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Marcelo Teixeira

O Nervo Vago: a autoestrada do bem-estar

13 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

Atualmente, o nervo vago está em todo o lado. Não me refiro ao corpo todo (na verdade, ele deixa de vaguear algures pelo intestino), mas à cultura popular. Um pouco por todo o mundo, os gurus do bem-estar parecem saber como «pirateá-lo» para melhorar a nossa saúde e diminuir o stress, e até já é possível comprar um estimulador do nervo vago que faz o trabalho por nós.

A versão resumida da história é esta: o nervo vago é o braço principal do sistema nervoso parassimpático, que transmite sinais de «repousar e digerir» do cérebro para os órgãos do corpo e diminui a resposta inflamatória. Depois, a história continua e, se estimularmos esta parte do sistema nervoso, podemos acalmar o corpo de cima para baixo, a partir do cérebro. Isto, por sua vez, altera os sinais corporais que são enviados de baixo para cima, e o corpo passa de uma resposta de lutar ou fugir para o equivalente biológico a uma playlist relaxante. Todos ficam felizes — sobretudo os órgãos sobrecarregados e o sistema imunitário.

A teoria polivagal de Stephen Porges, publicada pela primeira vez em 1995, é uma adição comum a esta narrativa básica. Porges acredita que os mamíferos desenvolveram um ramo extra da via vagal parassimpática, que foi adicionado à resposta «primitiva» de lutar ou fugir. De acordo com esta teoria, a nova via evoluiu para permitir a adaptação à vida em grupo — quando os mamíferos começaram a trabalhar em conjunto, passaram a confiar na família e amigos para se manterem seguros. Por isso, afirma Porges, surgiu uma nova via vagal, preparada para detetar sinais sociais de segurança — uma voz calma ou um rosto amigável —, que nos ajuda a controlar as nossas respostas mais primitivas.

Esta teoria tem sido particularmente influente na terapia do trauma, servindo de base a intervenções que visam conseguir que sobreviventes de traumas se sintam seguros no seu próprio corpo. Porém, alguns neurocientistas apontam-lhe vários problemas. Desde logo, aquilo que Porges descreve como um caminho evolutivo novo nos mamíferos é, na verdade, algo muito mais antigo do que ele imaginava, e existe também nos peixes e répteis. Neuroanatomistas, que rastreiam o trajeto das vias nervosas, argumentaram também que não há qualquer evidência de que exista um «ramo especial» social. Isto não significa que o apoio social não seja importante — há vários estudos que comprovam que ele é vital para a nossa saúde e bem-estar —, mas sim que ainda não sabemos ao certo se isso está, de alguma forma, relacionado com uma ramificação especial do nervo vago.

Ainda assim, a maior preocupação sobre esta visão popular do nervo vago é a crença comum de que ele é a «solução única» para a atividade parassimpática e para um estado de calma. De facto, os nervos parassimpáticos representam apenas cerca de 20 por cento do total do nervo vago; os restantes 80 por cento são constituídos pelas chamadas fibras sensoriais aferentes, que transmitem informações sensoriais de baixo para cima, isto é, dos órgãos e outras vísceras para o cérebro. São estas fibras que estão envolvidas em tudo, desde o sentido do eu aos sentimentos, motivações e emoções, ao que comemos e quando devemos parar, e ao que sentimos em relação ao que nos rodeia. Por isso, apesar de todo o alarido e entusiasmo, se realmente queremos perceber como é que podemos «piratear» o nervo vago, precisamos de saber mais sobre o destino destas fibras e a sua função. Felizmente, existem já vários grupos de investigação em todo o mundo a trabalhar exatamente nisto.

Mapear o caminho do Nervo Vago

Há uma célebre frase de J.R.R. Tolkien que diz: «Nem todos os que vagueiam estão perdidos.» E isto aplica-se ao nervo vago. Quando visito os Feinstein Institutes for Medical Research, em Nova Iorque, onde os investigadores estão a mapear todas as 100 mil fibras existentes numa ramificação do nervo, rapidamente me vejo no meio de um debate sobre se «o nervo errante» não deveria ter um nome mais adequado. «Será que ele vagueia mesmo?», interroga-se o neurocientista Naveen Jayaprakash. «Ele sabe para onde vai…»

Jayaprakash conduz-me pelas instalações — um espaço aberto, que seria totalmente banal não fosse o laboratório luminoso e envidraçado que parece ter sido colocado no meio das fileiras de cubículos. No interior daquilo que parece ser um aquário científico, Jayaprakash apresenta-me o diretor do projeto, Stavros Zanos, e o seu colega Ibrahim Mughrabi. Com uma bata branca e luvas de látex azuis, ele prepara secções do nervo vago humano para serem analisadas ao microscópio.

Os três explicam-me o trabalho que estão a desenvolver: um projeto de três anos, no valor de sete milhões de dólares, para mapear os nervos vagos de pessoas que doaram os seus corpos à investigação médica. O objetivo do estudo é usar os nervos dissecados para construir um mapa interativo em 3D que mostre onde estão localizadas as fibras nervosas individuais que compõem o nervo vago e em que direção é que elas transportam a informação (se do corpo para o cérebro ou do cérebro para o corpo). O projeto faz parte de uma iniciativa mais vasta financiada pelo National Institutes of Health, dos Estados Unidos, que será partilhada com cientistas de todo o mundo para que aqueles caminhos possam ser aproveitados na promoção da saúde e no tratamento de doenças.

Remover o nervo do corpo é, afirma Jayaprakash, «um processo longo» realizado por um neurocirurgião durante vários dias. O cirurgião começa por identificar o nervo na base do crânio, próximo do ponto onde ele sai do cérebro, e segue-o cuidadosamente por um dos lados do pescoço (existem dois ramos, um de cada lado) até ao tórax e abdómen, onde se ramifica para alcançar os diferentes órgãos.

Jayaprakash mostra-me uma fotografia de um nervo recentemente dissecado. Parece um pedaço de fio de borracha, amarelado e ligeiramente desfiado, com pouco menos de 30 cm de comprimento e tocos no ponto de junção com as suas ramificações principais. Cada toco foi marcado com um código de cores — vermelho para o coração, azul para os pulmões, e assim por diante — e, na parte inferior, foi adicionado um corante para que os cientistas pudessem manter o nervo na posição correta.

Jayaprakash explica-me por que motivo o nervo é cortado logo após as junções principais. Assim que uma ramificação deixa a via principal, ela divide-se em duas a cada meio milímetro em média (o equivalente a dois centésimos de polegada). Na ramificação que segue para o coração, as coisas tornam-se particularmente complexas. «Se eu lhe mostrasse o nervo com todas as ramificações, julgaria tratar-se de uma teia», diz Jayaprakash. «Quando chega ao intestino», acrescenta, «parece uma bola de esparguete».

Depois de extraído e rotulado, o nervo é colocado num pequeno leitor de tomografia computorizada (TAC), que nos oferece uma espécie de raio-X 3D e revela o contorno dos fascículos, uma série de tubos minúsculos que separam as diferentes fibras dentro do tronco do nervo. Com algum processamento, obtém-se um vídeo 3D codificado por cores que simula uma viagem através do nervo desde o pescoço. Jayaprakash mostra-me um pequeno vídeo de um nervo que já foi digitalizado. Parece um feixe de palhinhas flexíveis que, por vezes, mudam de posição dentro do nervo maior e, frequentemente, se dividem em dois e seguem noutra direção.

O que a TAC não mostra é o tipo de fibras que estão dentro de cada fascículo — se são vias sensoriais do corpo para o cérebro ou vias parassimpáticas do cérebro para o corpo. E é importante saber, se o que pretendemos é alcançar um determinado órgão ou caminho específico sem envolver os outros. Para isso, o passo seguinte é envolver o nervo em cera, cortá-lo em lâminas finas e tingi-lo com corantes fluorescentes que aderem apenas a certos tipos de nervos. Isto permitirá aos cientistas distinguirem as fibras grossas, de condução rápida, das finas, de condução lenta, e identificarem as que enviam mensagens do corpo para o cérebro e as que seguem do cérebro para o corpo. Quando isso estiver feito para todos os 30 nervos doados, a etapa final será a criação de um mapa 3D interativo que mostre que tipos de fibras nervosas vão para onde e em que direção enviam os sinais. Há dezenas de nervos ainda por dissecar e analisar, mas existem razões para acreditar que todo este esforço valerá a pena.

Estudos iniciais usando o mesmo método em porcos mostraram que os fascículos para diferentes órgãos tendem a agrupar-se num lado do nervo imediatamente antes de divergirem nas ramificações principais. Se o mesmo se verificar nos seres humanos, deverá ser possível direcionar a estimulação para órgãos ou vias específicos, evitando outros. Um estudo-piloto, também realizado em porcos e usando um estimulador adaptado, mostrou que os pulmões poderiam ser estimulados sem afetar o coração. Por outro lado, como as ramificações dos órgãos só parecem agrupar-se próximo das suas junções de saída, poderá ser difícil direcionar a estimulação seletivamente para o estômago e intestinos usando um estimulador no pescoço — provavelmente seria necessário estimular mais próximo do estômago. Este é um procedimento mais invasivo, mas que está a ser testado para controlar os sinais interocetivos de fome como uma alternativa de menor risco à cirurgia de bypass gástrico.

Por outro lado, há uma separação clara ao nível do pescoço entre as mensagens ascendentes dos órgãos, que transportam os sinais corporais para o cérebro, e os nervos parassimpáticos descendentes, que são responsáveis pela resposta «repousar e digerir». Isto é positivo, porque nos poucos casos em que a estimulação do nervo vago é atualmente usada, incluindo a epilepsia e a depressão grave, os estimuladores são implantados no pescoço. No entanto, a tecnologia ainda é limitada porque, quando um implante é ligado ao nervo no pescoço através de um elétrodo, todas as fibras do nervo são estimuladas ao mesmo tempo — todas as 100 mil fibras no ramo esquerdo do nervo, sem que haja forma de controlar para onde vai a corrente.

Por isso, os efeitos colaterais vão desde dor de garganta e tosse a falta de ar, náuseas e uma quebra potencialmente perigosa do ritmo cardíaco. Estes efeitos podem ser controlados ajustando-se o estimulador para uma intensidade menor, mas Stephen Liberles, um neurocientista da Universidade de Harvard, explicou-me que, em muitos casos, isso também anula os benefícios. Quando o mapa estiver completo, a equipa de Nova Iorque espera conseguir desenvolver estimuladores que possam ter como alvo órgãos específicos, sem afetar outros. Desta forma, será mais fácil conceber tratamentos eficazes e evitar os efeitos colaterais.

 

 

Este artigo foi publicado a partir de um excerto original do livro ‘O Sentido Interior’ da autora Caroline Williams, com o consentimento da mesma.

Arquivado em:Artigos

Os dez maiores álbuns de sempre, segundo a Rolling Stone 

13 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

Da poesia crua de Bob Dylan ao génio multifacetado de Prince, passando pelo manifesto social de Marvin Gaye e o grunge que mudou o rock com Nirvana — esta lista é um retrato da música que moldou gerações.

1. What’s Going On – Marvin Gaye (1971)


Álbum conceitual profundamente emotivo, aborda questões como a guerra do Vietname, pobreza e justiça social . Primeiro trabalho em que Marvin Gaye assume o papel de produtor e consegue infundir a sua voz com mensagem e harmonia revolucionárias.

 

2. Pet Sounds – The Beach Boys (1966)

Marco da pop progressiva, distinguido pelas harmonias sofisticadas e arranjos orquestrais complexos. É amplamente reconhecido como influência direta de Sgt. Pepper’s dos Beatles.

 

3. Blue – Joni Mitchell (1971)


Celebrado pela sua honestidade lírica e intimidade absoluta, Blue é um exemplo extraordinário de autobiografia em forma de música — o poder emocional do álbum permanece intacto em todas as gerações.

 

4. Songs in the Key of Life – Stevie Wonder (1976)


Uma celebração ambiciosa e expansiva da vida, com fusões de soul, jazz e funk e uma mensagem profunda de esperança. Um álbum duplo que reflete temas sociais, amor e espiritualidade.

 

5. Abbey Road – The Beatles (1969)


Último álbum gravado pelos Beatles, famoso pela sequência final icónica (“Here Comes the Sun”, “Come Together”) e pelas técnicas de estúdio avançadas que ainda hoje influenciam músicos e produtores.

 

6. Nevermind – Nirvana (1991)


Impulsionador do movimento grunge, trouxe o punk-rock ao mainstream. Nevermind redefiniu o rock dos anos 90 com energia crua e sinceridade urgente que ressoou com toda uma geração.

 

7. Rumours – Fleetwood Mac (1977)


Um dos álbuns mais vendidos de todos os tempos, resultado de tensões pessoais e histórias de traição pessoal. Bradado pela sua produção cristalina e canções eternas como “Go Your Own Way” e “Dreams”.

 

8. Purple Rain – Prince and the Revolution (1984)

Trilha sonora do filme homónimo, é uma mistura poderosa de funk, rock e soul. Um documento da versatilidade musical de Prince e do seu estilo teatral e emocionado.

 

9. Blood on the Tracks – Bob Dylan (1975)


Álbum profundamente pessoal e introspectivo, frequentemente visto como a obra-prima de Dylan na exploração de relacionamentos desintegrados. É uma jornada emocional em forma de música.

 

10. The Miseducation of Lauryn Hill – Lauryn Hill (1998)

 

Álbum de estreia que combinou rap, soul e R&B com mensagens poderosas sobre amor, espiritualidade e identidade. Colocado no top 10 da Rolling Stone 2020, é celebrado por sua intensidade e autenticidade.

 

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Lazer, Notícias

Academia Doutor Finanças lança dois novos cursos online de literacia financeira

13 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

O Doutor Finanças, fintech especializada em bem-estar financeiro, reforçou a sua plataforma de e-learning, Academia Doutor Finanças, com dois novos cursos: Como planear a reforma? e Investimentos II. A oferta formativa da Academia passa assim a contar com seis cursos 100% digitais, práticos e acessíveis, focados em literacia financeira.

Os novos conteúdos juntam-se aos lançados em março — Orçamento Pessoal e Familiar, Guia Prático para o IRS, Investir com Sucesso: Primeiros Passos e Crédito Responsável.

«Cada curso é desenvolvido com base nas dúvidas reais que recebemos diariamente, para capacitar os participantes a tomarem decisões mais conscientes, melhorarem a relação com o dinheiro e conquistarem maior estabilidade financeira», afirma Sérgio Cardoso, Chief Education Officer do Doutor Finanças.

Com aulas em vídeo, recursos complementares e exercícios práticos, a Academia oferece ainda alguns conteúdos gratuitos, promovendo o acesso democrático à literacia financeira. Desde a sua criação, já formou mais de 28 mil pessoas e realizou mais de 1.000 horas de formação em mais de 260 organizações pelo país.

Até ao final do ano, está previsto o lançamento de novos cursos e recursos pedagógicos, reforçando a missão da fintech de preparar os portugueses para os desafios financeiros atuais e futuros.

Arquivado em:Educação, Notícias

Urs Solenthaler assume direção-geral do InterContinental Cascais-Estoril

13 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

O suíço Urs Solenthaler é o novo diretor-geral do InterContinental Cascais-Estoril, sucedendo a Francelina Amaral, que liderou a unidade durante quatro anos e parte agora para outro desafio dentro do grupo IHG.

Com três décadas de experiência no setor hoteleiro, Solenthaler regressa ao IHG Hotels & Resorts, onde já desempenhou funções de topo em várias unidades na Europa. O seu currículo inclui passagens por marcas de luxo como Shangri-La, Four Seasons, Marriott, The Sentosa Resort & Spa e Goodwood Park Hotel. Entre os prémios conquistados, destacam-se o ‘World Top 100 General Manager Award’ e o ‘Best Kuwait General Manager Award’, ambos em 2023.

Antes de chegar a Portugal, liderava o Hilton Hotels & Resorts, na Tailândia, e anteriormente foi diretor-geral do The Regency Hotel Kuwait. Também exerceu funções no Le Royal Meridien Abu Dhabi.

Ao assumir o cargo, Urs Solenthaler sublinha a ambição de «reforçar o posicionamento do InterContinental Cascais-Estoril como referência de excelência» e de «elevar continuamente a experiência dos hóspedes, mantendo padrões máximos de hospitalidade e uma cultura de qualidade e crescimento sustentável».

Arquivado em:Notícias, Pessoas

O mundo em Genebra: última oportunidade para travar a poluição por plásticos

11 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

Até 14 de agosto, Genebra será palco da conferência INC-5.2, que poderá marcar um ponto de viragem na luta contra um dos maiores desafios ambientais do século: a poluição por plásticos. O encontro pretende finalizar um tratado global juridicamente vinculativo que cubra todo o ciclo de vida do plástico — desde o desenho e produção, até ao consumo e à gestão de resíduos.

A urgência é clara. A produção mundial anual de plásticos já ultrapassa os 460 milhões de toneladas e, segundo estimativas, 20 milhões acabam todos os anos no ambiente, contaminando solos, rios, zonas costeiras e habitats marinhos. A tendência é de crescimento: a OCDE prevê que, em 2060, o volume global de resíduos plásticos atinja 1,7 mil milhões de toneladas, com custos acumulados que poderão chegar aos 281 biliões de dólares no período entre 2016 e 2040.

O Fórum Económico Mundial (a partir de onde foi feito este artigo)  recorda que a poluição é um dos dez riscos com maior impacto esperado na próxima década. O seu projeto Global Plastic Action Partnership (GPAP) atua como força de convergência, ajudando países a transformar compromissos internacionais em impacto real.

 

O que está em jogo no INC-5.2

A 5.ª sessão da Assembleia das Nações Unidas para o Ambiente, realizada em 2022, adotou uma resolução histórica: criar um tratado internacional para acabar com a poluição por plásticos. Foi estabelecido que este instrumento legal deveria abordar todo o ciclo de vida do material, e não apenas o seu destino final.

Desde então, o Comité Internacional de Negociação (INC) reuniu cinco vezes. O último encontro, em Busan (Coreia do Sul), em 2024, pretendia fechar o acordo — mas não foi possível ultrapassar divergências centrais. Entre elas, o alcance do tratado: alguns defendem um foco restrito na gestão de resíduos, outros exigem medidas desde a conceção dos produtos até à eliminação de químicos nocivos. Outro ponto crítico é a limitação da produção de polímeros virgens e a criação de mecanismos de financiamento para a implementação das metas.

O INC-5.2, que agora arranca em Genebra, será a derradeira oportunidade para chegar a consenso. As negociações irão basear-se no atual ‘texto do presidente’, procurando soluções que conciliem ambição ambiental e viabilidade económica.

Um problema com impacto ambiental e humano

A poluição plástica não é apenas uma questão estética ou de gestão de resíduos. Cerca de 90% dos plásticos nos oceanos já são microplásticos, provenientes da degradação de objetos maiores ou produzidos intencionalmente em dimensões reduzidas. Estes fragmentos infiltram-se nos ecossistemas, afetam a biodiversidade e acabam por entrar na cadeia alimentar humana, com riscos ainda não totalmente avaliados para a saúde.

O problema tem múltiplas origens: produtos descartáveis (garrafas, copos, sacos), atividades industriais, construção civil e agricultura. O escoamento de águas pluviais urbanas é a principal via de entrada dos resíduos terrestres no mar.

Para além de degradar ecossistemas, a produção e gestão de plásticos é responsável por cerca de 4% das emissões globais de gases com efeito de estufa. O impacto económico é igualmente massivo, com custos ambientais e sociais que se acumulam ao longo das décadas.

Porque o tratado é crucial

Vários países já impuseram restrições ou proibições aos plásticos de uso único. No entanto, a ação global continua fragmentada e insuficiente. Um tratado global poderá estabelecer metas comuns, normas vinculativas e mecanismos de apoio técnico e financeiro, permitindo transitar para economias circulares assentes na reutilização e reciclagem.

O GPAP e outras organizações internacionais sublinham que as metas precisam de ser adaptadas à realidade de cada país — sobretudo os que não dispõem de infraestrutura adequada para gerir resíduos plásticos. Caso contrário, os padrões globais correm o risco de se transformar em ilhas regulatórias isoladas, incapazes de travar o problema à escala necessária.

O sucesso em Genebra dependerá, em última análise, da capacidade de conciliar ambição política, consenso técnico e compromisso financeiro. Sem isso, o mundo continuará a produzir e descartar plástico a um ritmo que nem a natureza nem as sociedades conseguem suportar.

 

Arquivado em:Clima, Notícias, Sustentabilidade

Emprego sazonal impulsiona queda da taxa de desemprego para 6%

11 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

A taxa de desemprego em Portugal registou uma queda para 6% em junho, uma redução de 0,1 pontos percentuais face a maio e 0,3 pontos em relação ao mesmo mês de 2024, indicam os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE). O mercado de trabalho continua a mostrar sinais de recuperação, com um aumento de 8.300 pessoas empregadas, totalizando 5.227.800 trabalhadores ativos, o que representa um crescimento mensal de 0,2% e homólogo de 3,5%.

A população ativa também cresceu, atingindo 5.563.300 pessoas, impulsionada pela expansão do emprego. Consequentemente, a taxa de emprego subiu para 65,1%, mais 0,1 ponto percentual que em maio e 1,2 pontos em relação a junho de 2024, evidenciando uma trajetória de crescimento sustentado.

 

Queda generalizada do desemprego destaca jovens e mulheres

Segundo o INE, o número total de desempregados em junho foi de 335.500, menos 5.300 face a maio (-1,5%). A redução foi observada em todos os grandes grupos populacionais, com maior incidência entre os jovens dos 16 aos 24 anos, que perderam 3.600 desempregados (-3,6%), e entre as mulheres, que registaram uma diminuição de 4.400 desempregadas (-2,4%).

Os dados do Serviço Público de Emprego (IEFP) confirmam esta tendência, apontando uma queda de 2,5% no desemprego registado face ao mês anterior, com 7.417 pessoas a deixarem as listas de desemprego, fixando-se em 293.488. Esta redução ocorreu em todas as regiões, com destaque para o Norte (-2.265 pessoas), Lisboa e Vale do Tejo (-1.835) e Algarve (-1.369).

O setor dos serviços foi o que mais contribuiu para esta melhoria, com uma queda de 2,2% no desemprego registado, principalmente nas atividades imobiliárias, administrativas, de apoio, alojamento e restauração, e comércio por grosso e retalho. Profissões ligadas a serviços pessoais, como cabeleireiros, esteticistas e empregados de limpeza, beneficiaram particularmente do aumento da procura sazonal durante o verão.

Apesar de ser habitual uma redução do desemprego nesta época do ano, o desempenho de 2025 supera o de 2024, tanto na variação mensal como na homóloga, refletindo uma melhoria mais consistente e dinâmica no mercado laboral.

 

Salários médios continuam a subir

No que respeita à remuneração, os dados da Segurança Social indicam que o salário médio por trabalho dependente declarada em maio foi de 1.544,83 euros, o que representa um aumento de 1% face a abril e 4,9% em comparação com maio do ano anterior. Lisboa mantém os salários médios mais elevados (1.794,80 euros), enquanto as regiões de Bragança (1.263,50 euros) e Beja (1.270,87 euros) registam os valores mais baixos, refletindo uma diferença salarial de mais de 500 euros.

Isabel Roseiro, diretora de marketing da Randstad Portugal, destaca que «os dados de junho revelam uma evolução muito positiva, especialmente no início da época alta económica. A queda do desemprego em praticamente todos os segmentos populacionais mostra não só os efeitos da sazonalidade, mas também uma maior dinâmica de contratação em setores-chave. O desafio será manter esta tendência ao longo do segundo semestre».

 

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