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Marcelo Teixeira

A Minha Vida – Lev Trótski

22 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

Escrito entre 1929 e 1930, durante o seu terceiro exílio, A Minha Vida é muito mais do que uma autobiografia. É um ajuste de contas do mais
puro combate político, em que a principal arma do revolucionário é a verdade alicerçada num sólido arquivo.

Da Edições 70

Arquivado em:Livros e Revistas

Guterres pede ação conjunta na ONU: «Este é o nosso momento de oportunidade»

22 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

O planeta arde sob pressões sem precedentes: conflitos, desigualdades, alterações climáticas e o avanço desenfreado das tecnologias desafiam a própria estabilidade da humanidade. Para António Guterres, Secretário-Geral da ONU, a 80ª sessão da Assembleia Geral não é uma oportunidade para protagonismos diplomáticos, mas um momento decisivo para encontrar soluções concretas. «A cimeira é uma oportunidade que não deve ser desperdiçada, com todas as possibilidades de diálogo, mediação e busca de soluções».

A sessão abriu oficialmente dia nove deste mês, em Nova Iorque, marcando o 80º aniversário da criação das Nações Unidas. A Semana de Alto Nível, ponto alto do calendário diplomático, decorre de 23 a 27 de setembro, com o debate geral a encerrar a 29 de setembro. Mais de 150 líderes mundiais, incluindo chefes de Estado e de governo, irão discursar na Assembleia e participar de eventos temáticos.

 

Crises humanitárias e necessidade de paz

Entre os conflitos mais urgentes, Guterres apontou Gaza, Ucrânia, Sudão e outros pontos de crise. Sobre Gaza, o antigo primeiro-ministro português comentou sobre relatórios de investigadores independentes. Estes documentos destacavam ações de Israel que poderiam configurar crimes graves, incluindo genocídio, embora tenha esclarecido que a determinação legal cabe ao Tribunal Internacional de Justiça, atualmente envolvido na situação na Faixa de Gaza. «O facto de não ter competência para determinar juridicamente o genocídio não significa que não considere horrível o que acontece em Gaza», afirmou.

O Secretário-Geral reforçou a importância da conferência internacional sobre a implementação da solução de dois Estados, coordenada por França e Arábia Saudita, como caminho para uma paz duradoura no Oriente Médio. «É essencial reafirmar o direito do povo palestino à autodeterminação e que a solução de dois Estados seja a base da paz e da segurança para os dois povos», sublinhou.

O rasto de destruição em Gaza

 

Desafios climáticos, tecnológicos e direitos das mulheres

A agenda de UNGA80 não deixa a crise climática para trás. Líderes mundiais vão apresentar novos planos nacionais de ação climática, conhecidos como Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), visando manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5 °C. Guterres descreveu o momento como «uma oportunidade histórica» para acelerar a mitigação, adaptação, financiamento e integridade da informação na luta contra a emergência climática.

Outro tema central será a Inteligência Artificial (IA). Guterres alertou que, sem regulamentação internacional inclusiva e responsável, a IA poderá aprofundar desigualdades e afetar de forma desproporcional os mais vulneráveis. O Diálogo Global sobre Administração da IA, agendado para 25 de setembro, vai procurar estabelecer linhas éticas e de responsabilidade para a tecnologia. «Deve servir a toda a humanidade, não apenas aos mais fortes ou aos mais ricos», disse o Secretário Geral da ONU.

A igualdade de género também integra a agenda da cimeira, que coincide com o 30º aniversário da Conferência de Pequim. Vão ser discutidos planos concretos para a inclusão das mulheres em processos de decisão, liberdade económica, combate à violência e justiça climática. O objetivo é reverter o retrocesso observado em alguns países, onde os direitos das mulheres enfrentam crescente resistência.

O robô Ameca participou na Cimeira Global “AI for Good”, em Genebra, Suíça, em julho de 2023.

 

Reformas e o futuro da ONU

Sob a presidência da ex-chanceler alemã Annalena Baerbock, que se tornou a quinta mulher na história a assumir o cargo de Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas, a UNGA80 decorre sob o lema ‘Melhor Juntos’. Em declarações recentes, Baerbock sublinhou a urgência de transformar o envolvimento dos líderes mundiais em ação concreta e coordenada, lembrando que a ONU enfrenta uma encruzilhada decisiva.

Segundo a presidente, os desafios que se colocam à organização vão muito para além dos conflitos armados. Entre eles destacam-se as alterações climáticas aceleradas, a desigualdade persistente entre países e dentro de sociedades, e o ritmo vertiginoso da inovação tecnológica, que exige respostas globais estruturadas e inclusivas.

A reforma designada ONU80, liderada por Baerbock, pretende modernizar a estrutura da organização, tornando-a mais eficaz, transparente e capaz de cumprir as suas promessas aos 8 mil milhões de habitantes do planeta. A iniciativa abrange desde a melhoria dos processos internos e das tomadas de decisão até à otimização da cooperação internacional, preparando a ONU para enfrentar crises globais com mais agilidade.

Annalena Baerbock

Entre as prioridades da presidência de Baerbock destacam-se também o processo de seleção do próximo Secretário-Geral, previsto para 2026, e a implementação do Pacto para o Futuro, aprovado em 2024, que visa alinhar os esforços globais em torno de sustentabilidade, igualdade e desenvolvimento humano. Para a presidente da Assembleia Geral, estas medidas são essenciais para reforçar a relevância da ONU num mundo em constante transformação e para garantir que a organização continue a ser um farol de multilateralismo e cooperação internacional.

Com mais de 150 reuniões bilaterais agendadas, Guterres planeia pressionar os líderes a dialogarem diretamente, reduzirem riscos e encontrarem soluções. Para o líder das Nações Unidas, a UNGA80 é um «momento de trabalho duro» em que todos o países, independentemente de tamanho ou poder, devem cooperar para enfrentar desafios globais.

 

Fotografia de destaque: Nações Unidas

Arquivado em:Liderança, Notícias, Sociedade

Nova academia para o futuro do trabalho vai formar 500 mulheres

22 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

A aceleração digital está a mudar o mercado de trabalho. Entre os desafios destaca-se a Inteligência Artificial, que já influencia profissões em todos os setores. Em Portugal, apenas 22% dos profissionais em tecnologias de informação são mulheres. O desequilíbrio preocupa especialistas e reforça a urgência de criar programas de inclusão digital.

Neste cenário surge a ‘BORA Mulheres Academia’, uma iniciativa gratuita que vai capacitar 500 mulheres portuguesas em competências digitais aplicadas à IA. A Coca-Cola Europacific Partners promove o projeto em parceria com o Impact Hub Lisbon.

Do empreendedorismo à tecnologia

O ‘BORA Mulheres’ nasceu em 2019 e já contou com mais de 5.200 inscritas. Ao todo, 2.500 mulheres concluíram formações em empreendedorismo. Agora, a Academia expande o impacto do programa. O objetivo é preparar profissionais para o futuro digital, com enfoque na tecnologia e na inovação.

A primeira edição arranca em outubro de 2025 e termina em novembro. O curso decorre online, é gratuito e certificado pela DGERT. Inclui quatro módulos semanais sobre a aplicação da IA no dia a dia, ética, pensamento crítico e tendências no mercado de trabalho.

As aulas serão dadas em português. Além disso, contam com tradução em Língua Gestual Portuguesa, garantindo um acesso mais inclusivo.

Um desafio urgente

«Queremos promover a transformação e acelerar a balança da inclusão no mercado laboral nacional. Nesta primeira formação, o foco estará no desafio que a IA nos traz para o futuro», afirma Manuel Bastos, Sustainability Manager da Coca-Cola Europacific Partners.

A urgência do tema ganha força com os números. Segundo a McKinsey, 1,3 milhões de portugueses precisam de formação adicional até 2030 para acompanhar a automação e a IA.

O curso oferece também certificação reconhecida e oportunidades de networking. Além disso, as empresas podem usar esta formação nas horas obrigatórias de qualificação. Essa característica aumenta o valor estratégico do programa para políticas de equidade de género e ESG.

Paula Sampaio, diretora de operações da DataCoLAB, reforça o papel da parceria: «Mais do que tecnologia, queremos desbloquear talento e fortalecer a independência económica. O futuro só se constrói com conhecimento, propósito e igualdade.»

Com a nova Academia, a Coca-Cola Europacific Partners reforça a meta de capacitar 500 mil pessoas até 2030. O programa soma-se aos esforços de inclusão digital em Portugal e procura reduzir as desigualdades de género no acesso às profissões do futuro.

 

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

The Game of Leaders

22 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

Quem será hoje o mais poderoso do mundo, se é que tal existe, talvez um presidente convencido de que a sua palavra pode deter o curso do vento, talvez um ditador que se julga eterno porque tem multidões forçadas a aplaudir-lhe os gestos, talvez um magnata que sonha comandar consciências porque detém fábricas de algoritmos e satélites que vigiam o céu, talvez um general que desenha fronteiras em mapas de guerra e pensa que a terra se dobra à força das suas botas, todos eles certos de segurar o futuro como quem aperta um pássaro frágil, e quanto mais apertam mais depressa ele lhes escapa, porque o poder não é prisão nem eternidade, é apenas pó, pó que se ergue, brilha um instante e depois assenta no mesmo chão onde todos, grandes ou pequenos, repousarão esquecidos.

Heráclito disse que tudo flui e ainda assim construímos muralhas contra a corrente, Platão explicou que vivemos entre sombras e continuamos a confundir reflexos com luz, Nietzsche anunciou a morte de Deus e esqueceram-se de avisar que também morreriam os homens que se erguem como deuses, Aristóteles falou da vida boa mas quantos destes poderosos a conheceram, cercados de guardas e vaidade, reféns do medo e da solidão, incapazes de confiar, de amar, de dormir em paz, porque quem se julga dono do mundo é quase sempre escravo de si mesmo.

Enquanto esses donos do mundo discursam em palcos dourados, prometem futuros que não podem cumprir e erguem bandeiras que o tempo há de rasgar, nesse mesmo instante uma mãe embala o filho e nele deposita um futuro maior do que qualquer tratado, um velho acende a lareira e conta uma história que sobreviverá mais do que a glória dos generais, dois jovens beijam-se pela primeira vez sem saber ainda o que é amar mas já amando, uma vizinha oferece pão quente e nesse gesto simples cabe mais eternidade do que em todos os discursos oficiais. É aí, nesses lugares invisíveis, que se guarda o poder verdadeiro, não no medo imposto mas no cuidado oferecido, não na glória passageira mas na ternura que resiste ao esquecimento.

Camus disse que o homem deve imaginar Sísifo feliz, e talvez essa seja a lição que os poderosos nunca aprenderão, que a grandeza não é deter o mundo mas suportar o peso da pedra e ainda assim sorrir, viver sabendo que a pedra rolará de volta e, mesmo assim, continuar, amar apesar do fim, criar apesar do esquecimento, resistir apesar da morte. Saramago lembrava que a vida é apenas um sopro e nesse sopro cabe tudo, a miséria e o milagre, o abraço e a despedida, e daqui a cinquenta anos ninguém lembrará presidentes, ditadores, magnatas ou generais, todos terão sido fortes apenas no engano, porque no fim revelaram-se frágeis, tão frágeis como qualquer homem diante do tempo.

Mas o que parecia ser o posfácio, depois da pandemia, revelou-se apenas o princípio de um novo capítulo. O mundo não regressou à harmonia, mergulhou em novas tensões: guerras que regressaram à Europa, democracias sitiadas pela polarização, a Terra ferida por incêndios e cheias, a solidão e a doença mental a multiplicarem-se, a inteligência artificial e a ciência quântica a prometerem emancipação mas também a ameaça de novas correntes.

É neste tabuleiro que se joga o verdadeiro Game of Leaders. Não se trata apenas de política ou de poder, mas de escrever regras novas para um mundo que já não pode repetir os erros antigos. Regras para que a política reencontre a sua humanidade, para que a Terra não seja abandonada enquanto se conquista o espaço, para que as máquinas não nos façam esquecer que somos gente, para que o futuro seja casa da dignidade e não extensão da vaidade.

Mais do que respostas prontas, precisamos da coragem de interromper o ruído, de travar o delírio dos que se julgam super-homens e de marcar posição, não por medo ou ideologia, mas por lucidez e humanidade. Chegou o momento de um golpe final de claridade: não para erguer muralhas, mas para abrir caminhos.

Porque os que acreditam possuir tudo acabam donos do nada, e os que nada possuem mas foram insubstituíveis para alguém, esses guardam a única força que não se desfaz, a única eternidade que não se apaga, e essa eternidade pertence sempre aos que souberam amar.

Arquivado em:Opinião

Transformar likes em votos: o desafio da juventude portuguesa

19 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

Um estudo conduzido pela Universidade Católica do Porto para o Conselho Nacional de Juventude revela que 89,6% dos jovens portugueses já exerceram o direito de voto em algum momento da sua vida. No entanto, a adesão a formas tradicionais de militância política é significativamente menor: apenas 17,5% estão filiados em partidos políticos e 2,4% em sindicatos. Este contraste destaca uma participação eleitoral robusta, mas uma fraca adesão às formas tradicionais de militância política.

A ‘Democracia e Juventude’ estiveram em debate na Leadership Next Gen. A conversa, moderada por Vasco Galhardo Simões, fundador do movimento Eu Voto, destacou o baixo envolvimento dos jovens portugueses nos processos de participação política tradicional. O painel contou com a presença de João Pedro Louro, Presidente da Juventude Social-Democrata, e Sofia Pereira, Secretária-Geral da Juventude Socialista.

A conversa entre quem está no meio

Vasco Galhardo começou por provocar os participantes, explicando de forma simples a importância do voto: «Se não quiseres comer merda frita nos próximos quatro anos, vota e não deixes que escolham por ti», afirmou, ilustrando com uma metáfora sobre decisões coletivas em que a abstenção determina o resultado.

Sofia Pereira sublinhou a relevância do envolvimento ativo dos jovens, lembrando que não podem permitir que sejam silenciados. «As nossas preocupações só mudam se formos às urnas. Trata-se de decidir o futuro das nossas vidas, das vidas daqueles que conhecemos e ainda de quem não conhecemos». Para a Secretária-Geral da JTS, o voto e a participação política são instrumentos essenciais para garantir que as preocupações individuais e coletivas tenham consequências na prática: «Quem não vai votar está a perder a oportunidade de mudar a sua rua, a sua escola e o seu bairro».

Também João Pedro Louro reforçou a mensagem, destacando a necessidade de ouvir e dar voz às novas gerações: «Se não votarem, estão a permitir que os outros votem por vocês». Para o Presidente da JSD, a proximidade das eleições autárquicas permite aos jovens perceberem de forma concreta o impacto das suas escolhas: «Se calhar falar com um ministro é difícil, mas falar com um presidente de câmara ou com um vereador é mais acessível».

Redes sociais e jovens

O debate abordou também a relação entre juventude e redes sociais. João Pedro Louro explicou que a participação política pode começar online, mas é necessário transformar o engagement digital em ação concreta: «O desafio é transformar os likes e as partilhas em votos. A política tem de abrir espaço para que as novas gerações se sintam ouvidas».

Ambos os dirigentes destacaram os caminhos que os jovens podem seguir dentro das suas respetivas juventudes partidárias, com Sofia Pereira a contar a sua experiência desde o Parlamento dos Jovens até à Secretaria-Geral da JTS: «O desencanto e afastamento dos jovens pela política é uma herança de outros tempos. Queremos muito ser ouvidos e temos de garantir espaços para essas oportunidades». A jovem socialista vai mais longe: «temos de desmistificar os dogmas sobre quem quer entrar nos partidos. Não vimos aqui para brincar, mas para desempenhar um papel e estarmos no centro da decisão».

João Pedro Louro foi perentório na sua intervenção: «a política é o reflexo da sociedade. Há pessoas boas e más em todo o lado. Mas na política temos de recrutar os melhores».

O Presidente da JSD acrescentou que o percurso político é também uma forma de serviço: «O meu papel no mundo é de serviço, procurar dar um humilde contributo para melhorar a vida das pessoas. É este espírito que me levou a entrar na JSD e que me faz continuar».

A sessão concluiu com uma mensagem clara: a participação dos jovens na política, seja partidária ou cívica, é essencial para garantir que os interesses coletivos sejam representados. Ambos os convidados lembraram que a democracia precisa dos melhores para evitar que apenas mediocridades ocupem os lugares de decisão, e que cada jovem tem a responsabilidade e a oportunidade de fazer a diferença.

Assista ao momento completo aqui:

Sofia Pereira, João Pedro Louro, Vasco Galhardo Simões – Democracia e juventude

Tenha acesso à galeria de imagens aqui. 

Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e nos canais 165 do MEO e 560 da NOS.

Arquivado em:Liderança, Notícias

Três pilares, um desafio: Estado, Mercado e Sociedade Civil

19 Setembro, 2025 by Marcelo Teixeira

Na capa deste livro, recorremos ao triângulo de Penrose, um objecto impossível. A sua criação deve-se ao artista sueco Oscar Reutersvärd, em 1934. Foi popularizado por um matemático, Roger Penrose, na década de 1950. Penrose descreveu-o como um objecto impossível em forma pura. Este tipo de imagem foi depois usado pelo artista gráfico neerlandês M.C. Escher. Estes objectos, visualmente atraentes, são aqui usados com um propósito: o de mostrar como coisas, objectos, formas distintas, se podem complementar tão harmoniosamente que se tornam indistinguíveis. O impossível pode ser possível. Duas notas são necessárias antes de prosseguirmos: esta «mistura» não cria uma amálgama – os objectos continuam a ser diferentes – e a harmonia é polifónica – não «cantam» da mesma maneira. Às vezes, na prática, mais que a harmonia, existe desafinação. Contudo, são as desafinações harmoniosas que definem a democracia, na sua busca incessante de uma composição coerente.

O Estado, as empresas/mercados e a sociedade civil compõem um triângulo de boa governança. A relação entre estes três elementos é crucial, mas também é dinâmica, tumultuosa, frequentemente desconfiada. Quando o triângulo se harmoniza e a confiança impera, os benefícios são partilhados: sociedades ricas em confiança são espaços mais prósperos. Quando os lados se antagonizam ou se misturam em teias de interesses dúbios, o triângulo enreda-se, parte-se e todos acabam por perder – incluindo os que procuram tirar partido dos desequilíbrios.

Neste triângulo, cada vértice traz uma contribuição específica. O Estado fornece a estrutura fundamental ao funcionamento das sociedades/nações. Deve garantir o primado da lei, a separação de poderes, o bom funcionamento das instituições e a garantia e protecção do Estado de direito (ver glossário). As empresas e os mercados trazem a dimensão da inovação, da destruição criativa e da criação de valor. Empresas e mercados são realidades diferentes; os mercados, enquanto mecanismos de coordenação das trocas económicas, enfatizam a competição e os preços. As empresas constituem as unidades de criação de valor graças à sua capacidade de produzir produtos e serviços de forma eficiente. Por facilidade, quando aludimos a empresas consideramos quer estas unidades quer os mercados em que elas competem e cooperam.

Se, conceptualmente, estes três pilares são independentes e as suas formas e fronteiras são fáceis de discernir, a realidade é mais complexa e favorece a hibridização desses pilares. Em relação ao capitalismo de Estado chinês, por exemplo, é difícil destrinçar os domínios público e privado. Negociar com as empresas chinesas equivale porventura a negociar com o Estado chinês. Porém, não é preciso ir tão longe. A introdução de mecanismos, desde logo contratuais e institucionais, de cooperação público-privada no quadro de um Estado dialógico e aberto à iniciativa privada, cria por vezes realidades híbridas que conjugam elementos destes vários pilares. Uma organização empresarial pode ter um papel importante na resolução de conflitos e na preservação da paz – por exemplo, dando trabalho e reintegrando antigos combatentes islamistas, como fez o Retro Café na Indonésia.

Defendemos que os três sectores devem ser independentes (o que não significa que não se devam associar e cooperar de forma transparente) e que devem manter uma relação movida pela defesa do bem comum. Essa defesa é assegurada de forma mais robusta quando alimentada pelo reconhecimento da importância e de cada um dos papéis destes três pilares. Processos de regeneração da sociedade, como o levado a cabo no País Basco, implicam parcerias entre os sectores público e privado, as quais evoluem de forma dinâmica à medida que a própria sociedade vai mudando. As relações construtivas entre sectores não se limitam ao Norte de Espanha, sendo típicas das sociedades inclusivas. Isso não tem acontecido na sociedade portuguesa em tempos recentes. Considerem-se as palavras de Manuel Carvalho num editorial de 2021 do jornal Público: «Se há um dano colectivo no discurso público alimentado pela “geringonça”, está na ideia de que o Estado é o zénite e o nadir de uma democracia europeia. Na apologia de que o sector privado é um perigo até prova em contrário. Na ideia de que é possível ter um SNS ou um sistema público de ensino de alta qualidade sem termos uma economia dinâmica para os sustentar. Na convicção de que, se os salários dos portugueses são tragicamente baixos, ou se os jovens mais qualificados emigram, é por causa de um falhanço na política e não pela sequência de uma economia asfixiada por impostos, regulamentos e protecções públicas.»

Porque são fundamentais os três pilares

Muitas sociedades humanas têm sido dominadas por um só pilar. Nos casos em que o pilar dominante foi o Estado, tomaram a forma de ditaduras de esquerda ou de direita, empenhadas em ensinar os cidadãos como viver as suas vidas e em dirigir centralmente a economia. Nessas sociedades orwellianas, o que interessa ao grupo dominante é a manutenção do poder, o «poder puro» de que falou Orwell no livro 1984. O resultado é conhecido: censura, omissão de liberdades, pouca eficiência, pouca produtividade, escassa capacidade de criação de riqueza, pouco desenvolvimento.

Em resposta a esta dominação estatal, algumas sociedades procuraram um modelo segundo o qual o mercado resolveria os problemas sociais graças a uma vaga de empreendedorismo com outras preocupações que não apenas a criação de riqueza. O objectivo deste modelo foi o de «libertar» os actores do mercado da presença asfixiante do Estado, afinando a sua acção em resposta aos sinais provenientes do mercado. Este movimento de desestatização das sociedades e da economia – incluindo liberdades políticas, cívicas, sociais e de circulação, assim como desregulação, privatização, impostos baixos e comércio livre – produziu melhores resultados do que o modelo estatista, como o comprovam todos os dados acerca do progresso e da prosperidade.

No entanto, é evidente que o dinamismo económico ficou aquém do desejado, e que não foi capaz de evitar fenómenos disruptivos para as sociedades modernas. A globalização, com o seu potencial de deslocalização e digitalização, trouxe novos e complexos desafios: maior instabilidade laboral, maior dificuldade na compra ou arrendamento de habitação própria, maior injustiça fiscal, maior possibilidade de concentração empresarial, sobretudo na economia digital, extracção de rendas.

Este processo, bem descrito por Yochai Benkler, resultou numa tendência de estagnação dos salários, na concentração do poder em actores empresariais cada vez mais poderosos – como as empresas big tech – que funcionam como um novo Big Brother e que agem, em muitos casos, com poder e influência por vezes vista como equiparável à dos próprios Estados em que actuam.

A falta de respostas satisfatórias para os novos desafios abriu espaço à aceleração do populismo. À direita, o populismo nacionalista visa proteger os cidadãos dos efeitos da globalização, apostando numa utopia nostálgica do passado em que cabe ao Estado defender a boa moral e conservar os traços identitários da civilização ocidental; à esquerda, o populismo identitário deixou de se interessar pela exploração dos mais pobres, na tradicional visão de luta de classes, e passou a centrar-se nas questões identitárias, tudo explicando com a opressão colonial pelo homem branco, com tentações censórias para aqueles que se arriscam a «malpensar», voltando à terminologia de Orwell em 1984. Estas forças, normalmente apelidadas de woke, são anticapitalistas e tendencialmente iliberais, como se viu na dificuldade em censurar a invasão russa da Ucrânia.

Em resumo, os episódios recentes confirmaram aquilo que já se sabia:

  • Os mercados são o motor da inovação. Mas não são perfeitos. Deixados a si próprios, tenderam nestes anos a focar a atenção na criação de valor para o accionista, um mantra simplificador da presença complexa das empresas na sociedade. Na visão tradicionalista, Jensen e Murphy descreveram os políticos, os sindicatos e a imprensa como estando presentes, sem terem sido convidados, na tomada de decisão empresarial. A ideia, muito friedmaniana, de que as decisões de negócio deviam ser deixadas a quem gere os negócios levanta inúmeras dificuldades práticas na ausência de pesos e contrapesos capazes de evitar o abuso do poder e a concentração empresarial com cariz rentista. Daí a importância da existência de sistemas de pesos e contrapesos institucionais – incluindo a lei formal e as normas sociais informais. Como explicou o prémio Nobel Robert Shiller, «as economias capitalistas deixadas entregues a si mesmas sem o papel equilibrador do governo e do Estado são essencialmente instáveis». Compete ao Estado garantir e preservar as condições para o respeito da autonomia e liberdade das pessoas, para o funcionamento da mobilidade social, para o estabelecimento de um quadro de justiça, igualdade e liberdade, equilibrando os interesses particulares e promovendo o bem comum.

  • Os Estados têm papéis fundamentais, «cuja intervenção deve ser limitada ao essencial». Quando ultrapassam esse foco no essencial, tendem para o abuso e perpetuação de poder. Não tendo de competir em mercados livres, tornam-se facilmente burocráticos e ineficientes. A sua dimensão afasta-os da realidade local, e por isso oferecem com frequência soluções ineficazes. Promovem, nos piores casos, o compadrio e o nepotismo (ver glossário), normalmente justificado em nome da imprescindível «confiança política». Os seus dirigentes, com alguma frequência, transitam numa porta giratória (ver glossário) para empresas que eventualmente beneficiaram enquanto governantes. Com certeza, as práticas nepotistas não são apanágio exclusivo do Estado: as empresas padecem do mesmo mal. Um programa formativo (com uma componente alegadamente lúdica) do Boston Consulting Group para os filhos de quadros de topo do escritório de Londres mereceu críticas internas e mesmo uma capa do Financial Times. Os aparelhos burocráticos do Estado são difíceis de reformar e mostram excessiva complacência com as falhas – incluindo falhas graves –, como demonstrado pela morte de Ihor Homenyuk às mãos do Estado português.

  • A sociedade civil tem um papel fundamental na criação de boas sociedades: cria mecanismos de resolução de problemas não tratados pelas empresas e pelo Estado. Mobiliza as forças sociais para a resolução de problemas de forma mais próxima do local onde ocorrem. Porém, pode canalizar essas energias de uma forma destrutiva e ameaçadora das instituições.

 

Este artigo foi publicado através de um excerto original do livro ‘Manifesto para um Capitalismo Humanista’ dos autores Miguel Pina e Cunha, Milton de Sousa e Adolfo Mesquita Nunes, com o consentimento dos mesmos.

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