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Marcelo Teixeira

Enfrentar: a nova estratégia de liderança em tempos de incerteza

20 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Numa era de disrupção permanente, liderar é ter a coragem de enfrentar – com foco, propósito e humanidade. Vivemos tempos em que os líderes enfrentam simultaneamente disrupções tecnológicas, tensões geopolíticas, pressões sociais e um ritmo de mudança sem precedentes. Liderar neste cenário não é apenas sobre tomar decisões – é sobre fazê-lo num ambiente de ambiguidade constante, sob o olhar atento de equipas, investidores, Media e sociedade.

É neste contexto que “enfrentar” se torna uma palavra incontornável no vocabulário da liderança contemporânea. Enfrentar a desinformação. Enfrentar a incerteza. Enfrentar o erro, o medo, o ruído e o caos. Enfrentar o status quo. Enfrentar o próprio desconforto de assumir um papel de mudança. A verdadeira liderança começa quando se escolhe enfrentar – com lucidez, responsabilidade e ousadia. Vivemos num mundo onde a complexidade cresce mais rápido do que a nossa capacidade de a organizar. Onde liderar exige mais do que técnica. Exige clareza de valores, coragem emocional e resiliência estrutural. O desafio, hoje, não é apenas tomar decisões – é fazê-lo num cenário de constante instabilidade e sob o olhar atento de equipas, acionistas, Media e sociedade.

Enfrentar, enquanto atitude estratégica de liderança, manifesta-se em múltiplas dimensões. É enfrentar o status quo e desafiar a inércia organizacional que bloqueia a inovação. É enfrentar o medo de ser diferente, de contrariar o pensamento dominante e correr o risco de não ser aceite socialmente. É enfrentar o erro, reconhecendo falhas e aprendendo com elas em vez de as esconder. É enfrentar a desinformação, criando uma cultura de verdade, transparência e literacia crítica. E, talvez mais profundamente, é enfrentar a própria vulnerabilidade – assumir fragilidades com autenticidade e transformá-las em força.

Enfrentar como Estratégia de Liderança: Seis Princípios-Chave

1. Acredita que a mudança é possível

Mesmo quando tudo aponta para o contrário. A esperança não é ingenuidade – é visão aliada à ação. É o que move líderes a desafiar estruturas rígidas e a redesenhar culturas estagnadas. Brian May, lendário guitarrista dos Queen, é um exemplo claro: enfrentou a depressão, voltou aos estudos e completou um doutoramento em astrofísica, provando que a transformação pessoal é sempre possível. Como ele próprio disse: «Acredita em ti mesmo. O primeiro a mudar tens de ser tu.» Esta crença é o ponto de partida de qualquer reinvenção verdadeira.

2. Foca-te no que podes controlar

Nem tudo está ao teu alcance – mas há sempre algo que está: a tua energia as tuas escolhas, a forma como lideras. Liderar com foco é como velejar em mar revolto: não controlas o vento, mas decides a posição da vela. Grandes líderes concentram-se no impacto direto e mensurável, canalizando energia onde ela realmente conta, mesmo quando tudo à volta parece ruir.

3. Abraça a tua vulnerabilidade

Liderar não é esconder fragilidades, mas assumir a humanidade como força. Vulnerabilidade não é fraqueza – é acesso à confiança verdadeira. Quando um líder partilha as suas dúvidas com integridade, criamos laços mais fortes e inspiramos pela empatia. A vulnerabilidade comunica humanidade, e a humanidade é o terreno mais fértil para a influência duradoura. A liderança verdadeira nasce do equilíbrio entre competência e autenticidade.

4. Sê consistente – mesmo quando não há aplausos

A mudança duradoura é construída em silêncio, longe dos holofotes. Persistir nos princípios quando ninguém observa é o que diferencia líderes de performers. A consistência transmite fiabilidade, nutre a cultura e prepara o terreno para decisões corajosas. O verdadeiro impacto nasce da repetição disciplinada daquilo em que acreditamos. Satya Nadella, na Microsoft, é exemplo disso: transformou profundamente a cultura da empresa com foco em empatia, aprendizagem contínua e responsabilidade partilhada – sem protagonismo excessivo, mas com impacto sustentável. Também Ginni Rometty, na IBM, liderou uma transição estratégica mantendo coerência de valores mesmo em fases difíceis e sob críticas intensas. A consistência transmite fiabilidade, prepara o terreno para decisões difíceis e nutre culturas sólidas. O verdadeiro impacto nasce da disciplina de viver aquilo em que se acredita.

5. Cria cultura para enfrentar em conjunto

Liderar não é um ato solitário. É criar ecossistemas onde o erro não paralisa, mas ensina. Organizações que enfrentam em conjunto valorizam a diversidade de vozes, o confronto saudável e a aprendizagem contínua. Quando todos se sentem parte da solução, a mudança deixa de ser imposta – passa a ser construída em colaboração.

6. Vê a resistência e o fracasso como parte do processo

Desafiar o status quo gera resistência. Pessoas apegam-se ao conhecido porque o desconhecido é assustador. Mas fracassar não é o fim – é feedback. Como líderes, precisamos de lembrar: não é a queda que nos define como fracassados, mas a escolha de não nos levantarmos. Cair é aceitável – desistir não é. A resiliência transforma falhas em alavancas. Os líderes mais influentes não são os que evitam o erro, mas os que aprendem com ele e regressam mais fortes.

A liderança começa no ato de enfrentar

Liderar hoje é aceitar que os mapas mudaram, e que o desconhecido é o novo normal. É decidir, com coragem e consciência, enfrentar – os outros, o sistema, o medo e, muitas vezes, a nós próprios. Porque enfrentar, quando é feito com propósito, transforma. E transforma-nos a nós, às nossas equipas e o mundo à nossa volta. Que escolha está disposto a fazer hoje para enfrentar aquilo que realmente importa na sua liderança?

 

Este artigo foi publicado na edição nº 30 da revista Líder, cujo tema é ‘Enfrentar’. Subscreva a Revista Líder aqui

Arquivado em:Opinião

A datificação da realidade empresarial – a importância de uma estratégia de dados

20 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

A datificação da realidade, isto é, a redução a dados de todos os traços dos nossos comportamentos, pessoais e profissionais, nas várias plataformas e nos vários pontos de contato é uma realidade incontornável.

A gestão destes dados é um desafio crescente e absolutamente vital para empresas de todos os tamanhos, exigindo uma estratégia pensada e refletida desde a recolha e armazenamento até à sua análise e utilização estratégica, uma vez que os dados são um ativo crítico que pode transformar operações e decisões, que não se compadecem com soluções pontuais e sem um enquadramento e alinhamento com a estratégia da organização.

No entanto, muitas empresas enfrentam obstáculos significativos na gestão eficaz dos seus dados, que podem ser superados através de uma estratégia de dados bem definida.

Estratégia de dados numa organização

Uma estratégia de dados é um plano abrangente que define como uma organização irá recolher, gerir e utilizar dados para alcançar os seus objetivos. Esta estratégia deve alinhar-se com a visão global da empresa e incluir componentes como governance, qualidade dos dados, segurança e conformidade.

A importância de uma estratégia de dados reside na sua capacidade de transformar dados brutos em insights acionáveis e ações concretas (porque não basta saber!), melhorando a eficiência operacional, a tomada de decisão e a inovação. Este planeamento é absolutamente crítico não para o agora, mas para um horizonte de médio prazo, sendo necessário combinar questões técnicas, humanas e de negócio

No entanto, antes de avançar com a implementação de uma estratégia de dados, é crucial avaliar a prontidão da organização, através de uma pequena check-list organizacional que cobre cinco dimensões:

 

  1. Temos, na organização uma visão clara dos nossos objetivos de negócio e como os dados podem ajudar a alcançá-los?
  2. Existe uma cultura de dados na nossa organização?
  3. Temos as competências técnicas necessárias para gerir e analisar dados?
  4. Os nossos sistemas atuais são capazes de suportar uma estratégia de dados?
  5. Estamos preparados para investir em tecnologia e formação para melhorar a gestão de dados?

 Infelizmente, a realidade é mais desafiante do que podemos crer e é necessário combinar, virtuosamente, produtos técnicos com mudança humana (porque a Inteligência Artificial ainda não consegue tudo), para escolher a melhor solução que promove objetivos de negócio, escalabilidade, custo e adoção humana.

 

O Microsoft Fabric na gestão e na análise de dados

 Uma estratégia de dados bem definida é essencial para transformar dados em valor e o Microsoft Fabric pode ser uma ferramenta poderosa para integrar e analisar esses dados, gerar insights acionáveis e medir a melhoria da eficiência nos processos e tomada de decisão, conseguindo também gerar vantagens competitivas.

Esta plataforma integrada combina várias ferramentas e serviços para ajudar as organizações a gerir e analisar dados de forma eficaz, oferecendo funcionalidades abrangentes, desde a recolha e importação de dados, até à transformação dos mesmos, bem como a sua análise avançada e visualização.

O Microsoft Fabric pode ser um verdadeiro catalisador da transformação digital, ao permitir às organizações integrar dados de várias fontes, criar pipelines robustos, automatizar processos e obter insights em tempo real. Esta capacidade responde às necessidades de diferentes perfis dentro da organização, desde engenheiros e cientistas de dados até aos utilizadores de negócio, promovendo uma única fonte de verdade. Com essa base sólida, é possível facilitar decisões mais rápidas, informadas e orientadas a resultados, identificar oportunidades de negócio, otimizar operações e, sobretudo, garantir que a informação certa chega à pessoa certa, no momento certo e no dispositivo certo –  o verdadeiro Santo Graal do negócio.

Para que a transformação digital com o Microsoft Fabric seja bem-sucedida, é fundamental definir objetivos claros, KPIs mensuráveis e metas alinhadas com a eficiência interna, o valor entregue ao cliente e a visão estratégica da empresa. Métricas como produtividade, agilidade na informação, redução de erros e tempo de resposta ao mercado ajudam a medir o impacto real.

No entanto, a transformação não se faz apenas com tecnologia, a mesma exige também capacitação, cultura de dados e colaboração entre equipas técnicas e de negócio. A integração do Fabric com o ecossistema Microsoft permite ganhos rápidos, visíveis e sustentáveis. No fim, a melhor tecnologia é a que gera valor prático para todos: empresa, colaboradores e clientes.

Arquivado em:Opinião

Espanto: o medo desce à vila. Filosofia em Cascais, de 19 a 22 de junho

18 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Durante quatro dias, Cascais será o coração palpitante da filosofia contemporânea. Entre 19 e 22 de junho, realiza-se a primeira edição do Festival Internacional de Filosofia em Portugal — um evento que carrega o nome de Espanto e que pretende devolver o pensamento à rua, ao bairro, ao corpo. O tema: o medo — essa sombra íntima e coletiva que molda democracias, inquieta sociedades e habita o quotidiano de todos nós.

O festival propõe-se a reunir filósofos, artistas, escritores, cientistas e curiosos numa celebração rara do pensamento como gesto público. Ao longo da semana, Cascais será atravessada por conversas, aulas magnas, ágoras, jantar filosófico e até momentos de música e poesia — um território temporário onde o Espanto é bem-vindo.

I. Filosofia nos bairros: uma democracia do pensamento

O festival começa nas margens — literalmente. A manhã de quinta-feira, 19 de junho, inaugura o programa com uma sessão aberta no bairro 25 de Abril em Cascais. Não se trata de levar sabedoria a quem supostamente não a tem, mas de provocar encontros onde a filosofia se torna prática e presença.

Duplas de pensadores conduzirão as sessões nestes territórios, ao ar livre e com entrada livre (mas sujeita a inscrição), seguidas por atuações de artistas locais. A ideia é simples e poderosa: em vez de reunir todos no centro, levar o centro a cada periferia, descentralizando o pensamento e convidando o espanto a bater às portas da vida real.

No primeiro bairro, às 11h15, Gilles Lipovetsky reflete sobre o medo e o vazio nas sociedades hiperconsumistas. Logo depois, às 12h00, Michel Eltchaninoff, profundo conhecedor da filosofia russa, aborda o uso político do medo nas democracias frágeis.

À tarde, às 15h40, será a vez de António de Castro Caeiro, que parte da tradição clássica para interrogar o medo como condição humana. Às 16h25, Samantha Rose Hill, uma das maiores especialistas em Hannah Arendt, falará do medo da solidão como sintoma da fragilidade democrática.

Na sexta-feira, dia 20, o ciclo dos bairros termina com Bernat Castany Prado — autor de Una filosofía del miedo. Irá abordar o medo do desconhecido, do algoritmo, do futuro.

II. In Vino Veritas: o jantar dos que pensam

No mesmo dia 20, ao cair da noite, o restaurante Conversas da Gandarinha acolhe um momento raro e intimista: o jantar ‘In Vino Veritas’. Aqui, oradores, parceiros e detentores de bilhete premium partilham mesa, vinho e ideias. A grande figura da noite será José Gil, homenageado desta edição, que fará uma intervenção exclusiva.

Num dos momentos do jantar, o microfone circulará livremente pelas mãos dos convidados. O risco é esse: que alguém diga a verdade. Ou que, entre copos e pratos, se descubra que o pensamento também pode ser uma forma de celebração.

III. Dia 21: entre o auditório e as Ágoras

Sábado, 21 de junho, será o dia mais denso e abrangente do festival. O Auditório da Casa das Histórias Paula Rego recebe, desde as 10h00, uma sequência de sessões filosóficas e debates, apresentados pela jornalista Catarina Marques Rodrigues.

No palco, um alinhamento notável: Lipovetsky, António de Castro Caeiro, Daniel Innerarity, Marta Faustino, Castany Prado, Hill e Eltchaninoff — vozes que cruzam as filosofias do corpo, da política, da linguagem, da incerteza.

A estes juntam-se outros protagonistas do pensamento contemporâneo: Beatriz Batarda, Joana Bértholo, Arlindo Oliveira, Artur Ribeiro, Luísa V. Lopes e Edson Athayde — pensadores de outros quadrantes, que tornarão os diálogos mais inesperados. A filosofia encontrará aqui a arte, a ciência, a escrita, a publicidade, a neurociência.

Enquanto isso, os jardins da Casa das Histórias Paula Rego transformar-se-ão em Ágoras — espaços de encontro gratuito com o pensamento, acessíveis a todos.

Ágora 1: encontros diretos com os filósofos

Durante todo o dia, os visitantes poderão interagir diretamente com os convidados principais do festival. Sem palco nem pedestal, apenas cadeiras, árvores, conversas.

 

Ágora 2: para os mais pequenos, pensar também é brincar

Neste espaço dedicado a crianças e jovens, as oficinas começam às 10h00 com O Labirinto dos Sentidos, da autora Laura Luz Silva, e seguem às 11h30 com o Clube de Perguntas, conduzido por Joana Rita Sousa. Após o almoço, o humorista David Erlich dinamiza A Bebedeira de Kant, e às 16h00, Maria João Travassos guia uma oficina de construção de livros.

 

Ágora 3: os novos discursos

Aqui subirão ao palco os vencedores do concurso de discursos filosóficos,  vozes que reinterpretam o medo à sua maneira — com raiva, ironia, arte ou rigor.

 

Ágora 4: o pensamento de José Gil

Este espaço será inteiramente dedicado ao filósofo homenageado. O artista Paulo Pascoal fará leituras comentadas da obra de Gil ao longo do dia (10h30, 12h00, 15h00 e 16h30). Entre as sessões, haverá sessões de autógrafos e uma leitura encenada de ‘O Medo’, de Al Berto, por Raquel Marinho, às 15h30.

 

À noite, o Espanto canta

O dia 21 termina em beleza com uma atuação da cantora Milhanas, pelas 21h30, no Pátio da Cidadela de Cascais. A artista portuguesa, conhecida pelo seu timbre delicado e letras introspectivas, será a voz da noite.

Entre as 21h45 e as 22h45, no mesmo local, será possível escutar dois nomes fundamentais do pensamento europeu atual: Maria Balaska, com uma reflexão sobre consciência, e Donatella Di Cesare, que nos confronta com os fantasmas do totalitarismo.

IV. O adeus ao medo: domingo, 22 de junho

O último dia do festival começa às 11h00 com música: as irmãs Yeri & Yeni, com influências cabo-verdianas, senegalesas, portuguesas e afro-americanas, trazem corpo e ritmo ao pensamento.

A seguir, duas Aulas Magnas de peso. Primeiro, Manuel Curado, que falará sobre memória e identidade. Depois, às 12h45, o filósofo alemão Peter Sloterdijk, pensador da indiferença e do risco, encerrará o festival com uma aula magistral.

Haverá ainda uma leitura da obra de José Gil, pelo professor Luís Moreira, antes da cerimónia de homenagem final, que marcará o fecho simbólico desta primeira edição do Espanto.

V. Filosofia com corpo e rua

Mais do que um festival, o Espanto propõe um novo gesto: devolver à filosofia a sua vocação pública. Falar de medo é falar da nossa época — da ansiedade, da vigilância, da precariedade, das guerras, mas também da resistência e da lucidez.

Algumas atividades requerem inscrição gratuita. Estudantes têm 15% de desconto em bilhetes pagos. Toda a informação e últimos bilhetes disponíveis aqui.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Lazer, Notícias

Cultivar talento tecnológico começa no básico mas exige consistência

18 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Num mercado onde o talento tecnológico é escasso e a rotatividade é alta, manter uma equipa motivada exige mais do que promessas ou slogans. A msg life Iberia, empresa de soluções de TI para o setor segurador e associada ao Porto Tech Hub, aponta três práticas concretas que têm feito a diferença: flexibilidade real, inclusão sentida e comunicação aberta.

Três passos, simples na teoria. Mais difíceis na prática. Mas hoje, mais do que nunca, decisivos.

 

1. Flexibilidade que se vê no dia a dia

Não se trata de permitir trabalhar a partir de casa uma vez por semana. É mais fundo do que isso. A flexibilidade aqui é autonomia real na gestão do tempo — organizar o trabalho consoante a vida e não o contrário. Isso evita o burnout, melhora o foco e aumenta a sensação de controlo sobre o quotidiano.

Não é um luxo. É o que faz com que as pessoas fiquem.

 

2. Equipas diversas, ambientes seguros

Valerem todos da mesma maneira. Poder dizer o que se pensa. Sentir que o lugar que se ocupa não depende de parecer o que se espera, mas de contribuir para resolver problemas reais. A msg life Iberia defende espaços de trabalho onde a autenticidade conta, e onde a diversidade — de trajetos, de estilos, de ritmos — não é apenas aceite, é bem-vinda.

Numa área em constante mudança, não há soluções únicas. E é essa pluralidade que torna as equipas mais preparadas.

 

3. Comunicação direta com quem decide

Uma liderança presente não se faz de discursos. Faz-se de disponibilidade. Em estruturas técnicas, onde os desafios são diários e as decisões têm de ser rápidas, o acesso à gestão conta. Saber que há margem para sugerir, questionar ou apontar caminhos ajuda a criar envolvimento. As ideias circulam com mais fluidez, a colaboração cresce, e o trabalho ganha outra qualidade.

 

São passos simples. Mas exigem consistência. E num setor que vive de resolver problemas complexos, o ambiente onde se trabalha passou a ser parte do problema — ou da solução.

 

Arquivado em:Corporate, Notícias, Trabalho

«Não se pode exercer liderança sem credibilidade» realça Cristina Duarte, subsecretária-geral das Nações Unidas

17 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Cristina Duarte, subsecretária-geral das Nações Unidas e Conselheira Especial para os Assuntos Africanos junto do Secretário-Geral da ONU, não mediu palavras na Leadership Summit Cabo Verde. Na sua intervenção sob o mote ‘Lideranças, Democracia e Governance: A Construção de Estados Africanos Efetivos’, falou de forma crua sobre os desafios estruturais que travam o continente. «A palavra ‘efetivo’ foi usada intencionalmente», sublinhou logo à partida sobre o título da sua talk.

A antiga ministra das Finanças cabo-verdiana alertou que discutir liderança em África exige compreender a sua complexidade cultural, histórica e política. «Liderança na Ásia não é igual à da Europa, que por sua vez não é igual à da América Latina, nem da África. São, permitam-me, animais completamente diferentes», afirmou, defendendo que modelos importados do Ocidente nem sempre se adequam ao contexto africano.

Para ela, «liderança não existe em abstrato»— deve ter propósito. E esse propósito, no caso africano, deve começar por reconhecer e combater o que chamou de triplo paradoxo, um conceito que tem vindo a desenvolver nos últimos anos em Nova Iorque.

O triplo paradoxo africano

«A África foi capturada por três paradoxos nos últimos 60 anos», afirmou, recusando explicações simplistas como a pandemia de Covid-19 ou a guerra na Ucrânia. Para Cristina Duarte, o verdadeiro obstáculo ao desenvolvimento reside na falência da governação e na ausência efetiva do Estado em muitos países do continente.

«O conflito e a instabilidade resultam de um défice de desenvolvimento, e não o contrário», defendeu. E lançou os números sem hesitações: 100 milhões de crianças fora da escola, 600 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade e 300 milhões em situação de pobreza extrema. «Com estes números, não me digam que houve desenvolvimento.»

Segundo a conselheira da ONU, os fatores internos — como a má governação, instituições frágeis e a falta de investimento em capital humano — somam-se aos fatores externos: «A África continua a ser um palco de forte competição geopolítica pelo controlo de recursos e ativos. 60% dos conflitos derivam daí.»

Cabo Verde como exceção numa África rica… mas pobre

Num discurso crítico mas ponderado, Cristina Duarte não deixou de destacar o caso de Cabo Verde como exemplo positivo. Desde a independência, em 1975, o país tem investido consistentemente em capital humano, tanto em regimes de partido único como de multipartidarismo. «Independentemente da força política no poder, foi uma constante.»

O primeiro dos três paradoxos expostos é o financeiro. «A África é rica em recursos naturais e também em recursos financeiros. Perde entre 500 a 600 mil milhões de dólares por ano. Perdemos em 2023, em 2024, perderemos em 2025 e em 2026.» E acrescentou: «Este mesmo continente que perde tudo isto, mendiga por ajuda pública ao desenvolvimento e perdão da dívida.»

«Se perde, é porque gerou. Gerou e perdeu. Só se perde o que se tem», afirmou, lembrando que o problema não é a falta de riqueza, mas sim o que se faz com ela.

Esse paradoxo financeiro alimenta o segundo: o energético. A África, rica em recursos como sol, vento, hidroeletricidade e minerais críticos, tem 600 milhões de pessoas sem acesso à eletricidade. «Sem energia não há vida, não há agricultura, não há sistemas alimentares. A África podia alimentar-se a si própria — e boa parte do mundo.»

África e o mundo

A cadeia conceptual que Cristina Duarte desenhou é clara: défice de desenvolvimento leva a instabilidade, que por sua vez impede o progresso. «Num mundo interconectado, nenhum líder pode afirmar que lidera com eficácia se não compreender e dominar as regras do sistema global.»

A construção de Estados africanos efetivos, na sua ótica, exige governação sólida, soberania estratégica e capacidade de navegar o multilateralismo com equilíbrio. «Soberanias fortes alimentam correlações de forças mais equilibradas, essenciais para o sistema multilateral funcionar.»

Numa comparação internacional revela o absurdo: em 2019, a União Europeia consumiu três vezes mais energia do que toda a África, apesar de ter pouco mais de um terço da população. Mais: França e Alemanha, em conjunto, consumiram mais energia do que todo o continente africano. «Há aqui um buraco. E este buraco não pode ser preenchido colocando a África num casaco estreito de energia verde.».

A economista não tem dúvidas: «Não somos os poluidores. Com todo o respeito, não somos expelidores.» A frase, dita com firmeza, marca o ponto central da sua intervenção. A contribuição do gás natural africano para as emissões globais de CO2 no setor elétrico é de apenas 0,62%. «Num continente que já é verde à partida?», questiona. O desequilíbrio é evidente.

O direito à escolha e o peso do ponto de partida

A posição é clara: África tem o direito de definir o seu próprio energy mix, colocando todas as opções energéticas em cima da mesa. «O destino é o mesmo, um planeta verde. Mas pedimos à comunidade internacional: reconheçam que o nosso ponto de partida é diferente.» O tom sobe, mas a análise mantém-se rigorosa: a transição energética imposta ignora desigualdades estruturais.

É o que ela chama de «paradoxo alimentar e energético». A solução? «As lideranças africanas têm que quebrar este paradoxo. Têm que mudar o modelo de financiamento para o desenvolvimento.» Hoje, África já financia mais de 75% do seu próprio desenvolvimento, mas continua presa à dependência da ajuda pública internacional.

Estados ausentes, territórios sem governo

O debate avança para uma questão estrutural: a ausência do Estado. Não é uma ausência apenas teórica ou ideológica, mas concreta. «Ou não está, ou está e não serve.» O resultado? Instabilidade, insegurança e erosão do contrato social. Em várias regiões, o Estado foi substituído por atores não estatais — muitas vezes grupos armados ou terroristas — que prestam os chamados «public goods»: segurança, educação, água, até mesmo justiça. Uma contradição que alimenta ciclos viciosos.

O diagnóstico é direto: «Durante 30 anos, as teorias neoliberais empurraram o Estado para fora do jogo. Agora pedem previsibilidade, regulação, administração pública. Mas o Estado foi destruído. Isto é uma contradição.»

Segundo os dados do Afrobarómetro, a confiança dos cidadãos nas instituições públicas continua a cair. Apenas líderes religiosos, militares e autoridades tradicionais mantêm alguma credibilidade. Em contraste, os representantes eleitos nas instituições formais são os que geram menos confiança. «Este é o epicentro das crises: a profunda ilusão da confiança entre cidadãos e instituições.»

Liderança precisa de mais do que voto

A resposta passa por uma nova forma de liderança. Não basta ser tecnicamente competente: «Sem integridade pessoal, não há mobilização social possível.» A credibilidade exige legitimidade, e aqui a economista distingue dois conceitos: a legitimidade eleitoral — conferida pelo voto — e a legitimidade orgânica, que só se constrói através de ações coerentes, valores e resultados.

«O voto não é uma fonte permanente de legitimidade. Ele dá uma licença legal, mas não confere legitimidade orgânica.» Citando Michael Williams, sublinha que a legitimidade orgânica implica «fazer o que é certo para a situação e para as pessoas envolvidas, com coerência de princípios.»

Outro alerta: a democracia política, nos moldes importados, está esgotada. Reduziu a cidadania ao ato de votar. «Criámos uma cidadania acidental. Em vez de representar, os eleitos substituem o eleitor.» O modelo de substituição mata o princípio da representatividade e bloqueia qualquer reforma estrutural.

É nesta lógica que a oradora afirma: «Não se pode exercer liderança sem credibilidade. E não há credibilidade sem legitimidade orgânica.» A legitimidade verdadeira exige democracia económica — não apenas liberdade de expressão, mas redistribuição justa de recursos.

A falência também é ocidental

O problema, sublinha, não é exclusivo do continente africano. «isto não é só um desafio africano. É também um desafio em países desenvolvidos e maduros.» Exemplo? Nos Estados Unidos, entre os 90% mais pobres da população, a renda cresceu menos de 0,5%, enquanto a produtividade do trabalho aumentou 240%. Em países europeus, a tendência é semelhante: erosão de rendimento disponível e concentração da riqueza.

A conclusão é implacável: «Perda de controlo é igual a perda de direção.» A África enfrenta um triplo paradoxo — energético, alimentar e de legitimidade — que impede o continente de se posicionar estrategicamente no sistema global. A liderança africana precisa de romper com a invisibilidade estratégica, compreender as regras do jogo e agir como protagonista.

Veja a galeria de imagens completa do evento aqui.

Arquivado em:África, Cabo Verde, Notícias

Trabalhar com propósito: três formas de alinhar a carreira com aquilo em que se acredita

17 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

O tempo das carreiras automáticas acabou. Num mercado em mutação acelerada, mais de 70% dos jovens consideram abandonar uma empresa se o ambiente for tóxico ou se a cultura organizacional colidir com os seus valores. Os dados são da Infojobs, mas o sentimento está por todo o lado: já não basta um salário ao fim do mês – é preciso sentir que se pertence, que se contribui, que se acredita no que se faz.

A palavra-chave é propósito. E, segundo Rita Ferreira, engenheira de software na Zühlke Portugal, o caminho pode passar por um velho conceito japonês chamado ikigai – a tal ‘razão de viver’ que equilibra o que fazemos bem, o que o mundo precisa, o que amamos e pelo que somos pagos. «Muitos profissionais sentem-se hoje desligados porque não veem nas suas funções um reflexo do que são. Encontrar um propósito pode ser a chave para recuperar a motivação e a satisfação», diz.

Com base nesta ideia, a Zühlke – empresa de serviços tecnológicos com escritório no Porto – identifica três estratégias para quem quer dar novo sentido ao trabalho:

1. Rever o setor onde se atua
Nem todos os empregos fazem sentido para todas as pessoas. Há indústrias onde o impacto ambiental ou social levanta dilemas. Quando há fricção entre os valores pessoais e os da organização, instala-se o mal-estar. A primeira pergunta é simples: aquilo que faço contribui ou colide com o mundo em que quero viver?

2. Investir em formação com rumo
Recomeçar exige coragem, mas também ferramentas. Seja em formações práticas, cursos intensivos ou requalificações, o investimento em novas competências abre portas – e mostra compromisso. Uma mudança de carreira não se improvisa: constrói-se com método, intenção e vontade de aprender.

3. Abraçar a evolução contínua
A carreira com propósito não é um destino fixo, é um processo em mutação. Aprender a aprender, cultivar a curiosidade e manter a antena ligada às mudanças do mercado são hábitos que mantêm a energia em alta e o percurso vivo. Não é só uma questão de sobrevivência profissional – é uma forma de estar no mundo.

No fundo, encontrar uma carreira com propósito é deixar de sobreviver no trabalho para, finalmente, viver através dele.

 

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