarem com uma conta na rede social. “O custo do giga em Cabo Verde é abaixo da média da África subsariana, há mais pessoas com acesso à net do que à eletricidade, um dado que faz pensar”, revelou. O empoderamento digital tem de ser desenvolvido por equipas multidisciplinares, acompanhado por pessoas no terreno que oiçam os outros. Assim teremos um “empoderamento social sustentável”, rematou. 

Tempo de encerrar a primeira Leadership Summit Cabo Verde com um momento de partilha de histórias de vida, de inspiração e motivação para uma mudança a seguir os sonhos de cada um, sobretudo os das gerações cabo-verdianas mais jovens. A conversa, “Empreendedorismo jovem – o futuro da liderança”, contou com a presença de Dino D’Santiago, Músico, Compositor e Ativista; Darlene Barreto, Presidente da Fundação Orlando Pantera; Hélder Cardoso, Artista Plástico; e Zedilson Almeida, Young Leader da Fundação Obama para Angola e Co-fundador da Manifexto e Kioxke, numa conversa moderada por Rita Rugeroni Saldanha, Jornalista e Editora da Revista Líder Magazine.  

Para Darlene Barreto, filha única da figura icónica da cultura musical cabo-verdiana Orlando Pantera, “liderar também e inspirar”. A Fundação surge de uma paixão, de um amor de uma filha pelo Pai. “Sinto que tenho um dever, uma missão de fazer isto porque é meu pai, mas também por Cabo Verde”, referiu. Sobre o apoio da tecnologia a cumprir o sonho do empreendedorismo, Zedilson Almeida, referiu querer “sair da zona de conforto” e fazer o que sempre gostou que é resolver problemas e com isso dar acesso a informação à população angolana. Sobre o caminho por onde começar, realçou que “devemos fazer algo que achemos que faz a diferença para nós em primeiro”. 

Não há cultura de se viver da arte em Cabo Verde, mas Hélder Cardoso é hoje a prova viva que isso é possível. Foi “a melhor decisão” que tomou na sua vida quando decidiu dedicar-se às artes plásticas. As tecnologias foram suas aliadas e foi o feedback do público, do Facebook, que deu um clique e fê-lo perceber que é possível.  

Dino D’Santiago partilhou as suas ferramentas de sonhar e visualizar aquilo que procuramos e que pode ser uma porta para uma vida diferente e melhor. Sentir o que queremos viver é um exercício que tem feito ao longo da sua vida, desde pequeno, quando vivia no Algarve. Sobre ter sido considerado uma das 50 figuras mais influentes no País, pelo Jornal Expresso, Dino D’Santiago referiu ser um “bom prémio de consolação”, sem esquecer que os novos heróis e líderes não devem ter de gritar “às armas”, como se para vencer, tivéssemos de matar. Cantar um novo hino é um dos seus novos sonhos que partilhou com a audiência.  

Encerramento da conversa com o momento único e inédito, em Cabo Verde, do encontro entre a voz de Orlando Pantera com a filha Darlene, acompanhados por Dino D’Santiago e na guitarra Zé Rui de Pina.  

 

Consulte a galeria da Cimeira aqui.

A Leadership Summit Cabo Verde é uma iniciativa da Tema Central e da The Office, agência cabo-verdiana de Public Affairs.  

Para além do apoio institucional do Governo de Cabo Verde, da Assembleia Nacional de Cabo Verde, do TechPark Cabo Verde e da Cabo Verde TradeInvest, o evento conta com o apoio da Garantia, Unitel T+, PwC, VisionWare, na qualidade de Platinum Sponsors; da Bolsa de Valores de Cabo Verde, Super Bock Group, ForecastIT e ASA, na qualidade de Gold Sponsors;  Pão Quente, na qualidade de Silver Sponsor; e da Minimal, Cavibel, Banco Comercial do Atlântico, Sumol+Compal, All4Innovation, BTOC, Nosi, Rangel, BI4ALL e Redshift, na qualidade de Bronze Sponsors. A Televisão de Cabo Verde, a Rádio da Cabo Verde, a RTP África, a Bantumen, o Expresso das Ilhas, a rádio Morabeza e a revista Líder são os parceiros de media da cimeira, e os hotéis Pestana Trópico e Oásis Atlântico dão apoio à produção.  

A partir do dia 31 de março, assista às várias intervenções na Líder TV (www.lidertv.pt) MEO #165 ou NOS #560. 

  

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