O estudo, que recolheu 330 respostas válidas entre executivos de empresas com operação nacional e internacional, mostra uma perceção clara de que a competição geopolítica está a intensificar-se — e que os seus efeitos já não são abstratos.
A ameaça híbrida no topo das inquietações
Os ciberataques de grande escala, enquadrados numa lógica de ameaça híbrida com possível patrocínio estatal, surgem como o principal risco identificado tanto a um como a três anos. Cerca de 63% dos inquiridos classificam-nos como risco elevado.
O barómetro aponta para um cruzamento entre riscos ‘ciber’ de natureza criminosa e riscos estritamente geopolíticos, num contexto em que infraestruturas críticas e grandes empresas se tornam alvos estratégicos.
Também os conflitos intraeuropeus reforçam a preocupação das organizações. Seja na sua dimensão militar direta, seja através de formas híbridas de ataque, o risco é considerado elevado por 63% das empresas no curto prazo e por 53% no médio e longo prazo.
O fantasma de 2007 ainda pesa
A possibilidade de uma nova crise financeira continua a marcar o imaginário empresarial. Para 58% dos inquiridos, trata-se de um risco elevado.
Jorge Rodrigues, co-coordenador do Observatório do Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, sublinha que esta perceção remete para um «terreno familiar», recordando a crise de 2007 como referência negativa ainda presente. A instabilidade geopolítica poderá, segundo o responsável, gerar perda de confiança nos mercados, choques económicos e constrangimentos ao investimento e ao crédito.
Cadeias de abastecimento sob pressão
A eventual disrupção das cadeias de abastecimento sobe ao terceiro lugar das principais preocupações, sendo apontada como risco elevado por 55% dos inquiridos. Entre empresas importadoras e exportadoras, a perceção agrava-se: 72% identificam este fator como uma ameaça crítica.
O estudo associa esta preocupação à crescente tensão no comércio internacional e à atuação da nova administração norte-americana. Ainda assim, os conflitos comerciais entre EUA, China e União Europeia descem para o quinto lugar do ranking, tanto a curto como a médio prazo.
Segundo Jorge Rodrigues, a adaptação das empresas ao chamado «efeito Trump» e a perceção de que algumas ameaças comerciais acabam por ser mitigadas através de negociação podem explicar esta descida. O responsável deixa, contudo, uma interrogação quanto à evolução futura de dossiers mais complexos, como o programa nuclear iraniano ou a questão de Taiwan.
Riscos subavaliados?
De forma surpreendente, a negação de acesso à tecnologia surge apenas na sexta e oitava posições (a três e um ano, respetivamente), apesar do contexto de forte competição geoeconómica global, nomeadamente entre China e Estados Unidos. O impacto poderá variar consoante o setor de atividade, mas é considerado um risco estrutural relevante.
Também a desinformação associada à inteligência artificial aparece apenas na nona posição, sinalizando que o tecido empresarial pode ainda não estar plenamente consciente do potencial disruptivo deste fenómeno.
Outras preocupações mencionadas incluem riscos nucleares, biológicos e químicos, radicalização política e migrações.
Setores mais expostos
O impacto da instabilidade geopolítica não é homogéneo. Empresas da indústria transformadora apontam a disrupção das cadeias de abastecimento como principal risco, seguida de ciberataques e conflitos na Europa. Já no setor financeiro e segurador, as questões energéticas assumem particular relevância.
Curiosamente, nas organizações com investimento direto no estrangeiro, a disrupção logística não figura entre os três principais riscos a três anos, contrariando a tendência geral.
«A instabilidade geopolítica traduz-se numa elevada incerteza no comércio internacional, sendo naturalmente sentida com maior intensidade pelas organizações com maior exposição aos mercados externos», afirma Jorge Rodrigues.
Parcerias e I&D como escudo estratégico
Perante este cenário, as empresas procuram reforçar mecanismos de mitigação. As parcerias estratégicas são apontadas como principal ferramenta (44%), seguidas de tratados multilaterais (42%), investimento em investigação e desenvolvimento (40%) e reforço da preparação geopolítica interna (37%).
Segundo o responsável da Porto Business School, esta tendência revela que o setor empresarial pretende reforçar competências próprias e não depender exclusivamente do Estado para enfrentar riscos geopolíticos. O apoio estatal não surge como prioridade, embora exista confiança na importância de tratados internacionais estabilizadores.
A escola prepara, entretanto, a oitava edição do programa executivo ‘Risco Geopolítico e Estratégia para Executivos’, desenvolvido com o Instituto da Defesa Nacional, com início previsto para 5 de março.
Num contexto global marcado por guerra híbrida, fragmentação económica e volatilidade política, o barómetro confirma que a geopolítica deixou de ser um tema periférico para as empresas portuguesas. Tornou-se um fator estrutural na gestão de risco, com impacto direto na resiliência e competitividade do tecido empresarial nacional.
