A tecnologia tem vindo a alterar a nossa forma de trabalhar, permitindo aumentar a eficiência e a produtividade. Os aspetos positivos do processo da digitalização nas empresas são evidentes, mas não podemos ignorar os danos que poderá causar na qualidade de vida e saúde dos colaboradores.
Se estivermos atentos, conseguimos identificar uma relação entre os (sucessivos) saltos tecnológicos e a estabilidade da saúde mental dos profissionais. Esta ligação deve ser acompanhada de perto pelas lideranças das empresas, particularmente tendo em conta as inúmeras adaptações que se registaram durante e após a pandemia, com transições entre regimes presenciais, remotos e híbridos e todas as oscilações que estes geram nas dinâmicas de trabalho.
Primeiramente, é preciso ter em conta que a tecnologia é apenas uma ferramenta e não é necessariamente algo nocivo para o trabalhador. A utilização de recursos digitais em contexto laboral pode e deve ser uma mais-valia para o negócio, para a empresa e para os colaboradores. No entanto, o lado perverso ocorre quando os limites não são estabelecidos e assistimos, por exemplo, a casos de burnout.
O esgotamento mental causado pelas exigências crescentes que são impostas aos colaboradores, que estão cada vez mais “online” e perto de recursos digitais que permitem a resolução imediata de uma questão, a qualquer hora do dia, torna esta temática de importância vital na agenda dos gestores de RH. Efetivamente, a velocidade no trabalho aumentou e o imediatismo é evidente. As pessoas passaram a sentir-se cada vez mais pressionadas a entregar mais e melhores resultados e, em caso de insucesso, o sentimento de fracasso é exacerbado e pode mesmo levar a quadros de ansiedade.
Caso estas questões não sejam abordadas com a devida atenção e sensibilidade, os modelos remoto ou híbrido poderão gerar um ambiente profícuo para esta realidade, nomeadamente quando os laços de comunicação presencial são quebrados ou fragilizados. Neste sentido, é essencial o estabelecimento de procedimentos, de limites e de apoios eficazes, por forma a evitar comprometer a saúde mental dos colaboradores em detrimento da operacionalidade dos negócios.
Antes de mais, é crucial que a temática da saúde mental no contexto tecnológico do imediatismo não seja um assunto tabu na organização. É imperativo que seja normalizada e abordada sem receio. Os transtornos mentais decorrentes do quotidiano profissional não irão desaparecer se forem ignorados. Por outro lado, é importante a capacidade de escuta e de comunicação por parte de quem lidera. Ouvir os colaboradores e perceber o que eles precisam para se manterem equilibrados nas suas funções é uma responsabilidade primária de quem gere. Na relação entre a caminhada tecnológica e a saúde mental, a palavra-chave será sempre o equilíbrio. Existe aqui uma responsabilidade partilhada entre a empresa e o colaborador, no sentido de serem capazes de comunicar e agir em conjunto para que as mais-valias da primeira nunca comprometam a estabilidade da segunda.
Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder
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