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Denise Calado

Ao menos faz a cama – 15 hábitos das pessoas de sucesso

30 Dezembro, 2022 by Denise Calado

Este texto não pretende ser como o Decreto-lei de 1941 que estipulava que o traje de banho das senhoras deve ter “calção justo à perna”. Ou seja, não é um texto de limitação de liberdades, mas de recomendação de hábitos de liderança e práticas de sucesso integrativas.  

Liderança e sucesso são mesmo “1% de inspiração e 99% de transpiração”. Ou seja, algo que se constrói, desenvolve e melhora, pois as soft skills são aquelas que diferenciam a qualidade e intensidade duma liderança.  

Mas as práticas de liderança não devem ser só para os outros, pois deve começar no líder, que deve ser “walk the talk” – o exemplo.   

  1. Os Seals americanos e os restantes militares sabem isto. Por isso começam o dia com pequenas tarefas e sucessos como fazer a cama. E ao longo do dia vão realizando mais tarefas e atingem mais sucessos, de maiores dimensões e impactos. E mesmo que o dia corra mal, ao menos têm um sucesso logo pela manhã: fizeram a cama bem!
  2. Lembrar-se dos outros e ser o primeiro a dizer, logo pela manhã cedo, quanto são importantes é determinante. Portanto registe na sua agenda os aniversários das pessoas relevantes para si e seja o primeiro a enviar uma mensagem personalizado. Certamente não será esquecido por quem a receber. 
  3. Como no dia anterior já verificou a sua agenda e organizou o seu dia, deixe espaços livres para pensar e reflectir. Descansar ou mesmo tratar de algo inesperado. 
  4. Exiga e-mails com um máximo de três parágrafos, que devem conter a questão que motivou o e-mail, uma solução se necessário e os riscos da mesma. Se forem apenas informativos não aceite um forward de 30 e-mails juntos, mas educa um pequeno resumo. E já agora, não tenha mais até 5 por dia na caixa de correio, de assuntos por tratar. Significa que alguém espera pela sua decisão ou opinião e coloca-lhe stress pois ainda não resolveu uma quantidade enorme de assuntos. 
  5. As reuniões devem durar no máximo 45 minutos com pausas regulares. Mais do que esse tempo significa desorganização com excesso de temas na agenda, impreparação para o assunto a ser discutido ou incapacidade de resumo. Os nossos cérebros precisam de parar e descansar regularmente, para reterem o máximo de informação possível.
  6. Análise informação e não dados. Os dados apenas servem para tornar a informação, recomendação ou decisão, mais sólida.
  7. Caminhe pelo local de trabalho, sinto o “smell of the place”, pare para ver as pessoas e conversar alguns segundos com elas. Torna-se um momento único de abertura, de fazer os outros sentirem-se importantes e por outro lado descansa o seu cérebro e alonga o seu corpo. 
  8. Outra boa prática, ouvir mais do que falar. Não dizer mais que 5.000 palavras por dia (há atualmente contadores digitais de palavras). 
  9. Algo que as outras pessoas agradecem é confiança e genuinidade. O princípio T.A.R.A. (Trustability, Accountability, Respect e Respect ability) é provavelmente das mais importantes lições de liderança que conheço. Portanto se não concordar, questione ideias e nunca pessoas.
  10. Distinguir o urgente e o importante é fundamental. Devemos começar pelas tarefas urgentes e importantes, colocando as que nos dão prazer (porque nem todas dão), algures no meio. 
  11. Por outro lado, garantir uma literacia tecnológica sempre atual. E se não souber, pergunte e peça ajuda. O sentimento de realização dos outros ao ajudarem-no, é gigante para a sua (deles) auto-estima. Só não o deve fazer se for relativo a algo muito relevante para si e que por competência e obrigação deveria saber fazê-lo. 
  12. Procurar sempre ter feedback e fazer um debriefing das tarefas é fundamental. Permite que o líder saiba o que os outros pensam, avaliar pontos de melhoria e dar relevância ais outros. 
  13. Sorrir muito e de forma genuína é extraordinário. Quebra qualquer barreira e acima de tudo disponibiliza o líder para os outros.
  14. Seja mais exigente quando tudo corre bem (impede a criação de rotinas e não deixa os outros ficarem “relaxados” em excesso) e mais tranquilo quando tudo corre menos bem (permite que o pânico não se instale, que se pense com clareza e objectividade).
  15. Gratidão e humildade são dois comportamentos fundamentais. Sendo que tratar todos com delicadeza é uma consequência natural.

Aqui estão algumas das recomendações que faço de comportamentos que qualquer um pode praticar. Mas se tudo falhar, ao menos “faça a cama”! 

Arquivado em:Opinião

O silêncio na era do ruído

28 Dezembro, 2022 by Denise Calado

Este é o título do livro escrito por Erling Kagge, explorador norueguês e a primeira pessoa a ter conseguido atingir os três pólos, Pólo Norte, Pólo Sul e o pico do Evereste. Ele consegue ainda ser editor, colecionador de arte, advogado e modelo da Rolex, tendo ainda tempo para as suas três filhas. No seu livro procurou definir o silêncio, ajudar a encontrá-lo e a entender a sua importância, e fê-lo em 33 tentativas. A Líder desafiou Erling para nos falar do silêncio neste momento em que o Direito a Desligar está na ordem do dia. O resultado é o que se segue. 

Definição de silêncio  

Acredito que é possível para todos descobrir este silêncio dentro de si, sem recorrer ao zen, à meditação e a outras técnicas. Está sempre presente, mesmo quando estamos cercados por ruído constante. Porque o silêncio é permitir que cada momento seja grande o suficiente. Não viver através das outras pessoas e dos dispositivos. É chegar ao cerne do que estás a fazer. Isolar-se do mundo e sentir o seu próprio silêncio quando se corre, cozinha, faz sexo, estuda, conversa, trabalha, pensa numa nova ideia, lê ou dança. Adoro isso. No entanto, tenha em mente que o silêncio que sente é diferente do que aquele que os outros sentem. Cada um tem o seu próprio, porque o silêncio de cada pessoa reflete quem ela é.  

O silêncio é um luxo  

O silêncio é um privilégio. Acredito que o silêncio é o novo luxo. O silêncio contém uma qualidade mais exclusiva e duradoura do que outros luxos. Uma das minhas filhas colocou isto em palavras, para minha alegria, durante as suas férias de verão:  

O silêncio é a única necessidade que as pessoas que estão constantemente atentas à última tendência de luxo nunca poderão alcançar.  

Além disso, o silêncio é uma experiência que pode ser vivida gratuitamente. E não precisa de ser substituído pelos bens de luxo da próxima época.  

Há pouco tempo, tentei convencer as minhas filhas de que os segredos do mundo estão escondidos no seu próprio silêncio interno. Elas provavelmente passam, como a maioria dos noruegueses, cerca de quatro horas por dia a explorar a vida e o mundo ao olhar para um ecrã. Se continuarem assim até morrerem, terão passado provavelmente 13 anos das suas vidas, dia e noite, a olhar para os seus telemóveis. Isso tudo é ruído para mim. Não é de admirar que as pessoas afirmem estar solitárias e, por vezes, deprimidas. Tudo isto tem que ver com viver através de outras pessoas e de um dispositivo, fugir de si mesmo, esperar por uma resposta, uma confirmação, notícias que são semelhantes às notícias que acabaste de receber. Isto é ruído para mim. E foi por isso que me sentei para escrever um livro sobre o silêncio.  

O silêncio é assustador  

O filósofo e teórico do tédio, Blaise Pascal, escreveu no séc. XVII sobre a nossa luta para suportar o silêncio: «Todos os problemas da Humanidade decorrem da incapacidade de o Homem ficar tranquilamente sentado sozinho no seu quarto.» Portanto, o desconforto de estar sozinho, ficar calado e simplesmente existir não começou apenas com o surgimento da televisão nos anos 50, com a chegada da Internet nos anos 90 ou com os smartphones no presente – esse problema já existia nos tempos de Pascal. A opção constante de pensar noutra coisa – sob a forma de séries televisivas, eReaders, telemóveis e jogos – é mais uma consequência do tipo de necessidades com que nascemos do que uma causa disso. Esta inquietação que sentimos está connosco desde o início, é o nosso estado natural. O presente dói, escreveu Pascal. E a nossa reação é procurar incessantemente novos objetivos que sirvam para chamar a nossa atenção para fora e para longe de nós mesmos.  

Naturalmente, tais oportunidades de interrupção aumentaram dramaticamente ao longo do último século, uma tendência que parece que vai garantidamente continuar. Vivemos na era do ruído. O silêncio está quase extinto.  

De acordo com um estudo muito referenciado, nós, humanos, somos piores a concentrarmo-nos do que um peixinho-dourado. Hoje, os humanos perdem a concentração após oito segundos. No ano 2000, era após doze segundos, ao passo que o peixinho-dourado, muito abaixo de nós na cadeia alimentar, tinha uma média de nove segundos. Suspeito que a investigação sobre peixinhos-dourados seja extremamente limitada e que o desempenho destas criaturas deve, por conseguinte, ser considerado com algum ceticismo. Não obstante, a minha razão para mencionar o estudo tem que ver com as conclusões que tira sobre os humanos: a cada segundo que passa, parece cada vez mais difícil concentrarmo-nos num único tópico.  

Há atualmente investigações a decorrer sobre a validade da afirmação de Pascal. De acordo com esta investigação, realizada em conjunto por cientistas das universidades de Virgínia e Harvard, a maioria dos participantes do estudo sente desconforto ao serem deixados sozinhos numa sala durante 6 a 15 minutos sem música, materiais de leitura, sem poderem escrever ou acesso aos seus smartphones. Deixados exclusivamente a sós com os seus próprios pensamentos. A idade dos participantes varia dos 18 aos 77 anos de idade e são de variadas origens. No entanto, os resultados foram os mesmos, independentemente da idade. Os participantes comuns relataram que foi problemático concentrarem-se durante os minutos que passaram sozinhos, apesar de nunca terem sido interrompidos.  

Um terço dos participantes que fizeram o teste em casa, desde então admitiu que não foi capaz de concluir a tarefa, tendo quebrado as regras da investigação e reduzido os minutos que tinham de ficar sentados em silêncio.  

Acho engraçado imaginar aqueles ratos de laboratório sozinhos, a fazer batota. Um grupo foi autorizado a ler ou ouvir música, mas foi proibido de contactar outras pessoas. Esse grupo relatou uma maior satisfação. Muitos também acharam útil olhar por uma janela. 

Depois, os cientistas levaram o estudo um passo mais longe, a fim de ver se os participantes prefeririam fazer algo desagradável, como receber um choque elétrico, a sentarem-se sozinhos em silêncio mais uma vez. Cada participante tinha sido previamente submetido a um choque elétrico semelhante, por isso, sabiam exatamente o quão dolorosa era essa opção. E era dolorosa. No entanto, quase metade dos sujeitos acabou por premir o botão que administrava um choque elétrico, de modo a reduzir o tempo do silêncio.  

O que foi impressionante, de acordo com os investigadores, é que ficar sozinho com os seus próprios pensamentos durante 15 minutos “era aparentemente tão aversivo que levou muitos participantes a autoadministrarem um choque elétrico que tinham dito anteriormente que pagariam para evitar.” Na ânsia de sair da sala silenciosa, um participante premiu o botão do choque elétrico 190 vezes. Acho que Pascal não teria ficado surpreendido. Pelo contrário. Pascal afirmou que a nossa fuga constante de nós mesmos é uma realidade tão brutal que nós, humanos, tentamos evitar pensar nisso. Preferimos pensar e sentir qualquer outra coisa. Ele estava certo.  

Afirmarias então que tu e eu somos loucos? Sim, acho que podemos estar a caminho de nos tornarmos lunáticos severos e furiosos.  

Um caminho para o silêncio  

A Antártida é o lugar mais silencioso onde já estive. Caminhei sozinho até ao Pólo Sul, durante 50 dias e noites, sem telemóvel, e em toda aquela vasta paisagem monótona não havia ruído humano para além dos sons que eu próprio fazia. Sozinho no gelo, no meio daquele grande vazio branco, eu conseguia ouvir e sentir o silêncio.  

Tudo parecia completamente plano e branco, quilómetro após quilómetro até ao horizonte, enquanto eu me dirigia para sul pelo continente mais frio do mundo. Por baixo, encontravam-se 30 milhões de quilómetros cúbicos de gelo, a pressionar a superfície da Terra.  

Eventualmente, em completo isolamento, comecei a reparar que afinal nada era completamente plano. O gelo e a neve criavam formas abstratas pequenas e maiores. A brancura uniforme foi transformada em inúmeros tons de branco. Um toque de azul surgiu na neve, um pouco avermelhado, esverdeado e ligeiramente rosado. Senti que a paisagem estava a mudar ao longo do percurso, mas estava enganado. O meu ambiente manteve-se constante. Quem mudou fui eu.  

Durante esses 50 dias a caminhar para o Sul, compreendi que os nossos cérebros são maiores do que o céu.  

O silêncio não é virar as costas aos arredores, mas, sim, o contrário: é ver o mundo um pouco mais claramente, seguir um rumo e tentar amar a vida. O silêncio pode ser aborrecido, embaraçoso, desconfortável, insuportável e assustador. O silêncio também pode ser o teu melhor amigo. É uma qualidade, algo exclusivo, quase sumptuoso – o novo luxo. Uma chave que pode destrancar novas formas de pensar.  

Acredito que é possível todas as pessoas descobrirem esse silêncio dentro delas mesmas. Está sempre presente, mesmo quando estamos cercados por ruído constante. No fundo do oceano, por baixo das ondas e ondulações, podes encontrar o teu silêncio interno. No banho, ao deixar a água passar pela tua cabeça, sentado em frente a uma fogueira crepitante, ao nadar por um lago na floresta ou ao caminhar por um campo, pode também ser uma experiência de quietude perfeita. Adoro isso.  

O silêncio nem sempre é fácil  

É mais difícil em Oslo. Eu trabalho na cidade e, por vezes, tenho de moldar ali o meu próprio silêncio. Às vezes, há tanto ruído que aumento o volume da música que estou a ouvir, não para criar mais uma perturbação, mas para cancelar outros sons. Isso parece funcionar se a música já me for familiar e não me apanhar de surpresa. Muito honestamente, acho que se pode sentir o silêncio ao lado de uma pista do aeroporto, se realmente se quiser.  

Um amigo disse-me que a única altura que consegue ter a certeza de que terá silêncio absoluto é quando está no seu carro, a conduzir. O mais importante, como diz um velho ditado norueguês, não é como és, mas, sim, o que fazes com as coisas. Para mim, o silêncio na Natureza é do mais valioso que há. É aí que me sinto mais em casa. Se não tivesse sido capaz de sentir quietude na vida citadina, o meu desejo de silêncio seria demasiado grande e eu teria precisado de regressar à Natureza com mais frequência. 

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder 

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Arquivado em:Artigos

Alimentação: comemos mais e produzimos mais

28 Dezembro, 2022 by Denise Calado

O número de calorias por pessoa consumido globalmente aumentou 9% em média o ano passado, para 2960 por dia, de acordo com a UN Food and Agriculture Organization (FAO) no relatório anual de estatística. 

Apesar de continuar a subir, a estatística acompanha a tendência que mostra que as pessoas em todas as regiões do mundo estão a comer mais calorias desde o ano 2000, atingindo o pico nos países asiáticos em 2021. 

A Europa e a América do Norte foram as regiões que consumiram mais calorias o ano passado – 3540 por dia – enquanto as nações africanas consumiram menos – 2600. A contagem de calorias na Oceânia foi a mais próxima dos Estados Unidos da América e da Europa, rondando os 3150. 

Quem é o maior exportador?

As exportações globais de alimentos aumentaram para 1,42 triliões de dólares americanos, um aumento de 3,7 vezes desde o fim do século.  

Em todo o mundo, os maiores países exportadores de alimentos a nível bruto são os EUA, a Holanda e a China. Por outro lado, os maiores exportadores em termos líquidos (os que exportam mais do que importam) foram, de longe, o Brasil, seguido pela Argentina e Espanha. Os maiores países importadores líquido foram a China, Japão e Reino Unido. 

Força de trabalho agrícola continua a criar valor 

Com base em dados de mais de 20 mil indicadores, que cobrem mais de 245 países e territórios, os analistas da FAO concluíram que 886 milhões de pessoas trabalham na agricultura nos dias de hoje. 

Esse número equivale a mais de um quarto do mercado de trabalho global, sendo o seu valor 3,6 triliões de dólares; em comparação com o ano 2000, isto representa “um aumento de 78% no valor económico, produzido por menos 16% das pessoas, com a África a registas o dobro desse ritmo de crescimento”, comenta a agência da ONU. 

O que produzimos? 

Desde o ano 2000, a produção de culturas primárias, como a cana-de-açúcar, milho, trigo e arroz, cresceu 52%, atingindo o 9,3 mil milhões de toneladas. 

A produção de óleo vegetal aumentou 125% durante esse período, e a de óleo de palma em 236%. A produção de carnes, liderada pelo frango, cresceu 45%, enquanto as frutas e vegetais tiveram apenas um crescimento de 20%. 

A cana-de-açúcar é a maior colheita do mundo em volume, com 1,9 milhões de toneladas anuais. Segue-se o milho, com mais 1,2 milhões de toneladas. 

O impacto ambiental de o que é produzido 

Dados da FAO revelam também que as temperaturas médias em 2021 subiram 1,4ºC, mais do que todo o período entre 1951 e 1980. 

A Europa foi o continente mais atingido por este aumento de temperatura, seguida da Ásia. A emissão dos gases com efeito estufa em terras agrícolas, porém caiu 4% entre 2000 e 2020. 

O relatório anual de estatística da agência da ONU observou também que, enquanto o gado emite cerca de 50 vezes mais dióxido de carbono do que as galinhas, o cultivo de arroz emite cinco vezes mais carbono para a atmosfera do que o trigo e outros cereais. 

Cerca de 4,74 mil milhões de hectares da superfície da Terra são terrenos agrícolas, incluindo prados e pastagens, assim como plantações. No entanto, a área total utilizada para a agricultura caiu 3% desde o ano 2000, e é seis vezes menor per capita do que na viragem do milénio. 

Os especialistas da FAO notaram também que o uso global de pesticidas atingiu o pico em 2012, e começou a descer em 2017. Os países com maior aplicação de pesticidas por hectare são Santa Luzia, Maldivas e Oman.  

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

Quando a pandemia potencia o negócio

28 Dezembro, 2022 by Denise Calado

Parar nunca esteve no vocabulário de Teresa Botelho, Founder e CEO da MTB Coaching, que logo em 2019 percebeu que no online estava o futuro. Focando-se no coaching para lideranças, o seu negócio cresceu exponencialmente com a pandemia, trazendo consigo desafios e oportunidades. 

Durante o período do primeiro confinamento, em março/abril 2020, Francisco X. Froes e Miguel Pina e Cunha, Nova SBE, entrevistaram 56 líderes/gestores de topo, das mais variadas áreas de negócios, visando encontrar padrões de comportamento suscitados pela pandemia e assim poder ajudar estes e outros líderes em crises futuras. A questão subjacente foi: quais as respostas das empresas à COVID-19? 

A entrevista é parte do projeto editorial “Como 50 CEO reagiram à pandemia?”. 

O que é que ouviu, quando e como?  

Comecei a sonhar de noite com sirenes e com uma situação de saúde muito grave, que passou a ser um pesadelo recorrente. Tenho um filho que vive no Japão, levei o meu outro filho de Portugal e encontrámo-nos na Tailândia.  Falei com eles, disse que não percebia o sonho, mas que ia deixar de comer algumas coisas. Eles não o quiseram fazer, mas a partir dali fiquei muito atenta com esta coisa de um vírus poder surgir. Quando as coisas se começam a desenrolar pensei: “Isto é provavelmente uma pandemia, e tem que ver com a tal intuição que eu tive das sirenes e mortos, e se calhar vai acontecer”. Quando cheguei a Lisboa começou-se a ouvir as primeiras notícias da China. Aí percebi o que ia chegar, e acho que mais cedo do que as outras pessoas, percebi a gravidade da situação. 

Que preparação tinham? Improvisações? Que planos fizeram?  

Em 2019 tinha decidido que queria metade do meu negócio online. Fiz um curso e certifiquei-me como instrutora online, em dezembro de 2019. Foi muito exigente, mas aprendi imenso. Embora não existissem planos, havia uma preparação que me permitia fazer o online muito próximo do que eu estava a fazer presencialmente. Fazia esporadicamente workshops para Angola, por Skype, mas não tinha uma prática diária 

Fui aprender, e essa aprendizagem revelou-se muito boa, dado que chegou o confinamento, e tive de passar tudo para online em três dias. Pensei que os empresários não iam continuar com os acompanhamentos de Coaching; mas não só as pessoas queriam, como precisavam de reuniões de emergência. De repente, o meu trabalho passa para o dobro e depois para o triplo. Trabalhava com 25 a 30 empresários, e de repente passo para 60 e agora estou com 100. 

Vossa cultura e lema? Ajudou?   

“Better business for better life”. Esse foi o princípio do meu negócio. Não tenho de perder eficiência, tenho é que saber fazer as coisas de outra maneira. Com a experiência, as pessoas, mais maduras, têm de saber lidar com as situações de forma diferente. Sempre me vi a transformar a minha aprendizagem numa passagem de testemunho para as pessoas com quem estou a trabalhar.  

Primeiras reações e sentimentos?  

Treinei karaté durante 14 anos, cheguei a cinto negro. Quem vem das artes marciais tem uma postura diferente do normal. Estamos preparados para a luta, para a guerra.  

Estava toda a gente à procura de como se reinventar. “Quem sou eu, o que é que eu quero e porque é que eu estou aqui?”, estas três grandes questões estavam emergentes nas pessoas, e não as podia deixar à espera. Aí começa a aceleração de todo o processo de transição para online. Pensei passar as coisas para o online em seis meses, vou ter de fazer mais depressa.  

Decisões em real time?  

Passar tudo para o online. Podia ter andado para trás, ou para a frente, não havia meio termo. Eu própria costumo dizer que alguns dos melhores jogadores de futebol começaram a jogar descalços. Vou ter de avançar sem nenhuma chuteira e vamos ver no que dá. Depois, o que é muito interessante é começar a ver a resposta. Quando começamos a ver resposta, isso traz-nos imensa energia e é uma alimentação fantástica para continuar a fazer e explorar mais, para aprender mais. 

Preocupações estratégicas a curto e médio prazo?  

Tenho um escritório e não sei até que ponto faz sentido mantê-lo. Quero conseguir ir para fora de Portugal. Neste momento já tenho pessoas em Inglaterra, Suíça, Alemanha, França, Espanha, Angola, Moçambique, Cabo Verde a trabalhar comigo. A geografia portuguesa já está em expansão, mas quero chegar às comunidades portuguesas, nomeadamente nos EUA. Estrategicamente é não deixar que as limitações territoriais sejam mais uma barreira.  

Como é que isto vai reequilibrar a hard part e a soft part?  

Tenho a sorte que a minha hard part não é muito pesada. Há estas decisões quanto ao escritório e do online; estou a fazer uma renovação do site, novas campanhas, mas ainda posso elevar a outro patamar. 

Descoberta mais surpreendente?  

Que os portugueses são fantásticos. É uma redescoberta; tenho um respeito enorme pelos portugueses. Acho que são pessoas fabulosas, têm um grave problema de disciplina, o que me farto de dizer, mas têm uma capacidade de adaptação e uma resiliência, uma capacidade de dar a volta, de se reinventarem, indiscritível. 

Vi situações de empresários, em que eu estava com o coração nas mãos, a pensar “como é que esta pessoa vai dar a volta?”. Tínhamos a sessão marcada, comigo a analisar tudo, e quando a pessoa chegava já tinha não só uma atitude positiva, como as pontas para resolver a situação. Isso enche-me a alma.  

O que é que aprendeu. A grande lição?   

Não tenho de ter medo. Sou muito do contacto, e tinha algum receio que esta capacidade de transformação se perdesse no remoto, e agora vi que não. Com mais 110 pessoas online durante o mês de abril, a conseguir o mesmo nível de transformação do que quando estou presencial, sentada numa sala, foi uma grande aprendizagem e também um grande ato de humildade. Temos de ser humildes para percebermos que as coisas são mesmo assim.  

O que passa aos seus filhos?  

Temos de ter consciência, mas não temos de ter medo. Tem de haver um equilíbrio.  Por um lado, não posso estar a fazer coisas que me põem em perigo; por outro lado, não devo ter medo. O mais velho, Zé Manuel, está no Japão e é muito consciente, não me preocupa muito. O Eduardo é instrutor de paddle no GCP, também está em forma. A Madalena está com o pai, no Algarve, e faz exercício físico todos os dias, também não me preocupa. São desportistas, alimentam-se bem, têm uma mente limpa, por isso acho que dificilmente alguma coisa acontece. Os meus filhos extraordinários, são fora de série. 

O Covid 19 numa palavra?   

Transformador. Altamente transformador.  

 

Arquivado em:Entrevistas

Saiba dizer ‘não’ a trabalho extraordinário

28 Dezembro, 2022 by Denise Calado

A Harvard Business Review partilha dicas sobre quando e como deve dizer não a trabalho extra. 

Dizer não se o trabalho do dia-a-dia sair prejudicado 

Se uma nova tarefa lhe retirar tempo essencial para as suas responsabilidades diárias, ou se poderá comprometer a sua capacidade de entregar trabalho de qualidade sem estar a melhorar alguma skill ou a ter formação, o melhor é recusar essa iniciativa ou atividade extra. 

Evite dizer “desculpa, isto não está na descrição formal do meu trabalho”. Uma abordagem melhor será explicar por que motivo a sua recusa de trabalho extra será o melhor para todos os envolvidos. 

Ou seja, é dizer “Se eu te ajudar, não vou ser capaz de fazer um bom trabalho no teu projeto, e o meu trabalho sairá prejudicado.” 

Dizer não se for o trabalho de outra pessoa 

Numa altura em que as equipas se entreajudam constantemente, é fácil cair na rasteira de fazer trabalho que não é o seu. Nesse caso, o melhor é dizer “Não é possível para mim continuar com estas tarefas, nem está previsto que as seja eu a executar. Continuar a fazê-las só gera confusão.” 

 Se não se importa de fazer esse trabalho, ou se considera que contribui para o seu crescimento de maneira significativa, é bom refletir no que pode efetivamente ganhar com esse extra – como melhores tarefas no futuro, ficar mais perto de uma promoção, ou uma boa avaliação ou impressão nas lideranças. 

Considere pedir um ajuste na sua compensação para refletir o valor que trouxe. Pode dizer “Nos últimos seis meses, assumi as responsabilidades A, B, e C. Qual é a melhor maneira de assegurar que a minha compensação coincide com o meu trabalho recentemente?”  

Dizer não se não souber exatamente tudo o que tem de fazer 

Só assuma novas responsabilidades quando entender tudo o que tem de fazer. O ideal é evitar falhas de comunicação no futuro. Se o seu manager lhe pedir para participar numa nova iniciativa, peça detalhes. Durante quanto tempo estará no projeto? A quantas reuniões tem de assistir? 

Se depois de ter toda a informação, determinar que não é um projeto adequado, pode agradecer respeitosamente: “Obrigado pela oportunidade. Parece um projeto interessante, mas seria falta de integridade da minha parte comprometer-me com algo sabendo que não tenho recursos para atingir os objetivos” 

Dizer não quando o pedido não é razoável

Talvez uma liderança sénior lhe tenha pedido para fazer um plano de negócio novo do zero, em dois dias úteis. O que fazer, se sabe que não é possível? 

Tente um não positivo, que permite proteger o seu tempo, enquanto valoriza a relação com a chefia. Em resposta à solicitação, pode explicar o que pode ser feito no tempo alocado. Por exemplo: “Não é possível entregar o relatório inteiro até sexta-feira à tarde. Posso fazer um primeiro rascunho da secção um. O que acha?” 

Em alternativa, pode se oferecer para ajustar o timing: “Sei que este documento é importante. Sexta-feira não é possível, mas posso ter tudo pronto segunda-feira à tarde”. 

 

Arquivado em:Notícias, Trabalho

O Capitalismo Woke e o mito do “bom milionário”

28 Dezembro, 2022 by Denise Calado

Há pouco mais de um ano, ao ler um artigo no The New York Times sobre o mito do “Bom milionário”, levei um murro. Ananda Giridharadas, autor de um livro provocador, argumenta que os super-ricos, em vez de se laurearem pelas suas atividades filantrópicas, deveriam contribuir para mudar verdadeiramente o sistema que os beneficia. Do seu ponto de vista, muitas dessas atividades são projetos de vaidade que mantêm o status quo e beneficiam mais os seus financiadores do que as classes que alegam beneficiar.  

Argumenta que os super-ricos, se querem genuinamente contribuir para melhorar a vida das pessoas menos favorecidas, devem começar por gerar menos danos no trabalho quotidiano destas.  

Num encontro do Aspen Institute, um think tank patrocinado por grandes e prestigiadas fundações, Giridharadas afirmou: “Adoro esta comunidade, mas temo que todos nós – eu incluído – não sejamos tão virtuosos como pensamos que somos, que a história não seja tão generosa connosco como nós esperamos que seja, e que, numa análise final, o nosso papel nas desigualdades do nosso tempo não seja recordado positivamente”.  

Giridharadas é demolidor. Sobre Buffett, escreveu que ele “parece ser o tipo de multimilionário mais seguro: o tipo bom. (…). Ele é, ou parece ser, tranquilo, humilde, indiferente ao dinheiro, filantrópico e crítico do sistema que lhe permitiu prosperar. (…) Mas lamento informar que Buffett é realmente o tipo de multimilionário mais perigoso que temos. Os piores multimilionários são os Bons Multimilionários. São o género que leva a crer que o problema está na distorção do sistema quando, de facto, o problema está no sistema. (…). Está num conjunto de arranjos sociais que permitem que alguém ganhe e mantenha tamanha riqueza, mesmo quando milhões de outras pessoas não têm comida, trabalho, habitação, saúde, conetividade, educação, dignidade e oportunidade para buscar felicidade”. Finalmente, com verrina, Giridharadas resumiu assim o pensamento de Buffett: “Acredito na maior carga fiscal sobre pessoas como eu, mas estou altamente organizado para evitar declarar rendimentos, e não acredito realmente nos impostos porque acredito que deveria ser eu a decidir como os excedentes de recursos são gastos.”  

Haverá exagero nestes argumentos. Mas relembrei o murro ao ler o mais recente livro de Carl Rhodes sobre capitalismo woke. Rhodes não é líder de qualquer confederação sindical – é dean da Escola de Negócios da University of Technology Sydney. O subtítulo do livro é elucidativo: “Como a moralidade corporativa está a sabotar a democracia”. Alega Rhodes que são três as perspetivas acerca das empresas que abraçam causas progressistas relacionadas com, por exemplo, a igualdade de género, a identidade sexual, o racismo ou as alterações climáticas. A primeira, a da esquerda liberal, defende que as empresas devem genuinamente apoiar os interesses da sociedade, em vez de simplesmente se focarem na maximização do valor para o acionista. A segunda perspetiva, originária da direita política, defende que as empresas, sendo entidades puramente económicas, não devem interferir em matérias políticas e sociais.  

Rhodes sustenta uma terceira posição: as organizações, sobretudo as maiores e os grandes colossos tecnológicos, abraçam causas políticas e sociais “progressistas” porque esperam obter proveitos económicos. Essas organizações apanham a boleia das causas que estão na moda e instrumentalizam-nas para construírem boa imagem, reforçarem a identidade da marca, e assim obterem grandes proveitos.  

Desse modo, procuram conquistar boa vontade política e social e evitar decisões políticas democráticas que possam interferir na sua atividade empresarial: afinal, porquê limitar-lhes o poder se elas fazem o bem?! Alega Rhodes que o envolvimento empresarial em “políticas progressivas” visa legitimar as desigualdades crescentes e manter intacto o poder das grandes corporações, prejudica a democracia e impede reais progressos nessas matérias sociais ou políticas.  

O futuro será profundamente digital. Será fonte de enormes benefícios para a comunidade humana em múltiplas áreas, designadamente a da saúde. Mas, para que esse potencial seja realizado, é fundamental regular devidamente o funcionamento das grandes corporações, designadamente os grandes potentados tecnológicos, sob pena de o capitalismo de vigilância infernizar a vida de milhões e milhões de seres humanos. Para evitar que a extrema desigualdade continue a alimentar populismos e faça perigar as democracias liberais, importa que o sistema capitalista se regenere e que os frutos do progresso económico sejam distribuídos de modo mais equilibrado e equitativo, assim contribuindo para o bem-comum. Seja o mundo mais ou menos digital, importa que seja humanizado. Cavalgar causas progressistas e investir no “ativismo de marca”, sem mais, não é o caminho 

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder 

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