Do desporto aos perigos das redes sociais, passando pela saúde mental, pela gestão do dinheiro e pelos desafios de crescer num mundo cada vez mais digital, o encontro procurou aproximar experiências reais de quem já trilhou caminhos de exigência e superação. Ao longo de várias conversas e intervenções, atletas, especialistas e líderes partilharam percursos, conselhos e alertas para um público jovem que ouviu, questionou e participou ativamente.
Com casa cheia e uma plateia onde a média de idades não ultrapassava os 16 anos, a iniciativa mostrou que o debate sobre o futuro não é apenas uma conversa entre adultos: começa cada vez mais cedo e com cada vez mais perguntas.
As boas-vindas foram dadas por Filipe Vaz, CEO da Tema Central, e por Nuno Piteira Lopes, presidente da Câmara Municipal de Cascais. Centenas de jovens de agrupamentos escolares do concelho ouviram com atenção as primeiras intervenções.
Piteira Lopes alertou para a «semente do ódio» que muitas vezes é perpetuada nas redes sociais e defendeu que estes espaços digitais «devem ser um encontro de amizade». O autarca pediu ainda cautela «pela saúde mental» dos jovens e sublinhou a importância de estar atento aos sinais de quem está à nossa volta.
Antes do primeiro momento mais sério do programa, foi lançado um desafio à plateia. Quem respondesse mais rapidamente a um questionário sobre Cascais ganharia vários prémios. A condução do evento esteve a cargo de Catarina Silva, locutora da Cidade FM, que assumiu o papel de host.
«O sucesso leva tempo e trabalho»
Depois do momento lúdico, arrancou o primeiro painel, «Viver o Desporto: Sonho, Suor e Futuro», com Tomás Appleton, capitão da Seleção Nacional de Râguebi, e Duba Barradas, campeão mundial e europeu de muay thai e fundador do Cascais Fight Center. A conversa foi moderada por Leonor Wicke, coordenadora editorial da revista Líder.
Tomás Appleton confessou que nunca teve grandes expectativas em relação à carreira, mas que «a vida fluiu». Hoje, diz, não consegue imaginar os seus dias sem râguebi. Para o atleta, os valores e os princípios fazem parte do ADN da modalidade. Além de jogador, é médico dentista, mas acredita que a resiliência que o define nasceu precisamente no desporto que pratica desde pequeno.

Já Duba Barradas recordou o percurso no Bairro da Cruz Vermelha, onde cresceu, e como acabou por descobrir nos desportos de combate a sua vocação. «Foi no desporto de combate que me encontrei e que comecei a tirar o melhor de mim», afirmou. Mas acrescenta que o caminho não se fez sozinho: «As pessoas que tenho à volta ajudam-me imenso». O apoio de quem acreditou nele permitiu-lhe «desbravar caminho» até se tornar campeão mundial.
Para chegar longe, Appleton acredita que o talento é importante, mas tem uma visão particular sobre o sucesso. «Não é só a vitória. É estar todos os dias às seis da manhã no Jamor para treinar». Já Duba destaca a «consistência» como ingrediente essencial para atingir o topo.
Sobre oportunidades no desporto, Appleton considera que o caminho está a ser feito e que «a sociedade está a perceber cada vez melhor a importância do desporto no crescimento de todos». Ainda assim, questiona se Portugal está preparado para um nível crescente de profissionalização.
No que toca às novas gerações, Duba acredita que os jovens têm hoje «muita informação». Appleton concorda que os novos jogadores surgem com melhor preparação física, mas aponta um risco: as redes sociais podem diluir a compreensão de que «o sucesso leva tempo e trabalho».

Para descontrair o ambiente, dois alunos de Duba, Pedro e Francisca, fizeram uma breve demonstração de muay thai. Regressando à conversa, Duba sublinhou que «quando se passa por desilusões desportivas em tenra idade, aprende-se a lidar melhor com os falhanços quando se é adulto». Já o capitão dos Lobos destacou o papel fundamental dos pais no seu percurso e recordou que muitos colegas «abdicaram do talento para seguir outros caminhos».
Nos conselhos finais, Duba destacou a importância da persistência e de dar valor à atividade que se pratica. Appleton aconselhou os jovens a «definir objetivos desde cedo» e deixou uma reflexão: para ter «um terço de dias bons é preciso dois terços de dias médios e maus».
No final do painel, Appleton ensinou Duba Barradas e Leonor Wicke a lançar uma bola de râguebi. A bola, autografada pelo jogador, acabou por voar para as mãos mais rápidas da plateia.

Seguiu-se a flash talk O teu dinheiro, o teu futuro. Uma conversa que pode mudar tudo, com Nuno José Oliveira, diretor de desenvolvimento de produtos de recursos e seguros do Bankinter.
Logo no início, deixou uma ideia clara: o dinheiro importa porque «dá liberdade de escolha» e pequenas decisões tomadas hoje podem ter impacto no futuro. Depois lançou um desafio à plateia: «Se tivessem mil euros, o que fariam? Gastavam tudo ou investiam?» A maioria escolheu investir, embora alguns admitissem gastar quase tudo.
Entre os erros mais comuns, apontou gastar todo o dinheiro ou cair no FOMO — a necessidade de ter sempre o último gadget ou produto da moda. Outro erro frequente é simplesmente não investir.

Para gerir melhor o dinheiro, explicou, é preciso equilíbrio. «Cerca de 70% deve ir para necessidades e 30% para desejos», recomendou, sublinhando que parte desse valor deve ser poupado. As três regras fundamentais são simples: gastar com responsabilidade, poupar e investir. «Ponham o dinheiro a trabalhar para vocês. Não deixem o dinheiro debaixo do colchão. O segredo? Os juros compostos.»
Existem também ferramentas que podem ajudar nesta gestão, desde orçamentos pessoais a planos e produtos de investimento. «Procurem informar-se», aconselhou.
«Há vida para além do ecrã»
A primeira parte do programa terminou com o debate «Entre o feed e a vida real: ser visto, seguido e estar protegido», com João Francisco Lima, fundador da MindMatch, Inês Marinho, fundadora da associação Não Partilhes, e Tito de Morais, fundador do MiudosSegurosNa.Net e cofundador do Agarrados à Net. A moderação voltou a estar a cargo de Catarina Silva.

Tito de Morais defendeu que os pais devem expor menos os filhos nas redes sociais e sublinhou a importância do acompanhamento desde cedo no uso da internet. Para o especialista, a educação para a cidadania digital deve começar cedo e evoluir à medida que os jovens ganham autonomia.
Inês Marinho lembrou que partilhar faz parte da natureza humana e que as redes sociais são apenas mais um espaço onde essa intimidade se manifesta. No entanto, alertou para os riscos quando conteúdos íntimos são divulgados sem consentimento. Muitas vítimas acabam por mudar de escola ou de cidade, ou até deixar de falar sobre o que aconteceu. Nesses casos, aconselha a procurar ajuda de um adulto e denunciar às autoridades.

Também destacou a importância de reconhecer sinais de alerta: jovens que deixam de aparecer, que se isolam ou que começam a publicar conteúdos mais depressivos ou violentos. «Às vezes basta perguntar: está tudo bem?», disse.
Sobre como recuperar o controlo do tempo nas redes sociais, Tito de Morais sugeriu começar por medir o tempo de utilização do telemóvel e definir metas progressivas de redução. «Há vida para além do ecrã», lembrou.
João Francisco Lima acrescentou que é importante perceber porque se quer reduzir o tempo online e substituir esse hábito por outras atividades que tragam energia e significado.
Já Inês Marinho reforçou a mesma ideia: procurar atividades fora do telemóvel que tragam felicidade e equilíbrio.
«Comparison is the killer of joy»
O tema da presença online e redes sociais foi constante ao longo do evento. A conversa O ChatGPT não é um psicólogo contou com Francisco Soares, Cofundador da Ivory Therapy, e João Nuno Faria, Psicólogo Coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online no PIN.
O psicólogo começou por fazer uma comparação improvável: terapia através do ChatGPT e móveis do IKEA. O modelo de linguagem de IA vai entregar uma terapia igual para todos, sem adaptação ou personalização. «Uma terapia ChatGPT é uma terapia one size fits all», concluiu.
Francisco partilhou o que o levou a criar a Ivory Therapy, o facto de ter passado por um período difícil relativamente à sua saúde mental e que cunhou todo o propósito da marca. «As redes sociais contribuem para uma comparação constante. Comparison is the killer of joy», lembrou à jovem audiência.
João Nuno Faria garantiu: «As pessoas com mais problemas de saúde mental são as que passam mais tempo nas redes sociais, para se proteger do que estão a sentir».
Seguiu-se a flash talk Lideras a tua vida ou estás em piloto automático?, protagonizada por Mariana Teixeira, do Global Shapers WEF – Hub de Lisboa. A jovem trouxe uma reflexão sobre a constante pressão para medir a produtividade de todos os aspetos da nossa vida.
«Crescemos numa sociedade que diz que é mais importante sermos produtivos e eficientes antes de sermos humanos. Vivemos num mundo em que tudo se mede: sono, calorias, passos», referiu.
Como tal, reforçou que a solução não passa por encontrar um equilíbrio perfeito. «O líder do futuro não é o que vai mais longe e mais alto, é o que é mais humano e vai com propósito!»
Diógenes é chill? A Filosofia Antiga chegou à Geração Z
A talk Bora pensar: lições de liderança da filosofia antiga, com David Erlich, Professor do Ensino Secundário, Mestre em Filosofia e em Ensino de Filosofia.
O Professor utilizou conceitos e temáticas da Geração Z para fazer uma analogia com a Filosofia Antiga. Tales de Mileto – farming de aura, Sócrates – no cap, Diógenes – chill, as lições antigas atravessaram gerações e adaptaram-se aos dias de hoje.
À jovem audiência, deixou três desafios: «Encontrar um sentido, propósito, sobre o que estamos a fazer, não esquecer a importância de perguntar e parar para pensar e conversar com um amigo.»
O último debate do dia foi A guerra já não é longe, que levou a palco Carlos Manuel Mendes Dias, Coronel do Exército, e Vânia Guerreiro, Comandante do Corpo de Alunos da Escola Naval. Com moderação de Marcelo Teixeira, Jornalista da Líder.
O Coronel começou por relembrar que, apesar de parecer que as guerras no mundo se intensificaram nos últimos anos, estes conflitos fazem parte da História. «Nem na missa desejamos a nossa paz. A paz dos homens é passageira e circunstancial, ela não é eterna», explicou.
Relembrou que «a guerra tem componentes militares e não militares» e que a tecnologia tem mudado muitos setores. «Não queremos morrer na guerra, mandamos robots e drones que morram por nós».
A Comandante Vânia Guerreiro lida diariamente com futuros soldados e garante que os modelos de formação dos oficiais ainda «são do passado». Explicou que as próprias organizações têm de se agarrar à evolução tecnológica e reestruturar as suas abordagens. O seu conselho para quem quer seguir esta profissão é perentório: «Ter coragem para superar as adversidades; quem vem para esta vida tem de vir por convicção.»
Carlos Manuel Mendes Dias acrescentou: «Não se limitem a gerir, construam a sociedade do futuro. A estatística não é vencer, é conhecimento».
A programação terminou com o desafio Next Voice: Geração depois do amanhã, que levou a palco os pitches de cinco jovens sobre o tema Fake News e Democracia. A audiência escolheu a vencedora, Lady Mello, aluna do 10º ano da Escola Secundária Fernando Lopes Graça.
Pedro Morais Soares, Vereador da Câmara Municipal de Cascais, encerrou o evento, lembrando que os jovens do concelho são o futuro e têm muito para trazer.
Tenha acesso à galeria de imagens do evento aqui.
Todos os momentos da Leadership Next Gen estão disponíveis na Líder TV e no canal 560 da NOS.



