O Japão é uma saudade ilustrada a neon, mas antiga como o musgo nas portas de templos ancestrais, uma nação moderna como um ecrã que nunca desliga. É o país onde a história vagueia nas vielas de Quioto, e onde o amanhã vibra nos arranha-céus de Tóquio.
No Global Soft Power Index 2025, o Japão garantiu o 4.º lugar — apenas atrás dos EUA, China e Reino Unido, num ranking que abrange 193 países. É a prova de que não é só a tecnologia ou os mangás: é saber exportar uma cultura que faz o mundo querer entrar, não invadir.
No Democracy Index da Economist Intelligence Unit para 2024, o Japão aparece com 8,48 pontos, mantendo-se como ‘democracia plena’ e a 16.º do mundo. Em contraste, a região Ásia-Australásia registou um decréscimo global do índice — de 5,41 para 5,31. Ou seja: mesmo num continente com sinais de regressão democrática, o Japão mantém firme o seu status.
Este é o 13.º artigo da rubrica da Líder, ‘O estado de uma nação em sete minutos’. Todas as quintas-feiras, trazemos o retrato de um país — nas suas camadas cultural, política, económica e social.
Cultura
Há nos japoneses uma forma de se calarem com elegância; o que se oculta no gesto, na pausa, no vazio entre duas notas de shakuhachi. É um país onde o silêncio tem gramática própria, sem pressa de se explicar.
Na literatura nipónica há um traço fino e uma dor ancestral. Murasaki Shikibu escreveu Genji Monogatari há mais de mil anos e ainda hoje sentimos o reverberar dessa melancolia. Já Murakami (um dos meus preferidos) é o corredor solitário que escreve sobre gatos, jazz e poços sem fundo, mas que nos ensina a resistir ao absurdo com delicadeza. E isso basta para doer. E amar.
Na música, vive num compasso próprio. Do koto ao noise rock, dos cantos budistas ao city pop, há uma linha invisível que une tradição e reinvenção. A música japonesa é uma emoção com arquitetura.
No cinema e no palco, o Japão ofereceu-nos sombras que respiram. E hoje, atores como Sakura Andō ou Hidetoshi Nishijima continuam a mostrar que no Japão se representa como se se contasse uma lenda pessoal.
Dessa forma, o haicai tornou-se roteiro pop, o drama Noh virou cinema contemplativo, e a rigidez do gesto antigo alberga novas danças urbanas. A cultura japonesa é método de existência. Está no traço de um mangá, no arco de uma coreografia de butô, na simetria de um prato de ramen. Está na forma como um povo sobreviveu a tudo, até ao nuclear, sem perder o sentido do belo. E quem o observa com atenção, nunca mais olha o mundo da mesma maneira.
Política
O Japão é uma monarquia constitucional com um parlamento democrático, onde o imperador reina, mas não governa. O poder reside no povo, ainda que com o peso cerimonial da história milenar ao ombro. O sistema político japonês é estável, mas às vezes imobilizado por uma etiqueta que encobre o confronto direto — há mudança, mas sempre com reverência.
A democracia nipónica consolidou-se no pós-guerra, sob a sombra das ruínas e sob a supervisão americana. A Constituição de 1947, pacifista por princípio, ainda hoje molda o debate nacional — sobretudo o seu artigo 9.º, que proíbe o Japão de ter forças armadas ofensivas. Mas o mundo mudou, e o arquipélago também. As tensões com a China e a Coreia do Norte reacendem um debate latente: poderá o Japão continuar neutro num mundo em combustão?
Com uma classe política dominada durante décadas pelo Partido Liberal Democrático (LDP), o Japão tem assistido, nas últimas décadas, a mudanças mais subtis do que sísmicas. Ainda assim, os tremores estão lá: a subida de líderes como Fumio Kishida, e antes dele Shinzo Abe, marcaram tentativas de revitalizar a economia e reposicionar o país no xadrez global. Abe, em particular, deixou um legado controverso — um nacionalismo elegante, mas incisivo, e um plano de rearmamento que continua a fraturar a sociedade.
A política japonesa é feita tanto nos corredores da Dieta como nas entrelinhas da linguagem: há o que se diz e há o que se cala com elegância. Mas as novas gerações estão menos inclinadas ao silêncio. A questão demográfica, a desigualdade crescente, a lenta participação feminina na política e a crise climática são tópicos que ganham voz. E, lentamente, o Japão vai deixando de ser apenas uma democracia respeitável para se tornar, talvez, uma democracia audível.
Economia
Em 2024, no último trimestre, a economia japonesa cresceu 2,8 % em termos reais, segundo recomendações da OCDE para 2024–25, num cenário de recuperação moderada após a pandemia .
O turismo assumiu um papel central. Em 2024, o setor tornou-se o segundo maior ‘exportador’ do Japão, com quase 56 mil milhões de euros em gastos de visitantes estrangeiros. Dados do WTTC apontam um contributo de cerca de 262 mil milhões de euros para o PIB (7,5 %) e mais de 6 milhões de empregos no setor.
Internamente, o Banco do Japão encerrou a política de juros negativos em 2024, após décadas focadas em combater a estagnação crónica. Mas o elevado endividamento — 245 % do PIB em 2022 — continua a exigir reformas. A inflação fixa-se nos 2%.
Nos próximos anos, o país aposta na transição energética, incentiva I&D em PME’s, fortalece a cibersegurança e promove a IA como motor de inovação — numa tentativa de transformar a solidez do presente em potência do futuro.
Sociedade
O Japão enfrenta o desafio de uma população envelhecida — quase 30 % dos japoneses têm mais de 65 anos —, pressionando os gastos sociais e reduzindo a base de trabalhadores.
É uma sociedade marcada por uma ética de trabalho exigente, um profundo respeito pela ordem e uma crescente tensão entre tradição e mudança. A igualdade de género permanece uma ambição por cumprir: apesar de avanços legislativos, o país ainda ocupa posições baixas nos rankings internacionais de igualdade. As mulheres continuam subrepresentadas em cargos de liderança e enfrentam desigualdade salarial e pressões culturais.
O sistema de saúde, de excelência e quase universal, é um dos pilares do contrato social japonês. Mas as disparidades entre zonas urbanas e rurais acentuam-se, sobretudo no acesso a cuidados especializados. O transporte público mantém-se como referência mundial, mas não chega a todos de igual forma.
A integração de estrangeiros — dos trabalhadores migrantes aos refugiados — continua a ser um tema sensível. Apesar de uma crescente necessidade de mão de obra estrangeira, o Japão mostra-se reticente em abandonar a sua homogeneidade cultural. Ainda assim, os sinais de abertura são visíveis em certas comunidades urbanas.
Outro aspeto daquele país é a solidão. Especialmente entre os idosos, tem sido identificada como um fator de risco significativo naquele país. Em 2024, quase 22.000 mortes solitárias foram registadas, com estimativas de até 68.000 até o final desse ano. Contudo, o governo japonês criou o Ministério da Solidão em 2021, visando combater o isolamento social e prevenir o suicídio. Este ministério implementa políticas públicas focadas em saúde mental e apoio a pessoas que vivem sozinhas .
Conclusão
Consubstanciado em rituais milenares e startups de inteligência artificial, o Japão equilibra sentidos — tradição e inovação, coletividade e liberdade, solidão e resiliência. A sua potência não vem só dos automóveis ou dos animes, mas de uma cultura suave que seduz pela coerência entre passado e futuro. Porém, por trás do brilho cultural e tecnológico, esconde-se o obscurantismo da solidão profunda, um desafio invisível que muitas vezes se cala nas sombras do quotidiano. Ainda assim, os japoneses têm uma forma de dizer «continuamos», com uma calma que rasga o tempo, mesmo quando tudo mudou.



