Foi em abril que nasceu, de forma discreta, mas com ambição declarada, a Fundação Mendes Gonçalves (FMG). Fruto da doação integral das ações por parte do seu fundador, Carlos Mendes Gonçalves, a FMG assume-se como uma nova fundação empresarial com um modelo pouco comum em Portugal: ligar filantropia e economia, regeneração e proximidade, com foco em três eixos estratégicos — educação, regeneração e nutrição.
A primeira semente já foi lançada: a construção de um Centro Educativo na Golegã, com abertura prevista para 2027-2028. Projetado pelo premiado ateliê japonês Tezuka Architects — autores do Fuji Kindergarten, considerado pela OCDE o melhor jardim de infância do mundo — o centro irá integrar berçário, creche, jardim de infância e 1.º ciclo.
Mas a visão da FMG vai muito além do território. Inspirada por valores sólidos e ancorada numa lógica de cocriação com parceiros locais, académicos e filantrópicos, a fundação quer contribuir para um novo modelo de desenvolvimento: mais justo, mais sustentável, mais humano. «É um projeto para várias vidas», resume Carlos Mendes Gonçalves. «Começámos por regenerar sabores, depois solo, depois comunidade, e agora avançamos com a Fundação com a mesma lógica — queremos regenerar legados».
Carlos, acredita, com verdade, que uma empresa pode ser um gesto de amor à terra? Não falo só de logística nem de emprego, falo mesmo de enraizamento, desse gesto quase antigo de cuidar, de devolver, de ficar.
Carlos Mendes Gonçalves- Sim, acredito. Mas não num amor romântico, desses de cartaz e slogan, acredito num amor com pés sujos de terra, que exige trabalho e alguma teimosia. Quando começámos a empresa na Golegã, não havia sequer zona industrial, portanto a escolha não foi cómoda, foi convicta. Podíamos ter ido para outro lugar qualquer, onde houvesse infraestruturas, mais visibilidade, talvez mais lucro imediato. Mas escolhemos ficar. Hoje empregamos mais de 400 pessoas. Porque é aqui que vivemos, é daqui que somos, e é com estas pessoas que queremos crescer. Não nos interessa crescer sozinhos.
E a Golegã, com esse ritmo próprio de interior, o que é que ainda lhe ensina? O que é que esse chão lhe diz todos os dias?
CMG – Diz-me que o desenvolvimento verdadeiro não se faz de betão nem de palavras bem medidas, mas de gente. A Golegã tem uma coisa que não se compra: tem memória. E essa memória lembra-me todos os dias que é preciso respeitar quem cá está e quem cá esteve antes. Aprendo com o modo como as pessoas vivem, com a forma como se ajudam sem barulho. E isso obriga-me a pensar duas vezes antes de tomar decisões, porque sei que tudo o que fazemos aqui tem eco — positivo ou negativo — na vida de alguém.
Há palavras que se gastam de tanto serem ditas, mas ‘regenerar’ parece resistir ao cansaço. No vosso caso, não é apenas conceito, é prática. Onde é que começou para si essa urgência de regenerar — e o que é que isso quer dizer, na verdade?
CMG – ‘Regenerar’, para mim, é recuperar aquilo que foi bom e que se perdeu. Não sou saudosista, não acho que tudo o que vem de trás seja sagrado, mas há coisas que merecem ser salvas do esquecimento: a ligação à terra, ao sabor, às relações entre as pessoas. No nosso trabalho, regenerar é quase um verbo fundador. Começámos por regenerar sabores, depois solo, depois comunidade, e agora avançamos com a Fundação com a mesma lógica — queremos regenerar legados. Trazer o que é antigo para o presente, mas com inteligência, com afeto e com sentido de responsabilidade.
Acha que é possível, através de uma empresa com propósito ou de uma Fundação com raízes, convencer os mais novos a ficar? A acreditar que o futuro não mora só nas cidades?
CMG – Acredito nisso profundamente. A juventude de hoje está mais bem preparada do que nunca, mas muitas vezes falta-lhes palco, falta-lhes espaço para errar e para liderar. Nós tentamos dar isso. Olho para a administração da empresa e vejo jovens com quem aprendo todos os dias. São eles que vão conduzir isto no futuro e, por isso, têm de começar agora. O problema é que, muitas vezes, os territórios não têm projetos que devolvam esperança. Se o interior não for um lugar de futuro, ninguém fica por saudade.
E quando é que começou a sonhar com algo desta magnitude? Não falo da empresa, falo mesmo do gesto: de passar, de deixar, de abrir o caminho a quem vier.
CMG – O sonho da Fundação começou quando percebemos que o sucesso da empresa não podia viver para sempre fechado em nós. Foi um processo interno, de maturação. Percebi que as empresas familiares, com frequência, morrem na terceira geração, engasgadas em heranças e disputas. Eu queria algo diferente. Queria que o que construímos tivesse continuidade, que fosse mais longe do que o tempo de uma vida. E mais: queria que fosse útil. Que gerasse bem-estar. Que tocasse verdadeiramente nas necessidades das pessoas.
Se educar é moldar o que ainda não existe, o que é que procuram moldar com a Fundação? Que tipo de mundo é esse, que ainda não vimos, mas que vocês já estão a construir?
CMG: Queremos moldar um mundo em que a educação é ponto de partida, não de chegada. Sem educação não há desenvolvimento rigorosamente nenhum. É um mundo em que aprender é um processo que não separa mãos de cabeça, nem campo de escola. A escola que vamos construir aqui na Golegã não será para pobres nem para ricos — será para todos. Com qualidade, com arte, com ciência e com raízes. E, se for bem feita, poderá ajudar a transformar o território. Porque educar bem uma criança é o mesmo que preparar uma terra para florir.
E esse desejo de devolver, de retribuir — nasce de onde? É só gratidão, ou também é dívida?
CMG: É as duas coisas. Gratidão por ter tido a sorte de encontrar gente que acreditou em mim quando ainda não havia quase nada, mas também é dívida — no sentido mais nobre da palavra. Devo a esta terra, devo às pessoas que comigo caminharam. Trabalhei muito, sim, mas sozinho não tinha feito nada. Nada.
Como é que se regenera um território sem cair no folclore, nem escorregar na gentrificação, nessa mania de transformar tudo em postal?
CMG – Com humildade. E ouvindo. Ouvindo muito. Não temos certezas absolutas. Por isso, temos o compromisso de auscultar regularmente a comunidade. O que fazemos só faz sentido se for útil, se for desejado. Não queremos construir nada que fique bonito em fotografia, mas vazio de gente. O que queremos é simples: ser motor de desenvolvimento sem deixar ninguém para trás. Sem expulsar os que cá estão e para virem outros que veem isto como um destino que lhes faça sentido.
No fundo, é a região que molda o gesto ou é o gesto que acorda a região?
CMG – Acho que não há uma coisa sem a outra. O território dá o compasso, mas o gesto pode acender luzes onde antes só havia sombra. A relação entre lugar e ação é de complementaridade. Queremos trazer o mundo até aqui, sim, mas sempre com respeito. Com os pés bem assentes na terra.
E há saberes na terra que não cabem nos livros?
CMG – Há. Muitos. Saberes que vêm do silêncio, do gesto, do tempo. É por isso que é importante estar no terreno, ouvir as histórias, reparar nos pequenos rituais. A sabedoria popular, muitas vezes, é mais fina do que parece. E se soubermos escutá-la, podemos construir coisas novas com raízes fundas.
Costuma pensar no que ficará depois de si?
CMG – Sim. Quero que a minha vida valha a pena. E que, depois de mim, o que criámos continue a gerar impacto, alegria, conhecimento. Espero que daqui a 50 anos a Fundação faça coisas que hoje nem consigo imaginar. Se assim for, valeu a pena.
Lembra-se da primeira vez em que sentiu medo de falhar?
CMG: Medo de falhar… não sei se essa é a palavra certa. Senti, sim, muitas vezes, o peso da responsabilidade. Porque as pessoas acreditam em mim, e isso pesa. Quando alguém confia em ti para pôr comida na mesa, ou para educar os filhos, ou para continuar a viver onde nasceu, tu não podes brincar. Mas esse peso é também o que me dá força para continuar. Sei que, se cair, tenho de cair de forma que os outros se levantem.
Carlos, o que é que, no meio disto tudo, ainda lhe dá esperança?
CMG – As pessoas. Sempre as pessoas. As que cá estão e as que estão para vir. A confiança que continuam a depositar em nós. A vontade de fazer melhor. E a certeza, íntima, de que vale a pena acreditar.



