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Marcelo Teixeira

Porque falham tantas apostas de inovação no topo das empresas?

22 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Há uma diferença abismal entre inovar e correr atrás do último grito tecnológico. A tentação de investir em ideias brilhantes mas desligadas da realidade tem custado caro a muitas empresas. Falhar na inovação não é por falta de ambição — é por falta de foco. Quando se investem milhares de milhões em tendências que não resolvem dores reais dos clientes ou entraves operacionais, o resultado é previsível: desilusão.

A história repete-se. A Meta afundou-se no metaverso, investindo fortunas num mundo virtual que quase ninguém pediu. A Apple, por sua vez, hesitou em integrar inteligência artificial, preferindo adaptá-la ao que já tinha — sem atacar nenhum problema de raiz. Em contraste, Amazon e JPMorgan escolheram um caminho mais sóbrio: aplicar a IA onde ela realmente faz falta, para desbloquear empecilhos críticos. O impacto não podia ser mais claro.

Esta análise parte de um artigo da Forbes.

O hype não é inovação

A aposta da Meta no metaverso será, muito provavelmente, lembrada como um dos maiores erros estratégicos da última década. Com mais de 17 mil milhões de dólares de prejuízo só em 2024, o investimento acumulado desde 2019 já ultrapassa os 68 mil milhões. Porquê? Porque a Meta preferiu entusiasmar-se com o potencial do hype em vez de escutar o mercado.

A Apple, por sua vez, falhou por excesso de prudência. Em vez de liderar com soluções transformadoras, limitou-se a inserir IA no ecossistema existente, sem responder a nenhuma necessidade clara. A consequência foi imediata: cortes nas projeções de vendas, perdas na bolsa e uma corrida atrás do prejuízo que se estenderá até 2026.

Nenhuma das duas empresas fez as perguntas que importam: Para quem é isto? Que problema estamos a resolver? A única pergunta que parece ter sido feita foi: qual é a tendência do momento e como nos encaixamos nela?

Este tipo de inovação movida a FOMO (medo de ficar de fora) é cara, ineficaz e, pior, cega-nos para as oportunidades óbvias que estão mesmo à frente dos olhos.

Estratégia com propósito

Amazon e JPMorgan provaram que a inovação mais eficaz é muitas vezes a menos vistosa. Em vez de seguir a moda, focaram-se em resolver obstáculos concretos com tecnologia aplicada de forma estratégica.

No caso da Amazon, o desafio estava nos armazéns. A solução? IA aplicada à eficiência logística — não em chatbots nem em compras em realidade virtual, mas em robôs que aumentam a produtividade nas linhas de distribuição. O Proteus, o primeiro robô autónomo da Amazon, já faz parte do quotidiano dos centros de logística, permitindo cortes de custos significativos e entregas mais rápidas.

Erika McClosky, responsável de operações técnicas na Amazon Robotics, explica: «O nosso novo centro em Shreveport, Louisiana, opera com dez vezes mais robótica avançada e IA. Esperamos melhorias de 25% na eficiência, entregas 25% mais rápidas e um aumento de 30% nos postos de trabalho qualificados.» Não é hype. É resolução de problemas concretos. E com isso, até 2030, a Amazon projeta uma poupança anual de 10 mil milhões de dólares.

JPMorgan seguiu um caminho semelhante, mas adaptado à banca. Em vez de se perder em modas como cripto ou fintechs reluzentes, concentrou os esforços da IA em áreas primordiais como detecção de fraude, compliance e trading. Os resultados? Redução de 95% em falsos positivos nos sistemas anti-branqueamento de capitais, ganhos de eficiência e decisões de investimento mais rápidas e precisas.

 

Oportunidades à vista de todos

Porque será que tantos líderes preferem seguir as luzes do palco em vez de se concentrarem nas falhas estruturais? Talvez porque ‘estar a par’ pareça mais glamoroso do que fazer o trabalho duro — aquele que, embora menos visível, muda realmente as coisas.

Existe portanto uma necessidade de alterar narrativa da inovação. O valor não está em ser o primeiro a surfar uma tendência. Está em ter a visão e a coragem de resolver o que realmente importa.

 

Por onde começar?

Se é CEO e quer fazer apostas corajosas mas calculadas, aqui ficam três ideias para reorientar a sua abordagem à inovação:

  1. Comece pelo problema. Qual é a maior dor do seu cliente ou da sua operação? Foque aí a energia. Muitas vezes, as soluções ‘aborrecidas’ escondem o maior valor por explorar.
  2. Aposte fundo, não largo. Evite pulverizar recursos para agradar a todas as modas. Faça como a Amazon: aposte estrategicamente onde pode haver impacto real.
  3. Meça o que importa. Avalie o sucesso com base no impacto: custos reduzidos, receita aumentada, eficiência ganha. Esqueça os likes do comunicado de imprensa.

Se a Apple tivesse parado para pensar onde é que o seu ecossistema realmente precisava de IA, estaria hoje a liderar essa conversa? Se a Meta tivesse redirecionado parte do orçamento do metaverso para melhorar a experiência dos utilizadores reais, precisaria agora de correr atrás da IA?

A lição é simples. A inovação não nasce do espetáculo, mas do compromisso sério com o impacto.

Arquivado em:Liderança, Notícias

NASA em Portugal: Atlântica volta a liderar missão espacial

22 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Barcarena vai voltar a ter o cosmos no centro da mesa. O NASA International Space Apps Challenge está de regresso, e a Atlântica – Instituto Universitário volta a ser anfitriã e ‘Local Leader’ deste evento espacial sobre o planeta. Em 2025, a chamada é clara: resolver problemas globais (e interplanetários) com soluções locais — e o ponto de partida é já a 4 e 5 de outubro.

Durante 48 horas, estudantes, programadores, engenheiros, cientistas, designers e criativos de todas as áreas vão poder mergulhar num desafio global com dados abertos da NASA, uma hacklathon de 48 horas, colaborando em equipa para encontrar respostas para questões reais ligadas ao espaço, à Terra e ao futuro da humanidade. O evento decorre de forma híbrida: presencialmente no campus da Fábrica da Pólvora de Barcarena, em Oeiras, ou à distância, para quem preferir participar online.

Antes da descolagem, há ainda paragem obrigatória: no dia 3 de outubro, a Atlântica promove a 2.ª edição das Jornadas Aeroespaciais, abertas ao público em geral, com oradores e temas a anunciar em breve.

Com uma oferta formativa sólida nas áreas de engenharia e computação — incluindo a primeira licenciatura em Engenharia Aeronáutica numa universidade privada portuguesa — a Atlântica quer envolver não só os seus alunos, mas toda a comunidade escolar, científica e empresarial. O objetivo? Puxar pelas ideias, fomentar o trabalho em equipa e mostrar que, com dados e criatividade, o espaço também é nosso.

«É uma oportunidade única para ver ideias e projetos a ganharem vida», afirma Patrícia Pinheiro, engenheira aeronáutica e responsável local pelo evento. «Cada contributo conta. Mesmo os pequenos. Porque é assim que se constrói um impacto positivo — no mundo e no universo.»

Em 2024, a edição lisboeta reuniu mais de 50 participantes divididos por 12 equipas, com apoio e mentoria de especialistas do setor espacial nacional. Este ano, as inscrições já estão abertas na página oficial da iniciativa — e o countdown já começou.

Arquivado em:Notícias, Tecnologia

O futuro da gestão de pessoas com IA

22 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

A Inteligência Artificial está a revolucionar a gestão de pessoas, trazendo mudanças significativas que prometem transformar a forma como gerimos e apoiamos as nossas equipas. À medida que a tecnologia avança, as ferramentas de IA tornam-se cada vez mais sofisticadas, por vezes até de forma assustadora. Estas ferramentas sugerem formas de tornar a gestão de pessoas mais eficiente e personalizada. Por exemplo, no recrutamento, as ferramentas de IA podem analisar currículos e perfis de candidatos com uma precisão impressionante, destacam candidatos que se alinham perfeitamente com as necessidades das empresas. Imaginemos uma empresa que utiliza um sistema de IA para filtrar milhares de candidaturas e identificar os candidatos ideais com base em competências específicas e experiências anteriores. Isto não só acelera o processo de contratação, como também assegura que os candidatos mais qualificados sejam os selecionados.

No entanto, há algo que me questiono: e as soft skills? Como é que a IA avalia a criatividade ou a empatia, que são fundamentais para a eficácia no trabalho, mas muito difíceis de medir?

É aqui que chego à conclusão que a IA é excelente nas análises de dados, nos objetivos e na identificação de competências técnicas, mas a avaliação das softs skills representa um grande desafio.

Muitos especialistas na área afirmam que algumas ferramentas e aplicações de IA já conseguem analisar a linguagem e os comportamentos em entrevistas e reuniões virtuais, incluindo a capacidade de interpretar o tom de voz e as expressões faciais. No entanto, é fundamental lembrar que nada substitui a avaliação humana.

Dar prioridade às pessoas significa reconhecer que, embora a IA possa disponibilizar informações úteis, o compromisso de estarmos juntos presencialmente continua a ser indispensável na gestão de pessoas. O equilíbrio entre a precisão tecnológica e a compreensão empática são essenciais para garantir que a gestão de pessoas deve ser não só eficiente, mas também humana e justa.

A combinação de inovação tecnológica com respeito pelas necessidades das nossas pessoas é a chave para um ambiente de trabalho único e exclusivo. No entanto, para que esses avanços sejam realmente benéficos, os responsáveis devem integrar a IA de forma a complementar, e não substituir o contacto humano.

O papel de quem gere carreiras e bem-estar é muitas vezes desafiador, mas muito reconfortante. Somos o ponto de contacto constante para as equipas de consultores, sempre disponíveis para responder a perguntas, esclarecer dúvidas e apoiar o desenvolvimento e carreira de cada consultor. No entanto, este contacto constante traz consigo um conjunto gigante de tarefas, responsabilidades, muitas delas repetitivas, como responder às mesmas perguntas sobre processos internos, benefícios, ou mesmo gerir informações básicas.

É aqui que a IA pode fazer a diferença. Por exemplo, um assistente virtual capaz de responder rapidamente às perguntas mais frequentes, como detalhes sobre férias, processos administrativos ou informações sobre benefícios.

O impacto que esta ferramenta tem vai muito além da sua eficiência. Esta solução permite que quem gere carreiras e bem-estar ganhe tempo para se concentrar noutros temas de enorme relevância como a cumplicidade e relação com o seu consultor. E criar esta relação vai muito mais além do que ter em agenda reuniões marcadas. Passa por criar uma ligação mais forte com as equipas, apoiar o desenvolvimento individual e estratégico, e resolver questões que obrigam a uma sensibilidade mais humana e empática que os chatbots não têm.

A verdadeira e distinta gestão de pessoas pede empatia, sensibilidade e a capacidade de compreender particularidades que um algoritmo dificilmente capta. Ferramentas como chatbots são complementares e devem ser integradas de forma estratégica.

Ao refletir sobre o futuro da nossa profissão, vejo a IA como uma ferramenta poderosa que nos ajuda a focar nas pessoas. O equilíbrio entre tecnologia e contacto humano será fundamental para criarmos ambientes de trabalho mais dinâmicos, eficientes e, acima de tudo, humanos.

Arquivado em:Opinião

Xadrez e Liderança: antecipar com a cabeça e agir com o coração

21 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

I. O xadrez como mapa de liderança

Num mundo dominado por estímulos imediatos, onde a liderança muitas vezes se confunde com carisma ou presença digital, o xadrez propõe outra coisa: paciência, profundidade e visão estratégica.

É fácil comandar quando se grita. Difícil é liderar quando se ouve. Difícil é antecipar, calcular riscos, sacrificar hoje para ganhar depois de amanhã. No xadrez, como na liderança verdadeira, nem sempre quem avança ganha. Nem sempre quem manda sabe porquê. E, talvez o mais importante: nenhuma peça vale por si só. Sem os peões, o rei vai nu.

Empresas, escolas e até clínicas de reabilitação usam hoje o xadrez como ferramenta de treino cognitivo e emocional. Ensina-se a reconhecer padrões, a prever reações, a compreender o que está do lado de lá do tabuleiro — como pensa o outro? Por onde vai atacar? E, no fim, mesmo depois de perder, há que estender a mão, aceitar, refletir.

O jogo ensina algo cada vez mais raro: humildade.

Ontem foi Dia Mundial do Xadrez.

II. A longa viagem das 64 casas

O xadrez não nasceu nobre. Veio da Índia, no século VI, como chaturanga, reflexo das estruturas militares do império Gupta: infantaria, cavalaria, elefantes e carros de guerra. Migrou para a Pérsia, onde passou a chamar-se shatranj e ganhou o ritual da contemplação — dizia-se que um bom jogador podia ver sete jogadas à frente, mesmo sem tocar nas peças.

Com as conquistas islâmicas, o jogo viajou para o Norte de África, depois para a Península Ibérica e dali para o resto da Europa. No século XV, em Itália e Espanha, o jogo transforma-se: surgem novas regras, o movimento da rainha expande-se, a torre aprende a rocar. A dama passa de figura passiva a peça mais poderosa do jogo. Mudança simbólica, num tempo em que o poder feminino começava, timidamente, a romper muralhas.

No século XIX, com a Revolução Industrial e a imprensa popular, o xadrez torna-se fenómeno de massas. Em 1924, nasce a FIDE (Federação Internacional de Xadrez). Surge a figura do Grande Mestre e o xadrez transforma-se num campo de batalha geopolítico. Mais do que jogo — instrumento de soft power.

III. Heróis, génios e adversários invisíveis

Paul Morphy, nascido em Nova Orleães, foi o primeiro génio global do xadrez. Aos 12 anos derrotava adultos. A sua carreira foi curta e brilhante — e a sua mente, frágil. Bobby Fischer, obsessivo e genial, levou o xadrez para a frente das câmaras durante a Guerra Fria. Em 1972, ao vencer o soviético Spassky, tornou-se símbolo da supremacia americana… e também do preço da genialidade. Morreu isolado, num quarto sem espelhos.

Nos anos 80 e 90, Garry Kasparov reinou como o maior. A sua mente era uma máquina — até perder contra uma verdadeira: o Deep Blue da IBM, em 1997. A derrota não foi apenas dele. Foi de todos nós. A partir daí, as máquinas passaram a pensar melhor. Mais rápido. Sem hesitação.

Hoje, Magnus Carlsen representa a nova geração. Mistura talento inato, treino digital e uma elegância quase felina nas jogadas. Joga rápido, com confiança brutal, mas não é arrogante. É humano. E sabe que um dia — talvez já amanhã — será ultrapassado por um algoritmo que joga sem sono nem medo.

O ano passado, o prodígio indiano Gukesh, com apenas 18 anos, tornou-se o mais jovem campeão mundial. O seu estilo calmo e letal lembra-nos que o xadrez moderno já não pertence apenas à Europa — pertence ao mundo.

IV. Rainhas no meio da batalha

Durante séculos, o xadrez feminino foi ignorado, marginalizado ou tratado com condescendência. As mulheres eram «boas para o xadrez de salão», diziam os manuais do século XIX. Judit Polgár destruiu esse preconceito com oito anos. A sua família húngara decidiu que ela, como as irmãs, seria criada como génio — não como menina.

Recusou jogar em torneios exclusivamente femininos e enfrentou, com sucesso, os maiores nomes do mundo: Kasparov, Karpov, Anand. Entrou no top 10 mundial — feito único entre mulheres. Nunca quis ser a melhor jogadora. Quis ser, pura e simplesmente, a melhor.

Hoje, nomes como Hou Yifan, Koneru Humpy, Anna Muzychuk ou Pia Cramling seguem o caminho aberto por Judit. Mas ainda há muito a fazer. Em 2024, menos de 3% dos Grandes Mestres eram mulheres. A disparidade começa cedo: menos acesso, menos incentivo, menos visibilidade.

O tabuleiro pode ser neutro. Mas o mundo que o rodeia, não.

V. O jogo em si: abertura, meio-jogo e final

Jogar xadrez é escrever um poema em silêncio. Cada abertura tem uma história: a Ruy López é clássica, ocupando o centro com elegância. A Siciliana é agressiva, ideal para quem quer desequilibrar cedo. O Gambito da Rainha oferece uma peça por iniciativa. Já a Defesa Francesa aposta na contra-ataque paciente. Como num romance, cada jogador tem o seu estilo — e o seu carácter.

O meio-jogo é um campo de tensão. Avaliam-se trocas, ameaças, potenciais. É aqui que se perdem os nervos. Ou se ganham partidas. E o final… o final é outra arte. A precisão torna-se tudo. Saber quando avançar um peão, quando sacrificar a torre, quando aceitar o empate.

Há uma beleza moral no xadrez: o erro é irreversível, mas raramente fatal. Aprende-se que recuar pode ser nobre. Que o sacrifício é muitas vezes o único caminho para a vitória. Que nem sempre vale a pena ganhar, se isso significa trair o plano. E que, acima de tudo, há sempre uma próxima partida. Um novo começo. Uma nova hipótese de fazer melhor.

VI. Entre humanos e máquinas: o novo tabuleiro digital

Desde a derrota de Kasparov, o xadrez nunca mais foi o mesmo. Hoje, qualquer adolescente com um smartphone pode jogar contra motores como Stockfish ou LeelaZero, aprender variantes em vídeos de YouTube e desafiar desconhecidos de todo o mundo. O jogo democratizou-se. Popularizou-se. E, surpreendentemente, resistiu.

Jogadores como Hikaru Nakamura tornaram-se celebridades no Twitch. A série The Queen’s Gambit pôs milhões a pesquisar aberturas. E o TikTok está cheio de finais espetaculares comentados com entusiasmo pop.

Mas há quem se preocupe: será que estamos a deixar de pensar? A copiar jogadas de máquinas? A jogar sem emoção? Talvez. Mas o xadrez sempre foi mutante. E se sobreviveu a imperadores, padres, censuras e algoritmos, sobreviverá a esta era também.

VII. O que ainda nos ensina o xadrez?

No fim, talvez o mais importante não seja ganhar. Mas pensar. Refletir. Voltar atrás e perceber onde errámos. O xadrez é mais do que um jogo. É uma metáfora completa para o mundo: liderança, sacrifício, visão, paciência, humildade.

Num tempo em que tudo é ruído e pressa, o xadrez obriga ao silêncio. A parar. A ver. A considerar o outro. Ensina que um peão pode chegar ao fim e tornar-se dama. E que o rei, mesmo protegido, está sempre vulnerável. Como nós.

A respeito do Dia Mundial do Xadrez, talvez devêssemos todos abrir um tabuleiro — real ou digital — e mover a primeira peça. Não para ganhar. Mas para lembrar que, enquanto houver jogo, há pensamento. E enquanto houver pensamento, há esperança.

Arquivado em:Liderança, Notícias

Aproveite estes cursos gratuitos em marketing digital e IA disponíveis até dezembro

21 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

Com o mercado de trabalho cada vez mais competitivo, a aposta em áreas como o SEO, a criação de conteúdos com inteligência artificial ou a gestão de campanhas digitais é vista como essencial para quem procura progredir na carreira, mudar de área ou lançar projetos próprios. A época do verão pode ser uma oportunidade para atualizar conhecimentos, com calma e tempo livre.

A Escola Marketing Digital está a disponibilizar vários cursos intensivos nas áreas do marketing digital e da inteligência artificial, financiados a 100% pelo programa Cheque Formação + Digital. Este apoio estatal, que termina em dezembro de 2025, permite que profissionais adquiram novas competências sem qualquer custo.

Cursos de verão: o que está disponível

SEO Bootcamp com Marco Gouveia

  • Data: 26 de julho (Lisboa)

  • Formato: Presencial | 100% reembolsável
    Com os custos de publicidade online a aumentar, o tráfego orgânico ganha relevância. Este curso prático aborda técnicas de otimização para motores de busca e é ministrado por Marco Gouveia, consultor com mais de 20 anos de experiência e formador certificado pela Google.

Workshop “ChatGPT e outras plataformas de IA”

  • Data: 6 de agosto (Online)

  • Formato: Online | 100% reembolsável
    Focado em aplicações práticas da IA, este workshop ensina a utilizar ferramentas como o ChatGPT, Gemini ou DALL·E na criação de conteúdos e automação de tarefas. Destina-se tanto a iniciantes como a utilizadores mais avançados.

Workshop de Introdução à Inteligência Artificial

  • Data: 8 de setembro (Online)

  • Formato: Online | 100% reembolsável
    Ideal para quem quer compreender os fundamentos da IA e o seu impacto nos negócios. O curso não exige conhecimentos técnicos e apresenta aplicações práticas adaptadas a várias áreas profissionais.

Curso Intensivo de Marketing Digital

  • Data: 7 de outubro a 27 de novembro

  • Duração: 82 horas | Pós-laboral | Online

  • Financiamento: 75% reembolsável
    Formação abrangente que inclui redes sociais, Meta Ads, Google Ads, SEO, email marketing, e-commerce, automação e analytics. Direcionado a quem procura uma formação completa com impacto imediato na atividade profissional.

Apoio até 750€ termina em dezembro

Todos os cursos acima são certificados e elegíveis para reembolso até 750€ através do programa Cheque Formação + Digital, destinado à requalificação profissional. O apoio termina oficialmente em dezembro de 2025.

Sobre a Escola Marketing Digital

A Escola Marketing Digital é uma entidade especializada em formação certificada nas áreas do marketing digital e da transformação digital. Com uma abordagem prática e formadores no ativo, já formou mais de 5.000 profissionais e 79 empresas.

Saiba aqui todas as informações e aceda às inscrições.

Arquivado em:Educação, Marketing, Notícias

«É na experiência que se encontra um contraponto à angústia», diz Gilles Lipovetsky

18 Julho, 2025 by Marcelo Teixeira

No palco da Casa das Histórias Paula Rego, Gilles Lipovetsky iniciou com uma provocação quase silenciosa: «o medo não é novo — mas o modo como hoje o habitamos, sim.» No festival de filosofia Espanto, que decorreu entre 19 e 22 de junho, em Cascais, o pensador francês não tratou a filosofia como se a pudesse transcrever num manual, mas como quem a reencontra no quotidiano. Para ele, o medo nunca foi acidental; é uma presença estrutural, uma «condição primária» da existência humana, sempre ligado à consciência da morte, à nossa finitude e ao invisível.

Durante milénios, civilizações inteiras viveram sob um céu carregado, mas, apesar dos terrores da peste, dos deuses, dos sortilégios e do inferno, existia uma ordem. As comunidades pré-modernas enfrentavam os seus medos num mundo fechado e simbólico, onde o temor estava inscrito numa paisagem identitária — religiosa, mágica, sólida. «Havia desgraça, mas também sentido».

Essa matriz rompeu-se. Lipovetsky propôs uma distinção clara entre o medo nas sociedades antigas e o que hoje molda as nossas vidas. Se antes o medo era grande, porém circunscrito — limitado a guerras, doenças e colheitas —, hoje ele se torna difuso, omnipresente, quase atmosférico. Vivemos num tempo em que «tudo faz medo, sem exceção», desde a escala planetária até à microscópica. Esta é a marca maior da hipermodernidade: uma era onde a insegurança deixou de ser episódica para se instalar de forma estrutural, quotidiana, insidiosa.

Os gatilhos do medo contemporâneo

O clima e a tecnologia

Começou pelo mais visível: o clima. O aquecimento global, a subida das águas, a perda acelerada de biodiversidade e os fenómenos meteorológicos extremos demonstram que a natureza deixou de ser nossa aliada — tornou-se instável e potencialmente catastrófica. Depois, Lipovetsky apontou para o abismo tecnológico: inteligência artificial, robótica e organismos geneticamente modificados avançam a um «ritmo descontrolado, demasiado rápido para ser regulado e demasiado potente para ser ignorado».

 

Retorno dos horrores e medos identitários

Como se isso não bastasse, os horrores da guerra regressaram à Europa, com trincheiras reabrindo-se em solo antes habituado à paz. Para uma geração que cresceu a ouvir falar de paz como evidência, esse retorno é mais que simbólico: é um golpe. Ao mesmo tempo, o medo identitário — alimentado pelas migrações — transforma-se num capital político. O crescimento da extrema-direita, inclusive em países como Portugal e Espanha, é a consequência concreta dessa ansiedade difusa. Mesmo após experiências traumáticas de ditaduras, a história, como dizia Mark Twain, «não se repete, mas rima»— e o medo volta, disfarçado de modernidade. Lipovetsky identificou na Europa contemporânea o ressurgir de um velho fantasma: o medo do estrangeiro e a fantasia da «grande substituição», onde os «outros» parecem ameaçar a cultura identitária.

 

Aceleramento e o bombardeamento informativo

Ao contrário do que Freud suspeitava ou do que Nietzsche declarou, Lipovetsky recusa que o medo contemporâneo tenha origem na morte de Deus. Para ele, «o medo de hoje brota da velocidade terrena, da aceleração tecnológica, da incessante inovação e do culto à novidade». Durante séculos, o novo associou-se ao prazer; Freud lembrava que a novidade excita e move o desejo. Contudo, hoje o novo causa também vertigem: a inteligência artificial, com a sua opacidade e ubiquidade, deixa-nos sem tempo para nos adaptarmos, transformando a mudança numa ameaça em vez de promessa.

Além disso, o bombardeamento informativo constitui um segundo motor da ansiedade. Onde antes o pânico ficava confinado à aldeia, à paróquia ou ao bairro, agora, em minutos, somos informados de tudo — muitas vezes antes mesmo dos envolvidos. Esse fluxo permanente e violento de notícias, mesmo sem recorrer a fake news, resulta num excesso tóxico que acaba por transformar a informação num pânico fabricado.

 

Medicalização e o culto ao conforto

O terceiro pilar desta nova ordem do medo é a medicalização da vida. Hoje, tudo é patologizável. Uma criança inquieta, um adulto apático ou uma insónia recorrente tornam-se motivos para consulta, exame e diagnóstico. Antigamente, as crianças traquinas eram toleradas; agora, são sujeitos clínicos em acompanhamento constante. A relação entre pais e filhos foi psicologizada até à exaustão: cada birra é interpretada, cada silêncio é um sintoma. «A saúde preventiva transformou-se numa ansiedade antecipatória, que consome vidas que, porventura, ainda não adoeceram.»

Por fim, o culto do conforto e da felicidade, ou do ‘risco zero’, é o quarto ponto fundamental. A sociedade moderna tornou-se alérgica à menor dor. Ao contrário das sociedades religiosas, onde a vida era uma antecâmara do além, hoje tudo se joga no efémero aqui e agora, numa busca incessante pela felicidade suprema. Assim, a mínima perturbação é vista como uma catástrofe, e a utopia do bem-estar total gera os seus próprios demónios.

Tudo isto, sintetiza Lipovetsky, compõe o paradigma da insegurança generalizada. «Temos demasiadas opções, demasiada informação, demasiados diagnósticos e exigências de felicidade que nos transformam em criaturas ansiosas». O medo, hoje, não é apenas uma patologia — é o clima.

 

Filosofia e a busca de sentido

Lipovetsky questiona que resposta pode dar a filosofia ao turbilhão contemporâneo. Recorrendo aos antigos — aos estoicos, epicuristas e cínicos — há quem proclame, com entusiasmo, que «Platão é melhor que o Prozac.» Contudo, o filósofo recusa essa solução como suficiente: a filosofia ajuda a pensar, sim, mas não nos liberta do medo, que é algo que não se dissolve apenas com raciocínios. «O medo está para além da razão; é somático, inconsciente, ancestral». Freud já percebeu que o inconsciente sabota o pensamento lúcido. Saber não basta quando se trata de enfrentar o que nos atemoriza.

Experiência e políticas de redução das feridas

Lipovetsky defende que, para além da razão, «é na experiência que se encontra um contraponto à angústia». Cada vez mais, as pessoas procuram refúgios fora do domínio do logos: meditação, yoga, caminhadas em silêncio, leituras, rituais — práticas que não visam fugir, mas habitar melhor o tempo, o corpo, a memória e a presença. A experiência transforma-nos de forma que a razão, por si só, se mostra frágil.

Segundo ele, «não há salvação absoluta». Nem a religião, que exige fé e não se fabrica; nem a promessa enigmática de Heidegger, pois «só um deus nos pode salvar» permanece como uma suspeita sem mapa. «De onde sai esse Deus?». A solução, para Lipovetsky, é pragmática: é preciso inovar, dirigir a técnica com responsabilidade, investir em novas tecnologias e redes de proteção, sem, contudo, abandonar a dimensão existencial do ser humano.

Reconhece-se que o medo íntimo — o medo que não se vê — não se trata com políticas públicas. Ainda assim, algumas medidas podem reduzir os danos: políticas de redução das feridas, tanto a nível dos Estados soberanos quanto na escala das individualidades, podem, se não curar, pelo menos mitigar os efeitos da insegurança que nos perpassa.

Conclusão

Gilles Lipovetsky conclui que o medo não se derrota com ideias, mas talvez com outras formas de habitar o tempo. Num mundo de progresso tecnológico vertiginoso e de constantes bombardeamentos informativos, a única esperança pode residir na experiência — naquilo que nos transforma de maneira visceral e, por vezes, inexplicável. As feridas não desaparecerão, mas podem deixar de sangrar. E essa diminuição da dor, esse intervalo, pode ser o que nos permita, por fim, viver de forma menos ansiosa e mais consciente.

 

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Educação, Notícias

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