Tomás Magalhães é um acérrimo defensor de que podemos (e devemos) discordar mais. Na palestra Como podemos discordar melhor, o fundador do podcast Despolariza trouxe ao palco das Conferências do Estoril a arte do desacordo civil, explicando como transcender o dualismo, integrando a filosofia, a física, a psicologia e o humor para promover conversas perspicazes. […]
Tomás Magalhães é um acérrimo defensor de que podemos (e devemos) discordar mais. Na palestra Como podemos discordar melhor, o fundador do podcast Despolariza trouxe ao palco das Conferências do Estoril a arte do desacordo civil, explicando como transcender o dualismo, integrando a filosofia, a física, a psicologia e o humor para promover conversas perspicazes.
Com formação em Física e uma paixão por explorar as complexidades da vida, a palavra de ordem para Tomás é a empatia, mas esta sua jornada começou com uma pergunta mais simples. «Um dia, em 2019, não havia nada de bom para ver na televisão e, como qualquer outro homem narcisista com educação católica, pensei para mim mesmo: por que não tentar salvar o Mundo?», explicou, abrindo a sua palestra.
A resposta surgiu, seguida do desejo de haver mais desacordo na humanidade como forma de enriquecer as democracias e saúde mental, com «mais amor e menos política e identidade». Nasceu o podcast Despolariza, dedicado a debater temas polarizantes e conversas com diferentes perspetivas. Apesar de estar em destaque nos últimos meses, Tomás Magalhães referiu que a comunidade de ouvintes que se criou é o que mais o orgulha. «Se queremos aprender a discordar melhor, devemos conhecer as raízes, as causas das pessoas», afirma.
Afinal, como podemos discordar construtivamente?
As bases para um debate mais aberto consistem em: ouvir para entender e não para responder; falar com recurso a perguntas e não a afirmações; tentar reconhecer um ponto de concordância antes de criticar; focar na mensagem e resistir à tentação de atacar o mensageiro; tentar assumir sempre boas intenções. «Penso que o Mundo seria um lugar melhor se todos tivéssemos estes pontos em mente», acrescentou.
Tomás Magalhães partilhou ainda ferramentas filosóficas que considera estarem na raiz de um bom equilíbrio. A realização de que somos pequenos, no meio de um universo tão grande é o primeiro passo para relativizar discussões e discordâncias da vida real.
Mesmo que sejamos lembrados por toda a humanidade, a vida é somente possível no universo durante uma fração muito pequena de tempo. A história inteira da humanidade é um grão de poeira na cronologia cósmica.
Este pensamento ajuda-nos a valorizar o que realmente importa e a não nos levarmos demasiado a sério.
A ideia de lotaria genética e social sustenta a estratégia de compreender o outro, antes de julgar. O local onde crescemos, as condições socioeconómicas e outros fatores são puramente aleatórios e podem definir uma grande parte da identidade dos indivíduos. «Lembrem-se, em todos os debates, que poderiam estar do outro lado do Mundo se tivessem uma lotaria social diferente. E eu acho que todos estão a tentar fazer o melhor que podem com a lotaria que ganharam», rematou.
Por fim, surge o aspeto multidimensional da política, que inclui todas as nuances e vieses que podem existir com uma determinada ideologia. A noção destas questões permite, uma vez mais, diferenciar os ideais políticos além de esquerda e direita e compreender que existem vários pontos de vista dentro de cada pessoa.
Após a sua apresentação, a Líder pôde conversar com Tomás Magalhães e descobrir mais algumas ideias despolarizantes.
Como dizia Eça de Queirós, Portugal é ainda um país de brandos costumes onde discordar vai quase contra a cultura do país. Como é que conseguimos tornar-nos num povo mais discordante?
Culturalmente, acho que respeitamos muito a autoridade e temos um bocadinho de medo de ser uma afronta. Eu acho que pode ter a ver com o caminho histórico que tivemos, não só da ditadura, mas também deste cantinho da Europa, que sempre teve uma espécie de complexo de inferioridade. Culturalmente falando, primeiro bebíamos de tudo o que era inglês, depois de tudo o que era francês e agora bebemos de tudo o que é americano, não é? Foram as nossas influências culturais.
Sempre estivemos pequeninos, ao lado de Espanha, que conseguiu resistir e ter a sua própria cultura. Acho que uma mistura destas coisas todas transformou-nos num povo que está sempre a olhar para o que se faz lá fora, para o que os outros estão a fazer. Com o Covid isso aconteceu, as decisões de países como Portugal eram baseadas em olhar para o que é que os grandes estavam a fazer.
Isto é só um “achismo”, eu não sei de onde é que vem esta nossa cultura, mas ao mesmo tempo acho que é interessante e útil a ideia de se respeitar quem tem mais experiência. É preciso saber como falar com o chefe, de forma a que ele não se sinta ofendido. Há muitos CEO e chefes que não aceitam grandes críticas e é por culpa deles, porque as pessoas têm medo.
O Tomás fala sobre a ideia de conhecer as raízes de uma pessoa. Mas é pelas raízes ou pelos frutos que se conhecem as árvores?
Realmente, uma árvore vê-se pelo fruto, porque é aquilo que nos aparece à frente primeiro, é o comportamento. Mas aquele fruto só existe por causa de uma boa raiz, ou seja, as duas coisas são verdade. Se eu vejo alguém que sabe entrar numa jam session de perspetivas, onde falamos de ideias no espírito de crescermos em conjunto, eu vejo o fruto e isso só é possível quando há uma base, uma raiz forte de ideias filosóficas que depois nos dão empatia, curiosidade e humildade.
Essas raízes estão na escola, onde a filosofia não devia começar aos 15 anos, mas sim aos cinco. Antigamente, nós íamos à escola buscar informação e agora temos toda a informação do Mundo no bolso. Então, a escola deve ser muito mais sobre como navegar a informação, como pensar, como distinguir uma notícia verdadeira de uma falsa, como identificar vieses cognitivos, como identificar as nossas emoções mais tribais.
É inevitável não falarmos de política quando falamos em polarizar e despolarizar. Há um certo desinteresse das camadas mais jovens pela política? O que está em falta?
Penso que é mais um desencanto. Eu lembro-me de ter 18 anos, quando não havia smartphones nem redes sociais, e ver que as pessoas que eram interessadas por política eram quem realmente gostava do tema.
Por causa das redes sociais, toda a gente tem muitas opiniões desde muito cedo, há uma espécie de envolvimento involuntário que não havia antes. O algoritmo adora polémica, para reter os nossos olhos e cérebros.
É preciso despolarizar a juventude.
Portugal, apesar de tudo, está espetacular, a comparar com os Estados Unidos. Lá, só há duas equipas políticas e uma minoria ínfima ali no meio, e na Europa e Portugal temos muitos partidos. Olhando para a Assembleia não parecemos estar em extremos, mas poderemos estar afetivamente polarizados, que consiste na maneira como nos sentimos emotivamente sobre as pessoas do espetro oposto. Portugal, especificamente, está afetivamente polarizado.
Espiritualmente, Portugal está muito centrado em dogmas. Explorar a espiritualidade nas escolas é algo que pode ajudar a despolarizar?
Espiritualidade na escola é perigoso, no sentido em que é um tema que deviam ser os pais a decidir e a escolher como falar disso.
Eu agora apercebo-me de que uma das coisas mais espirituais que eu já fiz foi estar três anos a estudar física. Este cosmic wonder, a insignificância cósmica, é uma coisa que não é propriamente espiritualidade, mas que para mim é um exercício espiritual. Percebemos que somos pedaços de estrela que se reformaram para criar este cérebro, que consegue entender que está vivo e que faz parte do universo.
Penso que se devia falar desta insignificância e preciosidade cósmica, da lotaria genética e social e do espetro político multidimensional nas escolas.
Imagem destaque: Conferências do Estoril



