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Marcelo Teixeira

Há novos apoios para dar fôlego financeiro às PME

25 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

As pequenas e médias empresas em Portugal acabam de ganhar um novo aliado na luta diária pela liquidez. A Sage e a Caixa Geral de Depósitos (CGD) anunciaram esta terça-feira uma parceria que promete simplificar — e acelerar — o acesso ao financiamento. A solução? Uma funcionalidade integrada na plataforma Sage 50 que permite aos clientes da CGD aceder a crédito e financiar faturas não vencidas diretamente no software de faturação, sem papelada, sem saltos entre plataformas e com dinheiro disponível em 24 horas úteis.

Num país onde o atraso nos pagamentos ainda é regra e o acesso a capital de curto prazo continua a travar o crescimento de muitos negócios, a aliança entre tecnologia e banca quer mudar o jogo — reduzindo a burocracia, acelerando processos e garantindo às PME o essencial: tempo, dinheiro e previsibilidade.

Crédito na hora, sem sair do ecrã

A funcionalidade já está disponível para utilizadores das soluções Sage 50 Faturação e Sage 50 Loja. O processo é simples: simular valores, consultar condições, submeter o pedido — tudo dentro do próprio ambiente da Sage. Uma vez validado, o financiamento é disponibilizado em apenas 24 horas (dias úteis), permitindo às empresas ganhar margem de manobra para cobrir despesas, investir ou apenas manter a respiração quando os pagamentos teimam em não chegar.

Hugo Oliveira, Partner & Ecosystem Director da Sage Ibéria, sublinha o impacto direto na vida das empresas: «Esta colaboração com a Caixa Geral de Depósitos permite aos nossos clientes aceder a financiamento de faturas de forma totalmente integrada na plataforma. É uma experiência sem fricção, que ajuda a melhorar o fluxo de caixa e liberta os empresários para o que mais importa: fazer crescer o negócio. Estamos muito entusiasmados com o potencial desta parceria para o tecido empresarial português.»

Tecnologia e banca ao serviço da economia real

Ao integrar o acesso a crédito diretamente nas ferramentas que os empresários já usam no dia a dia, a parceria entre a Sage e a CGD oferece uma alternativa prática ao financiamento tradicional — mais ágil, mais transparente e ajustada ao ritmo real das PME.

Menos papel, menos espera, mais liquidez. Em tempos de incerteza, pode ser o empurrão que faltava para muitas empresas voltarem a acelerar.

Arquivado em:Economia, Notícias

Cinco mudanças que já estão a redesenhar o mercado de trabalho em 2025

24 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

A flexibilidade já não é um luxo, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa longínqua e o bem-estar mental passou a estar na linha da frente.

A Adecco, multinacional de soluções de talento, acaba de divulgar as cinco grandes transformações que estão a moldar a força de trabalho global em 2025. A análise parte do estudo ‘Global Workforce of the Future’ — realizado em mais de 60 países — e mostra como a experiência dos colaboradores está a mudar o ADN das empresas.

Num mundo onde a instabilidade económica se cruza com avanços tecnológicos acelerados e mudanças culturais profundas, há um novo paradigma a consolidar-se — de Portugal ao Japão, das startups às multinacionais. E há cinco sinais que ninguém pode ignorar.

1. Híbrido ou nada

O modelo híbrido impôs-se. Cerca de 65% dos profissionais em todo o mundo preferem um equilíbrio entre trabalho presencial e remoto. Deixou de ser uma vantagem e passou a ser critério mínimo para atrair e manter talento. Em Portugal, a tendência confirma-se: as pessoas querem tempo, autonomia e equilíbrio. E, cada vez mais, exigem isso às empresas.

2. A IA já está cá

Não é futuro. É presente. A Inteligência Artificial está a entrar nas rotinas diárias, da automatização de tarefas à tomada de decisão. As funções repetitivas estão a ser reconfiguradas — e com elas as competências valorizadas. O mercado começa a pedir mais pensamento crítico, criatividade e empatia. A reconversão profissional não é uma hipótese: é uma necessidade.

3. Quatro gerações, uma mesma empresa

Baby Boomers, Geração X, Millennials e Gen Z — todos debaixo do mesmo teto. Nunca a diversidade geracional foi tão marcada. As diferenças entre expectativas e estilos de trabalho tornam a liderança mais exigente, mas também mais rica. Saber gerir esta pluralidade é meio caminho andado para construir equipas mais coesas, colaborativas e inovadoras.

4. A saúde mental é terreno estratégico

Esqueça os pingentes simbólicos. O bem-estar emocional já pesa nas decisões dos trabalhadores. Quatro em cada dez dizem que o apoio à saúde mental é fator decisivo na escolha do empregador. Burnout, exaustão, alienação — palavras que saíram da intimidade e entraram no vocabulário da gestão. As empresas que não tiverem uma resposta sólida vão ficar para trás.

5. O talento está dentro de casa

A mobilidade interna voltou a ganhar palco. Numa altura em que escasseia talento especializado, muitas empresas redescobrem o óbvio: quem já está dentro pode — e deve — ser o primeiro recurso a mobilizar. Requalificar, reter, motivar. A aprendizagem contínua e os planos de carreira transversais são agora prioridades reais, não só boas intenções.

«Estas tendências refletem uma mudança estrutural no modo como olhamos para o trabalho», sublinha Alexandra Andrade, Country Manager da Adecco Portugal. «As empresas que ouvirem os seus colaboradores, investirem no seu crescimento e se adaptarem com agilidade às novas exigências estarão mais preparadas para crescer de forma sustentável.»

O futuro do trabalho já está a acontecer. E não espera por ninguém.

Arquivado em:Notícias, Trabalho

Espanto: saiba tudo o que aconteceu no primeiro Festival Internacional de Filosofia

23 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Ao longo de quatro dias, Cascais recebeu o Espanto – o primeiro Festival de Filosofia a ter lugar em Portugal. Cerca de três dezenas de filósofos, escritores, pensadores, artistas e especialistas de várias áreas reuniram-se para refletir sobre o Medo, o tema da primeira edição. 

O Espanto e a curiosidade são o início de todas as coisas, e cruzar o pensamento filosófico com a vida quotidiana, sobretudo numa altura em que o mundo vive numa época de incerteza e de insegurança, foi o grande desafio da programação do Festival.  

Em vários locais, dentro e fora da Europa, já acontecem festivais de Filosofia, mas nunca existiu tal iniciativa em Portugal. Nas palavras do filósofo José Gil, a personalidade homenageada nesta edição de estreia, é de «saudar a ideia de criar um festival de filosofia em Portugal, que vem preencher uma lacuna imensa». 

Para Catarina G. Barosa, fundadora do Festival, o pensamento está em perigo, e por isso, tornou-se urgente criar este evento. Na sessão oficial de abertura, na Casa das Histórias Paula Rego, partilhou o enquadramento e a pergunta que esteve na origem da iniciativa. 

«Até onde nos pode levar a renúncia ao pensamento? Esta é a pergunta que nos deve perseguir nos tempos atuais e a Filosofia, enquanto disciplina de amor à sabedoria, pode salvar-nos das pulsões do nosso tempo. Por isso, é urgente a Filosofia, é urgente o amor à sabedoria e, por isso, parece-nos que seria urgente fazer um festival de Filosofia».  

Quanto ao tema deste ano, explica:  

«O medo por ser um sentimento relacionado com a finitude que nos define, associada à nossa frágil passagem pela vida, à vulnerabilidade dos nossos corpos, à avalanche de sentimentos a que somos submetidos todos os dias, uns atrás dos outros, habita-nos a todos e é, por isso, um elemento unificador, uma razão suficiente para, num primeiro festival de filosofia no nosso país, nos juntar a todos». 

Catarina Barosa, fundadora do festival

«Se nos faltar a Filosofia, falta-nos o esforço pela verdade», conclui.  

Salvato Teles de Menezes,  Presidente do Conselho Diretivo da Fundação Dom Luís, instituição que apoiou e acolheu o Espanto, que também contou com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, partilhou a poesia de T.S Eliot The Waste Land e, nas suas palavras de acolhimento, fez um périplo pela literatura ao longo dos séculos, entre a filosofia e o tema do medo.  

Salvato Teles de Menezes, Presidente do Conselho Diretivo da Fundação Dom Luís

«Son of man, You cannot say, or guess, for you know only. A heap of broken images, where the sun beats, And the dead tree gives no shelter.» 

 

O medo desceu à vila junto ao mar 

Peter Sloterdijk, Gilles Lipovetsky, Michel Eltchaninoff, José Gil, Manuel Curado, António de Castro Caeiro, Samantha Rose Hill, Donatella Di Cesare, Marta Faustino, Maria Balaska, Daniel Innerarity e Bernat Castany Prado marcaram presença ao longo dos quatro dias, para além de outros nomes como Beatriz Batarda, Joana Bértholo, Arlindo Oliveira, Artur Ribeiro, Luísa V. Lopes, Edson Athayde, Paulo Pascoal, David Erlich, Joana Rita Sousa e Laura Luz Silva. 

Foram vários os espaços por onde o Espanto, e o medo, andaram, tanto pelo centro da vila como em outros locais do concelho. A programação do festival arrancou na quinta-feira, dia 19, com sessões abertas à comunidade em bairros sociais de Cascais (Bairro 25 de Abril, Torre e Adroana), conduzidas por duplas de filósofos, terminando com atuações de artistas locais.  

Bairro 25 de Abril, com Nuno Piteira Lopes (Vice Presidente da CMC) ao fundo, e os filósofos Michel Eltchaninoff e Gilles Lipovetsky

 

O filósofo português, António de Castro Caeiro, a discursar no Bairro da Torre

Na sexta-feira, dia 20, o jantar In Vino Veritas deu o mote para a abertura oficial do evento, que contou com a intervenção do filósofo José Gil, onde os convidados tiveram a oportunidade de partilhar os seus medos num momento de microfone aberto. 

Beatriz Batarda e Bruno Nogueira

No sábado, o auditório e os jardins da Casa das Histórias Paula Rego tiveram  em destaque com sessões filosóficas e debates, tanto no palco principal, no interior do edifício, como no exterior, em Ágoras, espaços de encontros e de debate, tal como na Grécia antiga.  

No auditório Maria de Jesus Barroso, o programa arrancou com a sessão de Gilles Lipovetsky, sobre o tema da Sociedade da Insegurança. O pensamento que apresenta é o de que «apesar da insegurança não existir estamos num mundo em que tudo mete medo, tudo sem exceção, desde as coisas maiores, às mais microscópicas – e isto é a hipermodernidade», afirma.  

Os Jardins contaram com quatro Ágoras, com uma programação dedicada ao longo do dia e diferentes temas e atividades. Desde interações com filósofos, workshops para crianças e jovens, para estimular pensamento crítico e a criatividade, um espaço que deu voz a novas ideias e perspectivas sobre o medo e uma Ágora dedicada a José Gil, a personalidade homenageada, que contou também com a leitura de excertos da Poesia Al Berto da obra O Medo, por Raquel Marinho, d’O Poema Ensina a Cair. 

Paulo Pascoal, ator e artista, foi o host da Ágora dedicada a José Gil
Ágora dedicada às crianças

Ainda nessa noite, de solstício de verão, ouviu-se no Pátio da Cidadela de Cascais (Fortaleza) a voz da cantora e compositora portuguesa Milhanas. E a noite não terminou sem antes haver espaço para duas Aulas Magnas, com a presença da filosofia, como seria de se esperar.  

Maria Balaska esteve presente na Aula Magna noturna de sábado
Donatella di Cesare encerrou a noite

Na reta final da programação, no domingo, dia 22, a manhã arrancou com a atuação de Yeri & Yeni, uma dupla artística que combina influências musicais cabo-verdianas, portuguesas, angolanas, senegalesas e norte-americanas.  

Milhanas
Yeri e Yeni

Novamente, o espaço da Praça Central da Fortaleza da Cidade de Cascais, contou com duas Aulas Magnas, a primeira por Manuel Curado, Professor de Filosofia na Universidade do Minho. 

«Como é possível falar de medo num mundo em que tudo é semelhante a tudo em alguma aspeto. As guerras causam medo? Como pode um assunto assombrosamente velho causar medo? A guerra é mais natural do que o céu azul. Está sempre a acontecer em qualquer parte do mundo. Andamos a inventar medos que não existem». 

Manuel Curado

Seguiu-se Peter Sloterdijk, um dos maiores nomes da filosofia europeia contemporânea, pensador do risco e da indiferença, autor de Crítica da Razão Cínica, um dos livros filosóficos mais vendidos do século 20. 

«Não há nada na tecnologia que não tenha existido antes na metafisica. Tal como não há nada na metafisica que não tenha estado antes na magia». 

Peter Sloterdijk

O grande final do Festival Espanto aconteceu com uma sessão de leitura da obra de José Gil, Portugal, Hoje – O Medo de Existir, pela atriz Beatriz Batarda, seguindo-se a grande homenagem ao filósofo português. 

Ensaísta e professor universitário catedrático, nasceu em Moçambique e começou por estudar Matemática, na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, antes de partir para França onde fez a Licenciatura e Mestrado em Filosofia, na Sorbonne em Paris e depois o Doutoramento, na Université de Paris, Vincennes-Saint Denis.  

Com mais de 30 obras publicadas, José Gil foi considerado pelo Le Nouvel Observateur, um dos 25 grandes pensadores do mundo. É hoje uma figura incontornável do pensamento e da Filosofia ocidental do século 20, amplamente reconhecido pelas suas reflexões sobre a identidade portuguesa, o corpo e o poder. O livro Portugal, Hoje – O Medo de Existir, lançado há 20 anos, já conta com 14 edições. 

Nas suas palavras de agradecimento, após receber o reconhecimento, José Gil refere:  

«Uma homenagem é um reconhecimento do trabalho que se fez. Fica-se grato pelo reconhecimento quando se trabalhou toda uma vida com esforço numa atividade que é um bocado particular, esta de pensar de uma certa maneira que é a nossa, que é raro, sobretudo neste país onde a Filosofia tem pouca importância. 

Celebrar este esforço que nós todos fazemos, os que estão aqui, significa para mim uma homenagem e uma celebração a todos nós, não só a mim, a todos os que praticam esta atividade um pouco estranha e bizarra que é tentar pensar filosoficamente, e entender o que se passa. Com tantas quebras, com tantas falhas, tantas desilusões que acontecem no Mundo. E uns certos prazeres, umas certas recompensas pelo que se fez aqui e ali, pequeninamente».  

 

Tenha acesso à Galeria do Festival Espanto aqui. 

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Notícias

Portugal vai testar certificação internacional de sustentabilidade na restauração e hotelaria

23 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

É em Cascais que arranca o programa-piloto da Food Made Good, uma das certificações internacionais mais respeitadas no mundo da sustentabilidade alimentar. Fruto de uma parceria entre o Westmont Institute of Tourism & Hospitality da Nova SBE e a britânica Sustainable Restaurant Association (SRA), com o apoio da Associação Turismo de Cascais, o programa chega ao país com uma ambição clara: transformar, de forma prática e gratuita, a forma como restaurantes e hotéis operam, compram, cozinham e gerem recursos.

A primeira edição arranca com um núcleo duro: empresas líderes do setor — que somam mais de 100 unidades em território nacional e mais de mil a nível global —, além de entidades públicas e parceiros estratégicos.

Mas o plano vai mais longe. Para as próximas edições, está previsto um alargamento do programa, com acesso gratuito a ferramentas técnicas, acompanhamento personalizado e um pré-diagnóstico de maturidade para a certificação. O objetivo é claro: ajudar cada restaurante ou unidade hoteleira a identificar prioridades e iniciar um caminho sustentável — desde a origem dos produtos ao combate ao desperdício, passando por energia, água e sazonalidade.

Em Portugal, apenas um restaurante detém atualmente esta certificação. A meta é mudar isso.

Num contexto global em que quase um terço dos alimentos produzidos é desperdiçado e o sistema alimentar representa cerca de 30% das emissões de gases com efeito de estufa, o setor da restauração está sob pressão. Mas também tem nas mãos uma oportunidade única: liderar a mudança com impacto ambiental real e benefícios diretos para a resiliência e competitividade dos negócios.

Sete pilares do programa

O programa assenta em sete pilares: celebrar a proveniência, apoiar produtores locais e práticas justas, promover menus equilibrados e éticos, proteger os oceanos, reduzir a pegada carbónica, combater o desperdício e aplicar soluções circulares em toda a cadeia. Sustentabilidade, aqui, não é discurso. É prática diária.

«O que oferecemos é um mapa de ação. Uma abordagem holística e mensurável à sustentabilidade, com resultados desde o primeiro módulo. O objetivo não é a certificação em si, mas a transformação do processo. E é por isso que repetimos o programa todos os anos — para acompanhar a comunidade que se forma e garantir que este não é um ponto de chegada, mas o início de um percurso real», diz Daniela Afonso, diretora executiva do Nova SBE Westmont Institute of Tourism & Hospitality.

Para Bernardo Corrêa de Barros, presidente da Associação Turismo de Cascais, o impacto vai além da técnica: «Está em causa uma mudança de mentalidade. Excelência não é abundância, é curadoria. Não é excesso, é autenticidade. Cascais acredita que menos é mais: menos desperdício, mais significado. Esta iniciativa reforça o compromisso contínuo do concelho com a sustentabilidade, reconhecido internacionalmente com o selo Green Destinations – Platina, e agora reforçado pela plataforma Cascais For Tomorrow.»

O programa é gratuito e está aberto a todas as unidades, independentemente da sua dimensão ou localização: do restaurante de bairro ao resort cinco estrelas, passando por hotéis rurais ou espaços independentes. A ideia é simples: transformar, sem excluir. E mostrar que sustentabilidade também é hospitalidade.

Arquivado em:Educação, Notícias, Sustentabilidade

Desafios: a arte de enfrentar

23 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Enfrentar é uma palavra muito usada, mas nem sempre devidamente assimilada, compreendida ou bem utilizada. Ouvimos muitas vezes pessoas ou empresas relatarem que estão a enfrentar desafios, mas na verdade nem sempre os estão a enfrentar, já que não é a mesma coisa depararmo-nos com ou enfrentarmos um desafio. Aliás, perante um desafio, há sempre dois caminhos: evitar ou enfrentar, ou, posto de outra
forma: fugir ou lutar?

O medo é o fator com mais peso na decisão, consciente ou não, de optar por um destes caminhos, pois o ser humano tem uma aversão natural à rejeição que resulta do erro. A falta de informação concreta, a pressão, os conflitos de interesse, a inexperiência e os ambientes incertos são
outros fatores que levam à procrastinação. Esta não resulta apenas num adiar, mas sim numa negação da realidade presente, num esforço para evitar o desconforto e a incerteza que o desafio traz. Esta aversão ao desconhecido e a preferência pela zona de conforto limitam o crescimento e a nossa capacidade de adaptação.

A autoconsciência é fundamental para que possamos usar as nossas capacidades ao lidar com desafios, para percebermos onde devemos apostar, quando precisamos de mais informação, em que momentos é útil envolver outras pessoas. E, também muito importante, este conhecimento profundo da nossa capacidade, permite-nos também avaliar quando é altura de não lutar, uma vez que a energia e o tempo são recursos finitos e que devem ser usados de forma consciente e eficiente. Conhecer os nossos pontos fortes e fracos, as nossas paixões e os
nossos limites, permite-nos uma tomada de decisão mais estratégica. Não se trata de uma desistência, mas de uma gestão inteligente de recursos, priorizando o que realmente importa e o que trará maior retorno.

Para enfrentar desafios de forma eficaz, é crucial compreender a sua natureza, as suas causas e as suas possíveis consequências, só assim poderemos dar o primeiro passo para traçar um plano de ação. Segue-se a preparação, que pode envolver a aquisição de novas competências, a procura de mentores, a recolha de informação relevante ou a construção de uma rede de apoio. O sucesso reside invariavelmente na forma como nos preparamos, antecipando cenários e mitigando riscos.

Por fim, a ação decisiva, pois mesmo com um plano estabelecido, a hesitação pode ser tão prejudicial quanto a falta de preparação. A execução com determinação e a capacidade de ajustar o percurso conforme necessário são características de quem enfrenta desafios com sucesso. A resiliência é igualmente vital, já que nem todos os desafios são superados à primeira. A capacidade de nos levantarmos após uma queda, aprender com os erros e persistir com otimismo é o que distingue os indivíduos e as organizações de sucesso. Pessoas e empresas bem sucedidas lutam para superar desafios, tornando-se mais ágeis e adaptáveis, o que lhes
confere reputação e lhes assegura crescimento.

Arquivado em:Opinião

Diáspora cabo-verdiana exige mais ação: «Temos vontade de criar, mas encontramos bloqueios» (Any Keila Pereira)

20 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

A diáspora cabo-verdiana está pronta para regressar, investir, inovar. Mas o país continua, em muitos casos, a recebê-la com burocracia, entraves legais e promessas que ficam por cumprir. O alerta foi dado durante a terceira edição da Leadership Summit Cabo Verde, realizada nos dias 22 e 23 de maio no TechParkCV, sob o lema ‘Liderança Estratégica: Confiança, Conexão e Transformação’.

Era para ser um painel sobre inovação e investimento da diáspora, mas depressa se tornou numa chamada de atenção. A nova geração da diáspora já não vive só de saudade. Vive de ciência, de código, de empresa na mala. Quer criar valor. Quer mudar o país. Mas bate num muro.

A palavra atravessou a conversa como um fio eléctrico. «Confiança.» Disseram-na em crioulo, em português, nas pausas entre intervenções, nas entrelinhas da frustração. Há um país que diz querer os seus filhos de volta — mas, por vezes, ainda os trata como estranhos. Um país que diz querer investimento — mas que, muitas vezes, o afasta.

Rosana Almeida, jornalista, comandou os destinos desta profunda e honesta conversa.

«Eu trago o meu computador, não mando remessas»

Any Keila Pereira é engenheira, empreendedora, filha da diáspora e uma das vozes mais lúcidas desta geração. Co-fundadora de uma startup africana de inteligência artificial, vive entre Portugal e Cabo Verde. E não tem paciência para grandes romantismos. «Eu nunca enviei remessas. Trago o meu computador e trabalho a partir daqui», disse, de forma crua e direta.

Na sua visão, Cabo Verde tem tudo para ser um hub tecnológico regional. «Tem talento. Tem estabilidade. Tem localização. Tem um povo extraordinário. Mas falta-lhe uma coisa: cumprir o que promete.»

Any Keila falou das inúmeras promessas feitas a jovens da diáspora: oportunidades, parcerias, incentivos. «Vêm com vontade de criar, de contribuir. Mas depois encontram bloqueios fiscais, legais, institucionais. E vão embora com um travo amargo. A confiança, uma vez quebrada, espalha-se como mancha de óleo.»

«Politização afasta-nos»

Do outro lado da mesa, Nelson Gregor não poupou palavras. Presidente da associação de empresários cabo-verdianos nos EUA,  vive há décadas fora, mas nunca perdeu o país do mapa afetivo. Investiu, criou redes, tentou abrir caminhos. Mas o cansaço é evidente.

«Criámos a associação porque estávamos fartos de ver sempre os mesmos problemas. Toda a gente diz que quer a diáspora. Mas quando chegamos cá, há alguma desconfiança. E se não conhecermos as pessoas certas, não passamos da porta.»

Nelson Gregor denunciou a politização do investimento. «Tu tens uma ideia, queres montar uma empresa. Mas basta o teu advogado ter ligação  ao MPD para seres logo catalogado. Isso mata a iniciativa. Estamos aqui para criar, não para entrar em jogos partidários.»

 

Encontrar soluções e mapear a diáspora

Num dos momentos mais intensos do painel sobre a diáspora, Any Keila Pereira colocou o dedo na ferida: «Não basta criticar. A diáspora passa a vida a rodear os problemas, a repetir diagnósticos. O que se quer hoje é solução.»

E propôs uma. Simples, direta. Uma plataforma viva, onde os cabo-verdianos fora do país possam mapear-se a si próprios. «Fazia um site estático… mapear por exemplo diáspora da Europa que está na tecnologia, diáspora dos Estados Unidos que está na tecnologia, mapear diáspora que está na medicina… Cada um coloca o seu nome, o que faz, o país onde vive — assim as coisas acontecem de forma orgânica.»

Ao lado dela, Nelson Gregor alinhou a proposta. Mas foi mais fundo: «É preciso menos politização. A diáspora não quer ficar presa a ciclos eleitorais. Nós queremos estratégias que durem. Que não mudem consoante o partido que está no poder.»

Cabo Verde está preparado para acolher esta nova diáspora?

Nelson Gregor, com experiência no terreno, não tem dúvidas: «Deixem as associações serem porta de entrada. Não nos tratem como adereços em cerimónias. Deem-nos autonomia. Nós somos um milhão e meio ou mais lá fora. Temos know-how, capital, vontade.»

A nova diáspora não é turista. Não é espectadora. É agente. São jovens formados, mulheres e homens com carreira feita, empresas no terreno, ideias sólidas. E um profundo sentido de pertença. Mas falta-lhes um país que confie neles como eles confiam no país.

A pergunta ficou no ar, como nó na garganta: Cabo Verde está preparado para acolher esta nova diáspora? Ou vai continuar a deixá-la à porta?

 

Arquivado em:África, Cabo Verde, Notícias

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