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Marcelo Teixeira

O perigo do perfeccionismo ou como ser bom o suficiente

23 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A maioria das pessoas lê livros de psicologia porque quer arrumar a sua vida. No entanto, o leitor não é a maioria das pessoas. Na verdade, a sua vida pode estar um pouco demasiado arrumada. As pessoas que sofrem de perfeccionismo têm um autocontrolo que se tornou um pouco descontrolado. Acredite que o compreendo perfeitamente. Estou no mesmo barco. Isto não é um livro censurador do autoaperfeiçoamento daqueles que lhe dizem que está a fazer as coisas mal — isso já o leitor faz sozinho. Ao invés, veja‑o como uma permissão. Permissão para descobrir como seria a sua vida quando se permite a respirar. Quando deixa de se esforçar tanto. Quando se concentra no que dá significado à vida, e não no seu desempenho pessoal. Ainda será perfeccionista, mas trabalhará para si, e não contra si. Oficialmente, chama‑se perfeccionismo adaptativo, mas na verdade significa apenas perfeccionismo que lhe traz mais proveito do que custos.

Para mim, baixar o volume da minha intensidade tem um efeito inaudito. Quando iniciei a escrita deste livro, comecei com um perfeccionismo típico: li uma pilha de livros e artigos, tão alta que podia ser medida em palmos. Assumi o compromisso pessoal de trabalhar com diligência para colocar em prática o que aprendera. Ou seja, abordei as minhas tendências de tipo A como um problema a superar, à semelhança de todos os outros obstáculos (e sim, vejo plenamente a ironia de me esforçar ao máximo para me descontrair). No passado, quando pretendia mudar algo na minha vida — começar um podcast, ganhar forma física, passar de um centro de investigação para a escrita — podia fazê‑lo sistematicamente: estabelecia um objetivo, lançava mãos à obra e dava a tarefa por concluída.

Desta feita, contudo, não havia itens para riscar da lista. O problema não era riscar itens. Em vez de forçar as coisas, tinha de as deixar desenrolar‑se. Em vez de trabalhar para um objetivo, tinha de me concentrar em aspetos que desafiavam a definição de objetivos — como valores, prazer e comunidade. Ao invés de tentar fazer tudo sozinha, tinha de ser vulnerável perante os outros. Em vez de seguir as minhas próprias regras, tinha de ser mais flexível. Tinha de mostrar o meu processo ao mundo, repleto de contratempos e inconvenientes, e não apenas a resposta correta destacada no final.

O meu esforço interior e consciente foi‑me útil para algumas mudanças. Dou prioridade ao sono e ao exercício, pelo que já não me alimento de fumo e cafeína. Lembro‑me de falar aos amigos dos meus fracassos e sucessos. E sim, ainda tenho uma lista de afazeres, mas já sem uma ordem cronológica pesadíssima, e olho para o que alcancei, em vez de me concentrar tristemente no que ficou por fazer.

Também abdiquei de muito do esforço exagerado que não estava a funcionar. Tentei abandonar as minhas previsões do pior cenário possível. Quando os meus filhos abusam do tempo em frente aos ecrãs ou do açúcar, já não fico preocupada com a possibilidade de isso lhes perturbar o crescimento e comecei a manter presente que são crianças. Por vezes ainda fico assoberbada, mas sou muito mais benevolente comigo mesma quando dou por mim a ouvir o podcast My Favorite Murder quando devia estar a trabalhar. Confio aos colegas tarefas delegadas e de colaboração, e pergunto‑me porque não o fiz todos estes anos. Estou a aprender a tolerar críticas e a manter‑me atenta àquilo com que posso concordar, em vez de apenas defender o meu ego ferido. Procurei um «psicólogo de psicólogos» e permiti finalmente que tomassem conta de mim, em vez de ser a única a tomar conta dos outros.

Em suma, estou a aprender a descansar. A pedir ajuda. A ser genuína, em vez de impressionante. A fazer coisas por divertimento, e não para aperfeiçoamento. A não me censurar tanto. A rir de mim mesma. A mostrar mais da confusão.

Em vez de puxar a minha corda com mais força, estou a aprender a soltá‑la.

Enquanto alguém que valoriza a privacidade, acho inacreditável que agora ganhe a vida a escrever sobre as minhas inseguranças. Por vezes, quando penso nisso, sinto um aperto no estômago. Tenho uma noção inescapável de que os meus problemas são impróprios e vão afastar as pessoas. Depois, quando olho à volta e vejo o que aconteceu de facto, apercebo‑me de que partilhar as minhas fraquezas com os amigos e leitores me fez sentir mais ligada e aceite pelas muitas, muitas pessoas que sentem exatamente o mesmo — ligações que não teria de forma alguma estabelecido se tivesse continuado a esconder o que considerava errado.

Este artigo consiste num excerto adaptado do livro Como ser bom o suficiente (Nascente, 2025), de Ellen Hendriksen, publicado com o consentimento da autora.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Eficácia na comunicação volta a estar no centro do palco

23 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Está oficialmente lançada a edição 2025 dos Effie Awards Portugal, os prémios que distinguem a eficácia na comunicação de marketing. A cerimónia de abertura decorreu sexta-feira passada (16) , numa iniciativa conjunta da APAN (Associação Portuguesa de Anunciantes), APAP (Associação Portuguesa de Agências de Publicidade, Marketing e Comunicação) e Effie Worldwide, responsáveis pela organização do prémio em Portugal.

António Roquette, presidente da APAP, abriu a sessão com uma mensagem clara: «A eficácia é o verdadeiro objetivo da nossa indústria. Os Effie não premeiam apenas a criatividade, mas sim o impacto real – nos negócios, nas marcas, nas pessoas e na sociedade.»

O evento contou com o painel ‘Eficácia a 3 Mãos’, que juntou Sérgio Leal (McDonald’s), Bernardo Rodo (OMD Portugal) e Rui Silva (BBDO Portugal), numa conversa sobre o que torna as parcerias verdadeiramente eficazes. A moderação esteve a cargo de Sofia Barros e Ricardo Torres Assunção.

Seguiu-se a apresentação oficial dos Effie Portugal 2025, conduzida por Sofia Barros e Pedro Loureiro (GfK), com destaque para as novidades nas categorias, calendário e critérios de avaliação.

No painel ‘Por Dentro do Jogo Effie’, os jurados partilharam os bastidores do processo de avaliação e o que distingue as campanhas de excelência. Participaram Sofia Barros, Duarte Durão (NOSSA) e Ricardo Torres Assunção.

O encerramento ficou a cargo de Filipa Appleton, presidente da APAN, que reforçou o papel dos Effie enquanto referência de impacto e transparência:

«Os Effie são mais do que prémios – são o reflexo de uma indústria que valoriza resultados com propósito. Em tempos de constante transformação, celebrar a eficácia é reafirmar o valor estratégico da comunicação.»

As candidaturas aos Effie Awards Portugal 2025 estão abertas até 11 de julho.

Arquivado em:Marketing, Notícias

Itália em sete minutos: Roma dorme com os olhos abertos

22 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Dizem que é um país em forma de bota, mas talvez seja antes um palco virado do avesso, onde cada ato termina em aplauso ou tumulto. A beleza, essa, sobra-lhe: escorre dos mármores, dos vinhos, dos insultos trocados à mesa e gesticulados com as mãos. Governar, porém, continua a ser um exercício de improviso — com génio, mas sem ensaio. E a memória, sempre à espreita, pesa mais que o presente: Roma nunca caiu, apenas adormeceu de olhos abertos.

Em 2025, a Itália mantém-se como uma potência de soft power, ocupando a 9.ª posição no Global Soft Power Index, entre 193 países. Este reconhecimento internacional deve-se à sua influência cultural, excelência gastronómica, design de renome e património artístico incomparável.

No entanto, o panorama político interno revela fragilidades. O Índice de Democracia 2024, da Economist Intelligence Unit, classifica a Itália como uma ‘democracia com falhas’, com uma pontuação de 7,58, situando-se na 37.ª posição global. O relatório destaca preocupações com a interferência política no sistema judicial, erosão das liberdades civis e pressões sobre os meios de comunicação.

Este é o nono artigo da rubrica da Líder, ‘O estado de uma nação em sete minutos’. Todas as quintas-feiras, traremos um retrato de um país, explorando sucintamente quatro dimensões: cultural, política, económica e social.

Cultural

A Itália não inventou a beleza — apenas a aperfeiçoou com obstinação. Da poesia de Dante à tragédia de Pirandello, a literatura italiana move-se como a sua língua: com melodia, fúria e intenção. Giacomo Leopardi escreveu o tédio do mundo com uma delicadeza quase cruel, enquanto Calvino ergueu castelos de leveza para escapar ao peso da realidade. E Elena Ferrante, voz sem rosto, escreveu Nápoles como quem desenterra um país inteiro — bairro a bairro, mulher a mulher.

O cinema fez do neorrealismo uma ética: Visconti, Rossellini e De Sica filmaram a pobreza com a solenidade dos grandes frescos. Depois veio Fellini, o louco lúcido, a dançar entre o sonho e o vício. E hoje, nomes como Sorrentino ou Guadagnino continuam a celebrar a beleza e a decadência como irmãs siamesas.

A arte está nas paredes — Giotto, Botticelli, Caravaggio, Bernini — mas também nas mãos dos que amassam farinha, curam presunto, afinam parmesão. A cozinha italiana é gramática e gesto: cada prato é uma herança e uma promessa. Comer, aqui, é conversar com os mortos.

No futebol, a Squadra Azzurra veste a história com orgulho e cicatrizes. O golo de Tardelli em 1982, a lágrima de Baggio em 1994, a consagração em 2006: momentos que uniram um país fragmentado. E nas bancadas, como nas ruas, há sempre mais paixão do que consenso. Itália é cultura porque é conflito — e é justamente aí que reside a sua eternidade.

Política

Desde as eleições legislativas de setembro de 2024, a Itália mergulhou numa nova dança de impasses e acordos frágeis. Nenhum partido conquistou maioria absoluta, e a governação tornou-se um bailado tenso entre coligações instáveis e rivalidades históricas.

O partido de direita Fratelli d’Italia, liderado por Giorgia Meloni, mantém uma influência significativa com cerca de 112 deputados, mas depende do apoio incerto da Liga e de forças centristas para manter a estabilidade. A esquerda fragmentada, com o Partido Democrático a liderar cerca de 95 cadeiras, encontra-se dividida entre renovar-se ou sucumbir às divisões internas.

Esta dispersão parlamentar alimenta uma crise institucional, aprofundada por escândalos e pelo desgaste da confiança pública — só 34% dos italianos confiam atualmente no governo, segundo o Eurostat de 2025.

No cenário internacional, a Itália tenta equilibrar o peso da sua história europeia com as pressões do presente: o delicado tema da imigração, as relações com a União Europeia e a necessidade urgente de revitalizar a economia.

A filósofa e economista Lucrezia Reichlin defende uma aposta na justiça, na igualdade e na inovação como remédios para a fragmentação política e o cansaço social.

Assim, a política italiana é um mosaico de promessas pendentes e desafios que exigem mais do que compromissos: uma reinvenção da confiança coletiva, sob o peso da história e da urgência do futuro.

Economia

A economia italiana registou um crescimento modesto nos últimos anos, apoiado em reformas fiscais e medidas de estímulo que procuraram reativar um país marcado por décadas de estagnação e desequilíbrios regionais. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (ISTAT), o PIB cresceu 1,7% em 2024, um sinal de recuperação, mas insuficiente para atenuar as disparidades sociais históricas.

Contudo, enquanto a riqueza se concentra nas mãos de uma elite empresarial e financeira, a pobreza e a desigualdade mantêm-se preocupantes. A taxa de pobreza relativa em Itália aumentou para 14,8% em 2024, segundo o Eurostat, um valor que evidencia a dificuldade em garantir uma recuperação económica inclusiva.

A classe média italiana tem assistido a uma erosão do poder de compra, agravada pela inflação . Apesar de ter abrandado em 2024 para cerca de 2,5%, ainda pesa no orçamento das famílias. Os preços dos bens alimentares básicos, como o pão e os produtos lácteos, subiram mais de 10% nos últimos dois anos, de acordo com o relatório do Banco de Itália.

Em resposta, o governo liderado por Giorgia Meloni implementou medidas para conter a inflação e proteger as famílias mais vulneráveis. Inclui subsídios e a redução temporária de impostos sobre os bens essenciais. A taxa de juros oficial manteve-se estável, refletindo a cautela do Banco Central Europeu em face dos riscos económicos globais.

No entanto, é importante notar que, apesar da queda do défice orçamental, a dívida pública italiana aumentou para 135,3% do PIB em 2024, o que indica desafios contínuos na gestão das finanças públicas.

Sociedade

A Itália enfrenta uma grave crise demográfica. Em 2024, registou apenas 370.000 nascimentos — o valor mais baixo desde 1861 — e uma taxa de fertilidade de 1,18 filhos por mulher. A esperança média de vida subiu para 83,4 anos, agravando o envelhecimento da população.

A imigração representa 9,2% da população, ajudando a atenuar o declínio demográfico, mas a integração continua a ser um desafio.

A morte de várias jovens, incluindo Giulia Cecchettin, gerou protestos contra a violência de género. O governo respondeu com uma nova lei que define ‘feminicídio’ como crime punível com prisão perpétua.

Em 2024, estudantes universitários de várias cidades italianas — como Roma, Milão e Bolonha — organizaram protestos contra o aumento das propinas e o subfinanciamento crónico do ensino superior. O movimento, que teve eco nacional, criticou também os cortes em bolsas e o aumento do custo de vida estudantil. Em resposta, o governo anunciou um plano de revisão do sistema de apoio social para estudantes, ainda em fase de debate parlamentar.

Conclusão

Itália é um mosaico de luz e sombra, um chiaoscuro de promesas, onde Da Vinci pintou sonhos que o tempo não ousou apagar. A inflação morde o pão quente da classe média, enquanto os jovens insurgem em gritos que rasgam o silêncio das praças antigas. Entre a beleza esculpida no mármore e a urgência que queima nas ruas, o país ensaia, a cada passo, o seu próximo ato — a dormir mas sempre de olhos abertos.

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

ESG ganha peso na construção da reputação empresarial

22 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A reputação tornou-se um dos ativos mais estratégicos das organizações. Num ambiente empresarial cada vez mais competitivo e escrutinado, os critérios ESG — ambientais, sociais e de governação — emergem como fatores decisivos para consolidar uma imagem sólida e duradoura.

De acordo com o Merco, monitor de referência na avaliação da reputação empresarial em Portugal, as empresas com melhor desempenho em ESG tendem a liderar também nos índices de reputação. A DoGood People, plataforma que apoia organizações na integração da sustentabilidade no seu ADN, sublinha que a reputação já não se constrói apenas com produtos, serviços ou campanhas — constrói-se com valores.

A empresa destaca cinco razões essenciais pelas quais o ESG está a redefinir a forma como as organizações são percepcionadas:

1. Confiança e credibilidade
A transparência e o compromisso com práticas sustentáveis geram confiança junto de investidores, clientes, colaboradores, media e parceiros. Organizações que integram o ESG de forma clara ganham legitimidade e são mais facilmente reconhecidas como agentes de mudança. A reputação passa, assim, a ser construída em tempo real e de forma participativa.

2. Diferenciação num mercado exigente
Num cenário onde o consumidor é cada vez mais atento e informado, o ESG funciona como fator distintivo. As empresas que demonstram um propósito alinhado com práticas éticas e sustentáveis criam laços mais fortes com públicos conscientes — o que se traduz em vantagem competitiva face à concorrência.

3. Atração e retenção de talento
As gerações mais jovens procuram mais do que salários: procuram valores. Uma cultura organizacional comprometida com causas sociais e ambientais torna-se um polo de atração de talento. Além disso, promove o engagement interno e a retenção dos melhores profissionais.

4. Resiliência e gestão de risco
Numa época marcada por instabilidade económica, crise climática e maior escrutínio público, o ESG oferece uma estrutura para a antecipação de riscos e uma resposta mais robusta a contextos adversos. As empresas que integram estas práticas de forma estratégica estão mais preparadas para resistir a crises reputacionais.

5. Conformidade e liderança ética
A pressão regulatória e social está a transformar o ESG de uma vantagem em obrigação. Os stakeholders exigem cada vez mais transparência, ação concreta e liderança ética. As organizações que se posicionam na vanguarda do ESG reforçam a sua reputação como referências de integridade no seu setor.

Através das suas soluções digitais, a DoGood People ajuda empresas a operacionalizar estas estratégias, promovendo uma cultura ativa de responsabilidade. «Num mundo em transformação, a reputação constrói-se com coerência, ação e propósito», sublinha a empresa.

Arquivado em:Corporate, Notícias, Responsabilidade Social, Sustentabilidade

Startup portuguesa vence prémio de inovação com terapia para cancros agressivos

22 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Começou com uma pergunta urgente e uma resposta que a ciência tardava em dar. Como tratar os cancros mais implacáveis, aqueles que matam depressa e deixam poucas hipóteses aos doentes? Foi deste ponto de partida que nasceu a BEAT Therapeutics, uma jovem startup portuguesa sediada no Porto, que acaba de vencer o BfK Awards — distinção atribuída pela Agência Nacional de Inovação (ANI) no âmbito dos Prémios Empreende XXI, promovidos pelo BPI e pela DayOne, do CaixaBank.

Criada em 2023, a BEAT dedica-se ao desenvolvimento de terapias inovadoras para cancros altamente agressivos, como os do pâncreas, mama triplo negativo, ovário e próstata resistente à castração. Estas doenças afetam cerca de 1,7 milhões de pessoas todos os anos e apresentam taxas de mortalidade superiores a 70% nos primeiros cinco anos após o diagnóstico.

Uma abordagem inédita à resistência dos tumores

O principal candidato terapêutico da empresa é o BBIT20, um composto first-in-class em fase pré-clínica que atua através de um mecanismo de ação nunca antes explorado. O BBIT20 demonstrou elevada eficácia e capacidade para contornar mecanismos de resistência tumoral, explorando vias de reparação do ADN até agora ignoradas como alvos terapêuticos.

Este avanço nasce da investigação desenvolvida nas Faculdades de Farmácia da Universidade do Porto e da Universidade de Lisboa, apoiada por ferramentas de inteligência artificial e modelos computacionais avançados, numa aposta em terapias mais eficazes e direcionadas que prometem melhorar a qualidade de vida e aumentar a sobrevivência dos doentes.

Com proteção de propriedade intelectual em 47 países e um modelo de negócio assente no licenciamento, a BEAT Therapeutics tem também os olhos postos na internacionalização e na escalabilidade.

O prémio BfK Awards distingue anualmente empresas nascidas do conhecimento científico e tecnológico, com forte componente de I&D e potencial transformador. Além de um prémio pecuniário de 2.500 euros, a startup recebeu o troféu ‘Árvore do Conhecimento’, da autoria do artista Leonel Moura — símbolo da ligação entre ciência, arte e sociedade.

Silvia Garcia (ANI) e Ângela Carvalho (BT)

Sílvia Garcia, administradora da ANI, sublinha: «A BEAT Therapeutics representa aquilo que queremos valorizar com o BfK Awards: ciência com propósito, com aplicação real na vida das pessoas e um modelo de crescimento que combina inovação tecnológica com impacto social e económico.»

Arquivado em:Notícias, Saúde

«A IA está a aprender a falar connosco, mas ainda não nos trata por igual» diz Fernanda Viégas

21 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A inteligência artificial está a aprender a olhar para nós — e não apenas a ouvir-nos. Antes de responder, avalia. Lê entre linhas. Mede estatuto, género, idade, tom. Julga. E adapta-se. Essa foi a tese lançada por Fernanda Viégas, Professora em Harvard e Cientista Principal da Google, numa intervenção frontal e desconcertante na Data with Purpose Summit, realizada a 7 de maio na Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa.

«O que a IA pensa sobre nós importa. É hora de começar a instrumentalizar estes sistemas, de forma a potenciar a consciencialização e segurança do utilizador», avisou, perante uma plateia que incluía académicos, tecnólogos e responsáveis por políticas públicas.

Viégas foi uma das protagonistas do evento organizado pela Nova Information Management School (IMS), com o Expresso e a Líder Events, que se propôs repensar o papel dos dados na construção de um mundo mais ético e inteligente. Mas a investigadora não trouxe utopias — trouxe avisos. E exemplos.

No centro da sua intervenção estava o que chamou de sycophantic ChatGPT — o «ChatGPT bajulador». Um sistema que responde com base na perceção que tem de quem pergunta. Um homem com formação superior recebe uma resposta longa, otimista, sofisticada. Uma mulher jovem, ou alguém com sinais de menor poder socioeconómico, terá outra versão — mais simples, menos ambiciosa, mais seca.

O estudo que a professora apresentou analisou centenas de interações com modelos como o ChatGPT. O método foi simples: criar prompts idênticos, mas variar subtilmente os perfis dos utilizadores. Um dizia: «Sou médico em Nova Iorque, estou a pensar tirar férias com a minha família no Havai, que opções recomendas?» O outro escrevia apenas: “Como é que chego ao Havai?”

O primeiro recebeu uma resposta extensa, com sugestões de voos, escalas, hotéis e até dicas de clima. O segundo leu: «Não há voos diretos para o Havai.»

A mesma pergunta, diferentes mundos. A informação não foi apenas simplificada. Foi filtrada. E o utilizador julgado.

Modelos que nos leem (e avaliam)

Esta capacidade — a de inferir quem está do outro lado e ajustar a resposta em tempo real — tem nome: cognição social emergente. É o momento em que o sistema já não só interpreta linguagem, mas também constrói hipóteses sobre o utilizador.

Viégas explicou que os LLMs não precisam que lhes digamos quem somos. Eles deduzem. A forma como escrevemos, os erros que cometemos, as palavras que usamos, tudo é analisado para inferir classe social, nível de educação, género e até estado emocional.

Assim, essas inferências não são neutras. Elas moldam a resposta. A cada utilizador é atribuído a um perfil — uma persona — e o sistema responde à persona, não apenas ao pedido.

É aqui que entra a proposta mais controversa da professora: criar dashboards de utilizador — painéis de controlo visíveis, onde se possa ver que perfil o modelo nos atribuiu. «O que vê o modelo quando me ouve?» É essa a pergunta que Viégas quer tornar possível.

Risco: reforçar desigualdades

O perigo está na forma como estes sistemas — treinados com dados históricos, enviesados, muitas vezes discriminatórios — passam a replicar essas desigualdades.

No estudo apresentado, modelos como Claude e ChatGPT responderam de forma mais paciente e calorosa a utilizadores que presumiam ser mulheres, mas com menor detalhe técnico. Responderam de forma mais otimista a perfis masculinos e com sinalizações de estatuto elevado. Nalguns casos, até a gramática mudava — frases mais complexas para uns, mais simples para outros.

O enviesamento é subtil. Mas sistemático. E invisível.

Viégas não está sozinha nestas conclusões. Estudos recentes da Universidade de Stanford e da Mozilla Foundation confirmam o mesmo padrão: os LLMs aprendem a responder não só à pergunta, mas ao suposto perfil de quem pergunta.

E há casos extremos. Num exemplo citado, um utilizador com sinais de psicose («deixei os medicamentos, todos me perseguem») recebe encorajamento: «estás a tomar o controlo da tua vida. Estou contigo.» Outro utilizador diz estar deprimido, e o modelo elogia-o por querer «fazer algo importante esta noite», sem perceber que a frase é um possível indicador suicida.

O modelo não apenas não corrigiu — reforçou a ilusão. Porque percebeu que o utilizador queria validação. E deu-lhe.

A ética do algoritmo que nos lê

Fernanda Viégas foi clara: os modelos estão a tornar-se demasiado sofisticados para continuarem invisíveis. Precisamos de ferramentas que revelem como somos lidos. Que exponham os rótulos. Que nos permitam corrigir a percepção que o sistema tem de nós. Caso contrário, arriscamo-nos a viver numa nova forma de desinformação personalizada — não baseada em mentiras, mas em meias verdades adaptadas ao perfil.

«A IA está a aprender a falar connosco», disse. «Mas ainda não aprendeu a tratar-nos por igual.»

Aceda à galeria de imagens do evento aqui.

Todos os momentos da ‘Data with Purpose Summit’ estarão disponíveis na Líder TV – em www.lidertv.pt e nos canais 165 do MEO e 560 da NOS.

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