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Leonor Wicke

Quando a reputação começa por dentro: o papel das relações públicas nas estratégias de ‘employer branding’

23 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Num mercado de trabalho cada vez mais competitivo, marcado por uma maior exigência das novas gerações, as organizações deixaram de competir apenas por clientes, passaram a competir por pessoas. E essa competição faz-se cada vez menos através de fatores exclusivamente funcionais e cada vez mais através de dimensões como cultura, propósito, flexibilidade e experiência.

Neste contexto, a reputação organizacional deixou de poder ser pensada apenas a partir do exterior. Começa, de forma cada vez mais evidente, no interior das organizações. A transparência, a digitalização e a amplificação das vozes individuais transformaram os colaboradores em agentes ativos na construção da reputação de uma marca. As suas experiências e perceções circulam para além das portas da instituição, influenciando diretamente a forma como uma organização é vista enquanto empregadora e, muitas vezes, enquanto marca no seu todo.

É neste cenário que o employer branding se afirma como uma dimensão estratégica incontornável. Mais do que uma promessa, trata-se de uma experiência. Não se limita à atração de talento, mas à construção de uma proposta de valor coerente e credível ao longo de todo o ciclo de vida do colaborador na empresa — do primeiro contacto à saída da organização.

Esta evolução levanta uma questão central: quem lidera este processo?

Tradicionalmente, o employer branding tem sido associado às áreas de recursos humanos, e não está mal. São estas áreas que detêm um conhecimento profundo sobre cultura organizacional, experiência do colaborador e gestão de talento. Nos últimos anos, aliás, tem-se assistido a uma clara valorização estratégica dos recursos humanos, que deixaram de ser vistos como funções operacionais para assumirem um papel cada vez mais próximo da decisão e da definição de estratégia organizacional. No entanto, à medida que se torna evidente que a marca empregadora é, na sua essência, uma extensão da reputação, torna-se igualmente claro que este é um território de interseção. É aqui que o papel das relações públicas se torna determinante.

Se aceitarmos que os colaboradores são um dos públicos mais críticos de qualquer organização, então o trabalho das relações públicas não pode limitar-se à comunicação externa. Deve incluir a construção de relações internas baseadas em confiança.

Este profissional deixa, assim, de ser apenas um gestor da visibilidade e reputação para assumir uma função de mediação: entre identidade e perceção, entre cultura interna e narrativa externa, entre aquilo que a organização é e aquilo que comunica. Este alinhamento é hoje particularmente exigente.

Estudos recentes mostram que as novas gerações — em particular Millennials e Geração Z — valorizam dimensões que vão muito além da compensação financeira. Procuram organizações com propósito claro, culturas inclusivas, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, oportunidades de desenvolvimento e, sobretudo, autenticidade. Existe uma maior sensibilidade à incoerência e uma menor tolerância a discursos que não correspondem à experiência real. Neste contexto, a marca empregadora já não é definida pela organização. É co-construída, e frequentemente validada, pelos próprios colaboradores. Plataformas digitais e espaços informais de partilha tornaram visível aquilo que antes permanecia interno. A incoerência entre discurso e prática deixa de ser um problema silencioso e passa a ter impacto direto na reputação institucional.

É por isso que o employer branding não pode ser tratado como uma função isolada. Exige uma abordagem integrada, onde recursos humanos e relações públicas trabalham em sinergia, articulando cultura, experiência e comunicação. Enquanto os primeiros estruturam a proposta de valor e a experiência do colaborador, os segundos ajudam a traduzi-la em narrativas consistentes, assegurando alinhamento entre o que é vivido e o que é comunicado.

Em Portugal, este caminho tem vindo a consolidar-se de forma progressiva. O employer branding ganhou espaço na agenda organizacional, surgiram novas funções e modelos híbridos entre comunicação e recursos humanos, e há uma crescente consciência de que a capacidade de atrair e reter talento depende, em grande medida, da reputação enquanto empregador. Ainda assim, persistem desafios.

Em muitas organizações, a comunicação interna, a comunicação externa e a gestão de pessoas continuam a operar de forma fragmentada. Esta separação dificulta a construção de uma marca empregadora coerente e limita o impacto das iniciativas desenvolvidas.

É precisamente neste ponto que o contributo das relações públicas pode fazer a diferença. Ao assumir uma visão integrada da comunicação e ao posicionar-se como função de ligação dentro da organização, o profissional de relações públicas tem a capacidade de quebrar barreiras e promover uma abordagem mais consistente e alinhada. No fundo, trata-se de reconhecer uma ideia simples: a reputação não se constrói apenas com aquilo que a organização diz, mas com aquilo que as pessoas vivem. Os colaboradores de uma instituição devem, sempre, ser os principais embaixadores das marcas e quando tal não acontece, é sinal de alarme.

O employer branding não é, por isso, apenas uma ferramenta de atração. É um reflexo da identidade organizacional. Quando essa identidade é clara, coerente e partilhada, a reputação torna-se uma consequência natural. Quando não é, nenhuma estratégia de comunicação consegue compensar essa ausência. Talvez por isso o verdadeiro desafio das organizações contemporâneas não seja apenas comunicar melhor para fora, mas compreender – e construir – melhor aquilo que acontece dentro. Porque é aí que a reputação, de facto, começa.

Arquivado em:Opinião

Consumidores em Portugal preferem marcas que compreendem as suas necessidades, revela estudo

22 Abril, 2026 by Leonor Wicke

De acordo com o estudo, 77% dos consumidores prefere marcas que compreendem as suas necessidades, sendo que 70% considera esta capacidade muito ou extremamente importante para criar uma relação de longo prazo.

Este dado evidencia uma mudança no comportamento do consumidor: a empatia deixou de ser um fator diferenciador para passar a ser um requisito. A par disso, a qualidade consistente dos produtos ou serviços (26%) e a comunicação clara e honesta (24%) surgem como os principais pilares de proximidade entre marcas e clientes.

Outros fatores relevantes incluem a rapidez na resolução de problemas (14%), o preço justo e a responsabilidade social e ambiental (ambos com 13%), bem como o atendimento personalizado (10%).

Experiência de compra influencia lealdade às marcas

A experiência de compra tem impacto direto na fidelização, com 60% dos inquiridos a afirmar que este fator influencia fortemente a sua lealdade.

Entre as principais expectativas dos consumidores estão a transparência nos preços, condições e garantias (24%) e a consistência entre o que a marca promete e o que entrega (22%). O atendimento eficiente (19%) e a rapidez no processo de compra (18%) reforçam a ideia de um consumidor mais exigente e informado.

Confiança varia entre setores

Apesar de níveis gerais positivos, a confiança nas marcas varia significativamente entre setores. As áreas com maior credibilidade são:

  • Tecnologia e Eletrónica (72%);
  • Educação e Formação (71%);
  • Alimentação e Bebidas (70%).

Por outro lado, setores como Serviços Financeiros (63%) e Habitação e Mobiliário (61%) continuam a enfrentar maiores desafios na construção de confiança junto dos consumidores.

Satisfação elevada, mas com espaço para melhoria

O nível médio de satisfação com as marcas em Portugal situa-se nos 72%, refletindo uma perceção global positiva, embora com diferenças entre setores.

A qualidade do produto ou serviço (23%) e o preço e promoções (20%) mantêm-se como os principais fatores de satisfação. De forma consistente, 86% dos consumidores avalia positivamente a relação qualidade-preço, reforçando a importância do equilíbrio entre valor e desempenho.

Consumidores recomendam marcas, mas testam novas opções

Os dados mostram que 79% dos portugueses estão dispostos a recomendar marcas que gostam, evidenciando níveis elevados de satisfação. No entanto, o mercado revela-se dinâmico: 53% dos consumidores experimentou novas marcas nos últimos seis meses.

Ainda assim, 46% manteve-se fiel às mesmas marcas, enquanto apenas 1% admite mudar frequentemente, indicando que a rotatividade elevada continua a ser residual.

Transparência continua a ser um desafio para as marcas

A perceção sobre a transparência das marcas permanece dividida. Enquanto 38% avalia positivamente a honestidade e comunicação, 44% mantém uma posição neutra, o que indica margem para melhoria. Já 18% tem uma perceção negativa.

Além disso, uma má experiência leva 32% dos consumidores a abandonar uma marca, embora exista potencial de recuperação da confiança, desde que a resposta seja rápida, eficaz e transparente.

Os resultados mostram um consumidor cada vez mais atento, exigente e aberto à mudança. A confiança, a experiência e a coerência entre discurso e prática são hoje fatores críticos para as marcas que querem manter relevância num mercado competitivo.

Arquivado em:Nacional, Notícias

«O cyberbullying acontece 24 horas por dia, sete dias por semana», explica Tito de Morais

22 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Para Tito de Morais, fundador da plataforma MiúdosSegurosNa.Net e cofundador da Agarrados à Net., a exposição de crianças online continua a ser um dos pontos mais críticos. Questionado sobre o papel dos pais, admite que tudo depende do que se entende por exposição, mas é claro quanto à partilha excessiva: «acho que devem expor menos os filhos na internet em geral e nas redes sociais».

Ainda assim, rejeita soluções baseadas na proibição. Na sua perspetiva, o contacto com a tecnologia deve ser progressivo e acompanhado: «nós aprendemos a lidar com as coisas, lidando com elas, não é proibindo a sua utilização».

O especialista participou num debate com Inês Marinho, fundadora da Associação Não Partilhes, e João Francisco Lima, fundador da MindMatch, moderado por Catarina Silva, que aconteceu no evento Leadership NEXT GEN, no dia 16 de abril.

Assista ao debate completo:

João Francisco Lima, Inês Marinho, Tito de Morais, Catarina Silva – Entre o feed e a vida real: ser visto, seguido e estar protegido

Proibir telemóveis não resolve o problema

O especialista critica diretamente a tendência de afastar os jovens das ferramentas digitais, seja através de proibições nas escolas ou de propostas legislativas. «Vejo com muita pena as escolas proibirem os telemóveis», afirmou.

Para Tito de Morais, o caminho passa por um investimento sério na literacia digital e na cidadania online, envolvendo não só os jovens, mas também os pais, que muitas vezes «não nasceram com estas realidades» e precisam de apoio para educar.

Uma posição que cruza diretamente com a visão de João Francisco Lima, que alerta para a necessidade de intencionalidade no uso digital. Para o fundador da MindMatch, a relação com o telemóvel não pode ser impulsiva nem automática, deve ser consciente.

Como a proibição gera curiosidade, quanto mais restrito é o acesso, maior tende a ser a vontade de explorar, muitas vezes sem supervisão. Neste ponto, Inês Marinho acrescenta uma dimensão prática: proibir comportamentos não impede que aconteçam.

Cyberbullying: um fenómeno permanente e invisível

Um dos temas mais marcantes foi o impacto do cyberbullying, que apresenta características mais agressivas do que o bullying tradicional. «Acontece 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano», explicou Tito de Morais, sublinhando que, ao contrário do bullying tradicional, «segue até casa» e não dá descanso às vítimas.

A natureza digital amplifica o impacto. A ausência de contacto direto, o anonimato e a escala, que pode envolver centenas ou milhares de pessoas, tornam esta forma de violência mais intensa e difícil de travar.

João Francisco Lima acrescentou que esta realidade é ainda mais complexa porque muitas vezes não é visível. As redes sociais, disse, criam uma ilusão de bem-estar constante. «Têm tendência a mostrar o lado oposto desta realidade.»

Partilha de intimidade exige consciência e responsabilidade

A partilha de conteúdos íntimos é um tema que é caro à fundadora da Associação Não Partilhes. A jovem defende uma abordagem equilibrada: reconhecer o risco sem demonizar o comportamento.

«Ser humano traça relações em partilhar a intimidade», explicou. Mas no digital, o problema é outro: «nunca sabemos onde é que ela pode chegar».

A especialista desmonta também um mito persistente: o perigo não está apenas em desconhecidos. «É completamente o contrário do que se pensa, são pessoas próximas de nós», explicou, referindo parceiros, ex-parceiros ou conhecidos.

«Confiar não é um crime»: combater a culpabilização das vítimas

A especialista foi contundente ao rejeitar a ideia de responsabilizar quem partilha conteúdos íntimos. «Confiar em alguém não é um crime», afirmou, acrescentando que a responsabilidade está nos agressores.

Mais do que isso, alerta para o papel coletivo na perpetuação do problema: «o agressor não é só quem partilha, é também quem vê e quem se cala». Esta lógica de silêncio contribui para ampliar o impacto na vida das vítimas.

As consequências podem ser graves. Inês Marinho lembrou que há casos extremos em que pessoas acabaram mesmo por tirar a própria vida, sublinhando a necessidade de agir rapidamente, denunciar e recorrer a mecanismos de apoio.

Redes sociais escondem sinais de sofrimento

A ligação entre redes sociais e saúde mental foi aprofundada por João Francisco Lima. O fundador da MindMatch alertou um dos principais indicadores, que pode ser precisamente o desaparecimento das redes sociais. Mudanças bruscas de comportamento ou isolamento digital de um colega podem e devem ser encaradas com atenção.

Lima destacou ainda a gravidade do problema do suicídio entre jovens, sobretudo entre os 15 e os 25 anos. «Faz parte das três principais razões de morte», afirmou, considerando «assustador» que muitos jovens tomem essa decisão tão cedo.

Para o jovem, é essencial criar espaços de diálogo genuíno. «Perguntar não para saber, mas por querer saber», sublinhou, defendendo uma escuta ativa e sem julgamento.

Como recuperar o controlo sobre as redes sociais?

Na reta final, os intervenientes deixaram recomendações práticas para uma relação mais equilibrada com o digital. Tito de Morais sugeriu começar por medir o tempo de utilização: «ir a definições e ver quanto tempo é que já gastei no telemóvel», estabelecendo metas progressivas.

Também Inês Marinho reforçou a importância de encontrar alternativas fora do ecrã, lembrando que muitas atividades digitais podem ser replicadas no mundo real. Já João Francisco Lima destacou a importância da intenção. «É importante saber porque é que querem deixar de estar agarrados ao telemóvel».

Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.

Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.

Arquivado em:Nacional, Notícias

«Falou-se muito de igualdade de género, mas pouco mudou na vida das pessoas». Nassrin Majid, da ConsumerChoice, explica porquê

22 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Se, por um lado, a maioria dos consumidores afirma não sentir discriminação direta, por outro, cresce a perceção de que as empresas ainda estão longe de garantir práticas verdadeiramente justas e consistentes. A verdade é que já não basta às organizações assumirem compromissos públicos: o mercado, os colaboradores e a sociedade esperam impacto real, coerência e transformação interna.

Em conversa com a Líder, Nassrin Majid explora o que está por trás deste aparente paradoxo, os desafios que persistem dentro das organizações e o papel da liderança na construção de ambientes mais equitativos e justos.

 

Mais de metade dos consumidores (62%) afirmam não ter sentido situações de desigualdade de género, mas 53% acredita que as empresas não estão a adotar práticas adequadas para promover a igualdade de género. Como interpreta este paradoxo?

Este paradoxo diz-nos muito mais sobre o estado da sociedade do que parece à primeira vista. Por um lado, há uma ausência de perceção direta e isso pode ser positivo, no sentido em que muitos consumidores já não vivem desigualdades de forma explícita. Mas, por outro, existe uma consciência coletiva de que o sistema ainda não está a funcionar como deveria. E isso é extremamente relevante.

Estamos a entrar numa fase mais sofisticada da discussão: já não falamos apenas de desigualdades visíveis, mas de desigualdades estruturais, silenciosas, muitas vezes normalizadas. E é precisamente aqui que as empresas têm um papel determinante.

O consumidor hoje já não espera apenas não ser discriminado espera que as marcas e organizações sejam ativamente responsáveis na construção de um ambiente mais justo. E essa exigência, para mim, é um sinal claro de maturidade do mercado.

 

63% dos participantes considera que a evolução da igualdade de género se manteve igual nos últimos anos. Que mensagem devem as empresas retirar e o que deve mudar?

Este dado é, acima de tudo, um alerta e até um certo desconforto. Durante anos, falou-se muito de igualdade de género dentro das organizações. Criaram-se iniciativas, campanhas, posicionamentos, mas quando mais de metade das pessoas sente que nada evoluiu, temos de ter a honestidade de reconhecer que alguma coisa não está a resultar.

E, para mim, isso é claro, o tema ficou demasiado tempo na esfera da intenção e da comunicação, e pouco na esfera da transformação real. As empresas já sabem o que dizer. Já sabem como se posicionar. Mas ainda não estão, de forma consistente, a mudar aquilo que realmente impacta a vida das pessoas dentro das organizações. Porque mudar implica mexer em estruturas, em poder, em decisões difíceis. Implica rever critérios de progressão, questionar lideranças, expor desigualdades que muitas vezes são desconfortáveis de assumir. E isso exige mais do que compromisso exige coragem e, sobretudo, coerência.

Hoje, o maior risco para as empresas não é não falarem sobre igualdade. É falarem muito e não conseguirem demonstrar impacto. Porque o consumidor, os colaboradores e o mercado já não avaliam apenas a intenção. Avaliam a ação e consistência. E é aí que, cada vez mais, se constrói ou se perde credibilidade.

 

Que tipo de políticas internas ou práticas de gestão considera mais eficazes para reduzir desigualdades dentro das organizações?

A minha leitura é que este tema não se resolve com políticas isoladas, resolve-se com consistência na forma como se lidera. As organizações tendem a formalizar muito este tema. Criam códigos, iniciativas, programas, mas a verdadeira mudança acontece nas decisões do dia a dia. Está na forma como se escolhe quem entra, quem cresce, quem é ouvido e quem tem espaço para decidir.

Se olharmos com honestidade, muitas desigualdades não nascem de decisões explícitas, nascem de padrões que nunca foram questionados. E isso é mais desafiante, porque exige consciência e não apenas intenção. Para mim, as práticas mais eficazes são aquelas que obrigam a organização a olhar para dentro e a expor os seus próprios critérios: perceber se a progressão está de facto alinhada com mérito, se existe equidade salarial real, se as oportunidades estão a ser distribuídas de forma justa. E depois há um ponto que considero crítico – a liderança.

Enquanto este tema for tratado como uma responsabilidade de recursos humanos, vai continuar a ter impacto limitado. Quando passa a ser assumido pela liderança de forma genuína e não apenas discursiva, começa a gerar transformação.

No fundo, não se trata tanto de criar mais políticas. Trata-se de garantir que aquilo que já existe é vivido, todos os dias, nas decisões que realmente contam.

 

A desigualdade é percecionada sobretudo em contextos profissionais, como remuneração e progressão na carreira. Porque é que estas dimensões continuam a ser tão críticas?

Porque é aqui que a igualdade deixa de ser discurso e passa a ser realidade, ou não. Podemos falar de cultura, de valores, de intenção, mas é na remuneração e na progressão que se mede, de forma muito concreta, o reconhecimento que está a ser dado. E é também aí que as inconsistências ficam mais expostas.

O que acontece, muitas vezes, é que continuamos a operar com estruturas que foram desenhadas num contexto diferente, com pressupostos que já não fazem sentido hoje. E, sem nos apercebermos, vamos replicando esses mesmos padrões. Há também uma questão de transparência. Quanto mais opacos são os critérios de avaliação, de promoção, de aumento salarial maior é o espaço para desigualdade.

E depois há algo que considero determinante: a forma como olhamos para o potencial. Ainda existe, em muitos contextos, uma tendência para avaliar homens pelo potencial e mulheres pelo histórico. E essa diferença, subtil, mas constante, tem um impacto enorme ao longo do tempo.

 

O facto de 40% dos inquiridos discordarem que as gerações mais jovens têm uma visão mais igualitária surpreende-a? Esperava uma mudança geracional mais evidente?

Não me surpreende, mas obriga-nos a ser mais realistas. Existe quase uma expectativa automática de que as novas gerações tragam essa mudança de forma natural. Mas a verdade é que ninguém cresce fora de um contexto. Todos somos influenciados pelos mesmos sistemas, pelas mesmas referências, pelas mesmas dinâmicas sociais.

As gerações mais jovens têm, sem dúvida, mais acesso à informação e uma maior abertura para discutir estes temas. Mas isso não significa, necessariamente, que os comportamentos estejam totalmente alinhados com essa consciência.

E talvez aqui esteja o ponto mais importante: a mudança não acontece apenas porque se fala mais sobre o tema. Acontece quando se alteram estruturas, quando se criam referências, quando as organizações assumem um papel ativo nessa transformação.

Sem isso, corremos o risco de ter uma evolução no discurso, mas não na prática.

 

Como classifica o seu percurso de liderança no que à igualdade de género e oportunidades diz respeito?

É um percurso muito consciente, mas também muito humano. Nunca senti que tivesse de provar que era capaz sempre soube que era. Mas senti, muitas vezes, que tinha de provar mais do que outros para que isso fosse reconhecido da mesma forma. E isso marca-nos, inevitavelmente.

Ao longo do tempo, fui percebendo que a minha responsabilidade não era apenas liderar bem, era também criar condições para que outras pessoas não tivessem de fazer esse esforço adicional. E isso mudou a forma como lidero. Tornei-me mais atenta, mais exigente comigo própria, mais consciente do impacto das minhas decisões. Mas também mais autêntica. Porque há uma tendência, sobretudo em mulheres em cargos de liderança, de tentarem adaptar-se a modelos que já existem. E eu nunca me revi nisso.

Hoje, olho para o meu percurso com orgulho, não por ter chegado aqui, mas por ter conseguido fazê-lo sem perder a minha identidade.

 

Na sua perspetiva, quais são hoje os principais desafios que as mulheres enfrentam quando chegam a cargos de decisão?

Diria que o maior desafio não está na competência, está no contexto. As mulheres chegam preparadas, com experiência, com visão. Mas entram, muitas vezes, em ambientes onde ainda existem expectativas muito específicas sobre como devem liderar, comunicar, posicionar-se.

Há uma exigência constante de equilíbrio: ser firme, mas não demasiado; próxima, mas não emocional; estratégica, mas não distante. É um espaço onde tudo é mais observado, mais interpretado, mais questionado. E isso gera desgaste.

Depois há outro desafio, mais silencioso – a representatividade. Quando há poucas mulheres em posições de decisão, o peso da responsabilidade aumenta porque, de alguma forma, sentimos que não representamos apenas o nosso desempenho, mas também uma expectativa maior. E isso, embora possa ser uma força, também pode ser limitador.

 

Que conselhos daria a mulheres que ambicionam cargos de liderança?

Diria, antes de mais, que não esperem sentir-se ‘100% prontas’ porque esse momento raramente chega. Muitas vezes, as oportunidades surgem antes da sensação de preparação total. E aceitar esse desconforto faz parte do processo.

Depois, algo que considero essencial: não tentem encaixar-se num modelo de liderança que não é vosso. Durante muito tempo, existiu uma ideia muito definida do que era ‘liderar bem’. Hoje sabemos que há espaço para diferentes estilos e isso é uma vantagem, não uma limitação.

E, talvez o mais importante, não se diminuam para facilitar o caminho. O mundo profissional já está a mudar, mas ainda exige coragem. Coragem para ocupar espaço, para ter voz, para tomar decisões. E quando essa coragem se junta à competência que existe, o impacto é inevitável.

Arquivado em:Entrevistas, Nacional, Notícias

Liderar com inteligência emocional

22 Abril, 2026 by Leonor Wicke

A importância da inteligência emocional no trabalho reside, desde logo, na sua relação directa com o desempenho sustentável. Profissionais emocionalmente inteligentes conseguem gerir melhor o stress, comunicar de forma mais eficaz e construir relações de confiança – factores críticos para o funcionamento saudável das equipas. Num ambiente onde a pressão e a ambiguidade são constantes, a capacidade de reconhecer e regular emoções permite transformar desafios em oportunidades de crescimento, reduzindo conflitos e promovendo um clima organizacional positivo. 

Liderar com inteligência emocional deixou de ser opcional para se tornar imperativo.

Um líder que concilie eficácia com inteligência emocional distingue-se por um conjunto de características específicas, como a autoconsciência e a autorregulação, a que acresce a empatia, que permite compreender diferentes perspectivas e gerir equipas diversas com sensibilidade. Finalmente, a capacidade de comunicação clara e inspiradora, aliada a um sentido de propósito, reforça o alinhamento e o compromisso colectivo. 

Organizações emocionalmente inteligentes são sistemas onde as emoções não são ignoradas nem reprimidas, mas antes compreendidas e integradas nos processos de decisão. Nestes contextos, existe uma cultura de abertura, feedback construtivo e segurança psicológica, onde os colaboradores se sentem valorizados e ouvidos. A liderança promove relações de confiança, incentiva o desenvolvimento pessoal e reconhece que o capital humano é o principal activo estratégico. 

Promover a inteligência emocional em contexto de trabalho exige intencionalidade e prática contínua. Destacam-se seis orientações essenciais: 

  1. Investir na autoconsciência 
  1. Desenvolver competências de escuta ativa 
  1. Criar espaços seguros para expressão emocional 
  1. Formar líderes em competências emocionais 
  1. Incorporar o bem-estar na estratégia organizacional 
  1. Estimular uma cultura de aprendizagem contínua 

Num tempo em que as Organizações são chamadas a reinventar-se constantemente, esta competência assume-se como vantagem competitiva na criação de relações mais genuínas, em que a partilha e colaboração possam acontecer de forma mais fluida, mitigando os inevitáveis ‘tribalismos’ organizacionais.  

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Opinião

Homens e máquinas: onde cabe a tecnologia no terreno dos humanos?

21 Abril, 2026 by Leonor Wicke

Entre o terminal rodoviário de Sete Rios e o Bairro do Rego, Carlos Guerreiro tem a porta aberta. Dentro da loja, o aroma das folhas de papel enche o ar e as paredes exibem uma miríade de trabalhos saídos das suas mãos: capas de livros ornamentadas com desenhos, texturas com vida – veludos, peles de animais raros. Das vitrinas vai tirando livros de grossa lombada que exibe com os dedos curtidos pelo couro. É um dos últimos encadernadores e restauradores da cidade, um ofício quase extinto.  

«Estou aqui desde outubro. A senhoria no Bairro Alto explicou-me que precisava de espaço.» Foi por essa razão que se candidatou a uma renda acessível depois de mais de 40 anos no mesmo lugar. Ainda assim, «demorou» até que a Câmara lhe cedesse e arranjasse um novo local para trabalhar. 

Naquela sala convivem muitas ferramentas com o homem dos livros. Prensas, guilhotinas, trituradoras, um tesourão pesado que corta sem hesitar. Peças de latão, peças de aço, folhas de ouro. Máquinas que ele próprio montou, umas nacionais, outras importadas da Alemanha. As mãos contam a história: marcas, cortes, dedos entalados. As dores fazem parte da labuta, da contenda constante de quem dá o corpo ao manifesto. A oficina de Carlos lembra-nos que ainda há ofícios que só respiram graças à mestria das mãos. 

Legenda: As vitrinas da oficina exibem trabalhos de anos. 

Adoro livros e o que faço. Restaurar, encadernar, é uma coisa singular. É único. Tal e qual um carro que montamos sozinhos. É diferente dos que vêm de fábrica, em série. É como aqui. Isto é tudo personalizado.

Desmantelar, limpar, coser, colar, bater, colocar, cortar, afixar: longa é a lista de verbos que compõem a encadernação, cuidadosamente anotados numa folha, mas que os dedos de Carlos conhecem de cor. Pelo caminho, outros verbos perderam-se. Mas o ofício não nasceu só do talento. Houve aprendizagem. 

Começou o ofício da encadernação e do restauro em 1972, em Caxias, contrariando o que diz a sua cédula profissional que lhe roubou dois meses de labor, e não conheceu outro trabalho que não este. Antes de herdar a sua oficina no Bairro Alto, foi na Torre do Tombo que ganhou tarimba durante duas décadas. O método transformou-se em prática diária. 

No restauro não há pressa. O segredo é precisamente «fazer as coisas com amor e carinho», sublinha. Respeitar cada etapa. É uma arte que tem muito que se lhe diga e só com a prática se desenvolvem atributos. «Estou sempre a aprender», diz.  A inteligência artificial é tema distante para Carlos Guerreiro, mas reconhece que a mecanização ajuda a simplificar alguns processos. Todavia, a minúcia de certos cortes, improvisar uma folha, acertar um detalhe, essa parte continua a ser da alma. «Isto requer muita dedicação e criatividade.» E basta olhar em volta para perceber. Mostra com orgulho livros feitos de algas marítimas, outros revestidos a pele de bisonte. Capas vermelho-coração, losangos desenhados que fazem imaginar o que estará guardado no interior. É, no fundo, um guardador de histórias. Alguém que as recupera, preserva e devolve. Devolve vida. 

Sobre o futuro da profissão, encolhe os ombros, mas ainda há sinais de esperança. Para lhe seguir o ofício, há quem mostre interesse, mas falta tempo aos aprendizes e dinheiro do mestre. «No outro dia apareceu-me aqui uma miúda que queria aprender. Disse-lhe que sim, pois claro, mas não tenho condições para lhe pagar.» Para ensinar, porém, nada cobra. 

Na sua lista de clientes há nomes de peso, como José Avillez e Gambrinus, mas o que o distingue não são os contactos, e sim a forma como cada livro sai das suas mãos com alma própria. Entre resmas de papel e capas esverdeadas, Carlos Guerra mostra que leva o cérebro até à ponta dos dedos, imprimindo dedicação e mestria em cada detalhe. O reconhecimento não vem de publicidade, mas do boca a boca, da clientela que regressa e espalha o trabalho a amigos e conhecidos. E quando lhe perguntam que conselho deixaria às novas gerações, sorri com simplicidade: «Leiam livros. Para não estragarem a vista.» 

 

IA está a quebrar padrões, mas quem decide são os humanos 

Há quem já considere a IA em tudo semelhante à Revolução Industrial. Mas, para Hugo Castro Silva, Professor Auxiliar do Departamento de Engenharia e Gestão do Instituto Superior Técnico, ainda é cedo para perceber se atingirá a dimensão das revoluções anteriores. 

«O que distingue esta transformação das revoluções tecnológicas passadas é não ser uma mudança tecnológica skill-biased», esclarece. Ou seja, anteriormente, a tecnologia tendia a substituir apenas funções mais manuais ou menos qualificadas, enquanto criava mais procura e emprego para perfis técnicos, especializados e com maior formação. Mas o que vemos com o advento da IA é que há perfis altamente qualificados que podem estar em risco, dependendo da situação, como é o caso da contabilidade, análise de dados ou programação. «Para os humanos se manterem no círculo, o que sobra para nós é a decisão. Fazer um julgamento perante a informação que a IA nos dá», garante. 

Estes perfis inserem-se nas ‘profissões em ascensão’, cerca de 22,5% do emprego em Portugal. Regra geral, estes trabalhos caracterizam-se por serem os mais beneficiados pela digitalização, tais como professores do ensino básico e educadores de infância, especialistas em vendas, marketing e finanças. Estão na ponta diametralmente oposta das ‘profissões em colapso’, que representam 28,9% da força de trabalho do país, que inclui empregados de mesa e de bar, operadores de equipamentos móveis e cozinheiros, cujos empregos estão seriamente ameaçados pela automação e pela IA, correndo até risco de extinção. Estes dados constam do estudo Automação e inteligência artificial no mercado de trabalho português: desafios e oportunidades, publicado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que traça um mapa do impacto da revolução tecnológica no mercado nacional. Castro Silva é uma das mentes encarregadas da investigação, que explica ainda que a maior fatia do emprego em Portugal (35,7%) é composta por profissões que não poderão ser substituídas pela automação, mas também não irão beneficiar com a digitalização.

Trabalhadores de limpeza em casas particulares, escritórios e hotéis, técnicos de atividade física, agricultores e pescadores integram a lista destes ofícios. São chamadas profissões do ‘terreno dos humanos’, que não correm o risco de substituição pelo seu cariz relacional e físico. Hugo Castro Silva acredita que estas profissões continuarão a ser necessárias, sem significar necessariamente melhores salários ou maior valorização social. Além disso, continuam também estagnados em termos de rendimento, especialmente se houver muita oferta de mão de obra disponível para os desempenhar. 

Para garantir que estes ofícios sobrevivem e evoluem, Hugo Castro Silva sublinha a importância da requalificação contínua, uma responsabilidade partilhada entre Estado e empresas. Enquanto o Estado deve atuar em currículos, formação profissional e certificação, as empresas têm de investir na atualização dos seus trabalhadores, preservando conhecimento tácito e abrindo novas funções para quem domina os processos. «É fácil desvalorizar o conhecimento adquirido, e podem perder-se competências muito específicas», alerta. 

Em Portugal, a estrutura laboral ainda favorece estas profissões, retardando o impacto imediato da automação. Mas essa proteção traz limites: a adoção tecnológica lenta impede ganhos de produtividade e inovação, e muitas organizações utilizam ferramentas como o ChatGPT de forma superficial, sem integrar o seu verdadeiro valor. Para Castro Silva, a capacitação humana é decisiva: sem ela, o potencial da tecnologia permanece desperdiçado. 

Na sua perspetiva, mesmo que os modelos de linguagem deixassem hoje de evoluir, poderíamos assistir a aumentos de produtividade durante bastante tempo, simplesmente porque as pessoas ainda estão a aprender a usá-los. O verdadeiro potencial pode não estar apenas em automatizar tarefas simples, mas em apoiar decisões estratégicas, inovação e desenvolvimento de novos produtos. «O verdadeiro valor virá quando o gestor de topo se servir da IA para fazer a discussão estratégica com este parceiro digital, que é aparentemente um expert», diz. 

 

Algoritmos, previsão de doença e menos burocracia: como a tecnologia pode mudar a medicina 

A inteligência artificial começa a ganhar espaço nos hospitais portugueses. Acelera diagnósticos, antecipa agravamentos clínicos e reorganiza o funcionamento do sistema de saúde. Para Pedro Correia Azevedo, Presidente do Conselho de Administração da ULS Almada-Seixal, essa transformação já está em curso. «A inteligência artificial tem um papel importante naquilo que é ajudar-nos a diagnosticar mais depressa», explica. «Mas vai além disso: ajuda-nos também a melhorar os circuitos dos exames e os percursos de diagnóstico e tratamento dos doentes.» Apesar da crescente presença da tecnologia, o médico sublinha um limite claro: a medicina continua a depender da relação humana. «Há algo que é impossível substituir: a relação entre o profissional de saúde e o doente», afirma. «Essa proximidade, sobretudo quando falamos de doença, é praticamente insubstituível. Mas pode ser apoiada por ferramentas de inteligência artificial.»  

Pedro Correia Azevedo, Presidente do Conselho de Administração da ULS Almada-Seixal.

Uma das maiores promessas da IA na medicina está na capacidade de previsão. Ao analisar dados clínicos, histórico médico e evolução de doenças, os algoritmos identificam sinais precoces antes de se tornarem evidentes. «Podemos intervir antes da doença estar instalada», explica o líder do Hospital Garcia de Orta. Mais do que aumentar a esperança de vida, «é sobretudo a qualidade de vida que está em causa». Na análise de imagem, sistemas de apoio em radiologia e neurorradiologia detectam alterações subtis, importantes em oncologia, permitindo diagnósticos precoces. «Permitem-nos encontrar alterações que poderiam passar despercebidas ou ser observadas com menor acuidade diagnóstica», diz o médico.  

Uma das preocupações mais frequentes associadas à inteligência artificial é o risco de erros de diagnóstico. Pedro Correia Azevedo lembra que o erro sempre fez parte da prática médica. «Antes da inteligência artificial já existia erro», afirma. Esses erros podem resultar de vários fatores: informação clínica incompleta, limitações técnicas ou simplesmente falhas humanas. O desafio, diz, não é eliminar totalmente o erro – algo impossível – mas garantir que a tecnologia não aumenta essa probabilidade. «Temos de testar os algoritmos e validar os métodos antes de os aplicar.»  

Outro campo onde a tecnologia está a ser aplicada prende-se com a gestão de doentes que recorrem repetidamente aos serviços de urgência, os chamados high users. No Hospital Garcia de Orta, um grupo multidisciplinar dedicado a este problema trabalha há cerca de uma década. O objetivo é perceber porque é que algumas pessoas recorrem repetidamente às urgências e encontrar soluções antes que isso aconteça. «Percebemos que há um grupo de doentes que consome muitos episódios de urgência», explica Pedro Correia Azevedo. Mas as razões raramente são apenas clínicas. «Cerca de 70% dos determinantes da saúde estão relacionados com fatores sociais», sublinha. Problemas económicos, familiares ou sociais podem estar na origem de muitos episódios hospitalares. Investigadores da NOVA School of Science and Technology desenvolveram um algoritmo capaz de prever quais os doentes com maior probabilidade deste constante regresso, permitindo intervir antes. «Podemos chamar essas pessoas mais cedo aos cuidados de saúde primários ou encontrar soluções na comunidade», explica o médico. 

Ainda assim, a velocidade da inovação tecnológica levanta outro problema: a regulação. Pedro Correia Azevedo considera que as regras atuais ainda estão longe de acompanhar o ritmo da inovação. «Não, de todo», responde quando questionado sobre se as diretivas europeias são suficientes. «Tem de haver validação e regulação», defende, sublinhando que as entidades reguladoras terão de acompanhar de perto a introdução destas tecnologias para garantir segurança clínica e evitar vieses algorítmicos. 

 

Angiotomografia cerebral com análise assistida por inteligência artificial. Permite identificar rapidamente lesões isquémicas e outras alterações críticas.

Aproveitar, desburocratizar e ter os pés assentes na terra 

Pedro Correia Azevedo rejeita a ideia de que a inteligência artificial venha substituir médicos ou enfermeiros. «Vejo isto como ferramentas complementares, não de substituição», afirma. Admite, contudo, que a tecnologia pode transformar a forma de trabalhar. «Estas ferramentas vão facilitar muitos processos.» Na realidade, um dos impactos mais imediatos da inteligência artificial poderá surgir fora do ato clínico. «Há muito trabalho burocrático que fazemos e que pode ser apoiado por estas ferramentas», diz. A IA pode ajudar em diversas áreas, como gestão hospitalar, processos logísticos ou organização de dados clínicos. «O objetivo seria libertar tempo para aquilo que realmente importa: o contacto direto com os doentes.» Ainda assim, como acontece em qualquer transformação profunda, a introdução destas tecnologias enfrenta resistência. «Há um nível de segurança que a presença física traz, que a distância não tem.» Por isso, a transformação terá de ser gradual. «Isto não se faz por decreto.» 

Além disso, a inteligência artificial não representa necessariamente uma redução imediata de custos. «Há um custo de implementação elevado e um custo de manutenção», explica o médico. A introdução de novas tecnologias exige também formação contínua dos profissionais. «Há uma verdadeira revolução tecnológica que exige novos conhecimentos.» A cirurgia robótica ilustra bem essa transformação, embora a sua implementação implique investimento significativo e uma longa curva de aprendizagem. «Há custos com equipamentos, consumíveis e formação», explica Pedro Correia Azevedo. «Mas a pergunta é: faz sentido implementar? Faz.» Sem esse investimento, diz, «a medicina simplesmente deixaria de evoluir». 

 

Agricultura também se escreve com IA 

Elizaveta Baranova, 27 anos, é engenheira aeroespacial de formação, mas foi no setor agrícola que encontrou uma oportunidade de negócio. Nasceu na Rússia e viveu na Suíça e Estados Unidos antes de se fixar em Portugal, onde identificou um problema durante visitas a vinhas. Ao observar a quantidade de resíduos deixados após as vindimas (o mosto), questionou-se sobre o seu potencial valor. A partir daí, iniciou um processo de investigação, apoiado desde o início por ferramentas de Inteligência Artificial, que a ajudaram a analisar literatura científica e a explorar soluções viáveis do ponto de vista técnico e económico. 

Cofundou a AGROPHENOLS, uma startup dedicada à transformação de resíduos agrícolas e alimentares em produtos como ingredientes para o setor nutracêutico, cosmético e soluções para o solo (como biocarvão), através de um modelo circular e sustentável. Segundo a fundadora, a tecnologia permitiu que profissionais mais experientes aumentassem a produtividade e autonomia. Por outro lado, identificou uma clivagem clara entre os que aprendem e os que resistem. «Quem se adapta ganha confiança e torna-se mais eficiente; quem resiste fica para trás», resume. 

Elizaveta Baranova, Cofundadora da AGROPHENOLS. Créditos: Julia Idamzhapova

O impacto é particularmente visível na área de investigação e desenvolvimento. A equipa utiliza ferramentas de IA para agilizar a pesquisa científica, analisar literatura e apoiar o desenho teórico. Estes sistemas permitem identificar rapidamente dados relevantes, estruturar protocolos e alinhar os projetos com o estado da arte. 

Além disso, a IA ajuda a organizar informação, sintetizar dados e destacar hipóteses-chave, bem como a mapear relações entre parâmetros de processamento e respostas biológicas. «Em vez de fazermos 150 amostras, podemos fazer 15 e o resto é gerado com apoio da IA». Ainda assim, sublinha que todos os resultados são «validados pela equipa humana, garantindo rigor científico e consistência». Esta relação entre humanos e tecnologia é indissociável, sobretudo em contextos científicos. «Uma não pode existir sem a outra». E reconhece que a aprendizagem é contínua, incluindo para si própria. «Aprendo sobre IA todos os dias», admite. 

Porém, no setor agrícola o impacto da IA acontece a outra velocidade. Elizaveta acredita que a tecnologia terá um papel relevante sobretudo nas áreas operacionais e de gestão, mas dificilmente substituirá o trabalho humano no terreno. «É um setor muito dependente de máquinas e de pessoas», explica. E é na robótica que prevê um impacto mais direto no futuro, que acaba por ser uma área indissociável da IA. 

No horizonte, estendem-se projetos como desenvolver um sistema modular para produção de biocarvão diretamente nas explorações agrícolas, com operação parcialmente automatizada e controlo remoto. O objetivo central é reduzir a necessidade de intervenção humana nas tarefas operacionais e aumentar a eficiência dos processos. «Queremos chegar a um modelo em que uma pessoa consiga supervisionar vários sistemas ao mesmo tempo», explica.

 

Grandes navios e covos sem nada lá dentro 

A primavera chegou com sol e na baía de Cascais já são centenas de pessoas a ir a banhos. Talvez seja bom para o turismo, para o comércio, para os táxis e TVDE, mas Paulo Pina, pescador há 25 anos, tem as suas reservas: «O mar está ácido, há cada vez menos peixe». 

No cais dos aprestos veste-se no módulo 14, com vista larga para o Estoril. O mar ali, porém, não tem nada de postal turístico. À superfície, junto do cais, flutuam toalhitas, plásticos, pedaços de roupa. «As redes apanham mais toalhitas do que peixe», diz, apontando para a água turva. A atribuição é direta: a poluição e as descargas de águas residuais, que agregam Cascais e partes do concelho de Sintra. Projetos de limpeza subaquática realizados na baía de Cascais já retiraram várias toneladas de lixo do fundo do mar, desde pneus a redes de pesca abandonadas, um retrato da pressão que o litoral sofre com resíduos urbanos.  

Paulo Pina, pescador, recolhe os covos que lançou ao mar na baía de Cascais.

Equipa-se com uma camisola azul desbotada, galochas laranja já gastas pelo sal e pelo tempo. Há entusiasmo no gesto e nas mãos endurecidas de quem faz do mar a vida. «O mar tem sido generoso comigo, mas ultimamente está mais difícil.» Desce até a um pequeno bote, o Vaivém, e rema cerca de cem metros até à embarcação maior que lhe sustenta os dias. Sete metros e meio de alumínio e um motor Honda levam-no ao mar no Rei – o nome do barco. Vai mais vezes no inverno do que no verão, e as milhas acumuladas já dariam para um livro inteiro. «O barco está a precisar de manutenção», admite sem rodeios. O maior troféu da carreira? «Uma corvina de 40 quilos.» Mas reconhece que os tempos são outros.    

Para a faina de hoje leva três baldes. Num deles estão cerca de 20 quilos de cavala que lhe custaram 25 euros – isco para os covos, armadilhas destinadas sobretudo ao polvo, robalo e a crustáceos como santolas ou sapateiras. O ponto onde os deixou no dia anterior não é fixo. «É mais empírico que científico, mas raramente é o mesmo.» Quase sempre sai sozinho, de madrugada, pelo peixe e um modo de vida. «Levanto-me às cinco da manhã, saio de casa num instante, bebo um café numa bomba de gasolina e venho para aqui. Ainda antes de amanhecer já estou no mar.» 

Quando o barco avança, a espuma das ondas salta para dentro da borda. Salga o cabelo, o corpo, a roupa. O horizonte abre-se e o silêncio instala-se. É uma solidão estranha, mas reconfortante. Com a jardineira impermeável já colada ao corpo, chega a hora de puxar os covos. Um vem vazio. Outro também. Depois mais um. Pequenos caranguejos, iscos de robalo demasiado miúdos para vender, passeiam pelo convés. 

Os covos são artesanais, feitos à mão com malha ou fio, às vezes com vegetação recolhida no local ou materiais reciclados. Os nós apertados contam a história de um ofício antigo. Um alador de pratos ajuda a puxar mais um covo. E mais outro. Ao todo são 60. Depois de vinte, ainda nada. Às vezes a faina é assim. Enquanto iça cada armadilha, corta metade de uma cavala e coloca-a no compartimento próprio do covo. Fecha-o, mede o gesto, guarda-o para mais tarde lançá-lo ao mar, sempre alinhado a partir da lateral do barco. Tudo com as mãos. Finalmente surge um polvo. «Mas é pequeno», observa, pesando-o com o olhar. Se não chegar aos 750 gramas, volta para o fundo. É a regra. 

Paulo Pina queixa-se das chuvas fortes: as cheias e a descarga dos rios para o estuário do Tejo trazem mais poluição e pesticidas para o mar. Outro problema são as florestas de laminarias, habitat marinho vital, agora quase desaparecidas. «Só a partir do Cabo da Roca ainda se encontram algumas», diz, esperançoso de que a ciência possa ajudar a recuperar espécies e ecossistemas. 

Os seus receios encontram respaldo em estudos: microplásticos foram detectados em cavala, carapau, mexilhão ou lambujinha ao longo da costa portuguesa. No estuário do Tejo, os sedimentos revelam dezenas de milhares de fibras plásticas por metro quadrado, capazes de entrar na cadeia alimentar. A baía de Cascais é monitorizada desde 2005 pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, que acompanha plâncton e temperatura da água. 

Nos últimos anos, imagens de satélite, sensores remotos e inteligência artificial permitem observar o oceano em detalhe. Algoritmos cruzam dados de temperatura, correntes e plâncton para prever fenómenos que afetam a pesca, enquanto plataformas como o Global Fishing Watch identificam práticas ilegais e pesca predatória. 

Paulo Pina aproveita o Windguru para saber do vento, mas deixa uma crítica à pesca industrial de grandes navios, que capturam toneladas de peixe de uma só vez. Em contraste, mantém a pesca seletiva: licença local, covos espalhados entre o Bugio e a Ericeira, cada armadilha lançada e cada polvo avaliado com cuidado. As gaivotas acompanham-no a poucos metros, atraídas pelo rasto das cavalas. Com 60 anos, mas aparentando menos, encontra energia na generosidade do mar. Ao fundo, a falésia da Boca do Inferno acena. «Gosto disto. Não me imagino a fazer outra coisa», repete, quase como um mantra. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

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