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Marcelo Teixeira

Alemanha em sete minutos: poder e protesto nas engrenagens do tempo

18 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

A Alemanha é um mecanismo de precisão com alma — moderna como uma linha de montagem que nunca falha, mas antiga como a pedra húmida de uma catedral gótica. É o país onde Goethe e Beethoven ainda respiram nas bibliotecas e salas de concerto, enquanto Berlim, com as suas paredes grafitadas, escreve o futuro a tinta fresca e cultura underground.

No Global Soft Power Index 2025, a Alemanha ocupa o 5.º lugar, atrás de EUA, China, Reino Unido e Japão, num universo de 193 países. Não é apenas a engenharia de luxo ou a cerveja: é uma influência que se impõe sem levantar a voz, com autoridade discreta e consistência.

No Democracy Index da Economist Intelligence Unit para 2024, regista 8,73 pontos — a quinta democracia mais sólida da Europa Ocidental e a 14.ª do mundo. Num tempo em que democracias vacilam, mantém-se como pilar de estabilidade, ainda que pressionada por tensões internas, pelo avanço de discursos populistas e pela polémica repressão a manifestações pró-Palestina, alvo de críticas de organizações de direitos humanos.

Este é o 15.º artigo da rubrica da Líder, ‘O estado de uma nação em sete minutos’. Todos os meses, trazemos o retrato de um país — nas suas camadas cultural, política, económica e social.

Cultura


Há nos alemães uma forma de dizer muito sem levantar o tom; o que se revela na disciplina do gesto, no rigor de uma frase de Goethe, no intervalo medido entre dois acordes de Bach. É um país onde até o silêncio parece organizado, mas nunca frio.

Na literatura alemã vive uma herança que vai de Thomas Mann a Jenny Erpenbeck, onde a melancolia se mistura com o método e a reflexão com a ferida histórica. É a pátria que deu ao mundo Nietzsche, para pensar, e Brecht, para não esquecer. Ler alemães é como atravessar uma floresta densa: há clareiras de luz, mas também sombras que nos obrigam a parar.

Na música, a Alemanha é uma orquestra que cabe inteira no metro de Berlim. Do barroco de Bach ao techno do Berghain, da canção de cabaré à ópera wagneriana, há um fio invisível que une o cálculo e o excesso, a ordem e o transe.

Aqui, até a arquitetura é narrativa: das torres medievais às linhas de vidro da Filarmónica de Hamburgo, cada edifício é uma tese sobre como habitar o tempo. A cultura alemã é método e vertigem, é poesia num postal de Natal e luz de néon num festival de arte contemporânea. Está na cerveja partilhada num Biergarten, no compasso das danças bávaras, na precisão de um relógio da Floresta Negra. Está na forma como um povo reconstruiu cidades inteiras e, ainda assim, deixou espaço para a dúvida.

Política 

A Alemanha é uma sinfonia de instituições: o Presidente Federal é um maestro discreto, cerimonial, enquanto o verdadeiro decisor é o Chanceler — atualmente Friedrich Merz — cuja batuta conduz o governo no ensaio diário chamado Estado, meticulosamente afinado sob o rigor constitucional desde 1949.

O país é uma república parlamentar federal, moldada pela Lei Fundamental (Grundgesetz), que distribui o poder entre o Parlamento (Bundestag), os estados federados (Bundesrat) e o poder judicial. Este edifício institucional — meticuloso como um relógio  suiço — foi desenhado para evitar a fragilidade e a instabilidade que marcaram o passado alemão. Foi entre as suas cláusulas e sessões plenárias que nasceu a promessa de uma democracia robusta..

Nas eleições de fevereiro de 2025, Merz levou a CDU/CSU a uma vitória relativa, com 28,5 % dos votos, enquanto a extrema-direita AfD duplicou a sua representação, alcançando 20,8 %, sobretudo no leste do país. A fragmentação política transforma a formação de governo num quebra-cabeças em que o SPD e os Verdes surgem como peças-chave para futuras coligações. Mas a estabilidade aparente já começa a tremer: a ascensão da AfD, o crescente ceticismo perante as instituições e o choque em torno das políticas migratórias — simples de formular, explosivas de aplicar — tornaram o Bundestag numa arena mais áspera do que antes.

Apesar da turbulência, a democracia alemã mantém-se sólida, com a Freedom House a atribuir-lhe 95 pontos em 100. No entanto, as manifestações pró-Palestina revelam fraturas: proibições de protestos, detenções em massa — mais de 170 num só dia em Berlim — e até deportações de cidadãos estrangeiros sem condenação. Símbolos como o keffiyeh foram banidos em escolas e restrições à língua árabe em atos públicos acenderam alertas de censura. Entre tradição e renovação, a liberdade de expressão na Alemanha está a ser testada nas ruas.

Economia

Em 2024, a economia alemã entrou em recessão técnica, com o PIB a contrair 0,2% depois de uma queda de 0,3% em 2023 — a primeira recessão técnica desde a reunificação. A indústria manufatureira sofreu especialmente, com uma queda de cerca de 3% na produção, sobretudo nos setores automóvel e químico, afetados por custos elevados e maior concorrência. Os investimentos em construção e equipamentos caíram 2,8%, enquanto o consumo das famílias cresceu modestamente 0,3%, sustentado por salários em alta e inflação controlada.

Apesar das dificuldades, a Alemanha mantém uma base económica sólida e aposta na transição energética, digitalização e cibersegurança para promover o crescimento sustentável. A inflação estabilizou perto dos 3%, ajudando a preservar o poder de compra, e o desemprego manteve-se relativamente baixo, em torno dos 4,8%. Estas condições contribuem para alguma resiliência, mesmo num cenário de estagnação.

Para 2025, prevê-se que a economia alemã tenha crescimento nulo, com uma recuperação gradual para cerca de 1% em 2026. A retoma dependerá de investimentos em infraestruturas, inovação tecnológica e energias renováveis, mas o país enfrenta desafios como o envelhecimento populacional e a necessidade de reformas estruturais que serão decisivas para garantir sustentabilidade a longo prazo.

Sociedade

A sociedade alemã é marcada por profundas diferenças sociais e um dinamismo cultural intenso. A imigração desempenha um papel crucial, com cerca de 17% da população nascida fora do país, sobretudo oriunda da Turquia, Síria e Europa de Leste. Esta diversidade traz desafios e oportunidades na integração, com esforços contínuos para promover a inclusão através de políticas educativas e programas comunitários, ainda que persistam tensões em algumas regiões.

No que toca aos direitos LGBT+, a Alemanha é vista como um dos países europeus mais progressistas, com legislação avançada que protege a comunidade contra discriminação e reconhece o casamento igualitário desde 2017. No entanto, debates sobre a visibilidade e aceitação em áreas rurais e conservadoras continuam a ser um tema relevante.

Fora do comum, a Alemanha enfrenta também o desafio do envelhecimento da população e das disparidades entre zonas urbanas ricas e áreas rurais em declínio. Este fenómeno intensifica desigualdades no acesso a serviços sociais e educação, levando a uma crescente polarização que influencia o panorama político e social do país.

Conclusão

A Alemanha é uma máquina complexa de aço e tensão, onde o progresso racha o cimento das tradições envelhecidas. Entre engrenagens sociais ásperas e pulsares de mudança, o país molda um futuro forjado na resistência e no conflito constante. Não há suavidade, apenas o rigor de uma sociedade que luta para encaixar vozes dissidentes numa ordem que se recusa a ceder. É na dureza do confronto entre o velho e o novo que a Alemanha se reinventa, um colosso que não se deixa dobrar, mas que sabe que a força também nasce do atrito.

Arquivado em:Notícias, Sociedade

O futuro do desporto está na IA, mas o público quer sentir o jogo de perto

18 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

A inteligência artificial já não é só uma promessa do futuro; é o presente na experiência de milhões de adeptos de desporto. O novo estudo Beyond the game: The new era of AI-powered sports engagement, do Research Institute da Capgemini, revela que mais de metade dos fãs portugueses (54%) já usam IA ou IA generativa (GEN AI) para obter conteúdos e dados personalizados — ultrapassando motores de busca e redes sociais como principal fonte de informação.

Mas este avanço vem com um desafio complexo: conciliar tecnologia de ponta com a autenticidade, a emoção viva e palpável que só o desporto ao vivo sabe oferecer.

A nova era da experiência desportiva: inteligência artificial em foco

Hoje, a IA não é mais um simples assistente digital — é um protagonista ativo na forma como os adeptos vivem e respiram desporto. De resumos personalizados a destaques em tempo real, de análises estatísticas a cenários hipotéticos que fazem sonhar, as ferramentas de IA são cada vez mais imprescindíveis.

Segundo o estudo, 67% dos adeptos querem um único ‘hub’ onde possam encontrar todos os dados desportivos, um espaço que agregue conteúdos dispersos por websites, motores de busca e redes sociais.

E não é só quantidade, mas qualidade e interatividade: 64% desejam que a IA lhes entregue informação atualizada e feita à medida do seu gosto. E mais — a tecnologia permite criar pontes entre fãs e atletas, com 59% a confiarem já nos conteúdos gerados por IA.

Um dado curioso: 58% gostariam de poder rever jogos em «cenários e se…» simulando alternativas e desfechos, e 27% admitiram que pagariam para terem acesso a este tipo de experiências interativas. A exemplo do Tour de France, onde a IA já permite acompanhar uma equipa Fantasy em tempo real, votar no ciclista mais agressivo e sentir a corrida quase de dentro do carro oficial.

Para Pascal Brier, Chief Innovation Officer da Capgemini, o futuro está na combinação entre dados em tempo real e experiências imersivas que aprofundem a ligação emocional entre os adeptos e o desporto, sem perder a essência do jogo.

O equilíbrio delicado entre inovação e emoção

Se a digitalização avança a passos largos, a emoção e a autenticidade continuam a ser o verdadeiro motor do desporto. Os adeptos estão sedentos de dados, mas sobretudo nos momentos certos: antes dos jogos e durante os intervalos, quando cerca de 70% querem consultar estatísticas, condições do jogo e outras métricas que os ajudem a compreender melhor o que está a acontecer.

Porém, quando a bola está a rolar, a preferência é pela experiência sem distrações digitais. Quase 60% dos adeptos receiam que a tecnologia em excesso possa roubar o encanto do desporto ao vivo, tornando-o menos emocionante e autêntico. Mais da metade teme que o uso excessivo de IA possa mesmo diminuir o prazer de assistir aos eventos.

Este receio reforça a necessidade de um caminho equilibrado: tecnologia para potenciar a experiência, não para a sobrepor. Um desafio que promete ser um dos maiores debates no futuro próximo do setor.

A privacidade e o risco da desinformação na era da IA

Nem tudo são facilidades nesta nova revolução digital. A questão da privacidade dos dados preocupa — especialmente as gerações mais velhas. Embora metade dos jovens das gerações Y e Z saiba que dados são recolhidos e consinta nesse armazenamento, apenas cerca de 38% dos baby boomers estão informados e confortáveis com este processo.

Além disso, dois terços dos adeptos admitem estar preocupados com a disseminação de conteúdos falsos ou não verificados nas plataformas de IA, o que pode levar a ataques injustificados contra atletas ou a informações erradas sobre equipas. A desinformação digital é um perigo real que acompanha esta nova era tecnológica e que obriga a uma regulação e vigilância apertadas.

Estádios conectados: a tecnologia ao serviço do adepto

Na resposta a estas novas expectativas, os operadores de estádios apostam fortemente em tecnologia para criar experiências mais fluídas e imersivas. Mais de metade dos inquiridos afirma que apps para compra e gestão de bilhetes, programação em tempo real e informações instantâneas melhoram significativamente a experiência no local.

Funcionalidades como o reconhecimento facial na entrada e a navegação digital dentro do estádio estão a ganhar popularidade e a redefinir o que significa ir ver um jogo ao vivo em pleno século XXI.

Conclusão: o futuro do desporto é híbrido

O desporto está a entrar numa nova era, em que a inteligência artificial é muito mais do que uma ferramenta — é uma extensão da paixão dos adeptos. Contudo, a maior lição deste estudo da Capgemini é clara: a tecnologia deve servir o desporto e as emoções, nunca substituí-las.

Seja no ecrã ou no estádio, os adeptos exigem conteúdos personalizados, dados em tempo real e experiências interativas — mas também autenticidade, calor humano e a emoção inigualável do jogo ao vivo.

E é neste fio ténue, entre o digital e o palpável, que o futuro do desporto se irá escrever.

 

Arquivado em:Desporto, Notícias, Tecnologia

Mais de 80% dos portugueses já pagam com cartão — mas dinheiro vivo resiste

18 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

O cartão domina cada vez mais na carteira dos portugueses. Oito em cada dez (83%) usam-no para pagar, segundo um estudo da Nickel e da DATA E, revelando um salto de sete pontos percentuais face a 2024. As transferências a crédito ocupam o segundo lugar das operações mais comuns (65%), seguidas dos levantamentos em ATM (53%).

Nos métodos de pagamento preferenciais, o cartão de débito ou crédito mantém o trono (73%), com o contactless — seja via cartão físico ou app — a ganhar terreno (37%). Ainda assim, o dinheiro vivo continua a circular: mais de um quarto dos portugueses (26%) confessa que não dispensa as notas e moedas.

E, curiosamente, há cada vez mais gente a pôr dinheiro no banco. Os depósitos em numerário cresceram seis pontos percentuais num ano, para 43% dos inquiridos. A maioria fá-lo de forma pontual (55%), mas quase um quinto dos algarvios (19%) e dos nortenhos (18%) deposita pelo menos duas a três vezes por mês.

O problema? Guardar o dinheiro é, para muitos, mais difícil do que gastá-lo. Cerca de 15% dos portugueses dizem ter «alguma» ou «muita dificuldade» em efetuar depósitos, com Lisboa a liderar essa lista negra (19%). A principal queixa é a dificuldade em encontrar um balcão disponível (83%, mais 15% que no ano passado), seguida da complexidade da operação no multibanco (20%).

«Apesar da crescente digitalização, uma parte significativa da população continua a preferir métodos tradicionais, como o numerário. Ao mesmo tempo, crescem as dificuldades práticas para realizar operações tão básicas como depositar dinheiro — o que sublinha a importância de modelos de negócio de proximidade e mais inclusivos», sublinha João Guerra, CEO da Nickel Portugal.

O inquérito foi realizado entre 1 e 4 de abril de 2025, junto de 1.015 residentes em Portugal continental e regiões autónomas, com idades entre 18 e 64 anos.

Arquivado em:Economia, Notícias

Os números e letras que marcam a última edição da Líder

18 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

Em cada edição, a Líder reúne dados e vozes que ajudam a decifrar o presente e a antecipar o futuro. São números que contam histórias – do cérebro humano às tensões geopolíticas, das mudanças no mercado de trabalho às exigências crescentes da sustentabilidade. Ao lado deles, as palavras de quem lidera, inspira e questiona, lembrando que a gestão não é feita apenas de métricas, mas também de visão e propósito.

Gerais

  • A amígdala, estrutura cerebral responsável pelo processamento do medo, pode identificar uma ameaça e iniciar uma resposta emocional em apenas 100 milissegundos (0,1 segundos) após a perceção sensorial.
    Fonte: Archives of Clinical Psychiatry, 2008.
  • Em 2023, houve 59 conflitos armados a envolver Estados, o número mais elevado desde 1946.
    Fonte: Instituto de Investigação da Paz de Oslo (PRIO), 2024.
  • 72% dos portugueses manifestam preocupação com a veracidade das informações na internet, superando a média global de 59% – a política é o tema mais frequentemente associado à desinformação.
    Fonte: Reuters Digital News Report, 2024.
  • O apagão sentido na Península Ibérica em abril pode ter custado o equivalente a um dia do PIB português, cerca de 1,1 mil milhões de euros.
    Fonte: Jornal de Negócios, 2025.

Citações – Gerais

  • «Quero que as empresas reconheçam como estão a ganhar dinheiro, quais são os riscos para os direitos humanos associados à forma como ganham dinheiro e como estão a lidar com isso em tempo real.»— Michael H. Posner
  • «Os algoritmos decidem o que sobe ao palco e o que permanece no escuro.» — Paulo Pascoal
  • «O conceito de resiliência é hoje parte integrante do princípio da boa governação.» — Isabel Ferreira Nunes, Diretora-Geral do Instituto da Defesa Nacional

People

  • As pessoas com elevada inteligência emocional têm 50% mais probabilidades de ser bem sucedidas em cargos de liderança.
    Fonte: Electro IQ, 2025.
  • Os gestores dedicam, em média, 37% do seu tempo à tomada de decisões.
    Fonte: McKinsey & Company, 2019.
  • 86% dos trabalhadores afirmam que conseguem melhor equilibrar as suas preocupações profissionais e pessoais quando têm um líder centrado na empatia.
    Fonte: Catalyst, 2021.

Citações – People

  • «Acredito que a liderança emocional é um processo contínuo de autoconhecimento e adaptação.»— Vanessa de Almeida, Club Manager Holmes Place Quinta da Beloura
  • «Que interessa o conhecimento cognitivo se não conseguirmos gerir os nossos sentimentos e os dos outros, como a felicidade, raiva, angústia, medo, alívio ou tédio.» — Nelson Ferreira Pires, Diretor Geral Recordati Portugal e Diretor Regional Recordati Grécia
  • «Liderar com empatia não é abdicar da estratégia – é ampliá-la com humanidade.»— Ricardo Faustino, Head of Innovation and Project Management Unit at ISQ Academy

Brands

  • 60% das empresas já estão em conformidade com a ‘Diretiva de Reporte de Sustentabilidade Corporativa (CSRD)’, enquanto 31% estão a acelerar esforços para cumprir os requisitos nos próximos 12 meses.
    Fonte: Ayming, 2025.
  • Vai haver mais de 240 milhões de vagas para trabalhadores com green skills até 2030, comparativamente a 67 milhões este ano.
    Fonte: The Green Skills Gap 2025.
  • 90% dos consumidores portugueses acredita que muitas empresas afirmam ser sustentáveis apenas para fins promocionais.
    Fonte: 3.º Relatório Global de Consumo MARCO, 2024.

Citações – Brands

  • «O verdadeiro motor da mudança são as pessoas, só com equipas conscientes, envolvidas e capacitadas é possível integrar o ESG no dia a dia das organizações.» — Patrícia Bispo, Head of Learning and Development da Galileu
  • «A responsabilidade começa dentro de casa.»— Vânia Guerreiro, Head of Brands, Communication & Happiness da iServices
  • «A crescente pressão para demonstrar compromissos ambientais pode, por vezes, conduzir a práticas de greenwashing.» — Maria João Marques, Head of Sustainability Consulting Solutions Capgemini

 

Arquivado em:Artigos, Leadership

Gestão do tempo, o pilar essencial da produtividade

18 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

A gestão de tempo e assiduidade (GTA) dos colaboradores é uma responsabilidade crítica, com impacto direto na eficiência, na produtividade e no bem-estar organizacional. Embora mais visível durante os meses de verão, altura em que se concentra o maior número de pedidos de férias, os processos inerentes à GTA estendem-se ao longo de todo o ano – exigindo um equilíbrio constante entre flexibilidade, legalidade e interesses dos colaboradores versus necessidades organizacionais – implicando o investimento de uma parte considerável de recursos.

Num contexto empresarial em permanente evolução, onde modelos de trabalho híbridos, turnos rotativos e horários não convencionais se tornam parte da realidade, é cada vez mais imprescindível garantir uma gestão de tempo ágil, eficiente e precisa. Ora, tal só é possível com apoio de tecnologia. Segundo o IDC HR Maturity Index, estudo realizado para a Cegid em 2025, 42% dos profissionais de recursos humanos identifica como prioridade a melhoria da experiência do colaborador – e a gestão de tempo tem um papel central nesse objetivo.

Segundo o INE, entre 2021 e 2023, 42% dos trabalhadores portugueses já exerce funções aos fins de semana ou por turnos, o que exige uma gestão eficiente de escalas e horários para milhões de profissionais, em setores como a indústria, os serviços, o turismo ou a tecnologia. A esta complexidade acresce a necessidade de garantir o correto escalonamento dos perfis necessários para a devida operação das empresas, assim como imprevistos de saúde, pedidos de ausência, baixas médicas e férias – muitas delas concentradas nos mesmos períodos do ano.

Outro estudo, da Gallup, mostra como a experiência do colaborador contribui para a redução de 59% da propensão à procura de novas oportunidades. A transparência e a colaboração por meios digitais (permanentemente disponível), são fatores determinantes para a melhoria da experiência do colaborador e do Employer Branding, resultando em maiores taxas de retenção e atratividade de talento.

Apesar deste contexto, a realidade mostra-nos que 48% dos departamentos de RH ainda realiza a maior parte dos seus processos – incluindo a gestão de assiduidade – de forma manual ou através de informatizações não especializadas, como folhas de cálculo. Estas abordagens, para além de ineficientes, comportam riscos elevados do ponto de vista legal e económico, resultam invariavelmente em problemas de produtividade e são normalmente alheias à sustentabilidade ambiental. A resposta a estes constrangimentos está na adoção de soluções digitais especializadas, robustas, integradas e sustentadas em tecnologias como a Inteligência Artificial (IA).

 

Eficiência operacional e conformidade legal

A digitalização dos processos de gestão de tempo permite cumprir com rigor a legislação laboral – nomeadamente o registo obrigatório do tempo de trabalho – e, simultaneamente aumentar a eficiência interna. Mecanismos como a gestão automatizada de horários, registo de presenças e ausências, controlo de férias, acesso móvel e integração com outros sistemas de RH são hoje indispensáveis para a operação moderna e eficaz.

Com o apoio da IA, é possível otimizar a distribuição de recursos, prever necessidades de replaneamento e automatizar tarefas administrativas como a atribuição de turnos, cálculo de saldos de férias ou adaptação de horários.  As soluções de gestão de tempo permitem não apenas poupar tempo a todos aqueles que tratam destes processos, como aos próprios colaboradores e respetivas hierarquias. Basta uma app para que rapidamente os colaboradores efetuam os seus pedidos online e estes são enviados de imediato para aprovação e posterior integração automática na solução de processamento salarial. Estes fluxos automáticos melhoraram também a fiabilidade da informação e apoiam uma tomada de decisão mais informada.

Por outro lado, os portais do colaborador desempenham um papel crucial na retenção de talentos, atuando como ferramentas estratégicas para melhorar a comunicação, a satisfação e o comprometimento afetivo dos funcionários. Ao oferecer acesso fácil a informações relevantes, promover a transparência e facilitar a interação, estes portais contribuem para um ambiente de trabalho mais positivo e envolvente, reduzindo a rotatividade e promovendo a atratividade.

Numa época em que tanto se fala de organizações people first, de experiência de colaborador e de necessidade crescente de agilidade nos processos de gestão, é absolutamente primordial que os gestores se concentrem na vertente estratégica e deleguem estes processos administrativos na tecnologia.

O tempo é um dos bens mais preciosos de que dispomos. Saber geri-lo com eficiência é um dos pilares primordiais da tão desejada e necessária produtividade nas organizações.

 

Arquivado em:Opinião

Juventude, sempre: da Paris rebelde aos líderes locais de amanhã

13 Agosto, 2025 by Marcelo Teixeira

De Paris a Pombal, de 1968 a 2025, a energia dos jovens tem sido motor de revoluções, transformações culturais e viragens políticas. Hoje, sob o lema ‘Iniciativas locais dos jovens para os ODS e além!‘, o Dia Internacional da Juventude (ontem, dia 12) recordou que a mudança começa muitas vezes num bairro, numa escola, numa praça. É um apelo a valorizar não só o que a juventude é capaz de sonhar, mas, sobretudo, o que é capaz de concretizar. Para compreender o presente, vale a pena percorrer a memória das suas grandes mobilizações — e perceber como a sua criatividade, coragem e rebeldia moldaram o mundo.

França, 1968: o grito que ecoou além das barricadas

Maio de 1968. Paris transforma-se num palco de libertação e contestação, onde ruas empedradas servem de trincheira e tela. Entre o fumo dos confrontos e o cheiro a tinta fresca nos cartazes, surgia uma geração disposta a derrubar fronteiras — físicas e mentais. Artistas e pensadores que hoje consideramos consagrados ainda eram jovens, quase anónimos: Catherine Deneuve filmava sob a batuta de Buñuel; Serge Gainsbourg começava a rasgar padrões na música; um jovem Bernard-Henri Lévy ainda sonhava o seu papel no pensamento francês; e figuras como Jane Birkin ou Romain Goupil surgiam como símbolos dessa nova irreverência.

Não se tratava apenas de política ou de cultura. Era um fenómeno social que, a partir de universidades e praças, redefiniu o papel da juventude no espaço público. A luta pelo direito a sonhar e a intervir deixava de ser privilégio de poucos para se tornar direito e dever de todos.

O mundo abre-se, o futuro entra em cena

O eco de Paris viajou rápido. As décadas seguintes mostraram que a juventude não era um episódio, mas sim uma força constante. Da queda do Muro de Berlim às lutas contra o apartheid, da explosão cultural do hip hop nas ruas de Nova Iorque às manifestações ambientais em plena década de 90, o protagonismo juvenil era sempre a centelha.

No plano global, a ONU reconheceu oficialmente essa força ao criar o Programa de Ação Mundial para a Juventude (WPAY), em 1995, um quadro político para integrar os jovens como atores centrais no desenvolvimento sustentável. Hoje, quase 30 anos depois, o programa mantém-se como bússola para políticas que não apenas escutam, mas integram a juventude nas decisões.

Portugal: das praças às comunidades

Em Portugal, o eco de 68 demorou, mas chegou. Primeiro timidamente contra o Estado Novo, através da música de intervenção e das associações estudantis com mais presença no pós-25 de Abril; depois com mais energia, nos movimentos cívicos e culturais das décadas seguintes. A juventude portuguesa afirmou-se na luta contra a precariedade, na dinamização cultural das cidades e, mais recentemente, na ação climática e nos movimentos pela igualdade.

Os anos 2000 trouxeram também um novo cenário: a necessidade de localizar as grandes causas globais no espaço concreto das comunidades. Foi nesse contexto que nasceram centenas de coletivos locais, desde grupos de bairro que organizam atividades para crianças até plataformas digitais de denúncia e ação.

 2025: Iniciativas locais para os ODS e além

Este ano, o Dia Internacional da Juventude (ontem, 12 de agosto) abraçou o tema ‘Iniciativas locais dos jovens para os ODS e além!’, sublinhando algo fundamental: os jovens não são apenas destinatários de políticas — são criadores de soluções. Com mais de 65% das metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável diretamente ligadas à governação local, a sua participação deixa de ser simbólica para se tornar estratégica.

A ligação entre as ideias globais e a realidade do bairro passa, inevitavelmente, pelas mãos e pela energia de quem está mais próximo do terreno. Desde projetos ambientais que transformam terrenos abandonados em hortas comunitárias, até iniciativas culturais que revitalizam centros históricos, os jovens estão a traduzir grandes metas em ações concretas.

Do passado ao presente: a mesma energia

Do fervor de Paris em 1968 às ruas e praças portuguesas de 2025, há uma linha que nunca se quebra: a convicção de que a juventude não é apenas a promessa do futuro, mas a transformação do presente. Hoje, como ontem, o desafio é o mesmo — transformar indignação em ação, ideias em políticas, sonhos em resultados.

O Instituto Português do Desporto e Juventude, em parceria com o Conselho Nacional de Juventude e a Federação Nacional das Associações Juvenis, marcou o Dia com um programa diversificado, de debates a concertos, de oficinas a exposições. O evento institucional teve lugar em Pombal, mas as celebrações espalharam-se por todo o país, refletindo a pluralidade e a força das iniciativas juvenis locais.

Assim como em 1968 a juventude não pediu licença para mudar o rumo da história, também em 2025 não esperará por permissão para agir. A diferença é que, agora, o mundo reconhece que a sua energia é não apenas desejável, mas indispensável para alcançar um futuro justo, inclusivo e sustentável.

 

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