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Denise Calado

Oxalá Mearsheimer não tenha razão! (2)

13 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Sinopse

John J. Mearsheimer, professor da Universidade de Chicago, é uma das maiores referências atuais dos estudos sobre relações internacionais. Em 2014, ele tomou a iniciativa de explicar que o alargamento da NATO à Ucrânia teria como consequência uma invasão russa e uma tremenda destruição daquele país e do seu povo. Assim sucedeu, oito anos depois. Eis porque é importante conhecer esta figura e a sua obra.

O seu livro The Tragedy of Great Power Politics, em 2001, arrumou o Kenneth Waltz Theory of International Politics nas estantes e inaugurou um novo século de atenções. O livro enfrenta os contentinhos da Silva que embandeiraram em arco com a Queda do Muro e o colapso do Império Soviético, na mira de um «fim da História» (o Hegeliano mais deturpado conceito da actualidade), com a concórdia e a prosperidade universal de uma «comunidade internacional». Wait a minute, guys! – disse Mearsheimer. A realidade (cá está ela) é que «a política internacional sempre foi um negócio implacável e perigoso, e é provável que continue assim» (p. 2). O mundo está condenado a uma perpétua competição entre os grandes poderes. Daí que seja fundamental compreendê-la. Avança, então, com os seus três «factos» (M. adora listagens):

«1) a ausência de uma autoridade central, acima dos Estados, que possa protegê-los uns dos outros;

2) o fato de os Estados sempre possuírem alguma capacidade militar ofensiva e

3) o fato de os Estados nunca poderem ter certeza sobre as intenções dos outros Estados.» (p. 3)

Por isto, os Estados, com os «grandes poderes» à cabeça, inclinam-se para quanto mais poderosos forem relativamente aos seus rivais, melhores hipóteses terão de sobreviver e de se proteger. Esta busca de poder é «genuinamente trágica» e conduz ao incessante reforço da capacidade militar, ao assegurar de zonas estratégicas de defesa e… a confrontos, sempre que esse processo colidir com a lógica dos outros «grandes poderes», sobretudo se vivermos num sistema internacional de crescente poder multipolar como o que se ia instalando. Eis a teoria Mearsheimerista do realismo ofensivo, com a maior brevidade possível. Em suma, o reverso da de Kenneth Waltz e uma dor de cabeça para o mundo.

Como «o derradeiro teste de qualquer teoria é o de melhor explicar acontecimentos do mundo real», arranja-se, por aí, algum caso para exemplificar tanto Mearsheimerismo? Arranjou-se e com uma carninha da mais fresca possível. Em 2008, em Bucareste (era para ter sido em Portugal) e com a presença de uma nova celebridade chamada Vladimir Putin, o 20th NATO Summit «acolheu» o interesse da Geórgia e da Ucrânia em integrarem a famelga. «A NATO», dizia a declaração final, «dá as boas-vindas às aspirações euro-atlânticas da Ucrânia e da Geórgia de serem membros da NATO.» Acrescentando, «nós concordámos, hoje, que esses países venham a ser membros da NATO». E isto nas barbas de Putin!!!

Diga-se que J. J., entretanto, foi indo ao ginásio fortalecer a musculatura da coragem. Mesmo à beira de umas eleições presidenciais norte-americanas e perante a habitual louvaminhice pró-israelita de todos os candidatos, o nosso R. Wendell Harrison Distinguished Service Professor of Political Science at the University of Chicago entendeu meter-se com esse poderosíssimo lobby mundial. Publicou, com Stephen M. Walt, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (2007; primeiro, em artigo na London Review of Books, de 23 de Março de 2006), afirmando mimos como estes:

«Não há… nenhuma razão moral convincente para o relacionamento acrítico e intransigente dos Estados Unidos com Israel… dado o brutal tratamento de Israel aos palestinianos nos territórios ocupados, considerações morais sugeririam que os Estados Unidos seguissem uma política mais imparcial em relação aos dois lados, e até mesmo mais a favor dos palestinianos.» (p. 5)

Oops! Que isto é mesmo forte e serviu a canídeos para, no mínimo (vide «Israel and academic freedom», 2015), lhe colarem um rótulo de antissemita para toda a eternidade. Perante isto, ter-se oposto à Guerra do Iraque e avisado, antecipadamente, que seria um desastre, foi muito mais suave – mas adiante, porque o que nos interessa aqui é o embate seguinte. O Summit da NATO foi uma cereja no topo do chantilly de festança de arromba para o nosso herói de Chicago. Passaria de teórico a profeta (… de desgraças).

(continua)

 

* Este texto é a segunda parte de três que a Líder publicará. Foi inicialmente escrito para integrar um livro que um conjunto de académicos portugueses entendeu editar sobre a atual situação internacional.  Como, entretanto, esse projeto editorial fracassou, aqui fica como algo que oxalá seja útil para o conhecimento destas matérias.

 

Referências

John J. Mearsheimer, The Tragedy of Great Power Politics, New York, W. W. Norton & Company, 2001.

John J. Mearsheimer, The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy, New York, Farrar, Straus and Giroux, 2007.

John J. Mearsheimer, «Israel and academic freedom», in Akeel Bilgrami and Johnathan R. Cole, eds., Who is Afraid of Academic Freedom?, New York, Columbia University Press, 2015, pp. 316-333.

John J. Mearsheimer and Stephen M. Walt, «The Israel Lobby», London Review of Books, 28 (6), March 23, 2006, pp. 3-12.

Kenneth Waltz, Theory of International Politics, New York, 1979, McGraw-Hill, 1979.

Arquivado em:Opinião

Marlene Gaspar é a nova diretora-geral da LLYC Portugal

13 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Marlene Gaspar é a nova Diretora-Geral da LLYC em Portugal, sucedendo a Tiago Vidal, sócio e responsável pela operação da consultora no país desde 2015. Marlene Gaspar, que até agora liderava as áreas de Engagement e Deep Digital Business, passa a estar responsável pela gestão estratégica da empresa e pela coordenação de todas as áreas de negócio.

Por seu lado, Tiago Vidal assume a função de Diretor Global de Talento e Tecnologia, passando a liderar a estratégia de atração e desenvolvimento de talento da LLYC, além de dar continuidade à transformação digital da organização

Com uma experiência profissional de mais de 20 anos, Marlene Gaspar trabalhou em vários sectores como Banca, Distribuição, Automóveis, Grande Consumo, Telecomunicações, Transportes e Serviços, enquanto responsável pela comunicação de marcas em agências multinacionais de publicidade. É licenciada em Relações Públicas e Publicidade pelo INP, Pós-Graduada em Marketing e Negócios Internacionais pelo INDEG-ISCTE e tem um curso executivo de Doing Digital realizado na NOVA SBE. É certificada em HubSpot e Design Thinking.

 

É com muita satisfação e orgulho que anunciamos a nova responsável pela LLYC em Portugal. Os resultados que a Marlene Gaspar obteve desde que integrou a empresa, o desenvolvimento e o crescimento que alcançou nas suas áreas de especialidade e a experiência e o know how que tem acrescentado, quer à equipa, quer aos clientes, fazem dela a escolha ideal para esta posição. Estou certo de que a Marlene irá reforçar ainda mais a presença da LLYC no mercado e dar o impulso certo à empresa e aos projetos que trabalhamos com os nossos clientes, no contexto desafiante que vivemos

Tiago Vidal, Diretor Global de Talento e Tecnologia da LLYC

 

É com enorme entusiasmo e sentido de responsabilidade que aceito a oportunidade de continuar o legado iniciado pelo Tiago Vidal na operação da LLYC em Portugal, que colocou a empresa entre as principais do seu sector. O objetivo é continuar a impulsionar o crescimento do negócio, com uma visão disruptiva que antecipe soluções para responder aos desafios e às necessidades dos nossos clientes, mantendo a aposta no nosso principal ativo – as pessoas – potenciando o desenvolvimento e crescimento das mesmas

Marlene Gaspar, Diretora-Geral da LLYC em Portugal

Arquivado em:Notícias, Pessoas

O Phishing no Linkedin cresceu 232% em 2022

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

É a Check Point Research que o diz, no seu relatório do Brand Phishing Q1 22. É a primeira vez que a rede social profissional ultrapassa os outros gigantes tecnológicos, como a Apple, Google e Microsoft.

No último trimestre de 2021, o LinkedIn encontrava-se na quinta posição com 8% do total das tentativas dos ataques de phishing, tendo subido para a primeira posição com cerca de metade, 52% das tentativas do ataque de phishing. Este valor representa um aumento de 44% face ao trimestre anterior.

O LinkedIn tem em Portugal mais de 3 milhões de utilizadores, e ao nível global estamos a falar mais de 800 milhões de utilizadores distribuídos por cerca de 200 nacionalidades.

Engenharia Social

É notável que é uma tendência emergente nos golpes de engenharia social em direção às redes sociais, em detrimento das grandes tecnológicas e da distribuição. A DHL saiu da primeira posição que ocupava no trimestre anterior, ocupa agora a segunda posição com 14%, seguida das tecnológicas Google e Microsoft. A Fedex subiu da sétima para a quinta posição com 6%, a WhatsApp desce da terceira para sexta posição com 4% do total de tentativas de ataque de phishing. Tendo a Maersk e a AliExpress entrado no top 10 pela primeira vez.

Estes criminosos chegam às suas vítimas por telefone, mensagens instantâneas ou e-mails fraudulentos, na tentativa de obter informação que pretendem. E os alvos não só pessoas comuns ou pessoa com literacia digital limitada, nos alvos estão incluídas pessoas com literacia digital elevada e empresas tecnológicas, ou seja, ninguém está livre de ser alvo de tentativa de phishing.

Os grupos de cibercriminosos realizam campanhas de ataques oportunísticos, recorrendo a engenharia social, ou seja, exploram o comportamento humanos ou os preconceitos cognitivos e manipulam psicologicamente as vítimas de forma a ludibriar, para que estas executem ações ou divulguem informações confidenciais e credenciais.

Pois as pessoas podem facilmente ser o elo mais fraco da cadeia, reagindo às interpelações por curiosidade, entusiasmo, urgência ou medo.

Na campanha do LinkedIn foram enviados e-mail a utilizadores, em tudo semelhantes aos oficiais da marca, com um link malicioso no corpo do e-mail.

O estudo realizado pela KnowBe4 no quarto trimestre de 2021, revelou, que os e-mails maliciosos que se fazem passar pelo LinkedIn, possuem uma taxa de abertura de 47%, um ponto percentual menor em relação ao período homólogo do ano anterior. São e-mail que incluíam no assunto:

“Veja quem consultou o seu perfil esta semana”,

A título de curiosidade, a campanha de phishing com o tema CODVID-19 mais bem-sucedida, teve uma taxa de abertura de 9%. Com e-mails que incluem no assunto:

“Política de segurança COVID-19”,

“Atualização da política de trabalho remoto COVID-19”,

“COVID-19 Política de Segurança”,

“A sua equipa partilhou | Política de licença de emergência e alteração do COVID 19 | consigo via OneDrive”.

Dados de utilizadores do LinkeIn à venda na Dark Web

Segundo o Sítio Restore Privacy e o Fortune entre 85% e 90% das Informação dos utilizadores do LinkedIn encontram-se à venda na Dark Web.

As informações transacionadas referente aos utilizadores do Linkedin, contém dados como Nome, endereço de e-mail, username, url, número de telefone, endereços físicos. dados de geolocalização, experiência profissional e informação referente a outras redes sociais.

Como prova, foi disponibilizada informação referente a um milhão de utilizadores. A amostra foi alvo de análise e efetivamente os dados estão disponíveis, no entanto não há informação financeira ou relativa a credenciais.

O Linkedin informou que os dados não é o resultado de um “data Breach”, nem que os dados confidenciais dos utilizadores foram alvo de exposição na Dark Web.

Muito provavelmente, tal como aconteceu em outros casos, uma ou mais API’s da plataforma do LinkedIn foi comprometida e permitiu a recolha de informação através da mesma. A informação exfiltrada, entra-se segmentada por país, por profissão e categoria profissional, por exemplo:

Recursos Humanos, Tecnologias de Informação, Financeiros.

Com esta informação na sua posse os cibercriminosos, podem estudar os alvos, preparar e planear de forma eficiente e eficaz os seus ataques. Para realizarem os ataques estes grupos recorrem a frameworks e processos definidos, apresentando assim um conjunto sofisticados de tácitas, técnicas e procedimentos e que recorrem frequentemente a inteligência artificial, virtualização, conteinerização e automação de forma a aumentar a eficiência e rapidez dos ataques.

Informação para o bem e para o mal

O LinkedIn é uma ferramenta digital com um papel importante no mundo profissional, no entanto pode ser uma espada de dois gumes. Pois também é utilizada como marca ou veículo para efetivar os ciberataques, tornou-se uma fonte dos possíveis alvos e também uma fonte de informação preciosa, que é transacionada na Dark Web ou partilhada por cibercriminosos.

Quando uma organização publica uma ou mais vagas de empego, normalmente indica quais os conhecimentos ou experiência que o candidato deve possuir para determinada função.

Esta informação é de extrema relevância e importância para os cibercriminosos, ainda na fase de footprinting e reconhecimento, conseguem obter de forma gratuita e sem nenhum tipo de esforço adicional, informação detalhada sobre o ecossistema tecnológico de determinada empresa. Com esta informação em seu poder, podem planificar e praticar ataques rápidos e cirúrgicos e com uma taxa de sucesso alta.

A tecnologia é agnóstica

Com a atual e vertiginosa evolução tecnológica e consequente transformação digital aplicada a todos os setores, desde o entretenimento às utilities, a exposição aos ciberataques e perigos daí resultantes são mais insidiosos, que aqueles alguma vez experienciados por gerações anteriores.

É necessário estar consciente que os grupos cibercriminosos proliferam por todo ecossistema digital 24X7, 365 dias por ano e exploram todo o tipo de vulnerabilidades, desde as humanas às tecnológicas. Podemos imaginar que um exército de eletrodomésticos inteligentes, controlados por agentes maliciosos podem provocar um apagão a metade da internet.

A evolução e a inovação acarretam efeitos colaterais, é necessário corrigi-los e adaptá-los num ciclo infinito, por não termos tempo para parar.

Ao utilizarmos os nossos smartphones, relógios digitais, a conduzir as nossas viaturas ou dito de outra forma, a fazer qualquer atividade que tenha tecnologia e comunicação evolvida, produzimos informação e dados sobre nós que podem ser recolhidos, partilhados, analisados e exfiltrados. A maioria das vezes somos nós responsáveis pela exfiltração, pois partilhamos muito mais do que deveríamos comprometendo-nos digitalmente e ao mesmo tempo exigimos privacidade e segurança.

Arquivado em:Opinião

A vitória do animal laborans

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

“O mundo das profissões corresponde a uma multiplicidade de formas de trabalhar que ultrapassa a reificação, o próprio artificialismo dos objetos que se constroem.” Falar de Direito a Desligar sem trazer para a discussão o que significa trabalhar não seria justo, uma vez que a ideia de estar sempre conectado implica de forma direta o mundo do trabalho. Por isso, falámos com Margarida Amaral, doutorada em Filosofia Contemporânea, para entendermos o significado da dimensão do trabalho e do tempo nas nossas vidas ativas, ancorados no pensamento da também filósofa Hannah Arendt.

O trabalho para Hannah Arendt corresponde ao que hoje podemos encontrar no mundo das profissões?

O “trabalho” é um conceito muito específico em Hannah Arendt. Significa a dimensão da vita ativa que depende da condição humana da mundanidade, concretizando-se em isolamento, obedecendo a uma previsibilidade e consumando-se na artificialidade dos objetos criados pelo Homem. Deste modo, o sujeito do trabalho é o homo faber, isto é, um ser que constrói, reifica e edifica um mundo humano de natureza artificial, sem que, enquanto tal, estabeleça propriamente uma relação com os outros. Assim, este conceito não corresponde propriamente àquilo que na atualidade podemos designar como “mundo das profissões”, o qual, sintetizando, corresponde a uma multiplicidade de formas de trabalhar que ultrapassa a reificação, o próprio artificialismo dos objetos que se constroem. Além disso, o contexto profissional atual é cada vez mais dinâmico, tornando imprevisível como será o mundo das profissões daqui a uns anos. Ora, o “trabalho” em Hannah Arendt é, de um modo geral, uma atividade marcada pela previsibilidade – o artífice fabrica com base num modelo cujo fim é a fabricação de um objeto. Finalmente, em relação ao isolamento do homo faber, grande parte das profissões atuais supõe o desenvolvimento contínuo de competências relacionais, consumadas em grande medida em termos digitais. Se este universo está fundado num verdadeiro encontro entre o eu e o outro, respeitando a pluralidade que nos é própria, será certamente um aspeto que merece uma reflexão mais profunda…

Trabalhar uma vida inteira ou dias a fio sem tempo para refletir e/ ou descansar seria algo que Hannah Arendt considerasse válido, humano?

Hannah Arendt não se refere diretamente à relação entre o descanso e o trabalho, mas denuncia a ilusão do tempo livre inerente ao animal laborans. Contrariamente ao homo faber, o animal laborans circunscreve a sua atuação ao ciclo de produção e consumo. Ora, ao contrário de Marx, que concebe haver um tempo do processo de produção que é superior ao tempo dedicado ao trabalho, permitindo assim que o trabalhador tenha tempo livre, Hannah Arendt denuncia o perigo que corremos com a valorização dominante do labor.

Aquilo que a autora denomina de “vitória do animal laborans” remete justamente para o perigo de nos termos tornado essencialmente consumidores e, assim, o nosso tempo livre não o é verdadeiramente, uma vez que se circunscreve ao ciclo voraz de produção e consumo.

Neste sentido, é possível afirmar que o descanso não existe verdadeiramente nas sociedades atuais. Será isso humano? Na verdade, não, já que embora cada um de nós seja um animal laborans enquanto possuir uma dimensão vital, isto é, enquanto for um ser vivo, a Humanidade é bem mais do que isso. Para a autora, é trabalho, é ação (ou participação política) e é pensamento – essa possibilidade que todos temos de “parar para pensar”, suspender as nossas atividades quotidianas para nos dedicarmos à reflexão.

Trabalho e Labor são conceitos distintos. Como os podemos ver nos tempos que correm?

O trabalho obedece à condição humana da mundanidade, enquanto o labor depende da condição humana da vida. Hannah Arendt denuncia, como já referi, a “vitória do animal laborans” reconhecendo que, entre as três dimensões da vita ativa – labor, trabalho e ação – os indivíduos se encontram reduzidos à vida e à satisfação de necessidades. Esta satisfação alargou-se ao ponto de incluir não apenas necessidades verdadeiramente vitais, mas ainda “necessidades” supérfluas que, entretanto, são já entendidas como vitais. A este nível, somos levados a reconhecer a atualidade do pensamento da autora. Num mundo cada vez mais acelerado e no qual os indivíduos se encontram sobretudo centrados na satisfação das suas necessidades, o ciclo de produção e consumo é imparável e progressivamente mais voraz. A produção e o consumismo avassaladores a que assistimos na atualidade alimentam-se mutuamente, criando dificuldades à autenticidade da vida do Homem no mundo. Na verdade, este ciclo interfere com a nossa vivência do tempo, com as relações interpessoais e com o próprio equilíbrio da Natureza.

Trabalho e Poesia são conciliáveis quando pensamos nesta última com a dimensão do cuidado que devemos ter com a Natureza e o mundo em geral?

Trabalho e poesia (poiesis), entendida como equilíbrio entre a construção e o cuidado, têm de ser conciliados. O trabalho tem de visar tornar o mundo num lugar habitável, numa verdadeira habitação. Ora, isto só é possível compreendendo o habitar num sentido poético. Martin Heidegger cita Hölderlin a este respeito – “Poeticamente o Homem habita”, porque justamente só é possível habitar poeticamente. Segundo Heidegger, os gregos, ao contrário dos romanos, construíam a partir de uma relação de não provocação, de cuidado com a Natureza. Pelo contrário, Hannah Arendt sugere que, embora os gregos cultivassem um “amor pela beleza” no que se refere à apreciação, os romanos teriam associado o cuidado (colere) às suas criações. Independentemente da origem, é fundamental sublinhar que o trabalho, muito embora possa violentar a Natureza, não visa a sua destruição pura e simples. Tornar o mundo num lugar habitável para o Homem implica encontrar um equilíbrio entre a violência inerente à transformação da Natureza pelo trabalho e o próprio mundo humano que se edifica a partir desta violência, mas que não consiste numa mera destruição. A procura deste equilíbrio tem-se revelado desafiante para as sociedades contemporâneas.

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder.

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Arquivado em:Entrevistas

Retenção de talento continua a ser um desafio em 2023

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Na Europa, um em cada três colaboradores tencionam mudar de emprego nos próximos três a seis meses, mesmo entre a desaceleração económica que se está a instalar.

O talento é a alma do negócio; se este falha, as organizações poderão encontrar-se numa situação crítica, especialmente no panorama económico previsto para 2023.

Fonte: McKinsey&Company

O que podem as lideranças fazer para atrair e reter talento? Um novo inquérito da McKinsey & Company deixa algumas pistas.

Porque está este fenómeno a acontecer? 

Os motivos que levam os europeus a considerar largar o seu emprego, segundo o “2022 European Great Attrition, Great Attraction”, são, fundamentalmente, salários inadequados para as posições ocupadas, falta de progressão e avanço na carreira, e lideranças que não são sensíveis nem inspiradoras.

Pessoas de todas as faixas etárias e níveis de experiência estão a dar mais ênfase a esses fatores em conjunto, ao considerar ficar ou sair da organização. Precisam de provas tangíveis e consistentes de que têm um futuro positivo, ou seja, o conjunto completo.

Além disso, outros fatores têm vindo a ganhar relevância para o povo europeu desde o início da pandemia, especialmente aqueles relacionados com trabalhar com pessoas que não consideram de confiança, que dão pouco apoio, e valorizam cada vez mais um ambiente de trabalho inclusivo e acolhedor. O bem-estar fala mais alto.

O que fazer? 

O mercado de trabalho da Europa é único, com proteções e direitos dos trabalhadores mais regulados, ofertas de pensões mais amplas e licenças de paternidade mais longas, o que beneficia os colaboradores e a sociedade em geral.

Culturalmente, os trabalhadores desta região não deixam os seus empregos com tanta frequência quanto os dos Estados Unidos da América e outros países.

No entanto, com uma população envelhecida e um cenário económico sombrio, os empregadores europeus enfrentam um ambiente complexo para operar, o que exige soluções mais criativas. A McKinsey & Company dá as seguintes sugestões para atrair e reter talento:

Refletir sobre a rotatividade na sua organização 

O primeiro passo é refletir relativamente à sua organização. As empresas devem avaliar a rotatividade que têm tido, e tomar medidas para reduzir ainda mais a perda de talento, ao analisar as motivações dos seus funcionários.

O estudo mostra que as razões pelas quais as pessoas que deixaram os empregos ou planeiam fazê-lo são as mesmas, o que pode dar vantagem para as organizações.

Assim, os empregadores devem considerar reforçar os pacotes de compensação, investir no desenvolvimento dos colaboradores e fornecer oportunidades de progressão significativas, enquanto, ao mesmo tempo, mostram liderança diária e estratégica mais atenciosa e inspiradora.

Não subestimar os que ficam 

Quando as empresas de concentram principalmente na atração e retenção, tendem a ignorar a necessidade de apoiar ativamente os colaboradores que ficam. As empresas que mais retêm talento são as que antecipam e abordam as preocupações dos seus funcionários.

Perguntam às pessoas o que precisam para ter sucesso nas suas funções, e ouvem ativamente, e agem em concordância.

Recompensar a lealdade 

A progressão de carreira é uma prioridade para os trabalhadores europeus. Uma empresa que recompensa os seus funcionários ao investir no seu desenvolvimento reduz significativamente a intenção de procurar emprego noutro sítio, enquanto aumenta o engagement geral.

Repensar a cultura da organização 

Desde o início da pandemia que as organizações se têm esforçado para ajudar os colaboradores que estão em burnout. No entanto, é crucial focar em medidas preventivas, e não remediativas no trabalho.

De acordo com dados da McKinsey&Company, os trabalhadores europeus querem mais flexibilidade no local de trabalho e um ambiente de trabalho física e psicologicamente seguro, o que promove a saúde mental.

As lideranças conscientes podem também fazer uma grande diferença no que toca ao sentido de propósito dos seus colaboradores.

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

O Trigo e o joio na Cibersegurança

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Num mercado que se quer competitivo e de valor acrescentado, a transformação digital torna imperativo que os quadros executivos das organizações, nacionais e internacionais, compreendam o contexto de interdependência, heterogeneidade e multidisciplinariedade que afeta o posicionamento, a marca e a reputação das organizações. A compreensão deste contexto implica a promoção de diálogos plurais onde o debate sobre a confiança digital e a implicação direta da Cibersegurança devem ser pontos centrais.

As organizações, cada vez mais, lutam por desenhar e implementar estratégias que salvaguardam os seus ativos e principalmente a sua imagem e reputação, nesta que é a economia digital. Contudo, apesar dos esforços, temos visto que ninguém está a salvo. A informação que tem vindo a público, quase diariamente, sobre organizações comprometidas, por motivo de ciberataques, é cada vez maior, e o desequilíbrio entre as diferentes forças motrizes, entende-se no sentimento de confiança ou de desconfiança quando estes incidentes ocorrem. Para quem possa ter estado mais atento, observaram-se estratégias distintas na resposta e comunicação dos incidentes (aspeto crucial na construção da confiança no digital).

Houve organizações mais coordenadas nas vertentes tecnológica, negócio e comunicação, houve outras que optaram por não fazer quaisquer comunicações públicas, e ainda outras que comunicaram de forma pouco preparada. E todas as estratégias poderiam ter sido válidas não tivesse o resultado final deixado algum desconforto no seu público-alvo. Estes são, claramente, sinais de que há muito por fazer e que a solução vai mais além do que a implementação de soluções tecnológicas!

Na procura da solução para a construção da confiança digital é importante lembrar os desafios que atualmente influenciam o ciberespaço:

A interação Homem versus tecnologia

Este é o grande desafio com o qual se deparam nos tempos mais próximos as organizações. O ser humano continua a ser a principal causa de incidentes (77%, de acordo com dados do Ponemon Institute, em 2021), devendo-se a uma maior dificuldade de entender e, consequentemente, de acompanhar a evolução tecnológica e o seu papel no seu dia-a-dia. Esta dificuldade dificulta a adoção de comportamentos mais seguros. É assim fundamental investir na literacia digital para todos: clientes, colaboradores, fornecedores e até acionistas para os riscos tecnológicos a que estão expostos, mas também os sociais que se aproveitam do desconhecimento para polarizar opiniões e comportamentos. Temos aqui, a título de exemplo, as vastas campanhas de phishing e vishing que exploram esta vulnerabilidade e que são os tipos de ataques mais bem-sucedidos. Verificamos ainda a influência que as redes sociais têm tido em processos eleitorais do ponto de vista de polarização e influência de opiniões.

O desenvolvimento rápido, complexo e emergente de novas ameaças no ciberespaço

A escassez de recursos e competências, aliada à evolução vertiginosa das ameaças no ciberespaço, são uma preocupação notória. A velocidade com que as ameaças evoluem e a sua sofisticação exigem cada vez mais equipas de resposta experientes e especializadas. E neste sentido, as organizações têm procurado conhecer a sua resiliência contra-ataques através da realização de testes de intrusão às suas infraestruturas, mas também formar e treinar as suas equipas para que estejam melhor preparadas na resposta a potenciais ataques que comprometam a sua segurança e, consequentemente, a sua imagem e reputação.

À semelhança dos tradicionais modelos de gestão, também na economia digital o repto passa por adotar-se uma abordagem ágil, integrada e multidisciplinar à gestão do ciber-risco. Abordagem que se entende que enderece aspetos como a volatilidade, complexidade, incerteza e ambiguidade que moldam a interpretação do contexto e dos comportamentos a adotar, e que sente à mesma mesa especialistas em riscos tecnológicos, mas também especialistas políticos, sociais, económicos, ambientais e legais, pela interdependência entre os mesmos e que considere como fatores críticos de sucesso:

Accountability

Assumir conscientemente a responsabilidade do papel que cada um tem na confiança digital é fundamental. Esta responsabilidade vê-se assumida na defesa dos princípios éticos, responsabilidade social, e até mesmo na defesa dos princípios de privacidade dos vários stakeholders.

Cibersegurança

O ser humano necessita de se sentir seguro para poder confiar. Deste modo, a Cibersegurança é um pilar fundamental para a construção da confiança digital.

Processo de pensamento

O processo de pensamento estratégico deve ser alvo de mudança por dois factos muito objetivos:

Conceito do tempo

É crucial entender e aceitar que o conceito temporal, neste domínio, é diferente. O que é verdade amanhã, não será verdade daqui a duas semanas, um mês ou daqui a um ano. O tempo urge… é importante projetar o futuro no presente, é importante criar processos ágeis, facilmente adaptáveis à evolução constante das ameaças e riscos que testemunhamos. Portanto, alterar o processo de pensamento da estratégia é medida fulcral de exercitar.

Conceito da colaboração

A cooperação entre stakeholders com competências experiências multidisciplinares, com entidades do setor onde estamos inseridos, entidades reguladoras e comunidades de Cibersegurança é fundamental para promover o debate e a partilha de inteligência. Salvaguardando sempre temas, como por exemplo, os da soberania entre estados e a propriedade intelectual e segredos de negócio na indústria.

Enquanto entidades e indivíduos responsáveis, sabemos que todos temos um papel ativo na criação de uma economia digital confiável e segura, mas à semelhança do que acontece noutros contextos, o exemplo e o compromisso recai sobre os quadros diretivos das organizações.

A definição duma estratégia de Cibersegurança alavancada num entendimento efetivo dos ciber-riscos e seus impactos para o negócio são fatores diferenciadores na separação do trigo do joio!

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder.

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