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Leonor Wicke

Setor agrícola prevê crescimento, mas enfrenta falta de mão de obra

18 Maio, 2026 by Leonor Wicke

As empresas que antecipam este problema apontam as alterações legislativas na lei da migração e consequente complexidade burocrática dos processos de regularização e contratação de imigrantes (33%) como o principal fator. Outras causas incluem a procura por melhores condições de vida e de trabalho noutros locais e países (14%); o desequilíbrio entre a oferta e a procura (14%) e a falta de alojamento (9,5%).

Estas são as conclusões do inquérito anual aos associados da AHSA – Associação de Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos concelhos de Odemira e Aljezur. A amostra da investigação é composta por mais de 30 empresas hortofrutícolas portuguesas da região do Sudoeste alentejano, com um período de auscultação que decorreu entre 18 de agosto e 15 de novembro de 2025.

 

Agricultura continua dependente de trabalhadores imigrantes

Face às preocupações demonstradas, o inquérito confirma ainda a forte dependência de mão de obra, em particular de trabalhadores estrangeiros. Neste ponto, refira-se que 74% das organizações têm mais de metade dos seus postos de trabalho preenchidos por imigrantes, com a maioria (55%) a destacar uma proporção superior a 75%.

Apesar dos receios, as expectativas para o volume total de negócio durante o próximo exercício são globalmente positivas: mais de 60% das empresas espera um aumento e 29% antevê estabilidade. O mesmo se verifica no que diz respeito às previsões do valor das exportações, com mais de metade das empresas a predizer uma subida e 32% que se mantenha estável.

Luís Mesquita Dias, presidente da AHSA, sublinha a relevância dos dados: «Este inquérito confirma um setor dinâmico e resiliente, com perspetivas de crescimento ao nível do volume de negócio e das exportações, mesmo num contexto exigente ao nível do recrutamento e mão de obra».

E concluiu: «As alterações legislativas na área da migração eram necessárias e fazem sentido, contribuindo para um enquadramento mais estruturado e equilibrado. No entanto, trazem consigo desafios operacionais e um período de adaptação que está a dificultar o acesso a trabalhadores estrangeiros, essenciais para a atividade. É importante garantir que este processo decorre com eficácia, minimizando impactos na capacidade de resposta das empresas no curto prazo».

 

Empresas do sudoeste alentejano são maioritariamente exportadoras

O inquérito sublinha também a forte vertente exportadora da agricultura do sudoeste alentejano: 65% das empresas exportam mais de 70% da produção, número que ascende a 77% no caso das que exportam mais de 40%. França, Reino Unido, Países Baixos, Espanha e Alemanha surgem em destaque como os principais mercados.

Relativamente aos resultados da atividade em 2025, a maior parte das empresas (75%) faz um balanço alinhado com ou acima das expectativas. Os dados evidenciam também que a maioria das empresas (81%) apresenta um volume de negócio anual superior a um milhão de euros e 45% mais de cinco milhões de euros.

Os dados surgem como resultado do inquérito anual da AHSA aos seus associados. A amostra é composta por mais de 30 empresas hortofrutícolas portuguesas da região do Sudoeste alentejano. O período de auscultação decorreu entre 18 de agosto e 15 de novembro de 2025 e obteve uma taxa de resposta de 80%.

Arquivado em:Nacional, Notícias

Ao CEO do Futuro peço: não confundas tecnologia com destino

18 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Caro CEO do Futuro, 

Escrevo-te com um entrelaçado de experiência primária, profissional e acima de tudo de vida. 

Nasci em 1981, em Campo Maior, onde a tecnologia chegava devagar e a vida avançava no ritmo da terra. Crescer no Alentejo interior ensinou‑me algo que nenhuma das escolas de gestão por onde passei superou. Ser consciente da paciência e visão de quem semeia antes de ver, e a responsabilidade de cuidar antes de colher. O Alentejo dos anos 80 era uma metáfora perfeita para gestão e liderança. Poucos recursos, muito engenho e a consciência de que o futuro só acontece quando alguém o prepara com sonhos e valores. 

Ao longo das últimas quatro décadas, vi a gestão transformar‑se tantas vezes quanto o próprio país e mundo. Passámos da liderança hierárquica para a colaborativa, da intuição para os dados, do controlo para a autonomia. E, sobretudo nos últimos anos, testemunhei o que significa liderar num mundo em que a tecnologia deixou de ser suporte e passou a ser uma força motriz. Como Managing Director da Claranet Portugal num setor tecnológico e inovador, aprendi que a liderança moderna exige respeito coletivo, humildade para aprender, coragem para decidir e clareza para transformar – com paciência e visão. 

Em 2045, ano em que termino o meu percurso profissional e tu passas a liderar, acredito que o papel de um CEO será radicalmente diferente – mas não mais simples. A inteligência artificial, de forma ampla, está omnipresente, mas não omnisciente. Lideras pessoas, máquinas e agentes, num enlace profundo, mas não absoluto. O mundo será mais rápido, mais imprevisível e mais interdependente do que qualquer geração anterior imaginou. Os mais novos não sabem o que é o mundo analógico. 

Por isso, deixo‑te esta mensagem curta. Não confundas tecnologia com destino. A inovação será a tua maior vantagem, mas também o teu maior risco. Liderar será equilibrar velocidade com ética, eficiência com humanidade, dados com razão e consciência. Rodeia‑te de pessoas que te contradigam com rigor e que te desafiem com integridade. Cria culturas onde errar cedo é melhor do que falhar tarde. E lembra‑te de que a tua organização não será medida apenas pelo que constrói, mas também pelo que protege – pessoas, confiança e propósito não são substituíveis por nenhuma doutrina, seja AI, blockchain ou quantum. 

Que continues a semear, mesmo quando não vês ainda o campo florescer. É assim que o Alentejo me ensinou a pensar o futuro – e é assim que te desejo que o conduzas. Termino com reticências, deixando tudo em aberto para ti… 

 

Leia aqui todas as Cartas ao CEO do Futuro:

Elsa Carvalho: «o futuro não precisará tanto de líderes brilhantes quanto de líderes lúcidos»

Susana Coerver: «Uma organização pode crescer e, ao mesmo tempo, empobrecer as pessoas que a constroem»

Joana Garoupa: «Nunca foi preciso esconder o apelido para caber no mundo»

Arquivado em:Opinião

Formação em Portugal: investimento estratégico ou apenas para cumprir a lei?

18 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Anos a colaborar com empresas portuguesas de diversas dimensões revelaram-me uma situação mista: muitas cumprem a lei, garantindo o mínimo de 40 horas anuais de formação contínua por trabalhador, mas para algumas entidades patronais é mais ‘para inglês ver’, se me permitem a expressão!

O que existe atualmente em Portugal é um paradoxo. Nunca se falou tanto de upskilling, reskilling, academias corporativas, aprendizagem contínua, liderança adaptativa ou competências adaptadas ao novo futuro criado pela IA. Nunca houve tanta oferta formativa, plataformas digitais de aprendizagem e tecnologia ao serviço do conhecimento. E, no entanto, em demasiadas organizações, continuam a pairar perguntas desconfortáveis. A formação profissional está a ser encarada como uma obrigatoriedade ou como um investimento que contribui para o bem dos colaboradores e a produtividade nacional? Estamos a desenvolver pessoas ou apenas a organizar formação? A diferença é enorme.

Organizar formação é simples: escolhe-se um tema, agenda-se uma sessão, recolhem-se presenças, distribuem-se certificados, mede-se satisfação, fecha-se o processo. Desenvolver pessoas é outra coisa, pois exige das empresas uma análise profunda das competências necessárias para o bom desempenho da função versus as competências demonstradas. E mais: exige do funcionário a mudança comportamental, a aplicação prática. Uma é atividade. A outra é transformação. E em Portugal continuamos a confundir uma com a outra.

Segundo o Relatório Anual da Formação Contínua 2023 do Gabinete de Estratégia e Planeamento, o mais recente a que há acesso, cerca de 1,3 milhões de trabalhadores participaram em formação, com um investimento declarado de 425,7 milhões de euros. Foram ministradas 46,3 milhões de horas de formação, com uma média de 34,2 horas por trabalhador abrangido. São números significativos que merecem reconhecimento, mas também exigem uma leitura crítica. A lei portuguesa prevê as 40 horas anuais de formação e a média declarada ficou abaixo disso.

Se acreditamos que as pessoas são importantes para o desenvolvimento de um negócio, então é lógico que temos que encarar a formação como um investimento estratégico! Não conheço nenhuma organização que declara que não valorize as pessoas.

Mas como medir o impacto da formação sobre o comportamento dos formandos e os benefícios para a entidade empregadora? Há uma frase célebre em inglês: You get what you measure. Considero o Modelo de Kirkpatrick a forma mais pragmática de medir a eficácia da formação. Resumidamente, os níveis 1 (reação) e 2 (aprendizagem) focam-se na reação imediata e na aquisição de conhecimentos, algo fácil de medir via questionários. O nível 3 (mudança de comportamento) é tipicamente observado e avaliado pela chefia direta, colegas e/ou equipa. É um processo difícil de implementar e tendencialmente subjectivo. Já o nível 4 (resultado e impacto no negócio/serviço) pode ser influenciado por outros factores, como o mercado, a concorrência, a conjuntura económica, etc.

Obviamente, os níveis 3 e 4 são fundamentais para medir a eficácia da formação. Queremos motivar uma mudança nas pessoas, quebrar hábitos ou vícios anteriores e começar a praticar novas rotinas em linha com os processos, ferramentas e competências exigidas pela organização, que por sua vez impactam o negócio.

Fácil de escrever, mas não tão fácil de implementar. Quantas vezes a Administração pergunta ao DRH qual o ROI sobre o investimento em formação? Esta questão não tem resposta. Neste mundo ofuscado pela gestão por objetivos (tipicamente de curto termo) é impossível calcular qual é a contribuição da formação para o alcance de um certo resultado. O número de acidentes na fábrica baixou devido à formação, porque houve uma maior atenção por parte do supervisor, ou porque uma inspeção recente fez com que todos os colaboradores ficassem mais atentos?

Portanto proponho olhar para isto de forma diferente: se os níveis 1 e 2 do Modelo de Kirkpatrick focam no ‘saber’ e no ‘saber fazer’, então o que falta medir é o ‘fazer-fazer’: a capacidade de o formando implementar no seu dia-a-dia. E só há uma forma de se avaliar isso: via observação e feedback objetivo ‘on job’, que deve ser da responsabilidade da chefia direta.

Dou o exemplo concreto de um cliente meu que implementa este processo com rigor. Tem fábrica, serviços administrativos, marketing e força de vendas. Realiza uma média de 40 horas de formação formal por empregado por ano, mas o dobro das horas de ‘treino on job’. As chefias têm em média oito empregados na equipa e passam o equivalente a um dia por mês com cada elemento, a observar e a analisar o trabalho, a dar feedback sobre comportamento e competências demonstrados. O CEO faz este processo com a Administração, a Administração com a Direção, a Direção com as chefias intermédias e as chefias com os empregados. Na reunião mensal da Administração, o primeiro ponto na agenda são os dias dedicados ao ‘treino on job’. Os resultados são extraordinários. Além de ter recebido a distinção Great Place to Work três vezes consecutivas, ganhou quota três anos seguidos e… Tem uma equipa motivadíssima.

Este é um exemplo de uma empresa que reconhece que a formação (e treino) é um verdadeiro investimento estratégico. E começa no topo da organização. Outro exemplo é o call center. Os operadores são constantemente observados pelos supervisores, não só para corrigir, mas para ajudar a melhorar a comunicação com o cliente. Como consequência, prestam um melhor serviço via implementação de ‘treino on job’.

Quase todas as empresas em Portugal já fizeram pelo menos um programa de formação em liderança e gestão de equipas. Mas será que essas formações resultam numa verdadeira diferença na forma como as chefias gerem e motivam colaboradores? O problema é que sabemos o que fazer, mas quando chegamos à realidade de implementar é mesmo difícil! Exige competências apuradas de observação, escuta, capacidade de fazer as perguntas certas, técnicas de feedback motivantes, consistência na comunicação, paciência, etc. E com a falta de tempo e a pressão dos objetivos mensais, isto fica pelo caminho.

Por isto é urgente repensar a formação. A começar por alterar a unidade de medida: passar de horas para resultados. Que se faça menos formação formal e mais treino, que se transformem as chefias em verdadeiros treinadores e experts em coaching on job e feedback. Deve-se ligar a formação à estratégia: se não mexe num KPI relevante, provavelmente não é prioritária. E medir? Sim, 90 dias depois. O verdadeiro teste é este: o que mudou on job?

Portugal precisa de mais produtividade e inovação, melhores líderes e maior competitividade. Nada disto acontecerá sem aprendizagem, mas a aprendizagem verdadeira só nasce quando alguém aprende algo, aplica melhor, produz mais valor e eleva a organização. Aprender só aporta benefício quando muda comportamento e melhora resultados. Tudo o resto é entretenimento corporativo caro.

Arquivado em:Opinião

41% dos líderes admitem que investimento em marketing não gera valor esperado

15 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Os departamentos de marketing estão a investir mais, a apostar em inteligência artificial e a reforçar a confiança nas suas estratégias. Mas, apesar desse otimismo, cresce um problema silencioso dentro das organizações: a incapacidade de provar o verdadeiro retorno do investimento.

A conclusão surge no novo estudo The Marketer’s Confidence Paradox, divulgado pela Incubeta, que analisou a perceção de líderes de marketing e CEOs no Reino Unido e nos Estados Unidos. O relatório identifica um desfasamento crescente entre aquilo que as empresas acreditam estar a funcionar e aquilo que conseguem realmente medir.

Segundo os dados, 70,4% dos líderes de marketing acreditam que os seus orçamentos estão a ser aplicados de forma eficaz e 92% consideram que os seus sistemas de medição são precisos. Ainda assim, 41,6% reconhece que parte desse investimento não está a gerar o valor total esperado.

As empresas continuam a medir canais, não impacto real

Um dos principais problemas apontados pelo estudo está na fragmentação da medição. Apesar da abundância de dados, dashboards e ferramentas analíticas, a maioria das organizações continua sem uma visão integrada do impacto do marketing no negócio.

Apenas 34,4% das empresas utiliza uma abordagem unificada para medir resultados de curto e longo prazo. Em contrapartida, muitas continuam dependentes de métricas nativas das plataformas digitais, focadas em canais isolados e não no efeito global das estratégias de marketing.

Modelos considerados mais robustos, como Marketing Mix Modelling (MMM) ou metodologias experimentais, continuam longe de ser amplamente adotados.

Para Patrícia Nabeto, Country Manager da Incubeta Portugal, o problema já não está na falta de ferramentas, mas na incapacidade de ligar investimento a resultados concretos: «As conclusões apontam para um desfasamento significativo entre execução e responsabilização. A medição continua fragmentada, a adoção de IA está maioritariamente limitada a tarefas criativas e muitas organizações ainda não dispõem da infraestrutura necessária para ligar investimento a resultados reais de negócio.»

Mais investimento pode estar apenas a amplificar ineficiências

O estudo mostra também que os orçamentos continuam a crescer. Cerca de 73,6% dos líderes aumentaram o investimento em marketing face ao ano anterior.

No entanto, sem resolver primeiro os problemas estruturais de medição e eficiência, este aumento pode acabar por amplificar desperdícios em vez de melhorar resultados. O paradoxo torna-se evidente: as equipas sentem-se mais confiantes, mas continuam sem conseguir provar claramente o impacto incremental das suas decisões.

IA gera entusiasmo, mas implementação continua limitada

A inteligência artificial surge como outro dos grandes temas do relatório. Embora 77% dos líderes acreditem que a IA melhora o desempenho do marketing, apenas 55% afirmam sentir-se preparados para a utilizar de forma eficaz. Além disso, 12% admitem não utilizar IA em qualquer nível da operação.

Segundo a Incubeta, a maioria das empresas continua a aplicar IA sobretudo em tarefas criativas e operacionais, sem integração estratégica profunda nos processos de decisão, análise e otimização de negócio.

O desafio já não está na crença no potencial da tecnologia, praticamente consensual, mas na capacidade de a implementar à escala e de forma consistente.

Arquivado em:Internacional, Marketing, Notícias

Crise da democracia, Xi Jinping e cidades: três livros para pensar política

15 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Esta seleção foi publicada na edição nº 33 da Revista Líder, cujo tema é a ‘Condição Humana’.

Boas leituras!

 

A Beleza de Um Corpo Nu – José António Bandeirinha

Tinta da China 

Um manifesto romântico sobre os destroços do conceito de cidade que é também um apelo à sua reconstituição. Talvez nunca se tenha falado tanto de cidade como hoje e, no entanto, ao longo da história multimilenar deste conceito, se calhar nunca estivemos tão distantes de o entender plenamente. Com esse intuito velado, o livro percorre mitos, ética, morte, arquitecturas, descendências suburbanas legítimas e ilegítimas e, por fim, a coisa política enquanto razão de ser. 

 

Para o Povo – C.Grayling

Penguin

Nos últimos vinte anos, o mundo enfrentou uma sucessão de crises, que resultaram em frustração, medo e ira. Ao apoiar-se no descontentamento social, o extremismo propõe soluções simplistas e estereotipadas em resposta às ansiedades e incertezas que afetam as nossas sociedades. E a consequência é que, por todo o mundo, os alicerces da democracia estão a ser corroídos. Neste livro, analisam-se as razões e o modo como isto está a acontecer e propõem-se soluções. 

 

Tudo sobre Xi – Michael Dillon

Ideias de Ler 

O atual presidente chinês aparece regularmente nas nossas televisões e nos jornais. Contudo, mesmo após uma década no poder, continua a ser uma figura misteriosa. Da juventude com um pai expurgado pela Revolução Cultural de Mao e com a sua missão de erradicar a pobreza, até à perseguição aos muçulmanos uigures e à paranoia de ser comparado a Winnie the Pooh, Xi Jinping é um homem complexo. Neste livro, o historiador Michael Dillon desvenda o carácter daquele que é, indiscutivelmente, um dos homens mais poderosos do mundo. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 33 da revista Líder, cujo tema é ‘Condição Humana’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Livros e Revistas, Notícias

O vazio dos canais de denúncia – que se tornam gritantes quando menos se espera!

15 Maio, 2026 by Leonor Wicke

A maioria das empresas portuguesas nunca estruturou verdadeiramente um canal de denúncia. Isto não resulta de desinteresse ou negligência, mas sim, em grande medida, da própria configuração do nosso tecido empresarial. Durante anos, o whistleblowing foi visto como um tema distante, associado a grandes organizações ou a multinacionais, e não como uma necessidade transversal. Mas essa perceção deixou de fazer sentido.

Hoje, o whistleblowing deixou de ser uma questão de dimensão e passou a ser uma questão de risco. É precisamente neste ponto que surge um segundo equívoco, talvez ainda mais relevante, que é a ideia de que cumprir a lei resolve o problema.

Com a entrada em vigor da Lei n.º 93/2021 e do Regime Geral da Prevenção da Corrupção, muitas organizações deram passos importantes, o que é positivo. Criaram-se emails, publicaram-se páginas institucionais e aprovaram-se políticas internas. Em muitos casos, instalou-se a perceção de que o tema estava tratado.

Mas não está. Um canal de denúncia não nasce quando se cria um endereço de email – que aliás não cumpre os requisitos legais. Um verdadeiro sistema completo de Compliance de Denúncias nasce quando existe um sistema capaz de receber, analisar, decidir e acompanhar. Um sistema que protege quem denuncia, que cumpre prazos, que garante confidencialidade, que assegura rastreabilidade e que, acima de tudo, transforma informação em decisão substancial para os denunciantes, para a organização e para o denunciado.

Quando esse sistema não existe, o que encontramos não é um canal de denúncia, mas apenas uma aparência de cumprimento normativo. E é aqui que importa clarificar um ponto essencial. O problema não é só da solução tecnológica – que deve ser robusta do ponto de vista legal, é estrutural, do modo de funcionamento da organização.

Existe uma tendência para procurar soluções rápidas, o que é importante, porém a tecnologia é apenas uma parte da equação, temos de desenhar e ter a coragem de implementar Soluções Completas, Whistleblowing Channels.

O que verdadeiramente define se um Whistleblowing Channel funciona é o seu desenho. Quem recebe a denúncia, quem a analisa, com que critérios, com que independência, com que garantias e com que capacidade de resposta. É este conjunto de decisões que determina a eficácia do sistema. Sem esse desenho, qualquer ferramenta falha. E quando falha, o impacto não é neutro.

Uma organização sem um canal de denúncia eficaz não é apenas menos conforme, é mais vulnerável. Fica sem um mecanismo interno que permita detetar comportamentos desviantes, irregularidades, conflitos de interesse, situações de assédio ou falhas de controlo e quando esse mecanismo não existe, ou não é credível, o risco não desaparece. Apenas se desloca.

O Risco de Denúncias que não podem ser devidamente formuladas e acompanhadas saírem da organização e chegarem ao regulador, à autoridade, ao tribunal ou à opinião pública é grande e passa a ser um Risco Reputacional.

Por isso, o canal de denúncia não deve ser visto como um instrumento defensivo, antes como, um mecanismo de antecipação, sendo que muitas vezes, representa a última oportunidade que a organização tem para conhecer um problema concreto ou múltiplos a tempo de agir.

Um canal sem independência não é utilizado. Um canal sem confidencialidade não gera confiança. Um canal sem critérios de triagem conduz a decisões erradas. Um canal sem prazos perde credibilidade. Um canal sem reporte não produz conhecimento útil. Nestes casos, o canal existe, mas não protege. Em algumas situações, pode até agravar o risco, porque cria uma sensação de controlo que, na prática, não existe. Entretanto, o contexto mudou.

Assim, impõe-se ter um sistema que integra enquadramento jurídico, governação do processo, independência, confidencialidade, rastreabilidade e capacidade de reporte, um sistema que funciona de forma consistente, previsível e segura e, acima de tudo, um sistema que gere confiança. Confiança de quem denuncia, de que será protegido. Confiança de quem decide, de que tem informação fiável. Confiança da organização, de que consegue antecipar riscos.

A oportunidade de deixar de olhar para o whistleblowing como um requisito legal e passar a tratá-lo como aquilo que realmente é, uma peça central da arquitetura de confiança de qualquer organização.

Porque, no fim, a diferença não está em ter um canal, está em ter um sistema que funcione, sobretudo quando mais importa. Receber atempadamente as denúncias, ir tratando seriamente dos temas e prevenindo Danos Reputacionais Futuros. Antes de serem gritantes!

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