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Titiana Barroso

Imagine que podia escrever uma história que durava cerca de 40 mil anos

20 Abril, 2021 by Titiana Barroso

O povo Gunditjmara do sudeste da Austrália tem um conto sobre quatro gigantes que criaram o mundo e que chegaram a terra através do mar. Três foram para outras partes do país, mas um ficou para trás. Deitou-se e o seu corpo assumiu a forma de um vulcão, chamado Tappoc na língua Dhauwurd Wurrong, enquanto a sua cabeça se transformou noutro, chamado Budj Bim. Quando Budj Bim entrou em erupção, conta a história, “a lava cuspiu quando a cabeça explodiu na terra, formando os seus dentes”.

A história ocorre no Sonho, a época mítica em que o mundo foi feito, de acordo com as culturas indígenas australianas. Mas também podemos situá-lo no tempo geológico. A descoberta de um machado de pedra sob camadas de piroclasto, depositadas quando Budj Bim entrou em erupção há cerca de 37.000 anos, sugere que viviam humanos na área e, portanto, poderiam ter testemunhado a erupção. Teria sido repentino. Os cientistas acham que o vulcão pode ter crescido do nível do solo até dezenas de metros de altura em apenas meses, ou mesmo semanas. Outras lendas de Gunditjmara descrevem uma época em que a terra tremeu e as árvores dançaram. Budj Bim pode ser a história mais antiga continuamente contada no mundo.

Mas hoje temos a nossa própria longa história para contar. A emergência climática não afeta apenas aqueles de nós que estão vivos agora, atinge a vida de gerações ainda por nascer. O aumento do nível do mar levará muitas centenas de anos. O último vestígio do nosso carbono não será expulso da atmosfera durante, talvez, cem milénios, período durante o qual ele irá alterar radicalmente o clima da Terra. A atual perda de biodiversidade, numa taxa e escala comparável a alguns dos piores eventos de extinção, deixará uma lacuna no registo fóssil para sempre.

Todos esses vestígios e legados são histórias que irão durar muito mais do que a de Budj Bim. Ao escrever Pegadas: Em Busca de Fósseis Futuros (Editora Elsinore), eu queria descobrir o tipo de fósseis que a civilização deixará e o tipo de história que eles contarão sobre nós.

No final do ano passado, um relatório da Nature propôs que, em 2020, a massa de coisas feitas pelo Homem excedeu toda a biomassa viva no Planeta pela primeira vez. Existem agora mais edifícios e infraestruturas (1.100 gigatoneladas, ou Gt) do que árvores e arbustos (9 Gt); duas vezes mais plástico por massa (8 Gt) do que todos os animais terrestres e marinhos (4 Gt). Muitos desses materiais – betão, aço, plástico e vidro – são altamente duráveis ​​e são encontrados em maiores concentrações nas grandes cidades do mundo. Em Pegadas, visito Xangai para descobrir como é que uma megacidade se pode tornar num fóssil gigante.

Xangai é o lar de 26 milhões de pessoas e tem alguns dos edifícios mais altos do mundo, incluindo a Torre de Xangai (632 metros de altura e pesa 850.000 toneladas). Situada no topo da Torre de Xangai, a cidade preenche o horizonte em todas as direções. Eu podia sentir a imensa carga da torre a pressionar as suas fundações de betão e aço de 90 metros de comprimento.

Como muitas cidades costeiras, o futuro de Xangai será determinado pela água. A cidade afundou mais de 2,5 metros nos últimos 100 anos, devido à extração de água subterrânea e ao peso dos seus arranha-céus, construídos em solo macio e pantanoso. Se o nível do mar subir bastante, a Torre de Xangai e o resto da cidade serão inundados e iniciarão um processo lento e paciente de fossilização. A lama espessa vai lavar as ruas e os andares térreos dos edifícios, cobrindo-os com a preservação de sedimentos. Durante milhares de anos, a Torre de Xangai desmoronará lentamente até que não haja mais nada sobre a superfície. Tudo abaixo do solo, no entanto – as galerias subterrâneas, os níveis de estacionamento e as fundações profundas – será submetido à pressão e ao tempo, condensando-se ao longo de milhões de anos numa camada de materiais artificiais no registo geológico. O betão e o tijolo desmineralizar-se-ão, o vidro desvitrificar-se-à e o ferro, em reação aos sulfetos, adquirirá o brilho dourado da pirite, também conhecida por fool’s gold. O que restar do subterrâneo na base da Torre, será pontuado pelos contornos fossilizados de incontáveis ​​objetos do quotidiano, de tampas de garrafa a rodas de bicicleta, contornos precisos da vida da cidade como ela foi vivida.

Daqui a cem milhões de anos, pensei, a cidade que espalhei à minha frente poderia ser comprimida numa camada de um metro de espessura na rocha, centenas de quilómetros abaixo. A vida hoje tornar-se-á a paleontologia do futuro.

A história das nossas cidades é uma das inúmeras histórias não intencionais que estamos a contar para o futuro profundo. Mas também descobri esforços para comunicar deliberadamente em vastas escalas de tempo. O problema do armazenamento seguro de longo prazo de resíduos nucleares incomodou engenheiros e políticos durante décadas. A nossa curiosidade levou-nos a violar monumentos antigos, como as pirâmides, apesar das advertências nelas inscritas para que não fosse feito. Como é que se transmite uma sensação de perigo durante 10 000 anos? Assim como os resíduos nucleares, todas as palavras têm meia-vida, normalmente cerca de 750 anos. Para ter a língua inglesa como exemplo, em 10 000 anos a partir de agora, apenas 12% dos termos mais básicos atuais em uso provavelmente estarão em circulação (se, de facto, o inglês ainda for falado).

O semiótico Thomas Sebeok propôs uma maneira de contornar a erosão da linguagem.

(…)

Pode ler o artigo na íntegra na edição de primavera da revista Líder.


Por David Farrier é professor de Literatura na Universidade de Edimburgo e especialista em questões ambientais, liderando inúmeros projetos de investigação que cruzam as duas áreas.

© Annie Farrier

Arquivado em:Notícias, Sustentabilidade

O saber fazer que nos permite habitar poeticamente a Terra

20 Abril, 2021 by Titiana Barroso

A técnica é vista pela filosofia como um “saber fazer, um saber que visa a fabricação, a produção de objetos. A técnica é essencial à poiesis, à fabricação. Não são a mesma coisa, são distintas, mas estão implicadas. Não há fabricação sem saber fazer, sem conhecimento.

Para Heidegger este saber fazer é entendido como um “deixar aparecer”, que tem subjacente uma relação harmoniosa com a natureza. A técnica é vista aqui como uma permissão para deixar desvelar. Esse deixar desvelar seria a forma de o homem habitar poeticamente a Terra. Esta maneira de ver a técnica aproximava Heidegger da cultura grega pela forma como estes respeitavam a natureza e a sua beleza. Não era, contudo, esta a posição de Hannah Arendt que considerava que os gregos, nesta contemplação extrema do belo, esqueciam muitas vezes o artesão, o trabalhador que estava na origem das obras de arte que eles apreciavam esquecendo a sua origem, as mãos de quem as fazia.

Arendt está mais alinhada com os romanos pela forma como estes elogiavam a cultura, sendo o próprio termo de origem romana, tendo implícita a ideia de cuidar, colher, preservar. Os romanos tinham uma relação afetuosa com a natureza e não dominadora, por isso, na opinião da autora teriam sido eles os primeiros a habitarem poeticamente a Terra, e não os gregos como defendera Heidegger.

A técnica, o saber fazer que está implicado na fabricação é o que permite que se habite poeticamente a Terra, ou seja, respeitando-a, tirando dela apenas o que esta nos pode dar.

Por isso mesmo, a técnica e o saber fazer, ajudados agora pela tecnologia, não nos poderão levar, ao invés deste habitar poético, a uma certa alienação, conceito que também nos é trazido por Hannah Arendt para falar da ilusão do Homem poder abandonar a sua morada original: a Terra. Esta ambição parece mostrar um certo alheamento que, por seu turno, se alimenta de uma outra ilusão, a da libertação. Ou seja, fugir da Terra para chegar a um universo de infinitas possibilidades, para se libertar eventualmente de um mundo que já não lhe serve. Há em tudo isto um grande paradoxo: reparemos na incongruência desta ideia de habitar poeticamente a Terra, único lugar que temos como certo para vivermos, com a vontade desenfreada de produzir e consumir produtos de grande obsolescência (*não sei se tudo terá começado com Karl Marx e a sua visão do trabalho) e com a vontade de habitar um espaço onde não temos quaisquer condições naturais de sobrevivência. O espaço, e outros planetas, são agora o grande desafio da humanidade. Não sabendo nós habitar poeticamente a Terra, saberemos um dia habitar poeticamente algum local?

*Para Karl Marx o trabalho era sinónimo de consumo, no caso, de consumo produtivo. O consumo produtivo era aquele que transformava os materiais com vista à fabricação de alguma coisa que tivesse um valor superior, este tipo de consumo contrapunha-se ao consumo individual e improdutivo que tinha apenas em vista a subsistência do trabalhador através do consumo de bens de primeira necessidade que adquiria com o salário que lhe era pago pelo detentor do capital, o capitalista, este que também consumia individualmente com base no resultado do que obtinha da valorização dos bens levada a cabo pelo trabalhador.

Editorial publicado na edição de primavera da revista Líder.

 

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

A “revolução verde” pela mão da The Navigator Company

20 Abril, 2021 by Titiana Barroso

A empresa portuguesa de pasta e papel tem dado passos firmes e com real impacto na defesa do Ambiente e na construção de um Mundo mais sustentável. E sem esquecer de envolver a comunidade. É por isso uma decana a trabalhar em prol de uma maior consciencialização ambiental e de uma economia de baixo carbono.

A Sustentabilidade é um valor chave e o quadro de referência para o desenvolvimento estratégico do negócio da The Navigator Company. Da floresta ao papel, a empresa é o rosto de um ciclo sustentável. Aliás, foi a primeira empresa portuguesa e uma das primeiras a nível mundial a antecipar em 15 anos, de 2050 para 2035, o compromisso em matéria de neutralidade carbónica em todos os complexos industriais.

No seu Roteiro de Sustentabilidade tem um conjunto de compromissos que a colocam na vanguarda da resposta às tendências internacionais relacionadas com as alterações climáticas. «Vamos, certamente, assistir a uma “revolução verde” na embalagem dos grandes produtos de consumo, com uma mudança para produtos renováveis e de elevada reciclabilidade, como é o caso do papel. A The Navigator Company está atenta a esta realidade e, como tal, já disponibilizou no mercado não só papel para sacos, como, também, cartolina para embalagens», explica fonte oficial da empresa.

O primeiro passo desta jornada pela descarbonização já foi dado, em 2020, com o arranque da nova caldeira de biomassa da fábrica da Figueira da Foz, que permitirá que toda a energia térmica seja proveniente de fonte renováveis reduzindo, este ano, as emissões de CO2 em 32%. «Mas, como empresa de base florestal que somos, não podemos também esquecer o contributo que a nossa floresta dá em termos de mitigação do CO2. Em termos de ação, procuramos dar resposta, pela via das florestas que gerimos – e que são um importante sumidouro de carbono – pelo produto que colocamos no mercado (o papel mantém, também, o carbono armazenado até ao fim de vida», dá conta a mesma fonte, enquanto lembra que este longo caminho de reinvenção passará também pela Inovação, Ciência e Tecnologia, bem como pela cooperação intersectorial.

Como é que conseguimos sacudir consciências coletivas e predispor-nos a fazer alguns sacrifícios no presente a fim de evitar cataclismos naturais?
A The Navigator Company foi a primeira empresa portuguesa e uma das primeiras a nível mundial a antecipar em 15 anos, de 2050 para 2035 o compromisso em matéria de descarbonização. Este foi mais um passo importante e com real impacto positivo dado pela empresa que tem vindo a motivar os colaboradores, clientes, fornecedores e comunidades envolventes para a importância de trabalharmos em prol do ambiente.
Desenvolvemos um trabalho de sensibilização para o tema, estimulando a consciencialização e a adoção de comportamentos sustentáveis. Para tal, desenvolvemos um conjunto de projetos no âmbito da nossa política de Responsabilidade Social Corporativa, nomeadamente através de iniciativas de valorização e de proteção da floresta nacional.
A iniciativa “My Planet” é dirigida a adolescentes e adultos e tem apoiado várias ONG que trabalham na defesa do ambiente.
Outro projeto, o “Dá a Mão à Floresta”, tem como alvo um público mais jovem, entre os quatro e os dez anos de idade, uma vez que acreditamos que este é o público que pode fazer a diferença na construção de um mundo mais sustentável. O nosso objetivo é oferecer as bases para uma maior consciencialização ambiental.
Além disso, temos realizado vários eventos, dentro da nossa política de Responsabilidade Social Corporativa, que têm contribuído para dar a conhecer a empresa e potenciar a aproximação da comunidade à mesma. Algumas das iniciativas que destacamos são, por exemplo, a plataforma de conhecimento sobre as florestas, designada “Florestas.pt”, o projeto “Produtores Florestais”, que incentiva boas práticas silvícolas.

As empresas desempenham um papel crítico para ajudar a alcançar os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas. Qual é o compromisso da sua empresa perante os ODS?
A gestão responsável do nosso negócio é orientada pela ética e pela integridade na forma como gerimos as nossas atividades, as pessoas e as relações com os nossos Stakeholders. A este nível, a Sustentabilidade é um valor chave para a The Navigator Company e o quadro de referência para o desenvolvimento estratégico do nosso negócio. Por isso, entendemos ser imperativo alinhar a nossa estratégia empresarial com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, dado que são uma ferramenta muito importante que nos ajudam a alinhar e a reportar da melhor forma os objetivos e linhas de ação da empresa, evidenciando a forma como poderemos contribuir para um desígnio maior, um desígnio que é do País. Alguns dos ODS onde a The Navigator Company exerce uma maior influência, são, entre outros, a Ação Climática, as Energias Renováveis e Acessíveis, a Água Potável e Saneamento, o Proteger a Vida Terrestre e a Produção e Consumo Sustentáveis.
O compromisso da The Navigator Company com a gestão responsável do seu negócio encontra-se espelhado no seu Roteiro de Sustentabilidade, um conjunto de compromissos, objetivos e metas a atingir nos temas mais relevantes da Agenda 2030 definida pela Empresa, alinhados com os respetivos ODS a que está a dar resposta. Em 2020, a empresa fez uma revisão dos ODS considerados como prioritários e onde exerce uma maior influência, contribuindo de forma mais direta para a sua concretização, alinhando a sua resposta à nova Agenda de Sustentabilidade definida pela Empresa no âmbito da “Década da Ação 2020-2030” das Nações Unidas. Assim, e ao gerar impacto positivo em ODS como o “Trabalho Digno e Crescimento Económico”, a “Indústria, Inovação e Infraestruturas”, a “Produção e Consumo Sustentáveis”, a “Ação Climática” e o “Proteger a Vida Terrestre” constitui uma oportunidade para a criação de valor sustentável, a longo prazo, e promove a transformação da The Navigator Company, tal como do setor, de forma a responder aos desafios futuros.
Como complemento a esta realidade, o Relatório de Sustentabilidade da The Navigator Company, documento publicado anualmente de acordo com as normas internacionais da Global Reporting Initiative, evidencia o desempenho nos temas mais relevantes para a Empresa e para os seus Stakeholders, fazendo o devido enquadramento com as tendências da agenda internacional de sustentabilidade e com os ODS das Nações Unidas.

A Ação Climática é assim uma prioridade?
Sem dúvida, é uma prioridade que temos vindo a assumir nos nossos projetos e nos nossos investimentos e, como tal, um dos objetivos que temos traçado, neste sentido, é a redução da pegada da empresa no que toca a emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE).
Em 2019, a The Navigator Company assumiu esta meta ambiental e tornou-se a primeira empresa portuguesa – e, também, uma das primeiras a nível mundial – a assumir o compromisso de antecipar em 15 anos, face aos objetivos nacionais e europeus, a neutralidade carbónica dos seus Complexos industriais, o que lhe permitirá ter, até 2035, todos as suas unidades fabris neutras em emissões de carbono e atingir, nessa data, uma redução de 86% das suas emissões de CO2. O compromisso nesta matéria integra o “Roteiro para a Neutralidade Carbónica”, adotado pela Empresa em 2019, e que a coloca na vanguarda da resposta às tendências internacionais relacionadas com as alterações climáticas.
O primeiro passo desta jornada já foi dado, em 2020, com o arranque da nova caldeira de biomassa da fábrica da Figueira da Foz, que permitirá que toda a energia térmica seja proveniente de fonte renováveis reduzindo, este ano, as emissões de CO2 em 32%, ou seja, não são metas distantes para 2035, são ações que já começaram e com expressão positiva a nível ambiental.
Mas, como empresa de base florestal que somos, não podemos também esquecer o contributo que a nossa floresta dá em termos de mitigação do CO2. Em termos de ação, procuramos dar resposta, pela via das florestas que gerimos – e que são um importante sumidouro de carbono – pelo produto que colocamos no mercado (o papel mantém, também, o carbono armazenado até ao fim de vida) e pelos programas de redução de emissões que integram o próprio Roteiro para a Neutralidade Carbónica. Combinamos, também, a gestão sustentável da floresta com programas de melhoria da eficiência energética ou de transição para tecnologias que utilizam energia de fontes renováveis.
Consideramos, por isso, urgente responder aos desafios colocados pela mitigação e pela adaptação às alterações climáticas e, nesse sentido, é determinante que as empresas tenham que fazer parte desta solução. Ao definir metas ambiciosas e medidas de longo prazo, no âmbito do nosso compromisso com a neutralidade carbónica, pretendemos, assim, inspirar outras empresas a fazê-lo também.

Quais são as ambições em concreto? E qual a estratégia para as alcançar?
The Navigator Company está empenhada em antecipar a sua neutralidade carbónica. Esta estratégia, que está incluída no nosso Roadmap to a Carbon Neutral Company, contempla um conjunto de investimentos a realizar, nos próximos 15 anos, bem como um conjunto de quatro objetivos de implementação em que 100% da produção de energia elétrica seja feita a partir de fontes renováveis, em que se possa reduzir as emissões de CO2 de origem fóssil com recurso a novas tecnologias, reduzir em 15% o consumo específico de energia até 2025 (por referência a 2015) e realizar o offset de emissões não passíveis de eliminar.
Aliás, já estamos a assistir hoje à transição do plástico (recurso fóssil) para materiais fabricados com recursos renováveis e sustentáveis, como é o caso do papel. Exemplo disso é a nova diretiva comunitária, que entra em vigor este ano, e que coloca restrições na introdução de plásticos de uso único como os sacos.
Embora o Roteiro para a Neutralidade Carbónica da The Navigator Company tenha sido apresentado, em 2019, os nossos esforços em prol de uma economia de baixo carbono tiveram início há vários anos, com o investimento feito na melhoria da eficiência dos seus processos, com a implementação de soluções tecnológicas que permitem a redução do consumo energético e com a utilização de energia de fontes renováveis.

Vai ser necessário reinventar modelos de negócios? Quais são as mudanças que terão de ser implementadas?
Sim, no sentido de desenvolvermos modelos de negócio que contribuam para uma economia de baixo carbono, mais circular e capaz de impulsionar a criação de valor sustentável para a sociedade. Essa reinvenção passará pela aposta na Inovação, na Ciência e na Tecnologia, bem como pela cooperação intersectorial.
Entre as principais ações que serão levadas a cabo constam a promoção do uso responsável dos recursos naturais, renováveis e não renováveis; garantir a gestão de paisagens onde coexistam florestas funcionais, contribuindo para a produção de matérias primas e para a conservação dos serviços dos ecossistemas, entre outros usos pelas comunidades envolventes; o investimento em infraestruturas e na otimização de processos que promovam a circularidade (valorização de recursos e resíduos), o uso de energias renováveis e a redução de emissões de GEE; o desenvolvimento de produtos inovadores de base biológica que consigam substituir outros de base não renovável, fazendo face às necessidades da sociedade; e a educação e promoção da literacia em sustentabilidade, com o objetivo de mudar comportamentos e de formar/informar sobre opções de consumo mais sustentável.
Vamos, certamente, assistir a uma “revolução verde” na embalagem dos grandes produtos de consumo, com uma mudança para produtos renováveis e de elevada reciclabilidade, como é o caso do papel. A The Navigator Company está atenta a esta realidade e, como tal, já disponibilizou no mercado não só papel para sacos, como, também, cartolina para embalagens.

Que métricas já foram alcançadas?
Iremos atingir, já este ano, cerca de 32% dos 86% de redução das emissões de CO2 ambicionada até 2035, com a nova caldeira de biomassa no Complexo industrial da Figueira da Foz. No funcionamento desta nova estrutura serão utilizadas, anualmente, 400 mil toneladas de biomassa, sendo que, destas, metade é proveniente de resíduos resultantes do descasque interno da madeira do eucalipto, às quais se juntam 200 mil toneladas de biomassa de sobrantes florestais adquiridas no exterior, decorrentes das operações de gestão florestal e das limpezas de áreas rurais. Paralelamente à energia térmica, ou seja, vapor de água gerado a partir da biomassa residual florestal e utilizada nos processos produtivos, através da expansão desse vapor numa turbina associada, vai ser gerada, energia elétrica. Esta dupla função irá garantir eficiências muito mais elevadas na geração da energia (co-geração). A fábrica da Figueira da Foz será a primeira do grupo com energia elétrica totalmente produzida a partir de fontes renováveis e, até final deste ano, estimamos que sejam investidos cerca de 40% do montante que nos propusemos investir em descarbonização da atividade industrial.
A The Navigator Company é, assim, um exemplo de circularidade: cerca de 70% da energia consumida nos nossos Complexos industriais é proveniente de biocombustíveis com origem na biomassa florestal (uma fonte renovável de energia), 90% dos materiais utilizados no processo produtivo são de origem renovável e 80% dos resíduos são valorizados.

Em que ponto está o vosso setor nesta matéria? Que análise faz da sua evolução?
Através da gestão florestal sustentável, o setor papeleiro contribui significativamente para a cobertura florestal da Europa, permitindo que as florestas desempenhem o seu papel de sequestro de carbono, fornecimento de materiais capazes de armazenar carbono e substituição de matérias-primas fósseis. A indústria papeleira oferece, ainda, soluções inovadoras e eficientes para uma ampla gama de produtos, como resultado de uma bioeconomia sustentável e circular. O setor sempre foi um diminuto emissor (cerca de 1% na Europa), quer um elevado utilizador de energia renovável (60% na Europa), produzindo um produto renovável com elevada reciclabilidade (72% na Europa). Numa altura de crescente consciencialização mundial para as alterações climáticas, o papel enquanto suporte conquista um lugar de relevo dentro do paradigma da sustentabilidade e da economia circular, assente em produtos com origem em matérias-primas naturais e renováveis, capazes de substituir os de proveniência fóssil, como é o caso do plástico.
Gostaríamos, ainda, de salientar que CEPI – Confederation of European Paper Industries – da qual a The Navigator Company faz parte, publicou um relatório, Forest-Based Industries 2050: a vision for sustainable choices in a climate friendly future, onde é evidenciado o esforço que as indústrias de base florestal têm feito na promoção das melhores práticas de gestão florestal e na descarbonização dos seus processos produtivos. Este tem sido, aliás, o nosso caminho enquanto um dos principais atores na preservação e sustentabilidade da floresta nacional, além de sermos um dos players de referência na indústria europeia de pasta e papel.

Como surge esta necessidade de colocar a Sustentabilidade no centro das prioridades da empresa?
A Sustentabilidade faz parte do nosso ADN, uma vez que a estratégia de desenvolvimento de negócio da The Navigator Company assenta na criação de valor sustentável, com base em princípios de ética, de integridade e de transparência. Da floresta ao papel, somos o rosto de um ciclo sustentável. É, por isso, que centramos a nossa produção com origem recursos renováveis e utilizamos energia, também renovável, para o fabrico de energia (que já é cerca de 70%).
Com base nestes valores, e estando atenta às tendências internacionais e desafios de Sustentabilidade à escala global, a Agenda da The Navigator Company para 2030 procura responder aos desafios globais, tais como a emergência climática, a proteção da biodiversidade, a digitalização ou o futuro do trabalho, reforçando o nosso contributo para o desenvolvimento sustentável, dando prioridade à preservação dos recursos naturais, como a floresta, o solo, a água ou a biodiversidade. Para tal, apostamos em soluções sustentáveis que, ao mesmo tempo, potenciem a valorização do nosso produto – o papel – e permitam a renovação dos recursos florestais, como alternativa aos materiais de origem fóssil. Isto permite que possamos contribuir, simultaneamente, para a continuidade do negócio, em total sintonia com o desenvolvimento rural e a prosperidade das comunidades.

Como é vista a empresa em Portugal dentro do Grupo à luz da Sustentabilidade?
A forma como conduzimos os nossos negócios e a nossa agenda de Sustentabilidade, espelha a nossa ambição em termos de liderança nesta área. Prova disso, está no facto de estarmos envolvidos ativamente em diversas Associações Empresariais para o Desenvolvimento Sustentável, entre as quais, o Business Council for Sustainable Development (BCSD), onde atualmente assumimos a presidência, e que se trata de uma Associação sem fins lucrativos que agrega e representa mais de 100 empresas de referência em Portugal, empenhadas na transição para a Sustentabilidade. Mas temos outros exemplos: a The Navigator Company integra o World Business Council for Sustainable Development (Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável), fazendo parte da Comissão Executiva, e é, também, membro ativo do Forest Solutions Group.
Em 2020, a The Navigator Company foi distinguida enquanto líder mundial no combate às alterações climáticas pelo CDP – Carbon Disclosure Project, uma organização não governamental que avalia o desempenho ambiental de empresas e cidades e cujas análises são utilizadas pelos investidores nas suas decisões de investimento sustentável. Adicionalmente, está avaliada de forma muito positiva, no ranking ESG da Sustainalytics, posicionando-se em 5.º lugar, num total de 78 empresas do cluster de indústrias Paper & Forestry, e em 4.º lugar, no subconjunto de 61 empresas do cluster Paper & Pulp.  Estes exemplos mostram a nossa vontade em trabalhar e contribuir para um Planeta cada vez mais sustentável.
É importante mencionar que, internamente, a The Navigator Company tem uma estrutura de governação consolidada e constituída por diversos órgãos, como é o caso do Fórum de Sustentabilidade, sendo que cada um tem funções bem definidas no que toca à gestão da Sustentabilidade, de forma a garantir o cumprimento de práticas empresariais éticas e responsáveis.

Foi criado algum departamento ou grupo de trabalho que se dedique à Sustentabilidade?
Sim, existe uma Direção de Sustentabilidade que integra técnicos superiores com várias décadas de experiência. Todavia, a sustentabilidade na Navigator não se resume a uma Direção, antes pelo contrário, todas as Direções contribuem para este desígnio que faz parte da nossa forma de estar no negócio.

E quais as prioridades desta área?
Tendo sempre por base a qualidade de vida e o futuro do Planeta, queremos continuar o caminho da redução das emissões de carbono, bem como aumentar a contribuição positiva da The Navigator Company para a criação de valor e crescimento sustentável num mundo em mudança. Outro dos objetivos da empresa passa por estimular a geração de valor ao nível económico, ecológico e social, minimizando, para tal, a pegada ecológica. E queremos, claro, finalizar a Agenda 2030.
Acreditamos que podemos ter um papel crucial para garantir que as gerações futuras vivam num Planeta melhor e, isso, passa pelos produtos e soluções sustentáveis, naturais, recicláveis e biodegradáveis que oferecemos e que contribuem para a fixação de carbono, para a produção de oxigénio, para a proteção da biodiversidade, para a formação de solo e para o combate às alterações climáticas. Queremos partilhar com a sociedade não só os nossos resultados, mas também o nosso saber, a nossa experiência e os nossos recursos na busca de um futuro melhor.

Quais têm sido as vossas contribuições para o progresso dos clientes nesta matéria?
A sensibilização para a urgência climática é, para nós, um aspeto-chave nesse sentido. É com esse intuito que organizamos diversas iniciativas, tal como o Fórum de Sustentabilidade, onde se dá a análise e discussão de temas relacionados com a Sustentabilidade, com o objetivo de reforçar o conhecimento recíproco, entre os membros da The Navigator Company e as personalidades ligadas aos seus principais Stakeholders, potenciando assim plataformas de entendimento e cooperação. Por exemplo, na última edição que se realizou em novembro de 2020, o Fórum de Sustentabilidade da The Navigator Company procurou debater sobre a importância de promover a valorização do Capital Natural nas suas diferentes dimensões, através da conciliação entre a floresta de produção e a floresta de lazer.
Procuramos, também, disponibilizar produtos com origem em matérias-primas renováveis e sustentáveis, bem como ajudar na promoção de categoria e produto. Nos últimos anos, a The Navigator Company tem explorado várias oportunidades para substituir produtos com credenciais ambientais menos fortes. Por exemplo, e procurando evidenciar a funcionalidade do papel como alternativa ao plástico, temos o caso do Jornal Expresso que, a partir de janeiro de 2019, passou a ser distribuído num saco de papel da The Navigator Company e, também, o exemplo da revista National Geographic que, desde abril do mesmo ano, em que o seu envio passou a ser feito aos assinantes num envelope de papel da nossa marca. Temos, ainda, outro bom exemplo com a Feira do Livro de Lisboa que, na procura de uma solução mais ecológica para o transporte dos livros que substituísse os sacos de plásticos por sacos de papel se associou à nossa Empresa em 2019, e este ano também, para assegurar esse suporte. Estas parcerias que aqui partilhamos visam não só realçar o papel como um substituto ao plástico de utilização única, mas também sensibilizar os consumidores para alternativas de embalagem mais sustentáveis e amigas do ambiente.

Pode partilhar algumas recomendações para tornar as empresas e os negócios sustentáveis?
Em primeiro lugar é fundamental não esquecer que todas as decisões devem ser sempre tomadas num racional de sustentabilidade: Ambiental, Social e Económica.
Consideramos fundamental optar pela utilização de produtos que tenham origem em matérias-primas renováveis e sustentáveis. Esse é um dos passos que deve ser dado de forma a garantir que as empresas e os seus negócios funcionem de forma sustentável e de forma benéfica para o Planeta. É preciso, também, que as empresas saibam gerir os seus negócios com responsabilidade e com o intuito de minimizar os impactos da sua atividade, tanto na sociedade como no Planeta.
Por fim, acreditamos que é importante contribuir de forma positiva para a criação de soluções de negócio sustentáveis, através da cooperação com os stakeholders e promovendo, ao mesmo tempo, o bem-estar dos colaboradores e das comunidades.

Arquivado em:Entrevistas

Dois pesos, duas medidas, zero legitimidade

19 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Volto a essa sexta-feira 13 que aconteceu na sexta 9, o dia da decisão do juiz sobre a chamada Operação Marquês. A decisão foi o que se viu: a confirmação das razões dos que se queixam da existência de um sistema de justiça que serve para proteger os ricos da justiça. Esta decisão terá constituído o ponto final nessa discussão. Assunto encerrado até prova em contrário.

Curiosamente nessa mesma sexta a imprensa publicava outra curiosa notícia: que o Fisco ia recuperar o diretor que lançou a operação stop numa rotunda de Valongo para cobrar dívidas fiscais. Acção Sobre Rodas foi o nome dessa operação – confesso alguma inveja de quem pode dar nomes a este tipo de operações. Admito que o lado empreendedor do dito responsável me parece interessante num País que passa a vida a dizer mal dos funcionários, dada a falta deste tipo de empreendedorismo na classe – de que aliás faço parte.

Por outro lado, depois da decisão sobre a Operação Marquês, o Estado perde muita legitimidade para cobrar seja o que for. É de facto incompreensível que crimes de corrupção sejam tratado com tantas cautelas (e tão amáveis prescrições) e que o Fisco se meta à saída de uma rotunda a cobrar dívidas à má fila. Uma possibilidade interessante é meter o dito dirigente numa rotunda do Campus da Justiça. Título da operação: A Cobrar no Sítio Certo.


Por Miguel Pina e Cunha, Diretor da revista Líder

Arquivado em:Leading Opinion, Opinião

Capas Líder Magazine arrecadam dois Prémios Lusófonos da Criatividade

19 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Prata para as capas Líder Magazine, com assinatura da FCB Lisboa, nas categorias Design Editorial e Ilustração nos Prémios Lusófonos da Criatividade, o Festival Internacional de Criatividade.

A criatividade das quatro últimas capas da revista Líder foi desenvolvida por André Nassar, Consultor Criativo na agência de Publicidade FCB Lisboa. As capas têm por detrás uma narrativa muito própria, sempre alinhadas com um tema e a intenção de despertar emoções a quem as observa.

Filipe Vaz, Diretor Geral da Tema Central, declara que «Se uma das mais relevantes características de um bom Líder é a criatividade, não podíamos deixar de apresentar capas que se distinguissem por isso mesmo. Este prémio é o reconhecimento da excelência de uma revista única no panorama editorial português. O nosso muito obrigado ao André Nassar, à FCB Lisboa e a toda a equipa que produz a revista Líder».

«Fazer capas de revistas é o sonho e o pesadelo de qualquer criativo. Trata-se de um trabalho muito intenso onde a estética e informação lutam pelo espaço. A vitória só acontece quando elas empatam. Que bom termos o André Nassar a ajudar a FCB Lisboa nesta tarefa. Que bom termos um cliente como a Revista Líder que gosta do que é bom e disruptivo», refere Edson Athayde, CEO da FCB Lisboa.

Os Prémios Lusófonos da Criatividade são um Festival de Criatividade, sediado em Portugal e também o único dedicado exclusivamente a premiar os mercados Publicitários e de Comunicação dos países de língua oficial portuguesa. Com seis anos de existência, estes galardões têm como missão enaltecer o melhor trabalho feito por agências, profissionais, estúdios e produtores em todos os países que comungam da língua portuguesa.

Pode conhecer aqui todos os vencedores dos Prémios do 2.º quadrimestre de 2020/2021.

Arquivado em:Notícias

O caminho do Comércio Internacional em 2021, segundo Paulo Portas

19 Abril, 2021 by Titiana Barroso

Numa intervenção durante o encontro anual do Fórum Económico da Associação Comercial de Braga, realizado a 14 de abril, o político e professor universitário Paulo Portas partilhou a sua visão sobre a evolução das diferentes economias e os principais desafios após a crise pandémica.

Sob o tema “Perspetivas para o Comércio Internacional em 2021”, o encontro virtual entre vários empresários portugueses, moderado por Pedro Fraga, CEO da F3M, contou com a reflexão de Paulo Portas na temática das indústrias e empresas sobre as tendências do crescimento e recuperação da economia portuguesa.

A palavra-chave para 2021 é competitividade e Paulo Portas identificou a evidência do setor privado como o núcleo principal da nossa economia que após um ano de imensas dificuldades e desafios para empresas e trabalhadores, deve preparar-se para um futuro assente na intervenção excecional do Estado. Para tal é preciso confiar e deixar as empresas competir em mercados internacionais, sem criar obstáculos ou dificuldades.

Segundo o Barómetro do Comércio Internacional, recentemente publicado pela Organização Mundial do Comércio, apesar da queda de 5% do comércio internacional de bens em 2020, ele irá crescer cerca de 8% em 2021 (acima do crescimento global). Isto vem reforçar a importância do pilar do comércio na era da globalização e digitalização. Paulo Portas lança a reflexão para que se deixem de lado as ideologias e se assuma como absolutamente crucial para o crescimento e prosperidade do País a construção de um caso de competitividade.

A assimetria do impacto da Pandemia

Não será novidade considerar-se que esta crise global criada pelo SARS CoV-2 não foi simétrica – “aterragem do vírus”, políticas públicas de resposta, dimensão dos confinamentos e tempo de partida para voltar ao crescimento; e essa perceção é importante para que se chegue a um ponto de viragem de uma Pandemia para uma Endemia, algo com o qual já se possa conviver e de efeitos residuais na vida das pessoas e organizações. E nos setores mais afetados, essa viragem só será possível quando o princípio da confiança ultrapassar o do medo.

O único grande bloco que em termos pandémicos não chegou a ter perdas foi a China, fechando o ano de 2020 com 2,3 % de crescimento económico. A Turquia foi a única economia do G20 com crescimento semelhante, quase 2% em 2020, e na Europa houve o caso único da Irlanda (3%). Se por um lado a chegada do vírus seguiu pela ordem Ásia – Europa – Américas, o tempo de recuperação económica não foi semelhante: primeiro na Ásia, EUA e finalmente Europa. Houve claramente uma melhor recuperação da Ásia em relação ao Ocidente, seguida pelos EUA que em 2021 irão crescer o dobro da Zona Euro. Neste caso, Paulo Portas refere também as vantagens da não rigidez, dinamismo e flexibilidade da economia norte americana que permite ter grandes quedas, mas também recuperar rapidamente. Como exemplo, referiu a taxa de desemprego nos EUA que passou de 14% em maio de 2020 para 6% em 2021, estando desde há 8 meses a conseguir criar emprego líquido.

A reindustrialização da Europa

Há muito que se fala sobre a questão da Europa combater a dependência em relação à Ásia, algo intrinsecamente ligado à indústria e produção. Na sua perspetiva, algumas mudanças são inevitáveis, nomeadamente em questões de saúde, relembrando que nunca houve uma política de saúde comum na UE evidenciada pelo momento em que Ursula von der Leyen ao constituir a sua Comissão no final de 2019, atribui em último lugar a pasta da saúde.

Meses depois chega uma Pandemia que veio revelar uma clara ausência de um esquema internacional de gestão de crises, com um severo impacto na UE. Por outro lado, a Ásia e nomeadamente a China, já tinham passado por outras situações de crise em questões de saúde, como a gripe das aves e gripe A. Para Paulo Portas é necessário contrariar a dependência da Ásia, mas relembra as palavras do recente prémio Nobel da Economia sobre a reindustrialização – é mais fácil dizer do que fazer.

Outro fator determinante no futuro desta Pandemia é o investimento em Investigação de Desenvolvimento (I&D) e nesse domínio a UE também fica atrás dos EUA, Japão e China. Na sua opinião, não é possível a “conquista de um lugar ao sol” sem investir em Inovação, pois é daí que vem o valor acrescentado. Quem industrializa o conhecimento são as empresas – e o caminho para uma maior autonomia em relação à Ásia, é a disponibilidade de maior investimento em I&D, tanto pelo setor público como privado, e o combate ao preconceito da colaboração entre ciência e empresas.

Para que tal aconteça, Paulo Portas considera necessário existir um caso competitivo para o qual os reguladores responsam em tempo útil. Como exemplo, refere os casos de sucesso nos programas de vacinação de Israel e dos EAU e na forma inovadora que encontraram para uma rápida recuperação. Por ter dados de saúde digitalizados sobre toda a sua população, Israel ofereceu à Pfizer os dados anonimizados sobre 5 milhões de pessoas vacinadas em tempo real. Já os EAU internacionalizaram uma vacina chinesa e ofereceram cerca de 50 mil voluntários para ensaios de fase 3.

Na sua opinião, o mundo pós-COVID será ainda mais competitivo do que antes e a chave é a construção de um caso de competitividade, na busca de investimento e abertura dos mercados.

África e a Pandemia económica

Em relação à canalização de investimento português para a África portuguesa e não só, deve-se primeiro alargar o nosso olhar para outros países e regiões económicas para além de Angola e Moçambique.

Nesse âmbito, Paulo Portas chama a atenção para a entrada em vigor no início de 2021 da Área de Livre Comércio Continental Africana (ALCCA), cujo Tratado é sob o ponto de vista continental o maior do mundo. Com esta medida pretende-se aumentar o nível de comércio intra-africano de 16% para 50% e uma redução das tarifas de fronteira de 90% – esta pode ser uma oportunidade interessante para as empresas portuguesas que estejam a operar em África.

Por outro lado, África é o continente mais jovem do mundo, a idade média de um africano são 18 anos, em comparação com os 42 de um europeu e as fronteiras entre os dois continentes são muito aproximadas. Se não for feita uma verdadeira política de ajuda europeia e lusófona para África, com respeito pela sua soberania e independência, a procura de um caminho para a prosperidade noutras regiões irá fazer escalar os fenómenos migratórios.

Pela caracterização de uma população extremamente jovem, a Pandemia em África é mais económica do que sanitária, para tal observação Paulo Portas refere a acumulação de quatro fatores: suspensão investimentos; queda das remessas; preço das commodities; e problemática das dívidas emergentes em África. Neste último ponto adverte para o caso de ser fundamental criar condições para o desenvolvimento de uma estratégia global, especificamente pela parte do G20, na restruturação e renegociação dessas dívidas.

Brasil e América Latina

A assimetria da Pandemia confirma-se ao assistir-se agora a uma terceira vaga na América do Sul, com taxas de contágios e letalidade desastrosas, nomeadamente no México. É difícil imaginar um país com um índice de pobreza como o Brasil a fazer confinamentos sem flexibilidade, tal como em certas regiões de África, com famílias numerosas a viver em pequenas habitações e favelas, sem poder trabalhar para conseguir ter a sua refeição diária.

Em 2020, a economia brasileira caiu 4%, valores inferiores aos da Argentina, que teve a pior queda do PIB na América Latina, cerca de 10% (semelhante a Espanha 11%) e que já vinha em recessão desde 2019. O México, uma das economias mais interessantes, na opinião do orador, prevendo-se a sua passagem do grupo do G20 para o G8, teve uma queda de 8%. A América Latina foi globalmente a região mais impactada pelo novo coronavírus, tendo um recuo de cerca de 10 anos face aos avanços que já tinham sido feitos em termos de globalização e da diminuição do número de pessoas a viver abaixo do limiar de pobreza extrema.

Numa nota mais positiva, Paulo Portas considera inevitável a abertura do sub-continente brasileiro para o mundo. No tema iminente de “food security” (somos 7 mil milhões para alimentar), o Brasil poderá ser em 20 ou 30 anos um dos países “food supplier” para o globo.

Competitividade – a palavra para Portugal

Planos de Recuperação e Resiliência (PRR) e a bazuca europeia estão há meses no horizonte da maioria das empresas portuguesas, enquanto os PIB dos países da Europa de leste continuam a ultrapassar o de Portugal. Será o nosso país capaz de usar esses recursos ou será que num cenário pós-Pandemia tudo vai ficar na mesma?

Paulo Portas aposta na capacidade das empresas para que haja uma boa gestão de recursos. A prioridade é construir um caso de competitividade em Portugal que permita dinamizar o crescimento da internacionalização da Economia, as exportações e a atração de capitais. Existe na sua opinião uma “pressão ideológica errática” para a assistencialização da Economia portuguesa, quando uma coisa é a intervenção do Estado numa circunstância excecional, outra é tornar esse papel perpétuo ou definitivo.

Quando a Europa sair deste ciclo de Pandemia, em que a confiança irá prevalecer sobre o medo, será necessário mais mercado, mais comércio e mais investimento. E não mais Estado!

Em relação ao papel da indústria e do setor privado em Portugal, Paulo Portas partilha a sua visão de que o foco deve ser a recuperação de produtividade e não o prolongamento da assistência do Estado ou dependência das empresas da ajuda por parte do Governo.

Em relação aos PRR, refere que poderá haver alguns atrasos, nomeadamente, se o Tribunal Constitucional alemão vier a discutir a questão do dinheiro dos contribuintes alemães ser usado para a Comissão Europeia financiar os PRR. Na sua opinião, poderá acontecer um recuo muito sério, atrasando a chegada da ajuda financeira. Tal será decidido no próximo dia 26 abril.

A Associação Comercial de Braga foi fundada em 1863 e o seu âmbito geográfico consagra a área dos municípios de Amares, Braga, Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro, Vieira do Minho e Vila Verde.

 

© Fotografia Paulo Portas: Associação Comercial de Braga

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