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Leonor Wicke

Cabo Verde será Capital Africana da Cultura em 2028

24 Abril, 2026 by Leonor Wicke

A escolha de Cabo Verde representa um marco estratégico para o país, que passa a assumir um papel de destaque na promoção cultural africana. A nomeação implica o desenvolvimento de um programa alargado de iniciativas culturais, focadas no intercâmbio artístico e na valorização do património do continente.

O projeto das Capitais Africanas da Cultura tem como objetivo reforçar a diplomacia criativa e projetar internacionalmente os países africanos através das suas indústrias culturais, posicionando a cultura como motor de desenvolvimento.

Cultura como motor económico e de desenvolvimento

Para o primeiro-ministro, José Ulisses Correia e Silva, este reconhecimento «não surge por acaso». Numa publicação na rede social Facebook destacou que a escolha é resultado de um investimento consistente nas indústrias criativas e na valorização da cultura.

«Nos últimos anos, a cultura passou a ser tratada como um eixo estruturante do desenvolvimento», sublinhou, referindo investimentos em infraestruturas, programas de apoio aos criadores e promoção internacional.

O chefe do Governo reforça ainda que a cultura em Cabo Verde é hoje vista não apenas como identidade, mas como «um verdadeiro motor económico, gerador de oportunidades, rendimento e projeção».

Eventos e intercâmbio cultural previstos para 2028

Ao longo de 2028, Cabo Verde deverá receber um conjunto de eventos culturais que promovem a ligação entre países africanos, reforçando a cooperação e a troca artística.

O primeiro-ministro destacou que será também «um momento de encontro com África», com o objetivo de partilhar a cultura cabo-verdiana e celebrar a diversidade do continente.

Com esta designação, Cabo Verde sucede a Brazzaville (Congo) e Kinshasa (República Democrática do Congo), capitais eleitas para 2024 – 2025, consolidando a sua presença em redes de intercâmbio artístico e desenvolvimento urbano sustentável.

A iniciativa foi lançada no âmbito da cimeira Africities, realizada em Marraquexe, com o propósito de posicionar a cultura como um elemento central do desenvolvimento sustentável, ao lado das dimensões económica, social e ambiental. A designação de Capital Africana da Cultura atribui à cidade ou país anfitrião, durante dois anos, a responsabilidade de acolher programas que destacam a riqueza artística e criativa do continente, funcionando também como um espaço de debate e reflexão sobre políticas públicas ligadas à cultura, às artes e às indústrias criativas.

Imagem: Visit Cabo Verde

Arquivado em:África, Cabo Verde, Notícias

Nuno Oliveira (Bankinter): «O dinheiro é liberdade e pequenas decisões mudam o futuro»

24 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Numa talk prática sobre literacia financeira, poupança e investimento, o Diretor deixou um aviso claro: «evitar erros cedo é mais importante do que ganhar muito». O evento aconteceu no dia 16 de abril, na NOVA SBE.

Porque é que o dinheiro importa? A resposta está na liberdade

Para Nuno José Oliveira, a relação com o dinheiro vai muito além de números. Trata-se de autonomia. «O dinheiro importa porque é liberdade de escolha», sublinhou, reforçando que as decisões financeiras moldam o futuro de forma determinante.

E é precisamente por isso que alerta: «pequenas decisões hoje têm grande impacto no futuro», sobretudo numa fase da vida em que muitos ainda não têm contacto direto com gestão financeira.

Os três erros mais comuns na gestão de dinheiro

Ao longo da talk, Nuno José Oliveira identificou três comportamentos que comprometem a saúde financeira desde cedo:

O primeiro é simples, mas comum: «recebemos X, gastamos X». Sem margem para imprevistos, qualquer despesa inesperada, como uma avaria ou subida de preços, torna-se um problema.

O segundo está ligado ao consumo impulsivo e ao fenómeno do FOMO (fear of missing out). «Queremos sempre estar na vanguarda, ter a última consola, o último modelo», explicou, sublinhando o impacto financeiro desta pressão constante.

O terceiro erro é não investir. «Muitos até conseguem poupar, mas deixam o dinheiro debaixo do colchão ou numa conta não remunerada. É preciso investir», afirmou.

As três regras para gerir melhor o dinheiro

Para contrariar estes erros, o Diretor propôs três regras práticas — simples, mas estruturantes.

A primeira é gastar com equilíbrio. «Não vos vou dizer para não gastar», começou por dizer, reconhecendo que existem necessidades e desejos. A recomendação passa por priorizar: «gastem mais nas necessidades do que nos desejos».

A segunda regra é criar o hábito de poupar desde o início. «Poupa primeiro. É a primeira ação que devem ter», insistiu. E deu um exemplo concreto: de uma mesada de 50 euros, guardar 10 logo no início.

A terceira regra é colocar o dinheiro a trabalhar. «Ponham o dinheiro a trabalhar para vós», afirmou, incentivando ao investimento como forma de crescimento financeiro.

Ferramentas práticas para começar hoje e o poder dos juros compostos

Há um conceito que, segundo o especialista, faz toda a diferença e que chamou de “segredo”: os juros compostos. «Investir gera um rendimento, esse rendimento gera mais rendimento», explicou, demonstrando como a consistência ao longo do tempo multiplica resultados.

Nuno José Oliveira deixou ainda três ferramentas essenciais para quem quer melhorar a gestão financeira:

  • Ter um orçamento claro – vejam quanto recebem e quanto gastam»;
  • Definir objetivos – estudar, viajar ou comprar algo específico;
  • Investir – através de produtos como ETFs, fundos ou seguros de investimento.

O importante é começar hoje, mesmo que seja com 10 euros.

Veja o momento completo aqui:

Nuno José Oliveira – O teu dinheiro, o teu futuro. Uma conversa que pode mudar tudo

Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.

Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.

Arquivado em:Nacional, Notícias

7 livros para ler agora: da IA à política global, passando pelas lendas japonesas

24 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Da inteligência artificial à geopolítica, passando pela ficção japonesa e pelos clássicos da autoajuda, esta seleção de livros de Miguel Pina e Cunha, Diretor da Revista Líder, traça um retrato do mundo atual – entre tecnologia, identidade e poder. Para ler também, na última edição da Revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’.

Cânone da Câmara Escura – Enrique Vila-Matas

D. Quixote  

Cânone da Câmara Escura, de Enrique Vila-Matas é uma nova experiência de um grande escritor. O livro aborda a escrita de um cânone heterodoxo por um narrador que, suspeita-se, poderá ser um androide. Uma inteligente reflexão sobre a literatura na idade da inteligência artificial. Quem escreve o quê?         

 

 

Sympathy Tower Tokyo – Rie Qudan

Casa das Letras 

Sympathy Tower Tokyo, de Rie Qudan, ilustra uma nova tendência muito em voga: a ficção japonesa. Os exemplos que aqui chegam mostram um estilo diferenciado, com uma dimensão contemplativa e uma delicadeza cuja receção dependerá do gosto. A premissa deste livro premiado é a de que a violação das leis poderá ser tratada com compaixão infinita, na torre a que o título alude. Uma espécie de Jeremy Bentham para a pós-modernidade new age e, eventualmente, um gosto literário adquirido. À atenção de Vila-Matas: 5% do livro foi escrito com IA.              

  

Tarântula – Eduardo Halfon

D. Quixote 

Ainda na ficção, uma grande voz ainda pouco conhecida é a de Eduardo Halfon. Em Tarântula, ele interroga a identidade judaica vista a partir das Américas, numa escrita cativante que nos confronta com o eterno tema da identidade, vivida aqui numa experiência radical nas selvas da Guatemala. Como diz um personagem, um livro marcado pela Torá e por Popol Vuh.           

 

Como fazer amigos e influenciar pessoas – Dale Carnegie 

Lua de Papel 

Para melhor compreender as pessoas regressa Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie (Bertrand). Há livros assim, sucessivamente reeditados. Talvez possa ser descrito como um livro de autoajuda, repleto de coisas que todos sabemos. Mas saberemos mesmo? Eis um exemplo: se quiser colher mel não pontapeie a colmeia. Quantas vezes nos esquecemos das verdades simples?      

 

No limite – Nate Silver

D. Quixote

Para melhor compreender o zeitgeist, No limite, de Nate Silver, é uma boa escolha. O autor conduz-nos pelo mundo do risco, ajudando a compreender como alguns dos personagens que moldam as nossas vidas (Altman, Thiel, Bankman-Fried) o fazem a partir de uma certa forma de viver o risco.     

     

 

O plano – David Graham

D. Quixote 

Continuando no real um livro importante recente é O plano, de David Graham. O jornalista da The Atlantic escalpeliza o Projeto 2025, um documento que, preparado durante os anos Biden, é uma espécie de plano mestre da administração Trump. A seguir ao improviso do primeiro mandato, este documento permitiu a abordagem blitzkrieg que estamos a testemunhar e que passa por um muito perigoso esvaziamento do sistema de pesos e contrapesos em que assenta o estado de direito. Uma leitura esclarecedora e uma visão revolucionária para a América, nada menos.               

  

Lendas e contos de fadas japoneses

Guerra e Paz 

Termino com o objeto visual mais belo destes meses. Lendas e contos de fadas japoneses. Trata-se de um magnífico objeto, no qual convivem textos maravilhosas com igualmente belas reproduções coloridas gravuras do Japão. Este livro é uma delícia para a mente, mind candy, repleto daquelas imagens do mundo natural que são únicas ao Japão. Um antídoto contra o mundo descrito por Graham noutro livro aqui tratado. Pura beleza. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Leadership, Livros e Revistas, Notícias

Manuel Leandro é o novo Governance, Risk & Compliance Manager da Milestone

23 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Com um percurso sólido em sistemas e tecnologias de informação, gestão de serviço, segurança da informação e projetos de transformação organizacional, Manuel Leandro reúne experiência em contextos empresariais exigentes nos setores de alimentação e bebidas, energia e consultoria.

Na Milestone, o responsável tem desempenhado funções na área que agora lidera, bem como nas áreas de segurança da informação e cibersegurança. Ao longo deste percurso, tem assumido um papel relevante na implementação de frameworks, políticas e controlos internos, gestão de riscos e na promoção de uma cultura organizacional segura e resiliente, garantindo a conformidade com referenciais como RGPD, ISO 27001, NIS2, DORA, SOX, entre outros.

«É com grande motivação que assumo este desafio. Acredito que a área de governance, risk & compliance tem hoje um papel cada vez mais estratégico nas organizações, não apenas ao nível da conformidade, mas também na criação de uma cultura de prevenção, confiança e resiliência. O objetivo será contribuir para reforçar a maturidade da organização nestas áreas, apoiando o negócio com uma abordagem estruturada, próxima e orientada para a mitigação de risco», afirma Manuel Leandro, GRC Manager da Milestone.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

«Cinema não é só fazer objetos de entretenimento. É construir património». Luís Urbano fala do novo filme sobre as FP-25

23 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Explosões, assaltos, perseguições e romance marcam o ritmo do filme ‘Projecto Global’, que hoje chega às salas de cinema do país. A longa metragem portuguesa, com argumento de Ivo M. Ferreira e Hélder Beja, materializa a ação das Forças Populares 25 de Abril (FP-25) no contexto político e social pós-revolução, revisitando um dos períodos mais instáveis da história do país.

Para Luís Urbano, coprodutor do filme, olhar para este momento continua a ser essencial, sobretudo num cenário atual também marcado por polarização e tensão política. Em conversa com a Líder, o fundador da produtora O Som e a Fúria destaca a ambição deste filme que, com esboço português e execução hollywoodesca, relata pela primeira vez no grande ecrã e com rigor histórico este período. Reflete também sobre o panorama do setor cinematográfico em Portugal, os desafios estruturais e como deve o cinema reconquistar a audiência.

 

Luís Urbano

O 25 de Abril torna-se mais relevante nos dias que correm, no contexto geopolítico que atravessamos?

Sim, torna-se mais relevante, embora seja importante esclarecer que o filme não é exatamente uma revisitação do 25 de Abril, mas sim do período que se segue. É precisamente nesse contexto, no pós-período revolucionário, que surge a organização FP-25, uma organização terrorista de extrema-esquerda que pôs o país de pernas para o ar no início dos anos 80.

Na altura, este fenómeno não era isolado em Portugal. Estava alinhado com o que se passava noutros países europeus, como França, com a Action Directe, Itália com as Brigatti Rossi, ou a Alemanha, onde também existiam movimentos semelhantes. Ou seja, havia um contexto internacional de radicalização política que acabou por influenciar também a realidade portuguesa, contribuindo para um período particularmente conturbado no início dos anos 80.

Mas sim, é importante revisitar estes momentos da história. Não foi uma decisão planeada, a de lançar o filme neste momento específico, em 2026. Nós começamos em 2017 e não apontamos para esta altura, que também se caracteriza por uma enorme polarização.

O filme acaba por ganhar uma nova relevância hoje, precisamente porque o período que retrata também foi marcado por uma forte polarização. Nesse aspeto é uma coincidência.

 

A polarização política continua a crescer, materializando-se tanto no discurso de ódio como em extremismos. Podemos traçar um paralelo com o contexto que deu origem às FP-25?

Sim, podemos traçar vários paralelos, embora seja importante contextualizar bem a origem deste movimento. As FP-25 começam a estruturar-se ainda no final da década de 70, mas começaram com ações concretas a partir de 1980. Mas não nos podemos esquecer que a sua origem remonta ao impacto do 25 de Abril de 1974, que pôs fim a uma ditadura de cerca de 50 anos.

Após a revolução, há duas coisas que acontecem em paralelo. Houve uma parte significativa da população, sobretudo jovens, que viu no 25 de abril uma oportunidade para construir algo radicalmente diferente. Sonharam em cortar com o passado, tanto a nível político como cultural.

Mas, não nos podemos esquecer que, logo após a revolução, movimentos de extrema-direita terroristas também atuaram, com atentados, mais concentrados no norte do país, e causaram imensas mortes. Foi um período muito turbulento que acabou por culminar no 25 de novembro de 1975, uma espécie de ponto de ordem que forçou o país a seguir um caminho democrático alinhado com as democracias liberais europeias. Nesse processo, houve jovens que sentiram que esse caminho representava o fim de um sonho. Alguns conformaram-se e outros não.

É aqui que podemos estabelecer um paralelismo com o presente. Há discurso de ódio e extremização, com a extrema-direita a ter um papel muito nocivo, e ao mesmo tempo existe um enorme descontentamento geral. Agora, o que nos legitima a pegar em armas? Eu acredito que nada legitima o uso de armas a não ser para combater um regime autoritário.

Uma das coisas interessantes que temos notado, especialmente desde que estreamos internacionalmente no Festival de Roterdão, é que a audiência, incluindo muita gente jovem, sente uma afinidade com aqueles loucos que, por perseguição de um sonho, assumiram posturas radicais. Mesmo não tendo um contexto histórico para poder avaliar o filme, há uma certa empatia para com as personagens e esta pulsão da juventude.


Como é que se aborda este tema sem cair na romantização da violência?

Essa era uma das grandes preocupações do filme e eu diria que ele consegue manter esse equilíbrio, porque consegue manter uma distância relativamente às personagens. Por um lado, há momentos em que o filme se foca em questionar as motivações e o porquê das personagens tomarem certas atitudes, a sua perspetiva. Mas, ao mesmo tempo, também apresenta o ponto de vista das autoridades, da polícia que os persegue.

Por exemplo, existe um jornalista que confronta diretamente a protagonista, questionando a legitimidade das suas ações, num contexto em que o país já se encontrava em democracia. Todo aquele processo foi extraordinariamente anacrónico porque, no início dos anos 80 e apesar da profunda crise económica, o país já vivia em democracia. E, apesar de gerarem empatia por serem jovens e loucos, os fins nunca justificam os meios. O filme nunca os transforma em heróis. Eles são anti-heróis. Mostram-se não só as barbaridades que cometeram, mas também as consequências para com os camaradas.

Ou seja, o filme não romantiza a violência, mantém uma distância neutra. Mas não apaga as motivações das personagens, que em muito se assemelhavam a outras gerações, que acreditaram no sonho de uma organização da sociedade pós-25 de abril completamente diferente daquilo que se veio a tornar. Mas muitos aceitaram as regras do jogo democrático, conformaram-se.

É a realidade da história, se estudarmos períodos semelhantes de revolução e violência noutros países, vemos que Portugal não tem comparação. Nesse aspeto somos muito mais calmos e tranquilos.

Por que demorou o filme tantos anos a chegar ao público?

O processo foi longo por várias razões. Primeiro, houve um extenso processo de pesquisa histórica, com a colaboração do historiador Francisco Bairrão Ruivo, que fez um trabalho aprofundado sobre o período e que, aliás, está agora a lançar um livro com a pesquisa.

Além disso, os argumentistas realizaram várias entrevistas com pessoas que viveram nesse período, desde operacionais do grupo a elementos das forças de segurança. A recolha de informação foi essencial para visualizar o tipo de filme que queríamos fazer.

Sempre quisemos fazer um thriller político com cenas de ação – tiroteios, explosões, assaltos a bancos – algo pouco comum no cinema português e que diferencia este filme. Isto implica cenas complexas, como tiroteios, explosões e assaltos a bancos, que exigem recursos técnicos e financeiros significativos.

Naturalmente, isso dificultou o financiamento. Houve atrasos, incluindo uma quebra de financiamento a meio do processo, que tivemos de recuperar. Tivemos também a pandemia, que complicou ainda mais o calendário.

O resultado é um filme caro para os padrões portugueses, com um orçamento de cerca de 5,1 milhões de euros, e que por isso também levou tempo a financiar. Tivemos de recorrer a coprodução internacional, com o Luxemburgo, e tivemos também um investimento forte da RTP, que inclui uma minissérie de seis episódios, que vai estrear mais tarde.

Tivemos que aprender e ser capazes de mobilizar e criar um modelo específico de produção ao qual não estamos tão habituados.

 

Quais são os maiores desafios de produzir cinema em Portugal?

Produzir continua a ser um desafio, é uma atividade muito difícil. Não há propriamente um entrave, há desafios que têm a ver exatamente com a forma como se consegue equilibrar aquilo que é a ambição artística de um filme e a produção. A componente do financiamento é sempre a mais complexa, a que toma mais tempo.

Hoje, já há uma série de coisas bem instituídas relativamente aos mecanismos de financiamento. Quando eu comecei era mais difícil este processo de justificar a nossa existência e a necessidade de cada país investir numa produção própria.

Porque fazer cinema não é só fazer objetos de entretenimento. É construir património, identidade e cultura de cada país.

Esta necessidade está mais aceite, do ponto de vista político e das sociedades, e sobretudo a nível europeu. Há mecanismos alternativos de financiamento e bastante atrativos para coprodução entre países, o que aumenta as possibilidades.

Como vê a evolução do público português no consumo de cinema, em especial do que se faz por cá?

Nós temos tradicionalmente um problema de uma ligação difícil entre o público e o cinema português. O cinema português tem uma quota de mercado bastante pequena face àquilo que deveria ter.

Isso explica-se por várias razões. O público está muito habituado ao cinema americano. Nós não estamos habituados a ouvir a nossa língua nos filmes, estávamos habituados a ler legendas e a ouvir inglês ou americano. Não temos aquela tradição que os franceses, espanhóis ou alemães têm de dobrar os filmes.

Depois há também um aumento de produção portuguesa que ainda vai ter de conquistar os seus resultados, mas ao mesmo tempo há coisas de que o cinema já não beneficia. Hoje as pessoas fazem contas sobre como vão gastar o seu dinheiro, se vão ver um concerto ou um filme.

Há também a generalização das plataformas de streaming e o consumo do cinema a ser feito de forma mais individual, através de um ecrã em casa.

O cinema português tem de ter esta paciência de conquistar o seu público.

O streaming veio mudar muito o cinema. O futuro do setor passa por aí?

Não há nada como a sensação de ver um filme em sala, em grande ecrã, com a sala cheia ou mediamente cheia. A experiência é completamente diferente. Mesmo as plataformas de streaming não dispensam o cartão de visita dos filmes, que é a estreia em sala. Em mercados maiores isso continua a ser muito importante.

Tem de se encontrar aqui um equilíbrio e compatibilização. No caso do cinema em sala, há uma série de desafios para os próximos tempos e um deles é precisamente a reinvenção do espaço de ver cinema.

As salas multiplex perderam público, mas as salas com porta para a rua, inseridas na comunidade, estão a crescer. Isso é um sinal de que qualquer coisa está a mudar. A ideia de teres uma sala no teu bairro, com um bom espaço de acolhimento, pode tornar-se uma alternativa forte e dar um futuro mais interessante ao cinema em grande ecrã.

O que lhe falta fazer?

Tanta coisa, não consigo especificar. Há várias coisas que é possível fazer. A história de Portugal tem muitas estórias que podem ser aproveitadas, não só dos factos em si, mas também daquilo que é ser português.

Tenho vários projetos, uns mais ligados à história, outros mais contemporâneos, outros mais ligados a histórias de pessoas do nosso tempo. Há muita coisa para fazer.

Que características gostava de ver nos seus colegas de profissão para que o cinema português continue a crescer?

Não consigo identificar de forma específica. Esta é uma atividade muito difícil e é preciso ter essa noção. O que eu espero dos meus colegas, sobretudo de quem está a começar, é que não desistam, que avancem, que acreditem e que invistam toda a sua energia. Há muita gente nova a entrar e a conseguir produzir.

E depois é preciso estar atento e defender o setor. Eu tive que desenvolver também um lado político, no sentido de lutar pelo reconhecimento deste setor. Isto não é só fazer uns bonecos e uns ‘filmitos’, é um setor cultural com impacto económico. Cada euro de dinheiro público gera um efeito multiplicador mais intenso do que noutras áreas. É um setor valioso e deve ser reconhecido como tal.

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‘The New Map Of Life’: uma nova era para a longevidade

23 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Hoje, a longevidade deixou de ser um tema isoladamente demográfico ou clínico para se tornar em algo muito maior: tornou-se uma das grandes transformações estruturais dos nossos tempos – com implicações profundas na economia, nas organizações e na forma como concebemos todo o nosso ciclo de vida. 

Durante grande parte do século XX, a vida ativa seguia um percurso quase linear – educação, trabalho, construção da vida familiar, reforma. Hoje, esse modelo é substituído por um novo paradigma – mais flexível e adaptativo – que inclui aprendizagem contínua, múltiplas etapas na carreira, transições profissionais, mais e maiores desafios pessoais e uma integração prolongada naquele que é o conceito de vida ativa.

O Centro de Longevidade da Universidade de Stanford, do qual sou orgulhosamente uma dos 20 embaixadores a nível mundial, ajuda-nos a perceber a dimensão desta mudança: se cerca de 50% das crianças que nascem hoje poderão viver até aos 100 anos, então o modelo tradicional de vida como o conhecemos, deixará de fazer sentido. Na verdade, está a nascer um novo mapa de vida; uma nova linha sob a qual desenharemos um novo percurso.

A new map of life, onde ter 65 anos já não significa, necessariamente, o fim da história: significa, precisamente, a oportunidade de viver um dos melhores capítulos desta jornada – uma nova etapa de atividade, reinvenção e impacto. 

Mas enquanto a realidade demográfica muda rapidamente, as organizações tardam em acompanhar esta profunda transformação. Paradoxalmente, a um desejo de acolher a diversidade etária e reconhecer a sua vantagem competitiva, persistem obstáculos à mudança. Na mesma equação em que estudos mostram que equipas etariamente diversificadas e motivadas podem gerar mais 17% de produtividade, reduzir em 41% o absentismo, diminuir a rotatividade em 59% e aumentar a rentabilidade em 21%, fenómenos como o ageism – de preconceito associado à idade – persistem. E é isso que precisamos de combater.  

Quando diferentes gerações trabalham em conjunto, combinam-se experiência, visão estratégica e conhecimento acumulado com novas competências, novas linguagens e novas formas de pensar. Num mundo em constante mudança, essa diversidade pode tornar-se um dos maiores ativos das organizações.  

Ao mesmo tempo, esta transformação tem também implicações claras para o mercado e para as marcas. Hoje, 59% do consumo doméstico em Portugal é realizado por pessoas com mais de 50 anos. No entanto, a comunicação (incluindo interna, nas empresas) e a publicidade continuam muitas vezes desalinhadas com esta realidade, recorrendo a representações estereotipadas ou redutoras. Hoje, os 50+ são consumidores ativos, autónomos e informados – investem em saúde, tecnologia, bem-estar e qualidade de vida e representam uma geração que quer manter controlo sobre as suas escolhas e sobre o seu percurso de vida. 

Ignorar este facto não é apenas um erro de comunicação, é um erro estratégico. E o grande desafio da década é precisamente passar da reflexão à ação, respondendo à questão: será esta uma responsabilidade individual ou coletiva? 

Ambas! Porque se do lado individual, se exige uma nova forma de encarar o percurso de vida e o desenvolvimento pessoal e profissional – sobretudo num mundo onde as carreiras assumem ainda um papel primordial e extenso na vida de todos nós, obrigando a que a aprendizagem contínua deixe de ser uma opção e passe a ser uma condição essencial – na dimensão coletiva, esta responsabilidade tem de ser partilhada.  

Está na hora de empresas, instituições, marcas, entidades e políticas públicas abraçarem o seu papel absolutamente fundamental na criação de ambientes mais inclusivos, flexíveis e preparados para esta nova realidade; cientes de que esta transformação é, sem dúvida, um comboio que já iniciou a sua viagem e que terá paragens impactantes no futuro económico, social e geracional.  

Porque, no final do dia, a longevidade nunca será apenas um desafio demográfico. É uma oportunidade para repensar a forma como trabalhamos, como aprendemos e como colaboramos e coexistimos ao longo da vida. 

Se o século XX foi o século em que conquistámos mais anos de vida, o século XXI será o século em que teremos de aprender o que fazer com esses anos. Porque as pessoas vivem mais tempo e querem uma vida plena – não apenas uma mais vida longa! 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Notícias, Sociedade

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