Cátia Domingues faz parte do dream team de humoristas que juntamente com Ricardo Araújo Pereira fazem o Isto é gozar com quem trabalha, programa líder de audiências na Sic, aos domingos à noite. Em oito pessoas, contam-se duas mulheres, Cátia e Joana Marques. José Diogo Quintela, Miguel Góis, Cláudio Almeida, Manuel Cardoso, e Guilherme Fonseca […]
Cátia Domingues faz parte do dream team de humoristas que juntamente com Ricardo Araújo Pereira fazem o Isto é gozar com quem trabalha, programa líder de audiências na Sic, aos domingos à noite. Em oito pessoas, contam-se duas mulheres, Cátia e Joana Marques. José Diogo Quintela, Miguel Góis, Cláudio Almeida, Manuel Cardoso, e Guilherme Fonseca fecham o grupo.
Para esta conversa, partimos de uma pergunta que surge de uma evidência: por que razão, de uma forma geral, há menos mulheres do que homens a fazer humor? As mulheres têm menos sentido de humor?
Uma rápida pesquisa mostra estudos e histórias que se partilham na primeira pessoa, como a de uma comediante americana de stand-up que raramente, no final de uma atuação, recebe um convite para sair e beber um copo, algo já mais comum entre os colegas do sexo masculino.
Na vertente antropológica, a teoria da sobrevivência da espécie explica que um homem com sentido de humor é sinal de uma genética forte. E a investigação revela que quando procuram um parceiro, as mulheres querem alguém que as faça rir, enquanto os homens preferem, na maioria, ser a fonte do humor (não o contrário).
A conversa séria, mas com boas gargalhadas, levou a mais perguntas, muitas sem resposta. Como esta: um humorista no palco está quase ao nível de uma rock star, já uma mulher pode parecer confuso. Será?
Achas o humor uma qualidade do sexo masculino?
Para nós, mulheres, há sem dúvida um sex appeal relacionado com um homem com sentido de humor. Sentimo-nos atraídas por isso. Parece-me mesmo que o humor respeita um certo papel de género, que o homem pode providenciar e ter essa qualidade de fazer rir. O que faz lembrar a ideia do ‘sexo forte’.
Quanto ao sentido de humor, os estudos mostram que, no limite, não há diferença entre homens e mulheres. Riem-se das mesmas coisas, mas ao que não se acha graça já não é igual.
Há uma coisa que os humoristas precisam que é não ter limites, ou seja, de se rirem de tudo e, sobretudo, deles próprios. Não acho que faça sentido falar de limites no humor – o limite é determinado pelo que te faz rir. Certo de que o que é engraçado para uma pessoa não é para a outra, mas enquanto humorista não deves ter limites sobre o objeto do humor, nem mesmo quando esse objeto és tu.
Quando consegues fazer humor dos teus dramas e dos teus traumas, porque o humor implica que te consigas distanciar, isso representa uma força. O que pode jogar com a ideia de que ter sentido de humor é sinal de uma genética forte.
Será que as mulheres conseguem rir-se delas próprias ou têm mais dificuldade nesse distanciamento?
Acho que sim, o Mundo inclina-nos para nos levarmos a sério. Até mesmo na nossa infância, quando crescemos, na educação e instrução dada a um rapaz, e a uma rapariga, são diferentes. Quando se vê uma mulher a rir às gargalhadas, achamos que está a querer dar nas vistas. E uma mulher pode rir alto, sem ser espalhafatosa, ou ser mais refilona, e não ter receio de ser a ‘histérica’ ou a ‘louca’. Isto é outra coisa tramada. Os homens nunca são histéricos, têm antes muita personalidade. A ideia da ‘histérica’ é muito comum, na forma tão leviana como se considera uma mulher ‘louca’ ou ‘maluca’, nas conversas. Em situações normais, diz-se que as mulheres são ‘loucas’, por tudo e por nada. Para um homem ser ‘louco’ é preciso ser quase clinicamente maluco. Ao contrário, não é preciso tanto!
Não é possível que se encontre uma outra palavra? Ou passa tudo a ser louco, ou começamos a olhar para um comportamento masculino e identificamos imediatamente como loucura. A culpa também é nossa porque dizemos isso muitas vezes. E à conta de as mulheres serem ‘loucas’, aconteceu um português ganhar um Nobel da Medicina (Egas Moniz), a fazer lobotomias a mulheres que tinham ideias e opiniões, e daí, eram umas histéricas.
Quase começamos um movimento de mulheres com sentido de humor e não histéricas.
Acho que é uma inevitabilidade a questão de nos levarmos a sério, pois quando chegamos a um lugar há logo uma perceção sobre ti. Se estás irritada, tens de pensar como vais abordar essa irritação para não parecer muito emocional. Temos de romper com isto. Acho que as mulheres e os homens têm iguais capacidades, mas partem de um sítio diferente, sem dúvida. E depois aquela ideia de um contexto de competição, que nos é incutido, quando as mulheres se juntam, como se só houvesse espaço para uma. Como há poucas mulheres nesta profissão, parece que temos de lutar por um lugar. E isto faz sentir esta coisa de competição, ou de não se conseguir apreciar o trabalho de outra mulher. Ou seja, não apreciarmos da mesma maneira o trabalho de um homem e de uma mulher.
Como guionista de humor estás sempre a dizer piadas?
Não, de todo. Aliás, nunca fui a mais engraçada do grupo.
Mas então, os homens têm mais graça do que as mulheres?
Não acho mesmo, de todo. Todos temos uma experiência do Mundo completamente diferente, tanto em termos de gerações, género, sexualidade. As mulheres têm uma perspectiva e ângulos diferentes. E isso é fresco. Uma das ferramentas do humor é pensar: ‘deixa ver o que isto faz lembrar?’ – essa diversidade acrescenta sempre. Mas não tenho uma resposta cabal sobre o que possa justificar haver menos mulheres do que homens no universo do humor.
Será que o caminho para as mulheres é mais difícil?
Sim, há menos mulheres a fazer humor, stand-up, séries, e por isso são menos representadas. Por exemplo, se um line up de comédia, ou stand-up, tem oito homens e duas mulheres, pensamos ‘é injusto’! Se tem 10 lugares seria correto haver cinco homens e cinco mulheres. Mas a verdade é que não há cinco mulheres para ‘preencher’ os lugares. E também não basta para isso ser mulher, tem de haver qualidade e trabalho. Sinto que por vezes as conversas passam muito por uma vitimização de não haver mulheres no cartaz, quando deveria passar por ‘o que já se fez para mudar isso’?
Não estamos a falar há 50 anos, quando para ter ‘um lugar ao sol’ tinhas de estar na rádio ou na televisão. Hoje há o Youtube, Facebook, Twitter e o Instagram, onde podes, efetivamente, mostrar o teu trabalho. Pode parecer injusto estar a dizê-lo, mas se dessa lista de 10 pessoas, tiver de colocar cinco mulheres, isso gera a dúvida! Ou seja, estou aqui porque tenho talento, ou estou aqui para preencher um número? O sistema acaba por ser um bocado perverso.
As mulheres são prejudicadas, mesmo as que chegam lá?
Não digo que seja fácil. E é interessante perceber porque não há tantas mulheres, ou porque não têm essa predisposição. Na verdade, há muitas mulheres a escrever, onde há mais diferença, é na parte performativa, em estão mais na plateia e não em cima do palco. As mulheres no palco, a fazer comédia, seria visto como uma mulher que não era séria.
Não sei se existe uma resposta certa. Comigo, e com algumas colegas, a diferença com os homens acontece sobretudo no feedback, nomeadamente nas redes sociais. Aos homens diz-se ‘não tens graça’, às mulheres também, mas há ataques, diz-se ‘és gorda’, ‘és feia’ – há bullying. E para se estar nesta área é preciso saber gerir isso, desvalorizar o que dizem, mas é verdade que no início é difícil. Não se fala da qualidade do trabalho, mas de coisas que nada têm a ver com humor, e isso não acontece com os homens. Pessoas que não estejam 100% centradas e com uma boa dose de autoconfiança, pensam não ter estrutura para aguentar.
Como foi o início da tua carreira?
Apesar de ser uma profissão, não há propriamente um curso ou uma ideia de carreira. Licenciei-me em Publicidade e Marketing porque gostava de escrever e de criatividade. E era louca por televisão. Se tiver de pensar como é que realmente começou, ou o que me fez trabalhar no humor, foi muito pelas minhas relações familiares, que não eram as melhores, e era uma forma de eu conseguir conquistar, de certa forma, a atenção e o amor dos meus pais. Era uma maneira de eu conseguir que olhassem para mim. E quando as pessoas se riem de ti, isso é aprovação, certo?
Referes o trabalho nas tascas dos teus Pais como parte desse caminho.
Sim, os meus pais tinham restaurantes e tascas e, para bem e para o mal, eu cresci nesse universo. Ao sete anos estava a servir copos de vinho e o ambiente de tasca está cheio de humor popular. É muito castiço, tens de ter um pensamento muito rápido. É um universo muito humorístico, toda a gente é muito engraçada.
Depois de estudar, comecei na Assessoria de imprensa, mas não era criativo o suficiente, e como não tenho de mudar, passei para a Publicidade, e aí tive um percurso bastante próspero no universo das Agências. Só que mais uma vez senti uma insatisfação e nessa altura criei um Blog, onde escrevia opiniões sobre as campanhas, mas também gostava da atualidade, e dos temas sociais, como a política. E comecei, naturalmente, a fazer crónicas humoristas.
Achas possível haver pessoas sem sentido de humor?
Acho que sim. Mas no meu caso, o meu Pai é das pessoas mais engraçadas que conheço, um excelente contador de histórias. Na minha experiência de procurar a atenção dos meus pais, procurei claramente o amor do meu Pai, queria tentar ser tão engraçada como ele. Há um quê de inveja, de ele sentar-se a uma mesa e as pessoas ficam a ouvir. O Ricardo (Araújo Pereira) também é assim, ele pode contar a mesma história 15 vezes e ouvimos como se fosse a primeira. Há um magnetismo, uma capacidade de atrair a atenção naturalmente, sem fazer esforço.
Como aconteceu teres ido para as Produções Fictícias?
Foi através da Susana Romana, que também é guionista e conhecia o meu trabalho. Ela convidou-me para escrever para o 5 para a meia-noite e depois para o Canal Q, onde comecei a colaborar com umas rubricas, e a apresentar, em nome próprio. Nessa altura, continuava o meu trabalho de copy e estava pelo menos oito horas por dia numa dinâmica de Agência, e em simultâneo, nas minhas horas de almoço, fazia algo onde era a minha própria Diretora criativa. A certa altura, tornou-se um desafio e foi quando decidi fazer do meu hobby o meu trabalho. Despedi-me e dediquei-me 100% ao guionismo.
Começaste no canal Q, onde dizes que ganhavas menos do que na Agência.
No canal Q estava a ganhar substancialmente menos, mas era irrecusável! Não tinha horários! E foi assim até ao dia em que recebi o telefonema do Ricardo que ia acompanhando as coisas que fazia. Perguntou-me se estava interessada em entrar para a equipa do programa Isto é gozar com quem trabalha e aquela chamada, há cinco anos, mudou a minha vida. Em Portugal não há programas de humor de autor e as pessoas não têm um real conhecimento do que é o nosso trabalho, que é imenso.
Como é a vossa rotina no programa? Imagino que implique alguma organização.
Não! Mentia se dissesse que há organização. A desorganização é a organização. Durante a semana, toda a equipa está atenta ao que acontece, em que vamos essencialmente acompanhando os canais noticiosos. Sentimos o sentimento geral, percebemos qual é o grande tema. E gostamos, sempre que é possível, ter um momento mais folclórico que é das poucas organizações que existem. Eu estou muito ligada à CMTV, vejo praticamente toda a semana. E também há pesquisas muito longas, com horas e horas a ver ‘brutos’, que é o que os câmaras começam a gravar assim que chegam a um lugar, e onde se encontra uma coisa ínfima, ou quase nada.
Como é feito o processo de escrita?
Chegamos a Domingo e os sete, mais o Ricardo, vemos tudo o que se recolheu e vamos dizendo coisas, todos a falar ao mesmo tempo. O Ricardo está ‘ao leme do barco’ e vai escrevendo o que vai achando melhor. É um processo altamente caótico. Se hoje chegasse e visse o nosso Domingo de trabalho, diria que é uma coisa impensável. Confesso que demorei algum tempo para me habituar. Mas por muito bizarro que possa parecer, torna o trabalho melhor!
Referes que é difícil encontrar alguém com o mesmo sentido de humor, quanto mais no trabalho. Ao falares deste processo, dá ideia de que estão todos na mesma linha.
Quando falei disso, referia-me mais às Agências, aos processos criativos. Quando fazes uma proposta e escreves um guião mais humorístico, se o Diretor criativo não tiver o mesmo no sentido de humor, é complicado, pois tens de ter muita gente em sintonia. Há coisas que não consegues explicar, certo tipo de referências, que se o cliente não faz ideia o que são, pode julgar absurdo.
Nesta equipa é precisamente o contrário, pois é muito giro quando não temos as mesmas referências. Não somos todos da mesma geração, e isso é bom. Tu própria usaste há pouco a palavra ‘teledisco’, que eu adoro! O Zé Diogo também diz ‘teledisco’ e uma mulher ‘descascada’, quando se refere a uma mulher despida. São dez anos de diferença e isso enriquece imenso as nossas relações, há um generation gap que estamos sempre a usar.
Qual é a tua referência no universo do humor?
É a Tina Fey, mas claro, as minhas referências são maioritariamente masculinas. Nos grupos de escrita, e em termos de colegas guionistas, não tenho ideia de haver uma disparidade tão grande entre a quantidade de homens e de mulheres. Há realmente muitas mulheres a escrever humor, por exemplo, o podcast mais ouvido é o da Joana (Marques). E isso desconstrói a ideia de que não se quer ouvir as mulheres, ou um timbre mais agudo.
Dizes não ter medo da mudança. Como vês o teu futuro do lugar onde estás e onde chegaste, fruto do teu trabalho?
Há uma coisa tramada que é quando os teus hobbies começam a ser o teu full time job. De repente, ficas sem hobby! Eu tenho uma paixão pela cozinha. E comecei há uns tempos a tirar um curso, a ler. E quem sabe se não posso um dia seguir isso. Estou num lugar de privilégio, estou no melhor sítio, e quando deixar de ser bom, é mudar. E penso o que poderá vir a seguir. A minha geração cresceu com esta ideia de que podes ser tudo o que tu quiseres, absorvi tanto isso, que ao mesmo tempo é assustador! Eu posso ser tudo? Esta é a relação mais longa da minha vida, estou há cinco anos com estas pessoas. E logo eu que sempre mudei, é inevitável olhar, pensar e começar a ficar inquieta. Mas a verdade é que estou confortável, estou a fazer aquilo que gosto mesmo, no melhor sítio e claro. Acho que vai ser um processo parecido com o que fiz até aqui, ou seja, este é o meu trabalho e vou começar, naturalmente, a cozinhar nas minhas horas de almoço.


