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Denise Calado

Está na hora de enfrentar os seus medos

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Diz-se que os empreendedores não têm medo de arriscar. São personagens heroicas e aventureiros que enfrentam grandes obstáculos e trabalham dia e noite para os ultrapassar. Mas a realidade conta uma outra história, onde existe o medo de arriscar e preocupações que impedem a progressão.

Superar os medos é perguntar-se honestamente do que realmente tem medo. O que o está a impedir de avançar? Para ajudar a identificar e lidar com os infinitos receios, a Inc. partilha uma lista dos principais medos que os empreendedores enfrentam

Importar-se em demasia com o que os outros pensam

Num mundo hiperobservador, obsessivo e crítico, onde todos são especialistas em tudo é fácil perder o rumo e importar-se demasiado com o que o “mundo” pensa.

Permitir que o seu trabalho e o seu impacto sejam medidos e determinados pela opinião de outra pessoa não é sustentável, porque não há como vencer num mundo em que a comunicação social aprecia e recompensa conflitos e controvérsias.

Ninguém está interessado sobre os comboios que chegam a horas ou os acidentes que não aconteceram.

Preocupar-se em dececionar a família e os amigos

Metade dos seus amigos e familiares acredita secretamente que é admirável, mas um pouco arriscado, seguir os seus sonhos de forma tão afincada. Ao mesmo tempo, a outra metade dir-lhe-á que pode fazer qualquer coisa que realmente queira.

Todos eles pensam que o estão a apoiar, mas na verdade estão a adicionar peso nos seus ombros já sobrecarregados.

A motivação é algo que tem de encontrar dentro de si. Não há uma resposta fácil, mas uma boa tática é apenas seguir em frente, tendo em conta que reconhece a relação risco / recompensa e que está preparado para viver com as consequências. Os verdadeiros amigos estarão lá de qualquer maneira, e a sua família tem de o aceitar, ganhando ou perdendo.

Sentir que não está apto para o trabalho – síndrome de impostor

Isto não é nada de novo – toda a gente (exceto narcisistas) sente isso às vezes. Ter dúvidas de vez em quando é até algo saudável e provavelmente impedirá que tome decisões impulsivas.

Curiosamente, a maioria dos empreendedores diria que está menos preocupado em mergulhar de cabeça em águas turvas do que em dar os primeiros passos numa direção diferente.

Trabalhar para outros

Construir um negócio é difícil. É preciso preparação, perseverança e, acima de tudo, uma verdadeira paixão para ajudá-lo a manter o rumo e enfrentar as tempestades.

Não é algo que faz para outra pessoa: para seus colegas ou pais, ou para provar um ponto. Por mais que tente, nunca terá sucesso se estiver a tentar viver a vida de outra pessoa.

Medo de estar sozinho

Ser chefe, mesmo quando está rodeado pela melhor e mais brilhante equipa, ainda é um trabalho solitário. Só aqueles que estão confortáveis ​​com a responsabilidade e a solidão que vem com o trabalho terão sucesso, porque essa capacidade e vontade de se retirar, refletir e, finalmente, decidir como proceder é um superpoder empreendedor.

As recompensas de uma grande liderança vão para a sociedade em geral, mas o preço geralmente é pago apenas pelo líder.

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Yvonne Brierley é a nova Administradora Geral da Daikin Portugal

12 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Com mais de 20 anos de experiência na Daikin, Yvonne Brierley é a nova administradora geral da Daikin Portugal.

Formada em Artes e em Estudos Comerciais pela Liverpool John Moores University, Yvonne Brierley começou o seu percurso profissional na equipa de marketing da Daikin Reino Unido. Mais tarde integra a equipa de apoio interno e passa pela equipa de gestão de vendas externas, onde tem a seu cargo uma equipa local e mais tarde três equipas de vendas regionais.

Com o objetivo de continuar a desenvolver o negócio em terras lusas, a nova administradora geral da Daikin Portugal mantem o firme desejo de poder, com a sua carreira profissional, inspirar outros a desafiarem-se a si próprios e a seguirem os seus sonhos.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Análise de riscos globais coloca no topo a crise do custo de vida e a ação climática

11 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Aproxima-se a reunião anual do World Economic Forum (WEF), que a 16 de janeiro irá juntar os principais líderes mundiais sob o tema “Cooperation in a fragmented world”. Antecipando esse momento, é hoje divulgado o “Global Risks Report 2023” documento que fornece uma maior compreensão dos riscos globais a curto, médio e longo prazo.

A curto prazo, a crise do custo de vida é o maior risco, enquanto a falha na mitigação das alterações climáticas é a principal preocupação a longo termo. Num panorama geral, os confrontos geopolíticos e os posicionamentos protecionistas irão aumentar as restrições económicas e exacerbar os riscos.

O relatório apela ainda a que os países trabalhem em conjunto para evitar “rivalidades de recursos”.

Top riscos globais 

 

Top 10 riscos a 2 anos

  1. Crise do custo de vida
  2. Catástrofes naturais e eventos climáticos extremos
  3. Confronto geoeconómico
  4. Falha na mitigação das alterações climáticas
  5. Erosão da coesão social e polarização da sociedade
  6. Incidentes com danos ambientais em larga escala
  7. Fracasso na adaptação às alterações climáticas
  8. Cibercrime generalizado e insegurança cibernética
  9. Crises de recursos naturais
  10. Migração involuntária em larga escala

 

Top 10 riscos a 10 anos

  1. Falha na mitigação das alterações climáticas
  2. Fracasso na adaptação às alterações climáticas
  3. Catástrofes naturais e eventos climáticos extremos
  4. Perda de biodiversidade e colapso dos ecossistemas
  5. Migração involuntária em larga escala
  6. Crises de recursos naturais
  7. Erosão da coesão social e polarização da sociedade
  8. Cibercrime generalizado e insegurança cibernética
  9. Confronto geoeconómico
  10. Incidentes com danos ambientais em larga escala

 

O relatório, realizado em parceria com a Marsh McLennan e o Zurich Insurance Group, tem por base as opiniões de cerca de 1.200 especialistas globais em riscos, decisores políticos e líderes empresariais. O panorama global apresentado é simultaneamente novo e familiar, uma vez que o mundo enfrenta muitos riscos pré-existentes que anteriormente pareciam estar a diminuir.

Conflitos e confrontos geoeconómicos desencadearam um conjunto de riscos globais profundamente interligados. Estes riscos incluem crises de abastecimento de energia e de alimentos, que deverão persistir nos próximos dois anos, e fortes aumentos do custo de vida e do serviço da dívida.

Simultaneamente, estas crises podem colocar em causa os esforços para enfrentar os riscos a longo prazo, nomeadamente os relacionados com as alterações climáticas, a biodiversidade e o investimento em capital humano.

O que se prevê para os próximos anos 

Segundo o relatório, os próximos anos irão apresentar duras contrapartidas para os governos quando enfrentarem interesses conflituantes para a sociedade, o ambiente e a segurança. Os riscos geoeconómicos a curto prazo já estão a pôr à prova os compromissos net-zero e expuseram um fosso entre o que é cientificamente necessário e o que é politicamente aceitável.

É necessária uma ação coletiva acelerada sobre a crise climática para limitar as consequências de um mundo em aquecimento. Entretanto, as considerações de segurança e as crescentes despesas militares podem deixar menos margem fiscal para amortecer os impactos de uma crise prolongada do custo de vida.

Sem uma mudança de trajetória, os países vulneráveis podem atingir um estado de crise perpétuo e ser incapazes de investir no crescimento futuro, no desenvolvimento humano e nas tecnologias verdes.

O relatório apela aos líderes para agirem de forma coletiva, equilibrando visões a curto e longo prazo. Para além da necessidade de uma ação climática urgente e coordenada, o relatório recomenda que exista um esforço conjunto entre países, bem como uma cooperação público-privada para reforçar a estabilidade financeira, a governação tecnológica, o desenvolvimento económico e o investimento na investigação, ciência, educação e saúde.

 

 

 

O cenário de risco a curto prazo é dominado pela energia, alimentação, dívida e catástrofes. Aqueles que são já mais vulneráveis estão a sofrer – e face a múltiplas crises, aqueles que se qualificam como vulneráveis estão em rápida expansão, tanto nos países ricos como nos pobres. O desenvolvimento climático e humano deve estar no centro das preocupações dos líderes globais, mesmo quando lutam contra as crises atuais. A cooperação é o único caminho a seguir

Saadia Zahidi, Managing Director do Fórum Económico Mundial.

 

A interação entre os impactos das alterações climáticas, perda de biodiversidade, segurança alimentar e consumo de recursos naturais é um cocktail perigoso. Sem mudanças políticas ou investimentos significativos, esta mistura acelerará o colapso dos ecossistemas, ameaçará o abastecimento alimentar, amplificará os impactos das catástrofes naturais e limitará mais progressos na mitigação das alterações climáticas. Se acelerarmos a ação, existe ainda uma oportunidade até ao final da década de atingir uma trajetória de 1.5oC de temperatura e fazer face à emergência da natureza. Os recentes progressos na implementação de tecnologias de energias renováveis e veículos elétricos dão-nos boas razões para sermos otimistas

John Scott, Head of Sustainability Risk do Zurich Insurance Group

 

2023 deverá ser marcado pelo aumento dos riscos relacionados com a alimentação, energia, matérias-primas e cibersegurança, causando mais perturbações nas cadeias de abastecimento globais e impactando as decisões de investimento. Numa altura em que os países e as organizações deveriam intensificar os seus esforços de resiliência, os ventos económicos contrários limitarão a sua capacidade de o fazer. Enfrentando as condições geoeconómicas mais difíceis numa geração, as empresas devem focar-se não só nas preocupações a curto prazo, mas também no desenvolvimento de estratégias que as posicionem devidamente para os riscos a longo prazo e mudanças estruturais

Carolina Klint, Risk Management Leader da Marsh Europe

 

 

Leia sobre o Global Risks Report 2023 e saiba mais sobre a Reunião Anual 2023 aqui

Arquivado em:Notícias, Sociedade

“Não me tragam problemas” é um grande problema

11 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Uma das abordagens mais estimulantes, criativas e elegantes sobre o papel das lideranças na tomada de decisão foi proposta por Ed Catmull, o co-fundador da Pixar e ex-Presidente dos estúdios Walt Disney. O livro (Creativity, Inc.) contempla um cardápio de princípios orientadores na tomada de decisão, resultante da sabedoria prática acumulada. Reflete duas grandes recomendações. Primeira: importa respeitar e aproveitar a inteligência e as energias das pessoas, qualquer que seja o patamar que estas ocupam na hierarquia. Segunda: a mensagem “não me tragam problemas, tragam-me soluções”, que algumas lideranças tomam como sagrada, é perigosa. Perante lideranças que não querem escutar problemas, é mais seguro ficar calado e comunicar-lhes o que elas querem ouvir. Com o decurso do tempo, as lideranças passam a viver numa bolha. Não têm consciência dos problemas nem se dão conta de que se abeiram do precipício. Eis algumas orientações preconizadas por Catmull, que articulo de um modo que espero seja elucidativa e útil:

  • Escolha pessoas mais inteligentes do que a sua pessoa. Elas permitir-lhe-ão ser melhor líder.
  • Selecione pessoas pelo potencial de crescimento. Essas pessoas estarão dispostas a aprender e a melhorar, mesmo que hoje estejam num patamar modesto.
  • Solicite ideias a todas as pessoas na sua organização. Boas ideias não residem apenas nas mentes de quem está no topo da hierarquia.
  • Solicite ideias proactivamente. Dê o primeiro passo, em vez de esperar que as pessoas partilhem ideias consigo. Se não for proativo/a, as pessoas poderão inibir-se de tomar a iniciativa de lhe propor ideias, sobretudo se estas forem “estranhas” ou disruptivas. Bata à porta das pessoas, não espere que sejam elas a bater à sua.
  • Identifique as barreiras que impedem as pessoas de serem francas. “Matar o mensageiro da má notícia”, reagir agrestemente perante as discordâncias, e procurar o consenso a todo o custo para manter a harmonia (ou não causar desconforto à liderança!) – eis barreiras muito comuns, especialmente num país muito dado ao “respeitinho”.
  • Compreenda as raízes do desacordo. As pessoas discordam por alguma razão. Se compreender a razão, pode esclarecer mal-entendidos: o dessas pessoas, ou o seu!
  • Afaste o medo. Tenha medo dele. O medo impede as pessoas de comunicarem a verdade ao poder, de manifestarem discordância perante ideias e sugestões perigosas, e de arriscarem e experimentarem novas soluções.
  • Não assuma que está certo/a. Cultive a dúvida. Por vezes, a forma mais expedita de estar errado é estar seguro de que se está certo.
  • Crie estruturas e processos que desvendem o que é real. Crie condições para que as pessoas digam a verdade. Procure compreender as razões pelas quais as pessoas estão a abandonar a organização. Lance estudos de clima organizacional, com participação anónima, para que as pessoas partilhem o que lhes vai na alma antes que os problemas se avolumem.
  • Crie condições para que a verdade surja nas reuniões, não nos corredores. Caso contrário, não a conhecerá e acabará por tomar más decisões.
  • Partilhe problemas. Se os subestima, dormirá hoje mais descansado. Contudo, mais cedo ou mais tarde, terá muitas e grandes insónias.
  • Medir o sucesso e o fracasso sem avaliar o processo é enganador. Um sucesso pode ocorrer mesmo quando o processo de tomada de decisão é falho. É, pois, fruto da sorte e, mais cedo ou mais tarde, o processo redundará em fracasso. Simetricamente, quando os processos são corretos e a tomada de decisão é aprofundada, o fracasso que possa emergir conduzirá à aprendizagem.
  • A função das lideranças não é prevenir o risco – é criar condições para que seja seguro correr riscos. Se uma liderança não fomenta essa segurança psicológica, as pessoas terão medo de arriscar, experimentar e inovar.
  • O fracasso não é um problema – é a consequência necessária de fazer algo novo. Problema é não aprender com a falha.
  • Encontrar e resolver problemas é função de toda a gente. Não se tome por líder omnisciente. Respeite a inteligência das pessoas.
  • Avalie as pessoas pela sua capacidade de resolver problemas, não pelos erros que cometem. Só comete erros quem toma a iniciativa e arrisca em prol da resolução desses problemas.
  • Numa organização, todos devem poder comunicar com todos. Desse modo, é maior a probabilidade de a informação e o conhecimento pertinentes chegarem onde é conveniente que cheguem.
  • Se a agenda particular de alguém vence, toda a equipa perde. As agendas particulares, inclusivamente a da liderança, devem ser domesticadas em prol do coletivo.
  • Proteja novas ideias, mesmo as que não são “grande-coisa”. Não tome por parva a pessoa que já lhe apresentou uma dúzia de ideias sem grande valia. Se o fizer, inibirá essa pessoa de lhe apresentar a 13ª ideia – aquela que seria realmente disruptiva e inovadora.
  • As crises não são necessariamente lamentáveis. Podem servir para testar valores e criar ou reforçar laços entre as pessoas.
  • “Excelência”, “qualidade” e “bom” devem ser palavras conquistadas pelas lideranças, atribuídas por outras pessoas. As lideranças, em vez de alardearem realizações, devem fazer por merecer os encómios que outras pessoas lhes venham a tecer.

No cerne destas orientações radicam a competência, a tenacidade, a coragem e uma qualidade que não me canso de reiterar: a capacidade de “ter os pés assentes na terra”, o cerne da humildade.

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

O Turco Mecânico e o labirinto de espelhos

11 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Em 1770, Wolfgang von Kempelen apresentou à imperatriz Maria Teresa da Áustria um autómato capaz de jogar xadrez. Passando por diversos proprietários até à sua destruição durante uma tournée pelos Estados Unidos em meados do século XIX, este “Turco Mecânico” (assim chamado devido às vestes do boneco) encantou os espectadores com a ilusão de uma inteligência artificial, dois séculos antes de o IBM Deep Blue ter derrotado Gary Kasparov num torneio de xadrez em 1997.

O segredo do Turco só foi conhecido após a sua destruição: antes de cada apresentação, um operador de carne-e-osso, proficiente em xadrez, escondia-se no armário que alojaria apenas as engrenagens do autómato.

Os atuais dinamizadores da “inteligência artificial” e da aprendizagem automática (machine learning) não visam, ao contrário de von Kempelen, conceber um espetáculo de ilusionismo. O texto de apresentação do “modelo de linguagem” ChatGPT recentemente lançado pela OpenAI, é bastante claro: o segredo da máquina é o humano que a habita; neste caso, todo o corpus textual e todo o tempo de trabalho humano investido no treino e verificação do modelo.

Poderemos dar-nos licença, enquanto utilizadores do ChatGPT, para um encanto semelhante àquele que sentimos durante um bom espetáculo de ilusionismo. É inegável que este e outros modelos de linguagem, como o Galactica, da Meta, produzem respostas que abordam o assunto em questão com uma gramática correta, o que é em si mesmo admirável. Contudo, o nosso encanto deve ser temperado por uma dose saudável de ceticismo.

Forma sem conteúdo 

O operador humano do Turco Mecânico compreendia o jogo do xadrez; já o ChatGPT não compreende qualquer assunto. A prioridade dos modelos de linguagem é a preocupação com a forma que uma resposta deverá tomar, não com o conteúdo. No presente, isto invalida o uso destas ferramentas enquanto motores de pesquisa. Num primeiro teste, achei o ChatGPT um enorme salto qualitativo no acesso à informação, mas depressa constatei que uma análise das respostas geradas (e com algumas visitas à Wikipédia pelo meio) quebra a ilusão. As respostas parecem corretas, mas frequentemente não o são. O modelo erra nos factos e revela uma incapacidade para produzir um encadeamento lógico. O modelo de linguagem ilude-nos através da confiança com que escreve: como um bom vigário, não se preocupa nem com a verdade, nem com a lógica dos seus argumentos. Ainda assim, tenho assistido a discussões nas redes sociais entre professores sobre as possíveis contramedidas à utilização do ChatGPT por parte dos seus estudantes mais preguiçosos. Embora nada mais garanta do que a mediocridade, o aparecimento desta forma de plágio é já visto como inevitável e merece a nossa atenção.

Conhecimento sem compreensão 

Embora os modelos de linguagem se aproximem das interfaces conversacionais prometidas há décadas pela ficção científica, aquilo que nos apresentam é um puré confecionado com informação liofilizada, ocasionalmente nutritivo, possivelmente indigesto. Podemos, contudo, crer que as futuras versões irão construir a ponte entre a credibilidade da forma e a credibilidade do conteúdo, porventura através de um cruzamento dos seus outputs com fontes sujeitas a verificação (como repositórios de dados certificados ou a Wikipédia).

Ainda assim, o ser humano conhece e depois compreende, enquanto para a máquina o “conhecimento” é uma mera amostra estatística. Compreendendo, o humano aprende, perspetiva e inova. A máquina apenas calcula a cada momento aquela palavra em que os inputs – a pesquisa e o corpus – mais se correlacionam. Não poderemos exigir muito mais. Não obstante, é certo que muitas tarefas apenas exigem algum conhecimento factual e o cumprimento de regras gramaticais. Versões futuras do ChatGPT poderão automatizar tarefas tão díspares como o copywriting, o jornalismo de dados, ou alguma engenharia de software (na versão atual, já podemos pedir à ferramenta que nos escreva pequenos programas). Também poderemos esperar spam e bots nas redes sociais cada vez mais sofisticados e enganadores.

A ameaça das burlas motivará a aquisição de novas literacias para autodefesa. As ameaças do desemprego e da disrupção em áreas consideradas “do conhecimento” obrigarão a repensar o modelo educativo e económico, com um crescente foco nos patamares mais elevados da compreensão, da análise, e da criação.

O labirinto de espelhos

Uma última nota: o educador norte-americano John Culkin afirmou: que “We shape our tools and, thereafter, our tools shape us.”

Como é que podemos perspetivar uma sociedade futura em que os sistemas de aprendizagem automática irão partilhar conhecimento baseado num corpus cada vez mais composto por informação gerada por esses mesmos sistemas?

Na ausência de uma firme mão humana a controlar o autómato, informada por capacidades de compreensão, análise, e crítica, corremos o risco de construir um labirinto de espelhos ao nosso redor.

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder.

Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Artigos

Recuperação económica chinesa poderá agravar inflação

11 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Na China, a política zero Covid chegou ao fim. Agora as consequências vão se sentir a nível económico, que afetará não só o país, como o resto do mundo. O que podemos esperar? O The Economist explica.

Recuperação da economia chinesa

Com o aumento exponencial dos casos de Covid-19 na China, os hospitais voltaram a ficar sobrecarregados. Se o governo chinês voltar a implementar a política Zero Covid, a economia do país pode entrar em recessão já no primeiro trimestre de 2023. Mesmo que isso aconteça, porém, a atividade económica recuperará acentuadamente.

Agora que a vida está a voltar à normalidade, as pessoas estão a voltar aos trabalhos e a frequentar espaços de consumo de bens e serviços, o que levará a uma recuperação tão significativa que pode impulsionar grande parte do crescimento global para 2024, de acordo com alguns economistas.

O Partido Comunista chinês espera agora pôr para trás das costas o capítulo pandémico e focar-se na recuperação económica que se seguirá. No discurso de fim de ano de Xi Jinping, o presidente agradeceu aos trabalhadores da linha da frente por continuarem nos seus postos de trabalho. Apesar de mencionar que se avizinhavam “difíceis desafios”, prometeu que “a luz da esperança está mesmo à nossa frente”.

O fim dos confinamentos será benéfico para os setores que dependiam do setor chinês, nomeadamente hotéis em Phuket e centros comerciais em Hong Kong, região para a qual está prevista um aumento no PIB de até 8%. As reservas no Trip.com aumentaram 250% a 27 dezembro, o primeiro dia do levantamento das restrições, em comparação com o dia anterior.

O risco para a Europa e o resto do mundo

Por outro lado, a recuperação económica da China poderá ter efeitos colaterais severos para outras potências. Em grande parte do mundo, a aceleração da economia chinesa poderá traduzir-se numa inflação ou taxas de juro mais altas.

Os bancos centrais têm vindo a aumentar as taxas a um ritmo sem precedentes para tentar combater a inflação; se com a reabertura da China o aumento da pressão sobre os preços continuar, as taxas continuaram a subir por mais tempo.

Os países que importam bens, nomeadamente grande parte do ocidente, correm o maior risco de sofrer com essas disrupções.

Agravar a crise energética?

A crescente demanda chinesa vai compensar as perdas que o mercado do petróleo está a sentir vindos da Europa e América. De acordo com o banco Goldman Sachs, uma rápida recuperação chinesa pode levar a que o preço do petróleo bruto Brent chegue aos 100 dólares por barril, um aumento de um quarto em comparação com os preços atuais.

O aumento dos custos da energia é outro entrave para tentar domar a inflação. Para a Europa, a reabertura da China é mais um motivo para não ser complacente com a compra de gás natural este ano. A política Zero-Covid, ao suprimir a demanda da China por gás, levou a que encher os tanques de gás natural na Europa fosse mais barato em 2022. Agora, haverá uma maior competição pelas importações de gás natural líquido.

Nem tudo é positivo para a China 

Para a China, o normal pós-pandemia não será um retorno ao status quo anterior. Com a implementação do Zero Covid de forma draconiana por parte do governo, e depois descartá-lo sem a devida preparação, muitas casas de investimento agora olham para China como uma aposta mais arriscada.

As empresas estrangeiras com operações no país têm receio que a sua atividade seja interrompida. Muitas estão agora dispostas a pagar mais para produzir noutro lugar. O investimento de entrada em novas fábricas parece estar a diminuir, enquanto o número de empresas que transferem os seus negócios

Muitos estão dispostas a pagar custos mais altos para produzir noutro lugar. O investimento de entrada em novas fábricas parece estar a diminuir, enquanto o número de empresas que transferem negócios para fora da China aumentou, segundo alguns relatos.

Arquivado em:Economia, Notícias, Política

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