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Marcelo Teixeira

Carlos Carvalho é o novo CEO da Futurcabo

28 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

A Futurcabo acaba de anunciar a nomeação de Carlos Carvalho como novo CEO, abrindo uma nova etapa de crescimento e reposicionamento estratégico no competitivo setor das telecomunicações e energia. A escolha sinaliza uma aposta clara na inovação, excelência operacional e transformação organizacional.

Com mais de duas décadas de experiência internacional em empresas como Altice Portugal, TELCABO, KPMG, Accenture e Europcar Mobility Group, Carlos Carvalho traz consigo um percurso sólido, marcado pela liderança de projetos de grande escala em mercados como Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Portugal e Emirados Árabes Unidos.

Licenciado em Economia, o novo CEO é especialista em programas de transformação, reengenharia de processos, desempenho empresarial e gestão de operações e finanças, destacando-se ainda pela capacidade de liderar equipas multidisciplinares em contextos de elevada exigência.

«Assumo este desafio com ambição e sentido de responsabilidade. A Futurcabo tem uma história feita de proximidade, confiança e excelência, e é nesse legado que vamos continuar a construir. Queremos posicionar a empresa como uma referência no setor, centrada na mais-valia para os nossos clientes e parceiros», afirma Carlos Carvalho.

A nomeação surge também como parte da estratégia do grupo Wellow Network, ecossistema empresarial do qual a Futurcabo faz parte. Para César Santos, CEO do grupo, a entrada de Carlos Carvalho «representa um reforço estrutural da liderança», permitindo acelerar a diferenciação e expansão da empresa no mercado.

Com esta mudança na liderança, a Futurcabo prepara-se para assumir um papel mais ativo no desenvolvimento de soluções tecnológicas, comerciais e operacionais, com impacto direto na eficiência interna e na qualidade de serviço prestado a empresas e consumidores.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

«Uma liderança inclusiva não impõe, escuta; não nivela, reconhece diferenças», afirma João C. Silva

25 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

No cruzamento entre a visão global e o espírito empreendedor, João C. Silva traça uma rota onde a inovação e a empatia se tornam faróis na complexa travessia do mundo empresarial contemporâneo. CEO da Digital Connection, agência internacional de comunicação e marketing digital que ganhou prémios em Portugal e no Dubai, João é mais do que um gestor: é um arquiteto de conexões — entre culturas, pessoas e ideias.

Desde cedo, percebeu que liderar vai muito além da organização de equipas ou da definição de estratégias. É uma arte que exige escuta ativa e sensibilidade, mas também a coragem de definir prioridades e traçar caminhos em territórios imprevisíveis. Fora do universo corporativo, João é uma ponte viva entre culturas. É Co-founder do Art of Connection, um projeto que promove a conexão de pessoas, empresas, artistas e culturas através da arte. Também exerce diplomacia cultural na International Federation of Choral Music e ajuda a estreitar laços entre Portugal e o Dubai como Secretário-Geral do Portuguese Business Council. Além disso, é ainda Conselheiro da Diáspora Portuguesa no Mundo.

Nesta conversa com a Líder, o português revelou os desafios de construir uma empresa num mercado conservador, o delicado equilíbrio entre exigência e humanidade na liderança, e a importância de preservar a autenticidade num mundo cada vez mais digital e global. João não vê a liderança como um comando, mas como um convite à inspiração — onde o impacto humano se mede em respeito, confiança e conexão genuína.

João, olhando para a sua carreira, como define o papel da liderança no mundo empresarial e digital de hoje?

A liderança assenta em dois pilares fundamentais: a empatia e a organização. Sem empatia não há verdadeira conexão humana; sem organização, não há direção clara. Um líder deve compreender quem está do outro lado — as suas expectativas, motivações e fragilidades — e isso exige presença, escuta ativa e respeito. Ao mesmo tempo, precisa definir prioridades e garantir que cada membro da equipa sabe o que se espera em cada fase do processo, reduzindo frustrações e aumentando a motivação.

No contexto digital, a liderança tornou-se mais visível e exigente. As pessoas comparam estilos, veem outras realidades, e essa transparência obriga os líderes a serem autênticos. Hoje, não basta mandar, é necessário inspirar.

 

Quais os maiores desafios que enfrentou ao criar a Digital Connection?

O ambiente português é um desafio por si só: mercado conservador, resistência à mudança, capacidade limitada de investimento e poder de compra frágil. Fundar a Digital Connection aos 26 anos, com visão, mas pouca experiência, implicou aprender na prática, cometer erros naturais, como decisões precipitadas e uma ingenuidade emocional que me ensinou muito.

Externamente, lidámos com clientes que atrasavam pagamentos, margens baixas e um ecossistema empresarial pouco preparado para apoiar PME’s. Para vencer, tivemos de ser disciplinados financeiramente e pensar desde cedo numa visão internacional — a ambição foi sempre maior que as limitações do mercado. Foi essa visão que nos fez crescer.

 

Em tempos de incerteza e mudança acelerada, como mantém a sua equipa unida e motivada sem sacrificar a autenticidade e o respeito mútuo?

Tratar a equipa como indivíduos, não como um bloco homogéneo, é essencial. Na Digital Connection, temos profissionais de mais de dez nacionalidades, cada uma com valores e formas de comunicar muito distintas. Cada pessoa tem a sua história, o seu ritmo, as suas necessidades. Liderar neste cenário exige promover o respeito e a inclusão, ao mesmo tempo que se garante excelência nos resultados.

É uma dança entre sensibilidade humana e rigor profissional, que só funciona com empatia, clareza e consistência. Essa liderança partilhada com o meu sócio, o Gonçalo Freitas, ajuda-nos a encontrar soluções melhores e a criar um ambiente onde as diferenças coexistem de forma produtiva.

 

Como equilibra a liderança enquanto arte, ciência e responsabilidade moral?

Essa é uma pergunta que levo muito a sério. A liderança não é apenas uma competência — é, acima de tudo, uma responsabilidade social e moral. Liderar é ter consciência do impacto que se tem na vida dos outros. E isso exige sensibilidade, humildade e coerência.

Acredito profundamente que a autoridade sem responsabilidade moral se transforma rapidamente em abuso de poder. E o abuso, mesmo que subtil, mina tudo: a motivação, a criatividade, a confiança. Uma equipa liderada com respeito torna-se naturalmente mais comprometida e mais resiliente. O ponto de partida é claro: respeito pelas pessoas. A partir daí, tudo se constrói.

 

Pode partilhar um momento difícil e o que aprendeu sobre si próprio enquanto líder?

Mais do que um momento, foi um padrão: por muitos anos, tive dificuldade em desligar, sentia que tinha de controlar tudo, o que me levou a exaustão física e mental. Percebi que não podia ser um bom líder para os outros se não cuidasse de mim próprio.

Hoje, priorizo o autocuidado — alimentação, exercício, sono — porque produtividade sem bem-estar é ilusão. Esse equilíbrio é fundamental para a sustentabilidade pessoal e profissional.

 

O que significa para si ‘conectar pessoas’ numa era em que as conexões parecem ser cada vez mais superficiais?

Nunca estivemos tão conectados, seja física ou digitalmente. A facilidade de viajar e comunicar globalmente nunca foi tão grande. Porém, o uso excessivo das redes sociais pode gerar sensação de vazio, sobretudo pela desinformação, fake news e discurso de ódio, que diminuem a tolerância social.

Conectar pessoas, para mim, é ultrapassar essa superficialidade, criando pontes genuínas entre culturas e realidades diferentes — e esse é também o objetivo do projeto Art of Connection.

 

No projeto Art of Connection, a arte une realidades distintas. Acredita que essa união artística pode ser uma metáfora para a liderança inclusiva?

Sem dúvida. A arte é transformação, emoção e reflexão crítica. Como a liderança, ela conecta, desafia e questiona.

Uma liderança inclusiva não impõe, escuta; não nivela, reconhece diferenças.

Tal como a arte, também a liderança deve ser expressão de humanidade e canal de transformação. É por isso que acredito que a arte é uma metáfora perfeita para a liderança inclusiva, ajudando a criar ambientes mais criativos e conscientes.

Também tem um podcast – ‘Our Vision’. Que visão quer transmitir a quem o ouve?

O ‘Our Vision’ nasceu para partilhar uma visão realista e humana do empreendedorismo, marketing e lifestyle no Dubai, desconstruindo preconceitos comuns entre os portugueses sobre a região. É um espaço para dar voz a histórias de pessoas de várias nacionalidades que ali vivem e trabalham.

Também é uma forma de contar a minha própria trajetória, mostrando que é possível construir algo sólido fora da zona de conforto. ‘Our Vision’ é uma visão coletiva e individual que inspira a acreditar na própria visão. Ou seja, se inspirar alguém a acreditar mais na sua visão, é porque já valeu a pena.

 

Qual foi o maior desafio pessoal que o ajudou a crescer como ser humano?

Aprender a respeitar os meus limites foi decisivo. Sempre me entreguei a mil projetos, mas ignorar os sinais de cansaço é um erro. O descanso faz parte da produtividade. Mais do que estar sempre ocupado, é estar verdadeiramente presente que importa.

Liderar não é estar em todo o lado, é estar com qualidade onde realmente faz diferença.

Outro crescimento enorme veio do contacto com culturas diferentes, que me ensinou tolerância e humildade — percebi que o ‘normal’ para mim pode ser estranho para outro, e isso é uma riqueza. Isso abriu não só a mente, mas o coração.

 

Como gere os múltiplos papéis sem perder o contacto consigo próprio?

A coerência interna é o maior ato de liderança. Não vejo os meus vários papéis como separações, mas como extensões do mesmo eu. A terapia e o autoconhecimento foram essenciais para isso — conhecendo bem os meus valores, fica mais fácil decidir mesmo sob pressão.

 

Qual é o papel da humildade, sobretudo num mundo tão competitivo e acelerado?

A humildade é a característica que nos faz evoluir. Sem escutarmos os outros não progredimos, a humildade é que nos torna mais competitivos, especialmente no mundo em que vivemos, onde as pessoas, no geral, têm muita dificuldade em escutar, em realmente ouvir o outro. Ser humilde não é viver dependente da aprovação externa e, normalmente, a falta de humildade está associada a inseguranças escondidas. Ser humilde é conhecermos as nossas limitações e superá-las.

A humildade não é ausência de ambição — é a sua maturação. É a capacidade de avançar com firmeza, mas sem pisar ninguém no caminho.

 

Que conselhos dá para não perder a visão de longo prazo?

O mais importante é nunca confundir movimento com progresso. Há fases em que estamos muito ocupados, mas não estamos a avançar.

Manter a visão de longo prazo exige pausa, reflexão e foco. Exige saber parar para pensar: ‘Isto ainda me faz sentido?’, ‘Para onde estou a ir realmente?’ Cercar-se de pessoas que desafiam e lembram o propósito inicial ajuda a manter a visão. A visão de longo prazo precisa de persistência, clareza, humildade e alinhamento com valores.

 

Qual o papel do conselheiro da diáspora portuguesa no mundo?

A diáspora portuguesa é uma rede global única, com enorme capacidade de adaptação e resiliência. O papel de conselheiro é ser ponte entre Portugal e o mundo, trazendo novas ideias, projetos e conexões. Num mundo de fronteiras fluidas, o verdadeiro poder está em articular narrativas e gerar impacto além das geografias — e é isso que quero ajudar a construir.

 

Que mensagem deixaria aos futuros empreendedores portugueses?

Ser empreendedor é aceitar ser desafiado todos os dias, é escolher o caminho mais difícil, mas também o mais gratificante. Resiliência, autenticidade e humanidade são as chaves para vencer. E, acima de tudo, acreditar na própria visão mesmo quando o mundo diz o contrário.

Arquivado em:Entrevistas, Leadership, Notícias

Livros Brands: narrar, vender, revolucionar

25 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Três livros, três formas de provocar mudança: da arte de contar histórias com impacto emocional à ciência da persuasão e à criatividade como ato de rebelião. Estas obras mostram que comunicar bem é mais do que falar — é transformar.

 

 

Storytelling – A Melhor História Ganha – Mark Edwards 

Clube do Autor 

Qual é a melhor forma de comunicar? A argumentação lógica funciona sempre? Na verdade, a capacidade de criar histórias poderosas é a forma de comunicação mais eficaz. E porquê? Porque as pessoas não tomam decisões baseadas na lógica. As pessoas decidem emocionalmente. Para persuadir, influenciar e inspirar, é preciso estabelecer uma ligação emocional. E contar histórias é a melhor forma de o fazer. 

Ao longo de décadas dedicadas ao jornalismo, Mark Edwards criou o seu próprio método para escrever histórias convincentes e apelativas. Neste livro partilha as suas técnicas e afirma que contar histórias nos torna melhores comunicadores. 

 

Vender é Humano – Daniel H. Pink 

Bertrand Editora 

Todos nós somos vendedores; passamos uma parte considerável do nosso tempo (de trabalho e de lazer) a fazer vendas. ‘Vender’ não significa apenas persuadir alguém a fazer uma compra — o verdadeiro alcance do ato de vender é bem mais amplo… 

Vender é Humano oferece uma nova perspetiva sobre a arte e a ciência de vender. Com base nas mais recentes descobertas nas áreas da Economia, da Psicologia e da Ciência, Daniel Pink apresenta revelações surpreendentes sobre o que nos leva a mudar de ideias, o que nos persuade e o que nos motiva a agir de determinada maneira. 

 

 

O Assalto Criativo – José Rocha 

Edição de Autor 

A criatividade não é um dom reservado a poucos – é um ato de rebelião, um assalto ousado às barreiras que nos limitam. 

‘O Assalto Criativo’ é um manifesto para quem deseja libertar-se do medo, questionar padrões e transformar ideias em realidade. Ao longo de sete partes estruturadas como uma jornada, o livro desafia o leitor a demolir bloqueios externos, despertar o olhar interior, estruturar a criatividade sem sufocar a alma e superar o medo da criação. 

Arquivado em:Leading Brands, Livros e Revistas

Justiça social não se faz com retroescavadoras

25 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Em 2025, num país que se quer moderno e democrático, dezenas de famílias do Talude — com contratos sem termo e emprego formal — foram desalojadas e deixadas a dormir no mesmo terreno onde se erguiam, até há pouco, os seus lares. Dormiram entre escombros, entre entulhos e destroços, deixados pela demolição arbitrária da Câmara Municipal de Loures.
Em 2019, a Grande Lisboa contava com cerca de 13 bairros de lata, onde viviam mais de 1.800 famílias em habitações precárias. Hoje, segundo dados apurados pelo Expresso, o número de bairros de barracas subiu para 27 núcleos identificados, com estimativas de abrigo a cerca de 3.000 famílias distribuídas por vários concelhos metropolitanos como Loures, Amadora, Seixal e Almada.
Este cenário evidencia de forma clara o colapso dos planos públicos de realojamento, cujas promessas se revelaram incapazes de acompanhar o aumento exponencial de assentamentos precários.
Segundo relatórios recentes de organizações sociais e do Observatório da Habitação, um número significativo de famílias na Grande Lisboa — estimado em mais de 30% dos inquilinos em zonas mais vulneráveis — tem dificuldade em pagar as rendas, acumulando atrasos e estando há anos em listas de espera para habitação social. Estes dados não são meras estatísticas: são vidas à espera de uma resposta que tarda em chegar.
Urge desmistificar certos estereótipos: os moradores do Talude trabalham. Muitos têm contratos sem termo, estão integrados na economia local e cumprem com os seus impostos. A narrativa de que prefeririam viver em condições degradantes cai por terra face à realidade: são trabalhadores que construíram rotinas, relações comunitárias, e até gerações com raízes naquele espaço. Mas mesmo assim foram expulsos do seu refúgio.
É profundamente irónico — e triste — constatar que são sempre os mesmos a perder tudo: chão, tecto e dignidade. As famílias mais fragilizadas continuam a suportar as consequências da falência dos planos de realojamento, enquanto os que afirmam governar afirmam agir dentro da lei. A legalidade, sem uma base de justiça e de humanidade, transforma-se num instrumento de violência.
Como justifica um país que se quer civilizado permitir que o direito à habitação seja um privilégio e não um direito garantido? Como aceita que cidadãos com trabalho e contribuição social sejam deixados ao relento, despojados do seu único tecto?
Perder um tecto não significa apenas perder abrigo — significa perder segurança, privacidade, dignidade.
É inadmissível que, em 2025, esta seja a realidade de tantos. O silêncio já não serve. As instituições falharam. O Estado falhou. E o Talude tornou-se símbolo da repetição de uma injustiça que insiste em sobreviver.

Arquivado em:Opinião

‘Positive tipping points’: como pequenas viragens podem salvar ecossistemas

24 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Vivemos num tempo de colapso silencioso. Lagos antes férteis tornaram-se salinas desoladas, florestas desapareceram sob a pressão da agricultura intensiva e os mares, esvaziados, perderam o pulso da vida. Mas nem tudo está condenado a seguir o caminho do declínio. Há, neste século de incerteza, sinais de que os chamados positive tipping points – pontos de viragem positivos – podem ser a resposta que faltava para reverter a degradação ambiental e transformar comportamentos humanos em direção a um futuro sustentável.

Na essência, trata-se de identificar momentos-chave onde uma pequena intervenção gera mudanças autoalimentadas, capazes de restaurar ecossistemas e regenerar comunidades. De Yellowstone, nos Estados Unidos, ao Rajastão, na Índia, passando por zonas como Doñana ou o Parque Nacional da Peneda-Gerês, há cada vez mais exemplos onde a recuperação ecológica se entrelaça com sistemas sociais resilientes.

Mas se as histórias pontuais nos inspiram, a grande questão mantém-se: como escalar estas viragens positivas à escala global?

 

Como se muda um sistema?

Nas paisagens esgotadas do mundo – dos campos áridos aos oceanos sobrepescados – estas viragens podem emergir como oportunidades raras. Um projeto piloto bem-sucedido, uma comunidade unida ou uma medida política ousada pode desencadear um efeito dominó, onde a regeneração de um recurso natural gera valor social, económico e ambiental em cadeia.

No caso do Parque de Yellowstone, foi a reintrodução do lobo, em 1995, que devolveu ao ecossistema a sua arquitetura invisível. Sem o predador de topo, os veados multiplicaram-se e devastaram a vegetação ribeirinha, provocando erosão, escassez de sombra e o recuo de várias espécies. O regresso do lobo, quase 70 anos depois da sua erradicação, corrigiu o desequilíbrio: as presas alteraram os seus padrões de movimentação, a vegetação recuperou e, com ela, voltou a diversidade. Um pequeno ato — o regresso de um animal — tornou-se catalisador de uma transformação sistémica.

Mais perto de nós, também se testemunham sinais promissores. Em zonas como a Serra Morena ou o Vale do Guadiana, a recuperação do lince-ibérico – outrora à beira da extinção – mostra que com políticas bem desenhadas, envolvimento local e persistência, é possível reverter trajetórias de colapso. O mesmo se aplica ao regresso tímido do lobo-ibérico a territórios onde fora erradicado, despertando novas formas de diálogo entre conservação e economia rural.

 

Cooperar é o novo verbo ecológico

Mas não basta agir sobre a natureza – é preciso agir com ela e entre nós. A ligação entre ecologia e sociedade é cada vez mais evidente, e muitos dos pontos de viragem positivos ocorrem precisamente quando comunidades se unem para gerir recursos comuns com base em confiança, tradição e inovação.

Na Índia, o caso de Bhikampura é paradigmático. Após décadas de degradação hídrica e abandono rural, bastou um grupo de jovens voluntários e a reparação de uma pequena represa (johad) para desencadear uma reação em cadeia. A água voltou, os campos tornaram-se férteis, os homens regressaram às aldeias e as mulheres deixaram de caminhar quilómetros em busca de água. Um sistema social e ecológico inteiro reergueu-se com base num gesto simbólico e cooperativo. Hoje, mais de 3.000 johadi foram restauradas na região.

 

Do local ao global – e vice-versa

Estes pontos de viragem positivos não são milagres nem coincidências. São fruto de decisões conscientes, baseadas no reconhecimento de que a natureza funciona por ciclos, retroalimentações e equilíbrios dinâmicos – e que, ao compreendê-los, podemos agir de forma mais inteligente e eficaz.

É neste cruzamento entre ciência, política e cultura que reside o verdadeiro potencial das soluções baseadas na natureza. São mais baratas, mais resilientes e mais alinhadas com a realidade dos territórios. Ajudam a sequestrar carbono, a proteger contra fenómenos extremos, a melhorar a saúde pública e a reforçar a segurança alimentar – tudo ao mesmo tempo. E são, acima de tudo, interdependentes.

A meta para 2030 – definida pelo Acordo de Kunming-Montreal – aponta para a restauração de 30% dos ecossistemas degradados e a conservação de 30% das áreas terrestres e marinhas. Mas, a meio da Década das Nações Unidas para a Restauração dos Ecossistemas, o progresso é demasiado lento. A mudança precisa de ganhar velocidade — e precisa de histórias que se multipliquem, como a do lobo de Yellowstone ou a água que renasceu em Rajasthan.

Porque a verdade é esta: quando damos à natureza espaço para respirar e às comunidades meios para cooperar, o mundo começa a mudar. E às vezes, basta um gesto pequeno, mas no momento certo, para virar o destino de um ecossistema inteiro. A esperança não está nas promessas distantes, mas nas viragens discretas que já estão a acontecer. O segredo está em reconhecê-las – e amplificá-las.

Este artigo parte de outro do World Economic Forum.

Arquivado em:Notícias, Responsabilidade Social, Sustentabilidade

Recibos de vencimento com raio-X mostram o que está (mesmo) por trás do ordenado

24 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

O que antes era um papel meio cinzento, com números que poucos decifravam e muitos ignoravam, ganha agora nova vida: o recibo de vencimento entra na era da transparência. A BRP (Business Roundtable Portugal), com a ajuda tecnológica da SAP, está a dar corpo a um novo modelo de recibo que promete explicar o que muitos portugueses ainda não sabem — quanto é que, afinal, custa o seu salário à empresa.

Desde 2024, esta versão ‘recibo 2.0’ já chegou a mais de 90 mil trabalhadores. Agora, com a integração plena no sistema SAP Human Capital Management, está pronto a escalar: mais de 120 empresas clientes da SAP poderão ativar a funcionalidade, chegando a um universo superior a 226 mil trabalhadores em Portugal.

Assim, o dinheiro que entra na conta continua igual, mas o recibo passa a mostrar, de forma clara, quanto é que a empresa paga além do bruto. Por exemplo, a contribuição patronal de 23,75% para a Segurança Social, até agora ausente dos recibos tradicionais, passa a estar bem visível.

 

A diferença entre o que se paga e o que se recebe

Além disso, o novo recibo torna explícito o chamado tax wedge — a diferença entre o custo total suportado pela empresa e o salário líquido que chega ao trabalhador. Uma forma de abrir os olhos para a carga fiscal que pesa sobre os rendimentos do trabalho e de pôr mais informação nas mãos de quem a merece: quem trabalha.

A solução é simples de adotar por quem já trabalha com SAP: basta instalar uma nota de consultoria e ativar a nova configuração. Um passo técnico para os RH, um salto pedagógico para todos os colaboradores.

Para Pedro Ginjeira do Nascimento, secretário-geral da BRP, «com o apoio da tecnologia, conseguimos ir além da simplificação administrativa. Promovemos uma mudança de cultura. Ao tornar visível o custo real do trabalho, contribuímos para um debate mais informado e para políticas públicas mais justas, que não penalizem os rendimentos nem travem a competitividade das empresas.»

Com esta iniciativa, a BRP pretende dar visibilidade a encargos fiscais e parafiscais que costumam passar despercebidos, mas que pesam — e muito — nas contas de empresas e trabalhadores. Num país onde o salário líquido muitas vezes não diz tudo, este recibo mais transparente quer lançar um desafio: mostrar o que está escondido e, quem sabe, dar início a uma conversa séria sobre a reforma fiscal que o país precisa.

Porque às vezes, para mudar o sistema, basta começar por mudar o papel.

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