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Marcelo Teixeira

Please wear my shoes

3 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Liderar é um privilégio de alguns e um desejo de muitos. São necessárias competências possíveis de aprender e desenvolver, nomeadamente nos 3 P’s que sustentam o sucesso – Pessoas, Processos e Produto/Serviço. Sendo as Pessoas o factor crítico de maior importância. 

Dentro do “mundo” da liderança gosto particularmente do “abecedário da liderança – POLCI”, título do meu livro.

Liderar e ser liderado é um ato voluntário e consciente.

Para isso existem dois conceitos fundamentais para ser um líder: o de liderança empática e o da inteligência emocional. Sendo que a liderança empática está refletida no título deste artigo de opinião. Empatia é “colocar-me nos sapatos dos outros”. O que não significa que o líder tem de aceitar todos os comportamentos, mas apenas de os conhecer, nomeadamente os sinais não verbais. Para isso precisa de dar feedback, de tomar decisões (mesmo as difíceis) e de criar um ambiente de confiança, onde cada um tem o direito de se manifestar, de forma adequada e no lugar próprio. E produz resultados como o aumento de satisfação, de produtividade, de qualidade de decisões, de manutenção de talento, criando uma cultura organizacional positiva e sustentável. Conseguimos medir os resultados através de estudos de clima organizacional, de análise as taxas de manutenção de colaboradores ou dos indicadores de desempenho individual. 

Em permanente ligação com a liderança empática, está outro conceito integrativo: o da inteligência emocional. De forma simples, trata-se das competências e da capacidade de reconhecer, compreender e gerir as próprias emoções e as dos outros, promovendo relacionamentos equilibrados, saudáveis e de aprendizagem contínua. Apesar de ser uma forma de inteligência social introspetiva, tem um impacto externalizado enorme.  

Daniel Goleman, foi quem mais contribuiu para a “massificação” do conceito, com a criação do conceito de Quociente Emocional (QE), referindo que a capacidade de uma pessoa em lidar com suas emoções é muito mais importante do que a sua inteligência racional. O psicólogo considera que o sucesso de uma pessoa, tem 80% a ver com o seu QE, enquanto o QI é responsável pelos outros 20%. Afinal de que interessa o conhecimento cognitivo se não conseguirmos gerir os nossos sentimentos e os dos outros, como a felicidade, raiva, angústia, medo, alívio, tédio ou as outras 21 emoções que poderia referir.  

Acrescido pelo facto de a IA nos estar já a substituir em seis dos oito tipos de inteligência que existem, exceto na inteligência interpessoal e intrapessoal. Por exemplo, temos de saber identificar quando sentimos algo negativo como “raiva” e converter em positivo como “determinação”. Portanto desenvolver esta inteligência social comporta o desenvolvimento de competências interpessoais como a empatia, e não apenas as habilidades individuais. Aqui se cruzam a liderança empática e a inteligência emocional. Para inspirar, um líder precisa mexer com as emoções dos outros! 

Arquivado em:Opinião

Como enfrentar a morte e a ideia de finitude?

2 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Se vamos todos morrer, porque é tão difícil enfrentar essa inevitabilidade? Procuro aqui trazer algumas reflexões que espero que abram espaço para mais considerações. Como narramos a vulnerabilidade e a morte, individualmente e coletivamente? Como é que a sociedade aborda estas questões (sistema educativo, social, político, de saúde)? Ao refletirmos sobre o imaginário coletivo, sobre a forma como abordamos estes assuntos, podemos observar que não são temas confortáveis e têm uma representação associada a muito sofrimento e medo. Podemos começar, a partir da observação do desconforto, a entender o que está presente “debaixo do icebergue” no nosso inconsciente e que nos pode ajudar a trazer à luz da consciência algumas ideias sobre como podemos ressignificar e aproximar-nos da nossa vida de forma mais serena. 

 

A Morte faz parte da Vida. A Morte gera Vida 

O psiquiatra e psicoterapeuta Carl Jung definiu ‘arquétipo’ como um conjunto de imagens primordiais oriundas da repetição sucessiva de uma mesma experiência, armazenadas no inconsciente coletivo. São conteúdos esquecidos ou reprimidos da consciência. De acordo com Jung, podemos observar que para os povos nativos originários todos os acontecimentos mitológicos da natureza, como as estações do ano, não são apenas experiências subjetivas, mas expressões simbólicas das suas questões internas e inconscientes da alma, que a consciência humana vê espelhada nos fenómenos da Natureza. Todos nós fazemos parte das estações do ano. Elas vivem em nós. Invernos e outonos incluídos.  

Contudo, temo-nos vindo a afastar progressivamente da nossa natureza intrínseca, do Corpo onde tudo vive, e isso tem repercussões. Estamos incluídos no Corpo da Vida mas achamos que somos superiores. Somos com o movimento da Vida. 

Porque é tão importante abordar a morte simbólica, para além da fisiológica (existem sinais e sintomas naturais que também esquecemos) e da espiritual e cosmológica (também ela fundamental)? Porque ela eclode do inconsciente, invadindo a consciência e a vida pessoal, quer por meio de sonhos, emoções e ações. Interfere com quem somos, a nossa essência profunda. Interfere com a forma como contribuímos para o mundo. O coletivo não se separa do individual. O inconsciente coletivo influencia o indivíduo.

  

Como imaginamos a morte? 

Como a nossa psique a aborda?  

Que histórias, imagens, símbolos, palavras, expressões usamos para narrar a vulnerabilidade, as fases de mudanças da nossa vida – a morte? Como é que o nosso corpo sente quando abordamos estes temas? Caveiras, escuridão, sofrimento, dor, foice, violência, são normoticamente símbolos que maioritariamente associamos a esta fase da nossa vida. A forma como interpretamos e imaginamos pode inibir os neuro transmissores de felicidade.  

Não podemos mudar um arquétipo. O arquétipo até evolui, mas não é possível mudar a sua essência. Também não podemos falar do arquétipo de morte sem o associar à vida. Eles são um mesmo arquétipo.  

A morte significa o fim de um ciclo, mudança, transformação, renovação, o início de um novo ciclo. Significa um mergulho no desconhecido e é claro que isso pode gerar em nós medo e angústia. Estar no não saber. O nosso cérebro não quer a morte, o nosso ego não quer deixar de existir. Resiste às mudanças. Mas podemos ressignificar o arquétipo, a forma como olhamos para ele.  

Porque associamos a foice à morte? Porque não uma espada ou faca? A foice simboliza a transformação e o renascimento. Tem a forma de uma lua nova ou, diria, lua crescente. Remete para a simbologia da lavoura, o plantar e o colher.  

 

A morte não vem para ceifar a vida. Vem para que haja renovação. 

Ressurreição.  

Mas qualquer chamada da vida para a transformação, para poder fazer as descidas ao interior da nossa psique. Para caminharmos as nossas transformações, largar a nossa pele, já muitas vezes desabitada pela alma e à qual ainda nos agarramos por ser o que conhecemos, precisamos de nos sentir seguros. Precisamos de abrandar, encontramo-nos vulneráveis, e não há forma de o fazer sem sentirmos que temos colo, chão seguro. Qualquer animal selvagem sabe intuitivamente como o fazer. E em nós também habita este espaço, muitas vezes ignorado e com uma carga de iliteracia imensa.  

Um sistema nervoso ativado no seu simpático e parassimpático dorsal quer fugir, lutar, dissociar, congelar. Ser «placenta continente para a criação de ambientes seguros, de presença e escuta ativa, para fazer travessias por entre territórios de desesperança, medo, lutos, ansiedade, e todos os convites que a vida nos traz, sustentando estas travessias com a nossa presença» (citando Cecília Lauriano), é fundamental.  

É natural sentir. Medo, angústia, frustração, ansiedade, tristeza, alegria, e todo o arco-íris emocional. Aprender a ser “panela”, para nós mesmos e para os outros, que consegue conter todos os grãos de um pacote de arroz de emoções, sem transbordar, é caminho de vida.  

Assim, é importantíssimo que as pessoas que estão ao nosso lado em momentos difíceis, sejam familiares, amigos, profissionais de saúde, criem um espaço de escuta, compreensão, presença, acolhimento do que somos e sentimos, sem julgamento, em segurança.   

Homeopaticamente, conhecendo as vozes e memórias do nosso corpo, as nossas dores, os nossos medos, podemos abrir espaço para a ressignificação e ressurreição de uma maior ligação à Vida como um Todo e onde a Morte é semente. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leadership

Olhar atento, lápis e coração na mão

2 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Raul Nieto Guridi é o autor da capa desta edição da revista Líder. Nasceu em Sevilha, filho de pai e mãe pintores, estudou Belas Artes e passou por empresas de publicidade, decoração, arquitetura e design gráfico. Desde 2010, a sua produção tem-se concentrado na ilustração editorial e cartazes para campanhas culturais de teatro, dança e marionetas, além de conduzir workshops de ilustração e criatividade dentro e fora de Espanha. Alguns dos seus livros foram traduzidos para mais de 12 idiomas, premiados ou recomendados por editoras e museus como a Tate ou o Centro de Arte Reina Sofía.  

Atualmente, concilia o trabalho de professor no ensino secundário com o design e a ilustração. Descreve o seu olhar como atento, de «lápis e coração na mão». «Não quero que as minhas imagens falem por mim, apenas que acompanhem os meus pensamentos, as minhas palavras, para deixar que os outros encontrem os seus», reforça. 

Na sua busca de cruzar olhares, respeitar espaços, levantar questões, refletir momentos, quer fazer pensar sobre o que é verdadeiro, emocionar, abalar os alicerces do humano, narrar a história que nos torna comuns, iguais. 

«O que escrevo, o que desenho, não faz sentido sem a interpretação de quem vê, de quem lê».

Cada imagem é, no olhar de cada um, uma obra que se estreia, e Guridi faz-se um artista na arte da serendipidade, a aptidão de encontrar e de atrair coisas boas por acaso. Desenhos que brincam com os opostos, que enfrentam ideias pré concebidas e de onde resulta uma ilusão, um momento mágico que faz o pano subir. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Arquivado em:Artigos, Leadership

Nova iniciativa desafia artistas a pensar o mundo laboral que aí vem

2 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Nem sempre o futuro se escreve em relatórios ou algoritmos. Às vezes, pinta-se com aguarela, acrílico ou óleo, numa tela onde cabem dúvidas, desejos e distopias.

A Gi Group Holding quer pôr os artistas a pensar no futuro — não só o deles, mas o de todos nós. Para marcar a inauguração da sua nova sede no Oriente Green Campus, em Lisboa, a multinacional de recursos humanos lança o concurso nacional de pintura ‘O Futuro do Trabalho’. Em jogo está um prémio de 5.000 euros e um lugar permanente numa das paredes principais do novo edifício.

O desafio está lançado: imaginar em tela aquilo que está a transformar o modo como vivemos e trabalhamos. Inteligência artificial, digitalização, novas formas de organização, equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, diversidade, inclusão e sustentabilidade — é este o caldo onde ferve o tema do concurso.

Aberto a todos os residentes em Portugal com mais de 18 anos — ou menores com autorização — o concurso aceita participações de artistas profissionais, amadores e estudantes. A técnica é livre: óleo, acrílico, aguarela — o que contar melhor a história. O requisito é simples: ser uma obra original, inédita e com uma visão clara sobre o futuro do trabalho.

As candidaturas decorrem até 31 de agosto de 2025, mediante formulário online, com foto da obra e uma breve descrição conceptual (máximo: 300 palavras). O júri escolherá a pintura vencedora até 5 de setembro, e a entrega do prémio acontecerá no evento de inauguração.

Além do prémio monetário e da exposição permanente, haverá uma mostra com os finalistas, que terá também destaque digital nas plataformas da Gi Group Holding. O objetivo: dar palco à arte e criar diálogo entre criadores e corporações.

Para Thomas Marra, Country General Manager da Gi Group em Portugal, trata-se de um gesto simbólico com impacto real: «Este concurso é uma forma de aproximarmos o mundo corporativo do universo artístico, dando palco a vozes que nos ajudam a pensar o futuro com mais sensibilidade, crítica e imaginação.»

Mais do que decorar paredes, a Gi Group quer inspirar conversas. E nesta galeria, a moldura é o trabalho — mas o centro é humano.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Notícias

Quiet Quitting: o novo rosto da desmotivação no trabalho tem agora uma escala científica para ser medido

30 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

É uma expressão que ganhou tração nas redes sociais, atravessou oceanos e entrou no léxico do mundo laboral moderno: Quiet Quitting. A tradução literal — ‘demissão silenciosa’ — é, talvez, enganadora. Não se trata de abandonar o emprego, mas de um recuo interno: trabalhadores que se limitam a cumprir o mínimo necessário para não serem despedidos, rejeitando tarefas extra, responsabilidades não reconhecidas ou disponibilidade fora de horas. Agora, um grupo de investigadores, liderado pela portuguesa Maria João Guedes, dá um passo decisivo: a definição rigorosa e científica do conceito e a criação de uma escala validada para o medir.

O estudo, conduzido através de quatro amostras independentes — desde estudantes de pós-graduação a trabalhadores de diferentes geografias — permite, pela primeira vez, quantificar este padrão de comportamento laboral que muitos gestores já identificam como um dos maiores desafios de produtividade da década.

Uma nova métrica para um velho problema com nome novo

A investigação, publicada recentemente, propõe uma escala de dois eixos que traduzem as dimensões centrais do quiet quitting. A ferramenta será crucial para compreender não só a extensão do fenómeno, mas também as suas causas, correlações e consequências. Entre os principais pontos, o estudo sublinha que este comportamento se acentua em contextos de exigência crescente, ambientes pouco recompensadores ou culturas organizacionais onde o esforço extra raramente é reconhecido.

A ausência de um envolvimento ativo por parte dos trabalhadores — não por falta de competência, mas por falta de motivação, confiança ou sentido de propósito — pode ter impactos profundos no desempenho das organizações, sobretudo numa economia marcada pela complexidade e mudança constante.

Liderança portuguesa e financiamento nacional

Maria João Guedes, docente e investigadora, assume a coordenação do estudo, que contou com o apoio financeiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). A participação portuguesa no debate internacional sobre o futuro do trabalho volta assim a marcar posição, com investigação aplicada, robusta e com implicações práticas para líderes empresariais, decisores políticos e gestores de recursos humanos.

Num tempo em que se fala tanto de envolvimento, propósito e bem-estar no trabalho, o quiet quitting obriga a fazer perguntas difíceis: até que ponto as empresas conseguem, de facto, criar condições para que os seus colaboradores se sintam parte ativa e valorizada da organização?

A resposta, agora, já pode começar a ser medida.

Arquivado em:Educação, Notícias, Trabalho

Noruega em sete minutos: como se governa sem barulho

26 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

A Noruega não é apenas um país; é uma ideia cristalina de ordem e luz, um fiorde espelhado onde a modernidade repousa sobre raízes vikings e onde o silêncio das montanhas geladas se relaciona com a memória de um povo que aprendeu a florescer no frio. Em Oslo, o mármore branco da Ópera ergue-se como uma proa virada para o mundo, enquanto em Tromsø as auroras boreais pintam o céu como se os deuses nórdicos ainda lá morassem.

No Global Soft Power Index 2025, a Noruega ocupa o 9.º lugar, fruto de uma diplomacia exemplar, um sistema educativo invejável e um modelo de bem-estar que ainda é referência mundial. Já no Índice de Democracia da EIU, surge como a campeã global: 1.ª posição, 9,81 pontos em 10. Um Estado pequeno em número, mas gigante em coesão, liberdade e visão.

Este é o décimo primeiro artigo da  rubrica da Líder, ‘O estado de uma nação em sete minutos’. Todas as quintas-feiras, traremos um retrato de um país, explorando sucintamente quatro dimensões: cultural, política, económica e social.

Cultura

A Noruega deu ao mundo Edvard Munch, cujo grito atravessou os séculos num eco existencial, num medo indizível que se cola às paredes dos museus e da alma. Na literatura, Ibsen desmontou as hipocrisias da sociedade burguesa com um bisturi de palavras, e Karl Ove Knausgård expõe a vida comum com a brutalidade de quem não teme a verdade. Sangra nas páginas e passa para a próxima com o dedo cheio de saliva.

A música promulga-se da tradição aos sintetizadores: de Edvard Grieg, que transformou os fiordes em sinfonias, aos Röyksopp e AURORA, que reinventam a identidade sonora escandinava para as novas gerações.

A televisão pública, NRK, produz séries que não têm medo de pensar devagar. E nas pequenas localidades do norte, onde o sol desaparece durante meses, organizam-se festivais literários como quem acende uma fogueira contra a escuridão.

Mas talvez o maior feito cultural norueguês seja o equilíbrio entre o que era e o que será –  trolls e inteligência artificial, barcos de madeira e startups de impacto global.

Mesmo nos debates mais acesos – sobre identidade, ecologia, imigração ou futuro da Europa – a cultura está lá, não como trincheira, mas como ponte. Talvez seja isso que torna a Noruega, mais do que um país, uma possibilidade. E onde a arte não precisa de justificar-se – basta-lhe existir. A cultura não é espetáculo; é prática vivida. E ali ela desce à terra, às escolas e aos cafés, onde se lê mais do que se fala, e onde o tempo parece dilatar-se para que cada ideia encontre o seu lugar.

Política

A Noruega é uma monarquia constitucional onde o rei reina sem governar, e onde o primeiro-ministro governa sem se eternizar. Jonas Gahr Støre, do Partido Trabalhista, lidera um governo que procura equilibrar justiça social e crescimento económico, num país onde a dança democrática funciona com precisão escandinava, sem grandes escândalos, pouco circo e muita vocação.

Com uma imprensa livre, instituições robustas e uma sociedade civil ativa, a Noruega é tudo o que uma democracia deve ser – não porque precise de o provar, mas porque o respira.

E, no entanto, não se iludam com a serenidade da superfície: os debates sobre imigração, transição energética e polarização também aqui fazem parte da agenda. A tensão política em Oslo intensificou‑se em janeiro, quando o governo de coligação liderado pelo Partido Trabalhista fragmentou. O Partido do Centro retirou‑se do executivo após embates sobre a adoção de diretivas europeias em energia renovável, acusando o governo de comprometer a soberania nacional. Esse impasse precipitou a saída daquele partido e deixou o primeiro‑ministro Jonas Gahr Støre numa posição de governo minoritário até às eleições de setembro.

A diferença está no tom: menos grito, mais argumento. A Noruega tem opinião, mas não tem messias. E isso, por si só, já a distingue de metade do mundo.

Economia

Em 2024, o PIB norueguês cresceu 2,3%, com o país a manter uma posição invejável: baixo desemprego, inflação controlada e uma moeda forte. A riqueza do petróleo é gerida com uma parcimónia quase calvinista através do Fundo de Pensões Governamental, o maior fundo soberano do planeta, com ativos que ultrapassam os 1,5 biliões de euros.

Mas a Noruega não vive do passado fóssil – investe agressivamente em tecnologia verde, energia eólica offshore e soluções para o Ártico. Por exemplo, o país planeia expandir significativamente a energia eólica offshore até 2040. O primeiro-ministro Jonas Gahr Støre anunciou um objetivo ambicioso de 30 GW para quase duplicar a produção nacional, destinando parte considerável à exportação. O país não renega o petróleo que o enriqueceu, mas também não se ajoelha perante ele.

A diferença entre riqueza e ganância mede-se em Oslo. Aqui, a prosperidade não é ostentação; é infraestrutura, educação, saúde. O dinheiro não serve para fazer poucos ricos – serve para manter muitos iguais.

Sociedade

Com pouco mais de cinco milhões de habitantes, a Noruega cultiva um ideal social raro: confiança. Os cidadãos confiam no Estado, nas instituições, uns nos outros. Isso permite uma fluidez social onde a meritocracia não é uma palavra bonita – é uma prática real.

A igualdade de género é das mais avançadas do mundo. A licença parental pode ser partilhada. A escola é gratuita e inclusiva. Os hospitais funcionam. Os transportes também. E, ao contrário de tantos outros lugares, o sistema não parece prestes a implodir.

Mas há tensões. A integração de imigrantes, sobretudo de origem não-europeia, nem sempre é bem-sucedida. O crescimento das redes de tráfico de droga em zonas urbanas levantou alarmes. E a solidão – silenciosa e gelada como os invernos – é um dos grandes problemas de saúde mental entre os jovens.

O bem-estar nórdico também tem fissuras. Mas, ao contrário de muitos países, aqui ainda há tempo e vontade para as reparar.

Conclusão

A Noruega é um país onde o tempo se move com outra cadência. Onde o sucesso não grita, mas constrói. Onde a liberdade é a regra, não a exceção. É uma democracia exemplar, sim – mas, mais do que isso, é uma nação que aprendeu a ser adulta.

Num mundo onde tantos países oscilam entre populismo e apatia, a Noruega mantém-se fiel a um ideal de decência democrática. E prova que é possível ser rico sem ser injusto, livre sem ser caótico, pequeno sem ser irrelevante.

Não tem exércitos a marchar, mas tem ideias que viajam. Não conquista pela força, mas pela influência. E não precisa de gritar, porque o mundo – mesmo quando não ouve – acaba sempre por escutar.

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

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