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Marcelo Teixeira

«Primeiro, regenerámos sabores; agora, vamos regenerar legados» afirma Carlos Mendes Gonçalves

2 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Foi em abril que nasceu, de forma discreta, mas com ambição declarada, a Fundação Mendes Gonçalves (FMG). Fruto da doação integral das ações por parte do seu fundador, Carlos Mendes Gonçalves, a FMG assume-se como uma nova fundação empresarial com um modelo pouco comum em Portugal: ligar filantropia e economia, regeneração e proximidade, com foco em três eixos estratégicos — educação, regeneração e nutrição.

A primeira semente já foi lançada: a construção de um Centro Educativo na Golegã, com abertura prevista para 2027-2028. Projetado pelo premiado ateliê japonês Tezuka Architects — autores do Fuji Kindergarten, considerado pela OCDE o melhor jardim de infância do mundo — o centro irá integrar berçário, creche, jardim de infância e 1.º ciclo.

Mas a visão da FMG vai muito além do território. Inspirada por valores sólidos e ancorada numa lógica de cocriação com parceiros locais, académicos e filantrópicos, a fundação quer contribuir para um novo modelo de desenvolvimento: mais justo, mais sustentável, mais humano. «É um projeto para várias vidas», resume Carlos Mendes Gonçalves. «Começámos por regenerar sabores, depois solo, depois comunidade, e agora avançamos com a Fundação com a mesma lógica — queremos regenerar legados».

Carlos, acredita, com verdade, que uma empresa pode ser um gesto de amor à terra? Não falo só de logística nem de emprego, falo mesmo de enraizamento, desse gesto quase antigo de cuidar, de devolver, de ficar.

Carlos Mendes Gonçalves- Sim, acredito. Mas não num amor romântico, desses de cartaz e slogan, acredito num amor com pés sujos de terra, que exige trabalho e alguma teimosia. Quando começámos a empresa na Golegã, não havia sequer zona industrial, portanto a escolha não foi cómoda, foi convicta. Podíamos ter ido para outro lugar qualquer, onde houvesse infraestruturas, mais visibilidade, talvez mais lucro imediato. Mas escolhemos ficar. Hoje empregamos mais de 400 pessoas. Porque é aqui que vivemos, é daqui que somos, e é com estas pessoas que queremos crescer. Não nos interessa crescer sozinhos.


E a Golegã, com esse ritmo próprio de interior, o que é que ainda lhe ensina? O que é que esse chão lhe diz todos os dias?

CMG – Diz-me que o desenvolvimento verdadeiro não se faz de betão nem de palavras bem medidas, mas de gente. A Golegã tem uma coisa que não se compra: tem memória. E essa memória lembra-me todos os dias que é preciso respeitar quem cá está e quem cá esteve antes. Aprendo com o modo como as pessoas vivem, com a forma como se ajudam sem barulho. E isso obriga-me a pensar duas vezes antes de tomar decisões, porque sei que tudo o que fazemos aqui tem eco — positivo ou negativo — na vida de alguém.


Há palavras que se gastam de tanto serem ditas, mas ‘regenerar’ parece resistir ao cansaço. No vosso caso, não é apenas conceito, é prática. Onde é que começou para si essa urgência de regenerar — e o que é que isso quer dizer, na verdade?

 CMG – ‘Regenerar’, para mim, é recuperar aquilo que foi bom e que se perdeu. Não sou saudosista, não acho que tudo o que vem de trás seja sagrado, mas há coisas que merecem ser salvas do esquecimento: a ligação à terra, ao sabor, às relações entre as pessoas. No nosso trabalho, regenerar é quase um verbo fundador. Começámos por regenerar sabores, depois solo, depois comunidade, e agora avançamos com a Fundação com a mesma lógica — queremos regenerar legados. Trazer o que é antigo para o presente, mas com inteligência, com afeto e com sentido de responsabilidade.


Acha que é possível, através de uma empresa com propósito ou de uma Fundação com raízes, convencer os mais novos a ficar? A acreditar que o futuro não mora só nas cidades?

CMG – Acredito nisso profundamente. A juventude de hoje está mais bem preparada do que nunca, mas muitas vezes falta-lhes palco, falta-lhes espaço para errar e para liderar. Nós tentamos dar isso. Olho para a administração da empresa e vejo jovens com quem aprendo todos os dias. São eles que vão conduzir isto no futuro e, por isso, têm de começar agora. O problema é que, muitas vezes, os territórios não têm projetos que devolvam esperança. Se o interior não for um lugar de futuro, ninguém fica por saudade.

 

E quando é que começou a sonhar com algo desta magnitude? Não falo da empresa, falo mesmo do gesto: de passar, de deixar, de abrir o caminho a quem vier.

CMG – O sonho da Fundação começou quando percebemos que o sucesso da empresa não podia viver para sempre fechado em nós. Foi um processo interno, de maturação. Percebi que as empresas familiares, com frequência, morrem na terceira geração, engasgadas em heranças e disputas. Eu queria algo diferente. Queria que o que construímos tivesse continuidade, que fosse mais longe do que o tempo de uma vida. E mais: queria que fosse útil. Que gerasse bem-estar. Que tocasse verdadeiramente nas necessidades das pessoas.

 

Se educar é moldar o que ainda não existe, o que é que procuram moldar com a Fundação? Que tipo de mundo é esse, que ainda não vimos, mas que vocês já estão a construir?

CMG: Queremos moldar um mundo em que a educação é ponto de partida, não de chegada. Sem educação não há desenvolvimento rigorosamente nenhum. É um mundo em que aprender é um processo que não separa mãos de cabeça, nem campo de escola. A escola que vamos construir aqui na Golegã não será para pobres nem para ricos — será para todos. Com qualidade, com arte, com ciência e com raízes. E, se for bem feita, poderá ajudar a transformar o território. Porque educar bem uma criança é o mesmo que preparar uma terra para florir.


E esse desejo de devolver, de retribuir — nasce de onde? É só gratidão, ou também é dívida?

CMG: É as duas coisas. Gratidão por ter tido a sorte de encontrar gente que acreditou em mim quando ainda não havia quase nada, mas também é dívida — no sentido mais nobre da palavra. Devo a esta terra, devo às pessoas que comigo caminharam. Trabalhei muito, sim, mas sozinho não tinha feito nada. Nada.


Como é que se regenera um território sem cair no folclore, nem escorregar na gentrificação, nessa mania de transformar tudo em postal?

CMG – Com humildade. E ouvindo. Ouvindo muito. Não temos certezas absolutas. Por isso, temos o compromisso de auscultar regularmente a comunidade. O que fazemos só faz sentido se for útil, se for desejado. Não queremos construir nada que fique bonito em fotografia, mas vazio de gente. O que queremos é simples: ser motor de desenvolvimento sem deixar ninguém para trás. Sem expulsar os que cá estão e para virem outros que veem isto como um destino que lhes faça sentido.

 

No fundo, é a região que molda o gesto ou é o gesto que acorda a região?

CMG – Acho que não há uma coisa sem a outra. O território dá o compasso, mas o gesto pode acender luzes onde antes só havia sombra. A relação entre lugar e ação é de complementaridade. Queremos trazer o mundo até aqui, sim, mas sempre com respeito. Com os pés bem assentes na terra.


E há saberes na terra que não cabem nos livros?

CMG – Há. Muitos. Saberes que vêm do silêncio, do gesto, do tempo. É por isso que é importante estar no terreno, ouvir as histórias, reparar nos pequenos rituais. A sabedoria popular, muitas vezes, é mais fina do que parece. E se soubermos escutá-la, podemos construir coisas novas com raízes fundas.

 

Costuma pensar no que ficará depois de si?

CMG – Sim. Quero que a minha vida valha a pena. E que, depois de mim, o que criámos continue a gerar impacto, alegria, conhecimento. Espero que daqui a 50 anos a Fundação faça coisas que hoje nem consigo imaginar. Se assim for, valeu a pena.

 

Lembra-se da primeira vez em que sentiu medo de falhar?

CMG: Medo de falhar… não sei se essa é a palavra certa. Senti, sim, muitas vezes, o peso da responsabilidade. Porque as pessoas acreditam em mim, e isso pesa. Quando alguém confia em ti para pôr comida na mesa, ou para educar os filhos, ou para continuar a viver onde nasceu, tu não podes brincar. Mas esse peso é também o que me dá força para continuar. Sei que, se cair, tenho de cair de forma que os outros se levantem.

 

Carlos, o que é que, no meio disto tudo, ainda lhe dá esperança?

CMG – As pessoas. Sempre as pessoas. As que cá estão e as que estão para vir. A confiança que continuam a depositar em nós. A vontade de fazer melhor. E a certeza, íntima, de que vale a pena acreditar.

 

Arquivado em:Entrevistas, Leadership

As pequenas cidades portuguesas mais populares (e onde o país ainda respira devagar)

2 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

Há lugares em Portugal onde o tempo abranda. Onde os dias ainda se medem pela luz da manhã e pelo cheiro do pão quente, onde as conversas têm o tamanho justo das varandas baixas e os nomes das ruas contam histórias. Em 2025, mais do que nunca, as pequenas cidades — aquelas com menos de 30 mil almas — estão a conquistar a atenção de quem procura fugir do ruído e reencontrar o país.

Segundo um estudo do portal de casas de férias Holidu, baseado em dados de pesquisa do Google, estas foram as regiões mais procuradas em Portugal no último ano. É uma espécie de regresso às raízes, só que mediado por um ecrã. Um mapa digital que apazigua a saudade.

1. Porto Moniz (Madeira) – 61.530 pesquisas

É no norte agreste da ilha da Madeira que se encontra a campeã desta lista. Porto Moniz é uma vila moldada pela lava e pela persistência — com piscinas naturais esculpidas pela força do tempo e da natureza. Aqui, o mar entra sem pedir licença, e quem visita sente-se pequeno, mas em paz.

2. Monchique (Algarve) – 43.460 pesquisas

No alto da serra algarvia, Monchique é um refúgio de águas quentes e silêncio. Com vista para o Atlântico e cheiro a eucalipto, oferece termas, trilhos e um pôr do sol inesquecível no topo da Fóia. Talvez Portugal comece mesmo aqui, onde as nuvens se sentam ao nosso lado.

3. Mirandela (Trás-os-Montes) – 38.770 pesquisas

Capital da alheira e da doçura do interior, Mirandela brilha à beira do Tua. Tem pontes antigas, igrejas discretas, e uma maneira serena de nos receber — como se cada casa soubesse esperar. É destino para quem valoriza o calor humano e os almoços longos.

4. Castro Daire (Viseu) – 34.050 pesquisas

Entre serras e castanheiros, Castro Daire respira autenticidade. Os Passadiços do Paiva dão-lhe fama, mas é o cheiro a lenha, o som das festas populares e os mercados cheios de mel e compotas que a tornam memorável. Aqui, a terra ainda se reconhece.

5. Seia (Serra da Estrela) – 32.620 pesquisas

No sopé da Estrela, Seia é o ponto de partida para descobrir as alturas e o frio bom. O queijo da serra, a Feira do Queijo, os rios gelados no verão — tudo convida a ficar. É também a cidade do pão escuro, das histórias contadas ao lume, dos poetas da montanha.

A completar o Top 10:

6. Lousã – 30.790 buscas. Com as suas aldeias de xisto e serranias a perder de vista.
7. Oliveira do Hospital – 28.790 buscas. Onde o Dão e as memórias romanas ainda convivem.
8. Montalegre – 25.180 buscas. O reino das sextas-feiras 13, do fumeiro e do misticismo.
9. Mondim de Basto – 24.630 buscas. Onde o Alvão se abre em socalcos e quedas de água.
10. Peso da Régua – 23.820 buscas. Um altar ao Douro, à vinha, ao silêncio embriagado.

 

Talvez não haja uma só resposta para a pergunta «onde está Portugal?», mas estas cidades, aldeias e vilas pequenas aproximam-se dela. São os lugares onde ainda se acende a luz da rua ao fim da tarde, onde o tempo não vale só dinheiro — vale história, cheiro a terra molhada e gente que sabe dizer «bom dia» com verdade.

 

O estudo completo pode ser consultado aqui.

Arquivado em:Lazer, Notícias, Sociedade

A formação como instrumento da liderança estratégica

2 Junho, 2025 by Marcelo Teixeira

“Que formação vamos fazer este ano?”; “Os Recursos Humanos já iniciaram o levantamento de necessidades?”; “Já falaste com o teu chefe para dizer que formação gostavas de fazer?”. Com frequência ouvimos estas perguntas nas organizações, como se a formação fosse um processo independente e avulso que renasce anualmente das cinzas.

A formação é tão “somente” um dos vários instrumentos para concretizar a estratégia da organização, através do desenvolvimento das pessoas. E poderá o meio para concretizar um fim ser independente desse fim?

É, por isso, essencial para o sucesso da formação que a liderança assuma um papel determinante na forma como a organização pensa e planeia o desenvolvimento das suas pessoas e as prepara para o futuro.

Mais do que identificar e gerir formações, importa liderar com visão e propósito: identificar as competências essenciais para o presente e também as que serão necessárias a curto-médio prazo, compreender quais os desafios emergentes que exigem uma resposta formativa. Quando os programas de formação se alinham com a estratégia e com as competências críticas da organização, o seu impacto multiplica-se. Ganha-se relevância, eficácia e retorno. E prepara-se a organização para o futuro.

Esta abordagem exige um afastamento do paradigma de liderança mais operacional. Ou seja, do gestor da equipa que identifica necessidades de formação a pensar em desafios imediatos ou nas expetativas e necessidades mais diretas da sua equipa. Ou do gestor de formação que se limita a operacionalizar o plano, a organizar as ações, coordenar calendários ou registar horas de formação. Urge ter uma visão bem diferente. A formação deve ser uma força-motriz com o intuito de liderar estrategicamente, e isso significa antecipar desafios e necessidades, desenhar percursos de desenvolvimento alinhados e coerentes e garantir que a formação contribui de forma direta para os objetivos da organização.

Para tal, e como sempre, a tomada de decisão deve ser informada por dados. Por exemplo, utilizar a estratégia da organização e os modelos de gestão de carreiras para antecipar necessidades. Mas também integrar na gestão do desempenho dos colaboradores mecanismos que identifiquem necessidades de desenvolvimento de competências, medir o impacto das formações, para além de acompanhar a evolução das equipas e ajustar continuamente. Quanto mais concretos são os inputs que alimentam a gestão da formação, mais sólidas, ajustadas e sustentáveis são as decisões tomadas, garantindo de um efetivo retorno do investimento.

É também importante considerar a vertente relacional e humana destes processos. Compreender o contexto dos formandos, ouvir as suas necessidades, promover o seu crescimento individual, valorizar a dimensão relacional da formação. Tudo isto gera maior envolvimento e, consequentemente, mais aprendizagem.

Ao apostar numa gestão que envolva ativamente as equipas na identificação das suas necessidades e na construção das soluções potencia-se o sentimento de pertença e reforça-se a responsabilidade pela transferência da aprendizagem para o contexto de trabalho. Uma cultura de accountability e confiança, onde cada colaborador sente que tem um papel ativo no seu desenvolvimento, é talvez o maior indicador de maturidade estratégica de uma organização na área da formação.

Liderar com visão é, afinal, reconhecer que desenvolver pessoas é, simultaneamente, desenvolver o negócio. E que a formação, quando integrada na estratégia, é um investimento e uma vantagem competitiva.

Arquivado em:Opinião

Lisboa celebra o Dia da Criança com murais, histórias e liberdade para errar com alegria

30 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A infância, esse território sem mapa, onde as perguntas valem mais do que as respostas, onde o chão é de papel, as paredes são convites e os dias ainda sabem a fruta comida com as mãos. É lá que tudo começa, não porque haja um princípio, mas porque há espanto. E é nesse espanto que Lisboa se abre, no Dia da Criança, com arte nos dedos e histórias no ar, como se o mundo ainda pudesse ser salvo com uma mochila pintada à mão e uma canção inventada no momento.

No dia 1 de Junho, quando a cidade já se habituou ao calor a sério e os adultos continuam a fingir que sabem para onde vão, há quem se lembre de parar para ouvir os mais pequenos — não para lhes ensinar, mas para aprender. O MURO – Festival de Arte Urbana encerra a edição de 2025 no Museu da Água com o Mini MURO, uma iniciativa que entrega pincéis, tintas e liberdade aos pequenos artistas da cidade. Das 10h às 12h e das 15h às 18h, as oficinas convidam à criação de arte em murais, mochilas e garrafas reutilizáveis. Tudo serve de tela quando a criatividade é maior que as margens.

A tarde ganha ritmo com uma Jam Session dirigida por Tânia Lopes, da Academia Musical SKOOLA. Às 16h, os tambores falam com o público e improvisam emoções. A entrada é livre — porque a arte, como a infância, não se deve cobrar.

Já nos Jardins do Bombarda, o Centro Cultural e Comunitário organiza um festival com cinema em sala insuflável, teatro, histórias contadas, workshops, piqueniques e uma feira do livro. Tudo gratuito, exceto alguns workshops, e com uma atenção especial às crianças da Palestina, lembrando que o brincar pode — e deve — ser solidário.

 

Oficinas de Verão: um Museu do Mar feito por mãos pequenas e olhos atentos

O mar tem vindo a devolver-nos tudo o que nele deixámos — até os plásticos com que embrulhámos o progresso. Mas há quem transforme esses restos em alerta, e o alerta em arte. O projeto Plasticus maritimus, criado por Ana Pêgo, cumpre dez anos e assinala a data com novas oficinas de verão na SMUP, na Parede, entre ciência, imaginação e consciência ambiental.

De 30 de junho a 11 de julho, em duas semanas independentes, crianças dos 8 aos 12 anos vão poder criar o seu próprio Museu do Mar. Serão exploradoras, cientistas, artistas, curadoras. Vão olhar de perto aquilo que a maré traz — do lixo aos tesouros — e dar-lhe nome, forma e sentido.

Mais do que uma simples atividade de verão, esta é uma experiência para aprender a ver: o que está no fundo do oceano e o que está no fundo de nós.

As vagas são limitadas. Inscrições aqui.

Livros para ganhar asas

No universo dos livros, também se escuta a infância com atenção. A colecção “O que é?”, uma parceria dos centros Vila do Conde Porto Fashion Outlet e Freeport Lisboa Fashion Outlet com curadoria de Kiara Terra, estreia com o título “O Que é a Família?”. Com lançamento marcado para os dias 31 de maio e 1 de junho, na The Book Shop, em Vila do Conde, o livro dá palco às definições dos miúdos sobre o que significa esse espaço emocional chamado casa. A leitura é aberta às famílias e faz parte de uma série que promete continuar a dar voz ao olhar fresco e desarmado das crianças.

 

Também Manuela Castro Neves regressa às livrarias com “Um Cãozinho Entrou na História”, ilustrado por Maria Remédio, um livro que junta o abandono à amizade, a exclusão ao reencontro. Tomás, um rapaz novo na escola, e Kuky, um cão que sabe o que custa ser deixado para trás, constroem juntos uma narrativa onde a persistência transforma o olhar dos outros. A história, pensada para miúdos, ressoa em todos os que já se sentiram fora do jogo.

 

No meio desta celebração, ainda há lugar para moda com alma: a colaboração Sanjo x Wolf & Rita dá novas cores aos clássicos ténis de lona, numa edição especial K100 Abril, que veste a infância de criatividade e resistência.

No fundo, o que se celebra não é apenas o Dia da Criança — é a possibilidade de sermos outra vez pequenos. De olhar o mundo sem o filtro da pressa. De pintar sem medo de sair das linhas. E de, quem sabe, reaprender a perguntar: e se for só isto que importa?

 

Arquivado em:Lazer, Notícias, Sociedade

Confissões de uma perfeccionista em recuperação

30 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A maioria das pessoas lê livros de psicologia porque quer arrumar a sua vida. No entanto, o leitor não é a maioria das pessoas. Na verdade, a sua vida pode estar um pouco demasiado arrumada. As pessoas que sofrem de perfecionismo têm um autocontrolo que se tornou um pouco descontrolado. Acredite que o compreendo perfeitamente. Estou no mesmo barco. Isto não é um livro censurador do autoaperfeiçoamento daqueles que lhe dizem que está a fazer as coisas mal — isso já o leitor faz sozinho. Ao invés, veja-o como uma permissão. Permissão para descobrir como seria a sua vida quando se permite a respirar. Quando deixa de se esforçar tanto. Quando se concentra no que dá significado à vida, e não no seu desempenho pessoal. Ainda será perfecionista, mas trabalhará para si, e não contra si. Oficialmente, chama-se perfecionismo adaptativo, mas na verdade significa apenas perfecionismo que lhe traz mais proveito do que custos.

Para mim, baixar o volume da minha intensidade tem um efeito inaudito. Quando iniciei a escrita deste livro, comecei com um perfecionismo típico: li uma pilha de livros e artigos, tão alta que podia ser medida em palmos. Assumi o compromisso pessoal de trabalhar com diligência para colocar em prática o que aprendera. Ou seja, abordei as minhas tendências de tipo A como um problema a superar, à semelhança de todos os outros obstáculos (e sim, vejo plenamente a ironia de me esforçar ao máximo para me descontrair). No passado, quando pretendia mudar algo na minha vida — começar um podcast, ganhar forma física, passar de um centro de investigação para a escrita — podia fazê-lo sistematicamente: estabelecia um objetivo, lançava mãos à obra e dava a tarefa por concluída.

Desta feita, contudo, não havia itens para riscar da lista. O problema não era riscar itens. Em vez de forçar as coisas, tinha de as deixar desenrolar-se. Em vez de trabalhar para um objetivo, tinha de me concentrar em aspetos que desafiavam a definição de objetivos — como valores, prazer e comunidade. Ao invés de tentar fazer tudo sozinha, tinha de ser vulnerável perante os outros. Em vez de seguir as minhas próprias regras, tinha de ser mais flexível. Tinha de mostrar o meu processo ao mundo, repleto de contratempos e inconvenientes, e não apenas a resposta correta destacada no final.

O meu esforço interior e consciente foi-me útil para algumas mudanças. Dou prioridade ao sono e ao exercício, pelo que já não me alimento de fumo e cafeína. Lembro-me de falar aos amigos dos meus fracassos e sucessos. E sim, ainda tenho uma lista de afazeres, mas já sem uma ordem cronológica pesadíssima, e olho para o que alcancei, em vez de me concentrar tristemente no que ficou por fazer.

Também abdiquei de muito do esforço exagerado que não estava a funcionar. Tentei abandonar as minhas previsões do pior cenário possível. Quando os meus filhos abusam do tempo em frente aos ecrãs ou do açúcar, já não fico preocupada com a possibilidade de isso lhes perturbar o crescimento e comecei a manter presente que são crianças. Por vezes ainda fico assoberbada, mas sou muito mais benevolente comigo mesma quando dou por mim a ouvir o podcast My Favorite Murder quando devia estar a trabalhar. Confio aos colegas tarefas delegadas e de colaboração, e pergunto-me porque não o fiz todos estes anos. Estou a aprender a tolerar críticas e a manter-me atenta àquilo com que posso concordar, em vez de apenas defender o meu ego ferido. Procurei um «psicólogo de psicólogos» e permiti finalmente que tomassem conta de mim, em vez de ser a única a tomar conta dos outros.

Em suma, estou a aprender a descansar. A pedir ajuda. A ser genuína, em vez de impressionante. A fazer coisas por divertimento, e não para aperfeiçoamento. A não me censurar tanto. A rir de mim mesma. A mostrar mais da confusão. Em vez de puxar a minha corda com mais força, estou a aprender a soltá-la.

Enquanto alguém que valoriza a privacidade, acho inacreditável que agora ganhe a vida a escrever sobre as minhas inseguranças. Por vezes, quando penso nisso, sinto um aperto no estômago. Tenho uma noção inescapável de que os meus problemas são impróprios e vão afastar as pessoas. Depois, quando olho à volta e vejo o que aconteceu de facto, apercebo-me de que partilhar as minhas fraquezas com os amigos e leitores me fez sentir mais ligada e aceite pelas muitas, muitas pessoas que sentem exatamente o mesmo — ligações que não teria de forma alguma estabelecido se tivesse continuado a esconder o que considerava errado.

 

Este artigo consiste num excerto adaptado do livro Como ser bom o suficiente (Nascente, 2025), de Ellen Hendriksen, publicado com o consentimento da autora.

 

Leia aqui outros excertos do livro:

O perigo do perfeccionismo ou como ser bom o suficiente

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Angelini Pharma nomeia Nuno Brás como novo diretor-geral em Portugal

30 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A Angelini Pharma anunciou a nomeação de Nuno Brás como novo diretor-geral da filial portuguesa, marcando o regresso de um líder nacional à frente da operação, após duas décadas sob direção de quadros oriundos de outros mercados. A escolha reforça o compromisso da farmacêutica com a inovação, a excelência científica e a centralidade no doente.

«É com grande entusiasmo que abraço este novo desafio na Angelini Pharma, uma empresa com um legado de compromisso com a saúde e o bem-estar das pessoas. Estou motivado para trabalhar lado a lado com as nossas equipas e parceiros institucionais, promovendo a inovação e a colaboração científica, e confirmando a nossa aposta estratégica na saúde mental», afirmou o novo diretor-geral.

Farmacêutico de formação, Nuno Brás soma uma carreira sólida na indústria, com experiência em cargos de liderança em mercados nacionais e internacionais. Antes de integrar a Angelini Pharma, passou pela LEO Pharma, onde foi vice-presidente e diretor-geral para Espanha e Portugal, liderou o cluster de França, Canadá e BeNeLux e assumiu ainda, interinamente, a direção-geral dos países nórdicos. O percurso profissional inclui também cargos na MSD e na BMS, com responsabilidade sobre equipas comerciais na área dos cuidados especializados.

Nuno Brás sucede a Olga Insua, que liderou a operação em Portugal no último ano, acumulando com a direção-geral da Angelini Pharma em Espanha desde 2020.

Com esta nomeação, a farmacêutica reforça a sua estratégia de crescimento sustentado e aposta num modelo de gestão mais próximo do ecossistema nacional da saúde, com o foco no doente como prioridade.

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