Poucos animais despertam tanta curiosidade e medo como os tubarões. Gigantes silenciosos, caçadores natos, mas também vítimas de uma exploração desenfreada. Estima-se que cerca de 100 milhões de tubarões sejam mortos anualmente, principalmente devido à pesca para a obtenção de barbatanas, carne e fígado, levando um quarto das espécies ao risco de extinção, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Num mundo onde o desconhecido rima demasiadas vezes com destruição, há quem se aventure para lá da espuma das ondas, explorando as profundezas para entender e proteger. Uma dessas exploradoras é portuguesa e está na linha da frente pela conservação dos tubarões e raias.
Para assinalar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, a Líder esteve à conversa com Ana Lúcia Furtado, cientista marinha e investigadora especializada em biodiversidade e conservação. Atualmente, está a realizar o seu doutoramento na Ludwig-Maximilians-Universität München (LMU) e coordena projetos fundamentais para a proteção dos elasmobrânquios, especialmente em Angola. Nas suas palavras, «tal como o oceano, a ciência também precisa de diversidade para prosperar».
De que forma surgiu a sua ligação ao oceano e, em particular, o fascínio pelos tubarões?
Cresci na Costa da Caparica, sempre com o mar como pano de fundo. O surf, os mergulhos e a simples presença da imensidão azul moldaram a minha paixão pelo oceano. Desde cedo quis compreender melhor os seus segredos, e isso levou-me a estudar Ciências do Mar, seguido de um mestrado em Biodiversidade e Conservação Marinha. A fazer investigação trabalhei em diversos países, como Brasil, França, Portugal, Emirados Árabes Unidos e Bélgica, mas foi nos tubarões que encontrei a minha verdadeira vocação. São criaturas fascinantes, muitas vezes incompreendidas e injustamente temidas. Mas são essenciais para a saúde dos ecossistemas marinhos.
O que mais a cativa na dinâmica da vida marinha e na sua atividade profissional?
O oceano é um mundo em permanente mutação, um palco de interações complexas entre espécies. Cada dia é uma nova descoberta. O que me motiva é saber que o meu trabalho pode ter um impacto real na conservação dos tubarões e raias, especialmente em Angola, onde a pesca tem consequências alarmantes e os dados sobre estas espécies são escassos. Cada dia no terreno é um desafio, desde a identificação de espécies até ao contacto com as comunidades locais, mas é extremamente gratificante ver o envolvimento crescente dos pescadores e estudantes na conservação marinha local. Essa é a nossa a maior recompensa.

Teve algum momento marcante que confirmou a importância do seu trabalho?
Sim, vários. Um dos mais impactantes foi em Angola, quando, durante uma expedição, encontrei uma espécie de tubarão dada como possivelmente extinta no país. Esse momento reforçou a necessidade urgente de investigação e conservação marinha na região. Também foi transformador perceber como os pescadores, muitas vezes vistos apenas como agentes de exploração, podem ser aliados fundamentais na conservação quando são bem informados e envolvidos no processo.
O seu trabalho não se limita apenas ao estudo dos oceanos, pois também envolve uma interação significativa com as comunidades locais. Como vê a importância de compreender as dinâmicas dessas comunidades no contexto da sua investigação?
Além da investigação científica no meio marinho, considero fundamental compreender as dinâmicas das comunidades locais, em especial as que dependem diretamente dos recursos marinhos. O envolvimento com pescadores e comunidade local permite não só a recolha de dados etnoecológicos relevantes, mas também a promoção de estratégias de conservação mais eficazes e sustentáveis. Esta abordagem integrada garante que as iniciativas de preservação sejam também benéficas para as populações que têm no mar a sua principal fonte de subsistência.
Sendo mulher numa área ainda muito masculina, enfrentou desafios acrescidos?
Sim, ao longo do meu percurso académico e profissional, senti que, em certas situações, tive de demonstrar mais competência e resiliência para ser levada a sério, sobretudo no terreno, onde a ciência marinha e a conservação ainda são áreas dominadas por homens. Ganhar a confiança dos pescadores e dos líderes locais exige perseverança e diplomacia. Mas vejo uma mudança a acontecer, e é essencial que mais mulheres liderem projetos científicos e de conservação.
Que descoberta ou avanço científico gostaria de testemunhar na sua área de investigação?
Gostava que encontrássemos soluções eficazes de restaurar as populações de tubarões e raias, seja através de avanços na reprodução em cativeiro ou através de gestão mais inteligente das pescas. Outra grande necessidade é desenvolver métodos inovadores para reduzir as capturas acidentais (bycatch), que dizimam espécies vulneráveis todos os anos.
Quem são as suas maiores inspirações na ciência?
A Dra. Sylvia Earle é uma referência inquestionável. A sua dedicação à exploração oceânica e à sensibilização para a conservação marinha é notável. Também admiro o trabalho da Dra. Rima Jabado, cuja investigação tem sido fundamental para a proteção dos tubarões. O percurso destas mulheres prova que a ciência e a conservação necessitam de diversidade para enfrentar os desafios ambientais do futuro.
Se pudesse deixar uma mensagem sobre a importância da proteção dos oceanos, qual seria?
O oceano é a base da vida no planeta, mas estamos a tratá-lo como se fosse inesgotável. A sobrepesca, a poluição e as alterações climáticas estão a destruí-lo, e espécies essenciais como os tubarões estão em declínio. Precisamos de educar as novas gerações, reduzir o plástico e adotar práticas mais sustentáveis. E, acima de tudo, motivar mais mulheres a entrarem na ciência e na conservação marinha. Porque, tal como o oceano, a ciência também precisa de diversidade para prosperar.



