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Denise Calado

“Discriminação do século XXI” – quais são os desafios das mulheres na Ciência?

8 Março, 2023 by Denise Calado

A desigualdade de género em Portugal é uma questão que persiste e que, de acordo com a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, até haver um equilíbrio vai demorar 286 anos. Para compreender os desafios das mulheres no campo da Ciência e Investigação, a Líder falou com duas investigadoras, testemunhos do papel da mulher na academia, onde persiste a chamada “discriminação do século XXI”. Um tipo de discriminação mais subtil, inconsciente, mas ainda assim prejudicial.

Susana Peralta é especialista em Economia Pública e Política, Macroeconomia e Fiscalidade na Nova SBE, e Anne-Laure Fayard é especialista em Gestão e Organizações na mesma instituição, com interesse em Inovação Social, Inteligência Artificial e Design Social.

Qual a sua visão acerca da representatividade feminina em cargos de chefia e liderança na área científica?

Susana: A falta de diversidade de género (e não só, também de minorias étnicas e identidades sexuais não heterossexuais e cis-normativas) é problemática por duas ordens de razões. A primeira é de princípio: as sociedades devem ser mais inclusivas e oferecer a todo o tipo de pessoas a possibilidade de ter acesso a cargos de poder.

Susana Peralta

A segunda é de ordem pragmática: É sabido que quando os lugares de poder se decidem em circuitos mais fechados, eles também são preenchidos por pessoas com menos talentos. Logo, a falta de diversidade diminui a qualidade média das nossas chefias, com consequências nefastas para a qualidade das decisões e a eficiência da nossa economia.

Anne-Laure: O baixo número de mulheres em cargos de liderança e gestão na Ciência, Tecnologia e Engenharia é evidente. Isto também é verdade na academia como um todo e, infelizmente, na sociedade. Parte do problema é a falta de representatividade no feminino, que está ligado a outros problemas já bem conhecidos como a falta de role models, preconceitos, discriminação e ambientes em que as mulheres não são bem-vindas.

Qual a particularidade da ciência feita pelas mulheres, se é que existem diferenças, ou não há qualquer distinção em relação aos homens?

Anne-Laure:

Não vejo nada de diferente no que toca à forma como a ciência é feita por mulheres, mas sim no quanto as mulheres conseguem alcançar apesar de todas as diferenças em termos de recursos, apoio, e atenção que recebem.

O número de comités e conferências para que as mulheres são convidadas a participar (sem reconhecimento), as diferenças no acesso a espaços de laboratório em instituições científicas, no acesso a promoções e aumentos salariais são evidentes.

Anne-Laure Fayard

Neste tópico, recomendo a leitura do livro da Kate Zernike, The Exceptions, em que a autora destaca o facto de o MIT ter reconhecido discriminar as suas professoras por terem apenas 16 mulheres enquanto docentes, o que acabou por desencadear um reconhecimento nacional do sexismo na ciência. Mais importante ainda, este livro destaca a “discriminação do século XXI”, um tipo de discriminação mais subtil, muitas vezes inconsciente, mas ainda assim prejudicial. É importante ainda salientar que os mesmos problemas afetam pessoas de cor, outros géneros marginalizados, e pessoas com deficiência.

Susana: O objetivo não é promover mulheres a lugares de decisão para que façam as coisas de forma diferente. Há muito mais diversidade entre homens e entre mulheres do que entre homens e mulheres. Portanto, as mulheres devem ser cientistas e outras coisas, em lugares de destaque, porque têm qualidades e direito de aceder a esses lugares. Não porque as queremos lá para agir de uma forma especial.

 

De que forma se pode chamar mais raparigas a estudar e a enveredar por uma carreira nas Ciências?

Susana: Há investigação de muito boa qualidade que mostra que os role models são fundamentais para atrair mulheres para carreiras onde elas estão sub-representadas. Isto envolve (i) ter mais mulheres nos lugares de destaque, e (ii) montar programas de exposição de jovens em idade de fazer escolhas de carreiras a essas mulheres.

Anne-Laure: As mulheres mais jovens têm pouca representação na educação STEM, e isto é ainda mais evidente para raparigas de cor, e para as que estão em desvantagem económica. Esta falta de representação afeta negativamente o seu futuro e opções de carreira. Isto é um problema sistémico e social que começa com os brinquedos com que as crianças brincam, com as redes sociais, e continua nas escolas, na forma como as disciplinas STEM são ensinadas.

É de salientar ainda a falta de role models, de mentores, de percursos profissionais atrativos e culturas ocupacionais mais acolhedoras. Por exemplo, já foi comprovado que se as mulheres tendem a não entrar em carreiras de programadoras ou gaming, não é por falta de interesse ou skill, mas devido ao ambiente de trabalho hostil, pela falta de mentoria e exemplos de mulheres que já tenham seguido esses caminhos.

De acordo com dados da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG), o Gender Pay Gap entre homens e mulheres em “Especialistas das atividades intelectuais e científicas” era de 19% em 2020. Que tipo de desigualdades encontram nos vossos locais de trabalho?

Susana: As mesmas que encontramos nos outros.

A maior parte das carreiras de maior destaque (sendo a ciência um trabalho intelectual, é certamente o caso) foram pensadas por homens e para homens.

Logo, as barreiras impostas às mulheres são gigantescas, tanto formais (em regras injustas), como informais (é sabido que redes de homens tendem a promover/recrutar mais facilmente homens). Por exemplo, enquanto investigadora principal de projetos da FCT, não tive direito automático a extensão da duração dos mesmos quando estive de licença de maternidade. Tive de escrever e argumentar para obter esse direito.

Outro exemplo: falta de espaços de privacidade nas universidades para tirar leite para mães que amamentam. A baixa percentagem de mulheres nos lugares de topo da carreira docente mostra bem que o jogo não está desenhado de forma justa.

Anne-Laure: Não consigo responder porque não tenho os dados, mas com base nos meus mais de 20 anos de experiência na academia, e em histórias que oiço dos meus colegas, não me surpreenderia se houvesse realmente um Gap.

 

Arquivado em:Ciência, Entrevistas, Notícias

Quatro mulheres e Oito livros: conheça as escolhas da equipa da Líder

8 Março, 2023 by Denise Calado

Na Líder somos pela diversidade e a igualdade, mas acreditamos que a particularidade de ser mulher é uma distinção que merece todas as atenções. Pela literatura transpõem-se mitos e quebram-se barreiras e os livros são a arma mais poderosa ao alcance de escritoras e protagonistas com muito women power.

Conheça as sugestões da nossa equipa de edição de conteúdos, Catarina Guerra Barosa, TitiAna Amorim Barroso, Rita Rugeroni Saldanha e Denise Calado.

Boas leituras!

Catarina Guerra Barosa, Diretora de conteúdos

A Cidade De Ulisses

Porto Editora

Um homem e uma mulher encontram-se e amam-se em Lisboa. A sua história, que é também uma história de amor por uma cidade, levará o leitor a percorrer múltiplos caminhos, entre os mitos e a História, a realidade e o desejo, a literatura e as artes plásticas, o passado e o presente, as relações entre homens e mulheres, a crise civilizacional e a necessidade de repensar o mundo.

 

Flecha

Tinta da China

Primeira obra de ficção de Matilde Campilho: “Este é um livro de histórias. Narrativas que foram surgindo um dia depois do outro, às vezes durante a tarde, outras logo pela manhã, e a maioria delas quando a noite já havia caído. Talvez o escuro seja mais propício às histórias. Seja como for, de uma maneira ou de outra, todas quiseram chegar-se à luz. Nem que fosse por um segundo”.

 

TitiAna Amorim Barroso, Coordenação editorial

Um Quarto Só Seu

Penguin Clássicos

Virginia Wolf escrevia este livro em 1920, um ensaio de uma atualidade que encontra contornos gritantes sobre a condição de ser mulher na sociedade. Dos obstáculos ao exercício da profissão, à exploração da criatividade literária, e não só, Woolf aborda o transversal tema dos constrangimentos de género. Crítica uma engrenagem em que a esmagadora maioria das mulheres não tem o privilégio de dizer: eu tenho “um quarto só meu”, um espaço em que tenho privacidade, autonomia, para escrever, para criar, para ser. «Ter dinheiro e um quarto». Ser livre, portanto, de forma literal e figurada. É disto que se fala nesta obra de uma escritora maior.

 

Mulheres e Resistência

Tinta da China

Este livro tenciona ser uma homenagem às “Três Marias” e às lutas das mulheres. Novas Cartas Portuguesas foi publicado há mais de 50 anos, em 1972. Três dias depois do lançamento, a primeira edição foi recolhida e destruída pela censura, dando origem ao processo das “Três Marias”. A partir desta obra singular de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, a exposição Mulheres e Resistência — «Novas Cartas Portuguesas» e outras lutas, no Museu do Aljube Resistência e Liberdade, revisitou a atualidade da luta das mulheres e o contributo daquelas que, com origens e percursos diferentes, inventaram e concretizaram batalhas pelos seus direitos, pela justiça social e pela liberdade, desde os anos 1930 até ao 25 de Abril de 1974. Todos estes processos destacam o papel insubstituível das mulheres ao longo dos 48 anos de resistência ao fascismo e a sua importância na conquista da democracia. É assim apresentado o livro que chega às livrarias a 23 de março. Inclui ainda textos originais de Djaimilia Pereira de Almeida e Maria do Rosário Pedreira. A ler.

 

Rita Rugeroni Saldanha, Coordenação editorial

O Ano do Pensamento Mágico

Cultura Editora

A vida muda num instante. Num dia normal. É assim que Joan Didion inicia a sua viagem pela memória do ano mais transformador da sua vida, começando na noite em que o seu marido, o escritor John Dunne, com quem foi casada mais de 30 anos, morre de ataque cardíaco, e a sua única filha está em coma no hospital. Com uma escrita tão assertiva como limpa, honesta e desarmante, Didion investiga os vivos que sobrevivem aos mortos, revelando aquilo que é universal a todos: a dor da perda, a necessidade da superação quando tudo parece inútil.

Após a leitura sugiro o documentário “The Center Will Not Hold” (Netflix). Joan Didion morreu no dia 23 de dezembro de 2021.

 

O perigo de estar no meu perfeito juízo

Porto Editora

O novo livro de Rosa Montero mistura ficção, autobiografia e ensaio, resultando numa obra perspicaz, tocante e bem-humorada sobre o custo da «normalidade» e o valor da diferença. «Sempre soube que na minha cabeça alguma coisa não funcionava muito bem», diz nos ao início Rosa Montero. Voltando ao solo fértil que alimentou “A Louca da Casa”, esta sua convicção encontrou eco em estudos científicos e dados concretos, mas sobretudo na observação da sua própria vida e nas biografias desses «loucos» e «estranhos» seres dedicados, como ela, à arte da escrita, almas que transformaram o sofrimento pessoal em matéria literária.

 

Denise Calado, Redação 

Women & Power

Profile Books

Um manifesto feminista da Classicista Mary Beard. Não há leitura mais relevante que uma reflexão sobre como as mulheres no poder foram tratadas ao longo da História para o Dia da Mulher. Beard explora a origem da misoginia, considerando a voz pública da mulher, os preconceitos culturais sobre a relação das mulheres com o poder, e como as mulheres poderosas se recusam a encaixar-se no modelo masculino de poder.

 

Girl, woman, other

Bernardine Evaristo

O livro segue a vida e a luta de doze personagens muito diferentes entre si. Principalmente mulheres, negras e britânicas, contam as histórias das suas famílias, amigos e companheiros, em todo o país, ao longo dos anos.

Arquivado em:Livros e Revistas, Notícias

A arte da pergunta: o talento revela-se em 34 entrevistas

8 Março, 2023 by Denise Calado

“As perguntas que somos” é um livro que surge da compilação de 34 entrevistas, que a partir da pergunta, mostra os olhares de personalidades desassossegadas, inquietantes, com histórias de vida, trajetos profissionais e domínio de saberes diversificados e relevantes.

Paula Perfeito, autora do livro, trabalha há 18 anos no setor da comunicação e é hoje responsável pelas Parceiras de Televisão e Comunicação Multicanal do Meo. É também Presidente da PWN Lisbon (Professional Women’s Network), associação onde está há sete anos como voluntária.

Com o ímpeto de amplificar visões multidisciplinares e dar voz a modelos de referência, o livro assume-se como um projeto de liderança e de talento. Em conversa com a Líder ficamos a conhecer um pouco melhor o livro e a mulher, cidadã interessada e ativa, para quem a entrevista é dos géneros jornalísticos que mais a inquietam.

Qual objetivo e motivação para esta coletânea de entrevistas?

A publicação deste livro, com o subtítulo “Entre | Vistas à Humanidade”, partiu das entrevistas publicadas no Entre | Vistas, nome da plataforma digital de comunicação cultural que fundei em novembro de 2014. Das 34 entrevistas, 32 já haviam sido publicadas. Após 100 conversas, entendi que já tinha um conjunto de entrevistas com diferentes perfis, idades, género e geografias. A partir daí, fiz uma seleção das mais intemporais e com interesse, relevância e representatividade significativa para evoluir para o formato de um livro.

O livro surge na esperança de poder eternizar este desígnio que é dar voz a personalidades e líderes com trajetos de vidas e carreiras com significado e impacto. Aquilo que faço no site é, na minha opinião, um exercício de cidadania cultural, mas o digital tem uma dimensão efémera. Através do livro é possível eternizar e chegar a públicos diferentes.

Qual o fio condutor entre as 34 conversas publicadas no livro?

A pergunta está omnipresente. Sou muito mais inquietada pelas perguntas do que pelas respostas e, por isso, lanço o desafio de nos posicionarmos do lado da pergunta. Interessa-me o valor da pergunta para a vida de cada um de nós; quanto mais inovadores formos nas perguntas, mas interesse e surpresa pode ter a nossa própria vida. E acredito que podemos fazer sempre perguntas melhores.

Que traços distinguem a liderança quando exercida pelas mulheres?

Objetivamente há diferenças, em relação aos homens, e devem ser assumidas. Há também o perfil, que é muitas vezes uma proteção natural, das mulheres que assumem papéis de liderança em contextos masculinos e que tendencialmente acabam por ter um comportamento mais masculino, por uma questão de afirmação, integração e convivência. Mas o nosso raciocínio deve ser o de que quando surgem lugares de decisão, deve ser sempre valorizada, de uma forma completamente implacável, a adequação, ou seja, a escolha do perfil mais adequado, independentemente de ser homem ou mulher. Que a seleção seja pelo talento e competência. Por isso, quando falamos de liderança e de quotas, o ideal é que possam ser enquadradas, nesta perspetiva de aliar posições que estão disponíveis para ser ocupadas, a critérios de valor, competência e talento, sem abrir espaço para outra coisa.

Há estudos que referem que a liderança no feminino está tipicamente associada a uma maior sensibilidade para o diálogo, integração das diferenças, preocupações com o estatuto salarial, progressão da carreira, entre outras. No final do dia temos é de falar de diversidade, pois mais diversidade traz mais performance a todos os níveis, desde logo financeiro.

Por Rita Rugeroni Saldanha

 

Todas as semanas, às sextas-feiras, a Líder vai partilhar uma entrevista, de uma seleção de oito conversas publicadas do Livro.

Na próxima 6ªfeira, dia 10, é publicada a entrevista com Ana Sofia Silveira, Gestora da Galp.

Seguem-se:

Ana Torres, VP, MS Europe Cluster Lead RD, Pfizer (17 março)

Joana Marcelino, Arquiteta e fundadora Joana Marcelino Studio (24 março)

João Netto, Empresário e ultramaratonista (31 março)

João Pedro Tavares, Gestor e consultor  (14 de abril)

Pedro Norton de Matos, Economista e fundador Greenfest (21 de abril)

Rita Bonifácio, Diretora-Geral Bonifácio Wines (28 abril)

Rui Nabeiro, Presidente Grupo Nabeiro (5 maio)

Arquivado em:Liderança, Notícias

Sub-representada e anónima é o retrato da mulher nos media

8 Março, 2023 by Denise Calado

Globalmente, nas notícias publicadas pelos meios de comunicação social, a mulher é sub-representada e anónima, com 21% menos manchetes do que os homens e existem cerca de 2,5 mais notícias sobre homens do que mulheres. E quando se fala de violência, a mulher é mencionada quase três vezes mais e duas vezes mais em situações de assédio.

As conclusões são do relatório “Mulheres sem nome”, elaborado pela consultora LLYC que a partir da análise de 14 milhões de notícias publicadas no último ano, nos 12 países em que está presente, incluindo Portugal.

Quanto às funções profissionais, os homens assinam 50% mais peças jornalísticas. Política, economia, tecnologia e desporto são os campos masculinos, as mulheres tendem a escrever sobre cultura, saúde e sociedade.

Outra tendência é a ideia de que ser boa não é suficiente. A mulher deve ser excecional para ser uma referência, o que, de acordo com a análise, resulta num síndrome do impostor e no burnout. Segundo a investigação, a visibilidade das mulheres pode ser um acelerador para a igualdade.

Ao exemplificar as conclusões do estudo, deparamo-nos com uma notícia que, em geral, não menciona a protagonista na manchete e, no máximo, refere-se a ela como uma categoria secundária com o apelido feminino.

Leríamos: “Uma mulher pode ser a nova presidente dos Estados Unidos”, em vez de “Nome real + apelido real, forte candidata à presidência dos Estados Unidos”. De acordo com o relatório, parece economia da linguagem, mas a verdade é que transmite parcialidade, não é informativa e torna invisível.

Principais conclusões em Portugal

Os homens assinam mais

Portugal é o país onde homens e mulheres assinam as notícias quase igualmente. O desporto, a tecnologia e a economia são as secções com menos editoras femininas, com cerca de 25%. Embora os homens assinem mais artigos do que as mulheres, no México, Portugal e Equador assinam mais do que a média.

Subordinação semântica: o meu apelido feminino 

Numa em cada 15 mensagens sobre mulheres, “feminino” ou “mulher” é explicitamente mencionado, mais do dobro das vezes do que “masculino” ou “homem” nas notícias sobre homens. Nos 12 países estudados, as mulheres são mencionadas mais explicitamente do que os homens, ou seja, através destes substantivos ou adjetivos. Nos EUA, Brasil e Portugal, os homens são mais mencionados, especialmente nos EUA, onde o sexo masculino é mencionado 30% mais do que o feminino.

Esposa e mãe

A “Esposa” é sempre mais mencionada do que “esposo” ou “marido”, a quem é atribuída a propriedade ou posse. A associação com mulheres é particularmente pronunciada em Portugal, onde 1 em cada 3 notícias sobre mulheres que mencionam a família inclui filhos, e 1 em cada 5 menciona o marido. Nesse país, a família está associada duas vezes mais com as mulheres do que com os homens, mais do dobro do que no país seguinte, o Brasil, e muito perto do terceiro, a Espanha.

Nove conclusões globais 

1.- A mulher está sub-representada: Embora tenha sido identificado um maior e melhor tratamento informativo graças ao surgimento das correspondentes de género, no último ano foram publicadas 2,5 mais notícias sobre homens do que sobre mulheres nos media.

2.- São mulheres sem nome: o nome das mulheres aparece 21% menos nas manchetes do que o dos homens. E é 40% inferior em matérias tão relevantes como o desporto, a ciência, a liderança ou o cinema. O leitor senta-se diante de notícias de mulheres sem nome.

3.- O meu apelido é feminino: a menção explícita do género é 2,3 vezes mais frequente nas mulheres do que nos homens. Quanto maior a menção do “apelido feminino”, menor a tendência para citar o nome das protagonistas. Esta subordinação semântica relega-as para um papel secundário e anedótico.

4.- Os homens assinam mais: na maioria dos países, os homens assinam 50% mais notícias do que as mulheres. As secções sobre saúde, atualidades, sociedade e cultura são as que contam com maior presença feminina (cerca de 45%), enquanto os homens tendem a escrever sobre economia, política, tecnologia e desporto.

5.- As mulheres e as suas famílias, ainda inseparáveis nas notícias: nos media, menciona-se 36% mais a família em notícias sobre mulheres, e de uma forma que as objetifica. Ocorrem 366% mais de menções à família nas notícias sobre empresas associadas à mulher do que ao homem (4 vezes mais), e 191% mais no caso da ciência (2 vezes mais).

6.- A imagem ainda pesa: a moda associa-se mais às notícias que referem a mulher do que às que referem o homem. A forma como se vestem reflete-se em 1 em cada 25 notícias, 20% mais do que quando as notícias falam deles.

7.- Dupla vitimização na cobertura da violência machista: o foco continua a ser na vítima e não no agressor. As mulheres são mencionadas quase três vezes mais do que os homens quando se fala de violência e duas vezes mais em situações de assédio. Quando eles são mencionados, é 20% mais provável que na manchete apareça o termo “mulher” em vez de “homem”. E se as vítimas são expostas pelo seu nome, o do agressor é muitas vezes ocultado por um pseudónimo.

8.- Desporto, campo de jogo masculino: do elevadíssimo volume de notícias publicadas sobre desporto, apenas 5% mencionam explicitamente as mulheres. As notícias sobre mulheres representam apenas 1 em cada 20. Na realidade, o futebol é visto como masculino em 95% dos casos.

9.- Ser boa não é suficiente; deve ser excecional: com muita frequência, a referência feminina refletida nos media é muitas vezes um retrato de sucesso e de excecionalidade. As notícias sobre mulheres políticas, por exemplo, destacam 50% mais os seus êxitos e minimizam os seus erros em comparação com os líderes masculinos. Tal acentua a síndrome da impostora e o burnout nas mulheres que pretendem ter maior exposição e visibilidade.

 

 

A imagem da mulher nos meios de comunicação está a melhorar, mas há ainda um longo caminho a percorrer. O tipo de referências femininas que estamos a projetar nas novas gerações e nos futuros decisores continua distorcido: continuamos a falar pouco delas e, frequentemente, de uma forma enviesada. Estou convencida de que a visibilidade do talento feminino e da mulher em geral é um acelerador da igualdade

Luisa García, Chief Operating Officer (COO) da LLYC e coordenadora do relatório

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

Programa de intervenção na depressão pós-parto mostra resultados positivos

8 Março, 2023 by Denise Calado

“Be a Mom” é o novo de um novo programa de intervenção psicológica online destinado à prevenção da depressão pós-parto que mostrou ter impactos positivos após ter sido testado num grupo de 1500 mulheres em Portugal.

Desenvolvido por uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra (UC), liderada por Ana Fonseca e Maria Cristina Canavarro, o programa revelou ser eficaz na regulação emocional e na autocompaixão em mulheres que apresentavam maior risco para desenvolver depressão pós-parto.

Ser Mãe e Depressão pós-parto 

De acordo com a equipa de investigação, os dados internacionais sugerem que a depressão pós-parto afeta uma em cada sete mulheres o que justifica a necessidade de intervenções acessíveis para todas as mulheres, onde se destacam as ferramentas online.

O objetivo do “Be a Mom” é “reduzir os sintomas depressivos das mulheres depois de se tornarem mães, promovendo a saúde mental materna no pós-parto, uma vez que que ao promover a saúde mental nas mães também se reflete positivamente no desenvolvimento e bem-estar da criança”, contextualiza Ana Fonseca, psicóloga clínica e investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC) e do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC).

Embora algumas mulheres tenham fatores de risco que as colocam numa posição mais vulnerável para o desenvolvimento de depressão pós-parto, é um problema de saúde mental que pode afetar qualquer mulher durante a maternidade.

“Mesmo aquelas que não desenvolvem este quadro clínico podem beneficiar de um conjunto de estratégias para promover a sua saúde mental e o seu bem-estar neste período”, explica também a investigadora principal do estudo.

“Be a Mom”

O projeto envolveu dois grupos: mulheres que apresentavam mais fatores de risco (como ter pouco apoio social, ter história prévia de depressão ou ansiedade, ou ter existido alguma complicação de saúde durante a gravidez/parto ou com o bebé) e mulheres que demonstravam menores fatores de risco para o desenvolvimento de depressão pós-parto.

O primeiro grupo, composto mulheres com fatores de risco, as utilizadoras do programa apresentaram uma redução significativa de sintomas de ansiedade e de depressão durante e após a utilização do programa, bem como uma melhoria significativa na sua capacidade de regulação emocional, na flexibilidade psicológica e na autocompaixão. Segundo a investigação, estes são processos psicológicos importantes cuja promoção se associou à redução dos sintomas de depressão e ansiedade neste grupo.

No grupo composto por mulheres com menos fatores de risco para a depressão pós-parto, as utilizadoras reportaram um grande aumento na saúde mental positiva (entendida como bem-estar psicológico e social, satisfação com a vida).

Na avaliação feita pelas participantes que utilizaram o programa, foi possível constatar que 85% das participantes recomendariam o programa a outras mulheres e que 76,5% das mulheres voltaria a utilizar o “Be a Mom”.

O “Be a Mom” (https://beamom.pt/) é um programa autoguiado, composto por cinco módulos (mudanças na maternidade e emoções; pensamentos; valores e relações com os outros; relação de casal; sinais de alerta e balanço final) e conta também com informação psicoeducativa em diferentes formatos e com exercícios personalizados.

Arquivado em:Notícias, Saúde

Elisa Tarazona, gestora do Hospital de Cascais, eleita para o TOP100 Mulheres líderes

8 Março, 2023 by Denise Calado

Elisa Tarazona, CEO do grupo Ribera Salud, gestora da parceria público-privada do Hospital de Cascais desde início de 2023, foi eleita para o TOP100 das mulheres líderes, na categoria Mulheres Empresárias, em Espanha.

O ranking criado em 2011 por Mercedes Wullich, jornalista, empresária e consultora, é publicado anualmente pelo jornal El Español “para dar visibilidade ao talento feminino” que ocupa cargos de responsabilidade em empresas espanholas. Nesta edição, com mais de 600 mulheres pré-selecionadas, as finalistas foram escolhidas pelo público, numa votação aberta, e por um júri de especialistas.

Elisa Tarazona é licenciada em Medicina e Cirurgia e doutorada em Medicina pela Universidade de Valência. É especialista em Medicina Familiar e Comunitária e foi médica assistente na Unidade de Hospitalização Domiciliária do Hospital La Fe e Diretora de Cuidados Primários na Área de Saúde de La Fe, até 2003, quando se juntou ao Grupo Ribera como Gestora Assistente no Departamento de Saúde de La Ribera (Alzira).

Em 2008, tornou-se Diretora de Cuidados e Organização do grupo, depois Diretora de Operações e Integração de Projetos, e é desde Outubro de 2020 a Diretora Executiva do grupo Ribera, a atual gestora da parceria público-privada do Hospital de Cascais.

 

A liderança feminina traz pluralidade, diversidade, políticas inclusivas, criatividade e empatia a todas as organizações, e está provado que os resultados e a produtividade melhoram em ambientes de trabalho que são diversos. No Grupo Ribera, 56% dos cargos de gestão e de responsabilidade são ocupados por mulheres, e a nossa política de Gestão de Pessoas baseia-se na promoção do talento, na procura daqueles que têm a aptidão, capacidade e atitude para liderar. Através deste nosso capital humano, queremos expandir o nosso moto ‘saúde responsável’, empenhando-nos com a saúde e o bem-estar, cuidando quem está são, ou tratando ou curando quem está doente. E naturalmente numa orientação ao compromisso da sustentabilidade para que o modelo de saúde chegue a todas as gerações, incluindo os objetivos da Agenda 2030 como o 3 (saúde), o 17 (alianças entre instituições) e o 5 (igualdade). Onde quer que estejamos, pretendemos chegar a mais pessoas e a mais territórios, dentro de Espanha ou fora, como é o caso de Portugal, com o Hospital de Cascais

Elisa Tarazona, CEO do grupo Ribera Salud, Gestora do Hospital de Cascais

 

Arquivado em:Notícias, Pessoas

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