Quando Maria Amélia Cupertino de Miranda explica a missão da Fundação António Cupertino de Miranda, criada pelo seu tio-avô, percebe-se rapidamente que não se trata apenas de finanças. Trata-se de tempo, de como viver mais e melhor, de como transformar anos em escolhas conscientes e autonomia real. Desde 2010, a Fundação tem levado a literacia […]
Quando Maria Amélia Cupertino de Miranda explica a missão da Fundação António Cupertino de Miranda, criada pelo seu tio-avô, percebe-se rapidamente que não se trata apenas de finanças. Trata-se de tempo, de como viver mais e melhor, de como transformar anos em escolhas conscientes e autonomia real. Desde 2010, a Fundação tem levado a literacia financeira às escolas, aos adultos, aos seniores e a pessoas com necessidades especiais, apoiando-se no Museu do Papel-Moeda como base e laboratório pedagógico.
A aposta mais antiga e mais abrangente da Fundação — o projeto ‘No Poupar Está o Ganho’ — já acompanha crianças há 15 anos e, ao longo desse percurso, impactou mais de 115 mil alunos em mais de 120 municípios por todo o país, ensinando-lhes literacia financeira com um propósito que ultrapassa os números e se apoia na tomada de decisões conscientes ao longo da vida.
«Viver mais não significa viver melhor se não soubermos gerir os nossos recursos, se não tivermos poder de decisão sobre a nossa vida», sublinha Maria Amélia, Presidente da Fundação. Neste contexto, o V Fórum sobre Longevidade, organizado pela Fundação e realizado no Porto a 20 de novembro, reuniu mais de 300 participantes entre especialistas, académicos, representantes da sociedade civil e decisores, para debater os desafios demográficos do século XXI e as suas implicações sociais e económicas.
O Fórum mostrou, sem rodeios, a estratégia da Fundação: preparar os portugueses para cada fase da vida, dando-lhes ferramentas para decisões que não se limitam à poupança, mas que afetam saúde, confiança e a própria forma como vivem.
Quando falamos de longevidade, falamos de mais tempo ou de melhor tempo? E quem decide essa diferença?
A longevidade não é apenas uma questão de tempo cronológico; é sobretudo uma questão de qualidade desse tempo. Viver mais anos não é uma conquista se esses anos forem passados com fragilidade, insegurança ou exclusão. A forma como conseguimos usufruir desses anos depende das políticas públicas, das oportunidades de educação ao longo da vida, do acesso à saúde, da literacia financeira e da capacidade de cada pessoa de planear o seu futuro. Não são decisões individuais, mas estruturais, exigindo estratégia, antecipação e uma visão integrada da longevidade como eixo central do desenvolvimento social e económico.
Portugal está envelhecido. A literacia financeira pode ser o despertador do país?
Portugal envelhece rapidamente, mas sem plena consciência do impacto disso. Em 2015, por cada 100 jovens, residiam 147,6 idosos; em 2024, eram 192,4. Estes números exigem ação integrada em diversos setores.
A literacia financeira deve ser um despertador coletivo, não confinada às elites ou aos mais informados. Se não for inclusiva, acessível e adaptada à realidade das pessoas, falha no seu propósito social.
É por isso que a Fundação António Cupertino de Miranda se orgulha de ser pioneira na educação financeira desde 2010, com o projeto ‘No Poupar está o Ganho”, implementado em todos os ciclos do ensino em escolas de 120 municípios, atualmente na sua 15.ª edição. Há ainda programas como ‘Eu e a Minha Reforma’, que capacita pessoas mais velhas, ‘Por Tua Conta’, focado no Ensino Profissional, e ‘Educação Financeira – Uma Necessidade Especial’, para pessoas com défice cognitivo. Todos visam transferir conhecimento financeiro para mudar atitudes e comportamentos, capacitando para transformar a gestão das finanças e da vida.
Como se prepara alguém para a velhice num país onde tantos vivem o presente em modo sobrevivência?
Começa-se por reconhecer essa realidade. A precariedade afeta várias faixas etárias, mas os mais velhos sentem-na particularmente. É um desafio complexo, mas é possível criar programas credíveis que devolvam margem de decisão sobre a vida financeira, mesmo em contextos difíceis.
Preparar para todas as fases da vida não é falar de reforma aos 20 anos; é criar competências financeiras e digitais ao longo do tempo, para gerir rendimentos, compreender riscos, tomar decisões informadas e ganhar confiança. O foco é capacitar.
Num cenário político volátil, como se protege a educação financeira de ser usada como arma política?
Jamais deve ser encarada assim. A literacia financeira está definida na Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania como ferramenta essencial para «assegurar que crianças e jovens adquiram conhecimentos, capacidades, valores e atitudes no domínio financeiro». No Quadro de Competências Financeiras da OCDE, a literacia prepara os jovens para decisões financeiras sólidas enquanto adultos. A Fundação trabalha com a Faculdade de Economia da Universidade do Porto que assume a responsabilidade de revisão científica dos conteúdos dos nossos programas. Recorremos à Faculdade de Psicologia e de Educação para avaliar o impacto social dos nossos programas e também como podemos contribuir ativamente para uma sociedade financeiramente mais informada.
Estes programas são orientados pelo conhecimento e vontade de transformar a sociedade e não por terceiros, com objetivos diferentes. Quando a literacia financeira é pensada a longo prazo, transversal a ciclos políticos, deixa de ser arma e passa a ser um bem comum. A Fundação assume precisamente esse papel: atuar onde há défices sociais, com visão estratégica e foco na capacitação das pessoas.
A literacia financeira não corre o risco de ser vista como moralização disfarçada?
Só se houver iliteracia financeira elevada. A inclusão financeira garante que todas as pessoas, independentemente da classe, idade ou localização, tenham acesso a produtos, serviços e informação essenciais.
O projeto ‘Eu e a Minha Reforma’ capacita pessoas mais velhas: medições de impacto mostram melhoria de competências financeiras acima de 80%, junto com aumento da literacia digital. Estruturas adequadas modificam comportamentos e promovem uma vida mais equilibrada e feliz.

Como se trabalha com uma geração cuja memória financeira é de crises sucessivas?
Anna Maria Lussardi, de Stanford, diz: «estamos na hora de conhecer mais, para temer menos». Concordo. O mundo mudou. Longevidade redefine carreiras, economia e vida pessoal. Trabalhar a literacia financeira é transmitir visão solidária, vinculando conhecimento, inovação e equidade.
A confiança constrói-se quando as pessoas percebem que podem controlar suas decisões mesmo em contexto incerto.
O próximo passo é estrutural ou emocional? Ensinar números ou ensinar a não ter medo deles?
Ambos. Não há transformação estrutural sem programas assegurem continuidade, proximidade, flexibilidade e aposta na qualificação financeira e digital das pessoas. Ensinar números e estratégias de gestão financeira não é suficiente a longo prazo. A formação financeira vai muito para além disso. Ensinar números não basta; é preciso traduzir conceitos complexos de forma acessível, compreendendo anseios e necessidades de cada público.
Falta-nos coragem política ou organização para ver a longevidade como oportunidade?
Portugal tem uma pirâmide demográfica invertida. Outros países também. Longevidade é realidade e pode ser um ativo social e económico se houver qualificação e investimento na formação financeira e digital. É preciso integrar todos, desenhar estratégias de vida coletiva, envolvendo academia, sociedade civil e setores público, privado e social.
Longevidade sem equidade não é progresso, é distopia. Mas tudo isto também exige políticas públicas coerentes, novos modelos de trabalho, sistemas de proteção ajustados e uma mudança cultural profunda. Precisamos, por isso, de uma Estratégia Nacional para a Longevidade.
O Fórum trouxe governo, academia e decisores económicos. O que ainda falta à conversa?
O primeiro é antecipação: a literacia financeira e da saúde deve começar o mais cedo possível, tanto nas escolas como nas empresas, de forma a que as pessoas adquiram competências ao longo da vida e não apenas quando a velhice se aproxima.
O segundo vetor é prosperidade: uma sociedade envelhecida só se sustenta se houver crescimento económico. Os anos extra de vida só se transformam em oportunidade social e económica se forem acompanhados de investimento, emprego e políticas que permitam prosperar em todas as fases da vida.
O terceiro é olhar para os mais velhos como ativos, e não passivos. Eles não são apenas beneficiários de sistemas de proteção social; são consumidores, tomadores de decisão e motores económicos com poder de compra significativo, capazes de influenciar mercados e comunidades.
Para que estes vetores se concretizem, a inclusão financeira, a inclusão digital e a sustentabilidade social são cruciais. É necessário que políticas públicas estruturadas garantam que todos os segmentos da sociedade, especialmente os mais vulneráveis, se beneficiem da transformação digital e da literacia financeira, tornando a longevidade um ativo partilhado e sustentável.
Que papel tem a cultura neste debate?
É a base do que consideramos possível, desejável ou indispensável em cada fase da vida. Se a cultura dominante associa envelhecimento a perda e dependência, as respostas institucionais serão reativas e curtas. Precisamos ver os mais velhos como ativos plenos, com capacidade de decisão e contributo.
Cultura e educação mudam a narrativa do idadismo.
A cultura exerce um papel central neste debate porque precede políticas, programas e decisões económicas. É a forma de pensar coletiva que define o que consideramos possível, desejável ou essencial em cada fase da vida, moldando não só a maneira como envelhecemos, como também a forma como gerimos o dinheiro, trabalhamos e projetamos o nosso futuro.
Se a cultura dominante continuar a associar envelhecimento a perda, dependência e irrelevância, as respostas institucionais tenderão a ser reativas e de curto prazo. É urgente ver as pessoas mais velhas como um «ativo a gerir», cidadãos plenos, capazes de decisão, contribuição e autonomia. Esta narrativa deve guiar políticas públicas e expectativas individuais, mostrando que é através da cultura e da educação que podemos desconstruir o preconceito do idadismo.

Envelhecer com dignidade num país com literacia financeira limitada significa o quê?
Não significa que não tenha havido já caminho percorrido. Significa, antes de mais, garantir que a segurança e a autonomia não ficam dependentes da sorte, da origem social ou do nível de escolaridade. A dignidade não pode ser um benefício colateral de quem teve mais oportunidades ao longo da vida: deve ser um direito de todos. A literacia financeira é, por isso, um pilar central dessa dignidade porque qualifica pessoas, confere poder de escolha e reduz a dependência de terceiros.
E o maior medo da longevidade — viver mais ou viver mal?
Todos queremos viver mais, mas também melhor. O verdadeiro medo da longevidade não é durar anos, mas vivê-los sem autonomia nem controlo. Esse receio nasce da baixa literacia sobre longevidade e da falta de adaptação da sociedade.
O modelo trifásico — aprender, trabalhar, reformar — já pertence ao século passado.
É preciso um novo paradigma social que sirva todas as gerações: capacitação, trabalho e lazer ao longo da vida, com investimento sério em saúde, educação contínua e literacia financeira e digital, apoiado por políticas públicas estruturadas.
No entanto, também exige uma mudança de narrativa, que finalmente encare a longevidade como um ativo social e económico e não como um problema.
É através destas lacunas e também da identificação de vários défices sociais que a Fundação molda a sua programação, sempre a partir do Museu do Papel-Moeda, de forma que ninguém fique para trás e para que todos possam ter mais autonomia e conhecimento sobre a melhor forma de conduzirem as suas vidas.



