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Denise Calado

António Camara: «Temos de trazer de volta o modo de vida ‘hiper local’»

23 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Vivemos tempos de exceção, de uma “tempestade perfeita”, entre a guerra na Europa, a pressão económica, uma crise sanitária que persiste e a fúria da natureza sempre sábia. Mas também vivemos dias extraordinários, em que a tecnologia se uniu ao Homem, a ciência e a medicina trouxeram esperança e as novas gerações levantam vozes e colocam o dedo nas feridas da discriminação e do estigma.

Neste início de 2023, colocámos o desafio a vários líderes: Que mundo queremos ter? Qual o caminho para um novo renascimento? Que lideranças precisamos? Como nos reerguemos do caos?

António Camara, Professor e investigador no CENSE (Center for Environmental and Sustainability Research) – FCT Nova e fundador da Aromni and TUGA Innovations, responde.

Uma consola do futuro

Os media do futuro podem ser imaginados como parte de uma “consola” tridimensional. Essa consola vai permitir que viajemos, utilizando a voz ou gestos, por temas. Poderemos explorar cada tema, por subtemas referenciados no espaço e no tempo.

Legenda: trabalho experimental desenvolvido pela Aromni para o Sport Lisboa e Benfica

 

A unidade atómica será a “peça”: um clipe de vídeo imersivo ou uma cena sintética em realidade virtual. Estas peças terão descrições verbais que alimentarão modelos de linguagem natural de grande dimensão, utilizados em inteligência artificial generativa. As peças sobre o Mundo Real serão colocadas como “post-its virtuais” no local a que reportam para consulta em realidade aumentada.

Os media do futuro serão, como no presente, gerados por órgãos de comunicação, instituições publicas e privadas e todos nós. Serão uma dimensão virtual aumentando o Mundo Real. Vão também incluir mundos virtuais ficcionados.

Poderemos argumentar que a relação entre o Mundo Real e os media do futuro é semelhante à que existe entre a mensagem e o mensageiro. O que pode fazer uma consola para combater as mudanças climáticas globais, acabar com a guerra entre países, ou desenvolver regiões?

A consola será uma janela que mostrará, a diferentes escalas, os prováveis impactos das mudanças globais e o que teremos de fazer para os minimizar. Não acabará certamente com as guerras, mas contribuirá para, realçando, o seu horror, que se procurem soluções.

2023 será especialmente relevante porque a visão que propus para os media do futuro será realizável conjugando as capacidades dos seres humanos com a ajuda das máquinas que as permitem aumentar.

Os media do futuro, em desenvolvimento pelas principais empresas de tecnologia mundiais, seguem a teoria da agregação. Têm vindo a eliminar a geografia, transformando o Mundo numa loja em que os operadores são as plataformas globais. A Europa apenas os regula. A minha proposta baseia-se na convicção de que as podemos competir e vencer.

Modo de vida “hiper local”

Para o fazer, temos de reinterpretar a teoria da agregação. Temos de trazer de volta o modo de vida “hiper local”. O objetivo é manter e desenvolver as atividades locais, respeitar a Natureza e preservar a Saúde. Pretende-se que os nossos bairros, cidades e regiões continuem humanas, e entende-se que o digital será necessário para o assegurar.

Para o conseguir temos de descer ao nível do bairro e referenciar as suas “peças” ao último detalhe. Essa referenciação permitirá a combinação constante entre a oferta e a procura assegurando uma eficiência económica incomparável, a circularidade, a conservação da Natureza e a preservação da saúde.

A criação de media locais de nova geração será o combustível para o sistema assegurando que os meios de publicidade não vão precisar de dados individuais. A ligação à Internet tradicional permitirá que as janelas globais se mantenham para os empreendedores locais, mas com um balanço invertido.

Os media locais do futuro serão também veículos para garantir uma vida humana baseada na ajuda mútua e com santuários para os menos afortunados. Eles assegurarão que o Mundo continuará a ser o nosso Bairro e não a nossa Loja, e que o nosso Bairro será próspero e solidário.

Esta transformação não será operada de cima para baixo. Ela irá ocorrer de baixo para cima. As lideranças locais e as populações (que as escolherem) farão a diferença.

Arquivado em:Liderança, Notícias

Mais do que humano

23 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Desde que a organização social, o desenvolvimento cognitivo e a adaptação fisiológica dos grupos de hominídeos os (nos) conduziu à criação consciente, e planificada, de realidades não-naturais, que desequilibrámos os ecossistemas das zonas que fomos povoando.

Este desequilíbrio criou novos equilíbrios embora, por vezes, em vertigem suicidária; do mesmo modo, cada etapa desse processo provocou novas adaptações quer sociais, quer psicológicas, muitas vezes vividas em tensão e ruptura. A verdade é que, depois da revolução neolítica ter coberto o mundo (excepto zonas muito isoladas do planeta onde escassos grupos se mantiveram caçadores-recolectores), nenhuma das sucessivas etapas históricas recenseadas contribuiu para repor ou recuperar qualquer estado ideal ou edénico da nossa relação com a Natureza – pelo contrário, todas essas etapas nos foram afastando mais e mais da nossa inicial dependência dos ciclos naturais; o processo histórico caracteriza-se exactamente por esse afastamento e o fenómeno foi contínuo e global.

Através da produção simbólica, da religião e da arte, a Humanidade foi sempre garantindo pontos de contacto com os ciclos naturais e circulares da Natureza. Mas no Ocidente (europeu e norte-americano), a pressão das transformações técnicas, sociais, económicas, políticas e ideológicas conduziu-nos (implicitamente desde o pensamento grego, claramente desde as revoluções científica e industrial dos séc. XVII e XVIII), a um ponto de não retorno em que nos podemos imaginar independentes de todos os constrangimentos que não fossem os da nossa vontade e os da nossa potência e capacidade transformadora.

O processo de romper com os ciclos naturais – entendendo a História como uma linha ascensional, usando a Natureza como um território (ou reserva de riquezas) submetido ao poder de tecnologias sempre mais poderosas e eficazes e interpretável através de leis sempre mais rigorosas e abrangentes, figurando a nossa mente como sujeito heroicizado deste processo e usando o nosso corpo como um território (também ele) de intervenção prioritária (ou seja, libertando-o progressivamente das leis da natureza, nomeadamente das inexoráveis leis da vida e da morte) – , conduziu-nos ao lugar/ ao tempo em que/ onde estamos hoje: uma Humanidade desequilibrada na sua relação com a Natureza, nas relações internas (sociais, económicas, políticas,…) dos seus elementos (individuais e colectivos).

Não importa lamentar passados, que serão sempre idealizados através de construções ficcionais, mas perceber os desafios que, no presente, o peso desse passado coloca ao futuro – de que modo as urgências climáticas e a vastidão das suas consequências, de que modo as tensões (sociais e económicas, educacionais e culturais, tecnológicas e científicas, raciais e de género, ideológicas, políticas e militares …) interiores a cada uma das peças de que se constitui o puzzle (e entre todo o conjunto) mundial podem ser harmonizadas/ reparadas/ espoletadas mantendo a mobilidade e fluidez, capacidade de inovação e invenção de relações que garantiram e que constituem a matriz do próprio processo histórico, desde a hominização aos dias de hoje. Em que medida a sociedade capitalista dominante actual (da informação, da digitalização, da realidade virtual e da realidade aumentada…) pode agravar ou resolver os desafios que se nos colocam?

O processo histórico não tem fim (apenas se encararmos o fim da própria Humanidade!) nem tem fins (nenhum projecto teleológico teve ou pode realmente vir a ser levado a termo); mas esse processo pode ser conduzido, pelos seus agentes activos, para vias de mitigação e revisão de certos caminhos que se vêm revelando como causa dos graves desastres já visíveis, como dos mais graves ainda, já anunciados: a desregulação climática, a crise migratória, a precariedade dos empregos, as tensões sociais e militares, os recuos das democracias e da segurança dos seus cidadãos e das suas liberdades, o crescente domínio das gigantes tecnológicas sobre o quotidiano global, o modo como, juntamente com outros intervenientes como, por exemplo, as indústrias extrativas ou as farmacêuticas, se sobrepõem aos governos no controlo da vida política a partir dos controlo dos mercados financeiros.

A maioria dos organismos internacionais parece bloqueada na sua possibilidade de conduzir de modo eficaz (rápido e em consenso universal) as mudanças que nos proporcionariam menos emissões poluentes, menos fúria extrativa, métodos menos agressivos de obter e consumir alimentos, melhor controlo da blogesfera e da manipulação a que ela sujeita os seus utilizadores. Parece não haver solução senão apostar em intervenções transformadoras de amplitude mais fragmentária ou parcial: alguns governos nacionais, alguns poderes regionais, mesmo de algumas empresas conscientes de que as mudanças de atitude lhes serão lucrativamente benéficas ou, finalmente, apoiar e contar com o poder e a vontade esclarecida (pela intervenção da educação e dos órgãos de informação) de cidadãos individuais ou organizados em colectivos informais que, por vezes, julgam necessário o recurso a acções violentas fazer ouvir a sua voz. Tudo isto é certamente muito pouco e muito disperso no espaço concentrado dos países “do Norte”, os mais ricos, os mais poluidores e, por isso mesmo, aqueles onde faz mais sentido e é mais necessário e mais possível alterar agora a agenda, dois séculos depois de começarem a sua vertiginosa e suicidária corrida. Algumas das alternativas propostas (no campo da produção de energia a partir de fontes não-fósseis) não são, porém, isentas de contradições e é necessário discuti-las – um único exemplo: o que significam, em termos de violência, as louvadas baterias dos veículos eléctricos na realidade dos países pobres que nos fornecem o minério?!

Entretanto, a fuga para a frente não pára e é através do espectro vastíssimo das designadas novas tecnologias e do fascínio de consumo de serviços cada vez mais sofisticados ou da eliminação, em todos os contactos da nossa vida (do nosso corpo), do esforço que o real implica que essa fuga se dá: na vida on line (das compras dos alimentos à compra dos livros, da substituição dos livros físicos por livros descarregados num tablet, da moeda física por NFT, da informação, obtida através de algoritmos que nos dá aquilo de que gostamos, sem nos proporcionar contradição, das idas ao cinema trocadas por filmes escolhidos em catálogo e vistos doméstico, das dificuldades, desencontros, equívocos e excitações proporcionadas pelos encontros amorosos aos encontros por medida, programados no Tinder ou outras plataforma idêntica que nos defenda quer de assédios indesejados quer de acusações de assédio), tudo nos conduz a uma crescente associalização e isolamento. Ao mesmo tempo, as gigantescas instalações onde toda esta informação se aloja e os satélites necessários para a difundir, aumentam exponencialmente o consumo de energia e o lixo espacial; ao mesmo tempo, uma perigosa deriva transhumanista prepara-se para oferecer, através dos avanços da engenharia biónica e ao que será sempre um estreito grupo de privilegiados, um corpo sem doença e sem morte.

As bolsas de resistência dominantes a esta complexa situação não se fazem geralmente valer pela positiva; são, muitas vezes, reacções radicais entendidas como guerra ou choque de civilizações e terrorismo; são, outras vezes, guiadas pela urgência da vontade juvenil e pelo desespero que as anima. Face a estes cenários pouco animadores

gosto de pensar que será do lado dos criadores (dos artistas e escritores, dos pensadores ou dos cientistas) que poderão nascer nunca as soluções, mas os instrumentos de reflexão que hão-de permitir aos cidadãos e aos decisores encontrar caminhos que permitam manter o funcionamento da Humanidade como elemento da Natureza no vasto território do real e do simbólico onde ela se definiu e foi gerada

 

 

Nota: O autor escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico

 

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder

Subscreva a Líder AQUI.

 

Arquivado em:Artigos, Leadership

Em 2023 a economia portuguesa deverá ter um “desempenho frágil” – nova análise aponta

23 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Em 2023, a economia portuguesa deverá ter um desempenho frágil. As previsões apontam para uma dinâmica fraca de investimento, apesar do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e em clima de inflação e retração do consumo privado.

A recente análise do NECEP – Católica Lisbon Forecasting Lab, fala ainda de o risco de uma recessão suave, mas que não é, por agora, o cenário mais provável.

Economia portuguesa e Zona euro 

No quarto trimestre de 2022, a economia portuguesa poderá ter operado em torno de 101.9% do nível pré-pandemia, relativo ao quarto trimestre de 2019.

Os dados são algo contraditórios, mas a melhor estimativa é que a economia portuguesa tenha contraído cerca de 0.5% face ao terceiro trimestre do mesmo ano, o que corresponde a um crescimento de 2.4% em termos homólogos. No conjunto do ano de 2022, a variação deverá ter sido de 6.5%, embora o Governo tenha anunciado um crescimento de 6.8%, o que exigiria um crescimento de 0.4% no último trimestre.

A zona euro deverá ter crescido 0.1% em cadeia no mesmo trimestre, o que é surpreendente já que, até há pouco tempo, parecia inevitável uma ligeira contração.

Em 2022, a zona euro terá crescido 3.4%, ainda sob o efeito do ressalto pós-pandemia que foi travado pela guerra na Ucrânia, pela subida dos preços da energia e por uma taxa de inflação anormalmente elevada (8.4%).

Em Portugal, a inflação média foi de 7.8% em 2022 (com uma variação homóloga de 9.6% em dezembro), embora seja razoável esperar que possa descer para cerca de 6.0% em 2023, fruto da recente desaceleração. A política monetária do BCE deverá contribuir para uma redução da inflação na zona euro e em Portugal, mas apenas no limiar de 2024, dado que as taxas diretoras estão ainda no intervalo entre 2.00% e 2.75%.

Assim, tudo indica que o BCE deverá subir as taxas de juro de referência ao longo dos próximos meses, seguindo a liderança da Reserva Federal norte-americana neste âmbito, de modo que as taxas de juro se aproximem de níveis que sejam neutros em termos de estímulo da atividade económica e compatíveis com o objetivo de médio prazo em termos de inflação (2%).

Desempenho frágil e investimento fraco

A economia portuguesa deverá ter um desempenho frágil em 2023, com um intervalo de previsão que vai de uma contração de 1% até uma expansão de 2%, centrado em 0.5%. O investimento apresenta uma dinâmica fraca – deverá ter avançado apenas 2.1% em 2022 – apesar do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Outros fatores a observar são a evolução da inflação e das taxas de juro, bem como os limites ao crescimento do turismo. O consumo privado poderá ressentir-se em função da redução real do rendimento disponível, que poderá ser parcialmente mitigado pela redução da poupança.

A economia da zona euro deverá ter um comportamento semelhante, com o ponto central do crescimento do PIB em 0.7% e um intervalo compreendido entre uma contração de 0.6% e uma expansão de 2.0%.

Os principais fatores de risco são a evolução da economia mundial, em particular, os desenvolvimentos nos EUA e na China que abandonou a sua política de Covid zero. Os preços da energia, a inflação e a subida das taxas de juro permanecem como principais condicionantes da evolução da economia, numa altura em que a guerra na Ucrânia, um desenvolvimento trágico, não parece ser um fator adicional de pressão sobre a economia europeia.

Em Portugal, o saldo estrutural poderá melhorar cerca de um ponto percentual face a 2022, fruto da redução do rendimento disponível dos pensionistas em termos reais, a principal medida de ajustamento orçamental de 2023. O saldo primário e a evolução da inflação poderão contribuir para a redução do peso da dívida pública no produto, mas a subida das taxas de juro poderá acarretar riscos adicionais para o défice nominal e para a sustentabilidade da dívida a longo prazo.

 

Relatório completo em www.clsbe.ucp.pt

Arquivado em:Economia, Notícias

Filipa Feijó é a nova COO do Gato Preto

23 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Filipa Feijó é a nova Chief Operations Officer do Gato Preto, ficando responsável pelas equipas das áreas de Retail Operations, Design de Produto e Visual Merchandising de Portugal e Espanha.

A profissional conta com uma experiência profissional de mais de 20 anos na área de retalho, assumindo cargos de responsabilidade estratégicas nas áreas de Produto, Merchandising e Vendas, em várias insígnias da SONAE, nomeadamente na Sportzone, Zippy e MO, esta última onde esteve quatro anos como Head of Merchandising.

Filipa Feijó é natural do Porto, tem formação em Business Administration pela American International University de Londres, fez uma pós-graduação em Auditoria e controlo de Gestão, na Universidade Católica do Porto e mais recentemente um curso em Fashion Buying and Merchandising na London College of Fashion.

É com muita alegria e empenho que respondo a este novo desafio, com o objetivo de poder continuar a desenvolver o negócio do Gato Preto, integrando as equipas de uma maneira ágil e eficiente, com o intuito de aportar valor e excelência do serviço aos nossos clientes

Filipa Feijó, Chief Operations Officer do Gato Preto

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Lourenço Ovídio: «Na Abreu Advogados a Web 3.0 foi um dos motores de inovação»

20 Janeiro, 2023 by Denise Calado

O livro digital A Direito no Metaverso é a primeira publicação no setor jurídico em Portugal que avalia e antecipa o tema nas diferentes vertentes jurídicas. «Lançámos este livro num evento no Metaverso, num auditório onde reunimos as nossas equipas e alguns parceiros para que, em conjunto, experimentássemos o futuro», partilha Lourenço Ovídio, Diretor de Comunicação e Marca da Abreu Advogados, explicando que o lugar do Metaverso foi testado e avaliado internamente nos eventos e canais de informação.

Colocámos a pergunta: Será o Metaverso a nova dimensão das marcas? Lourenço Ovídio aceitou o desafio:

«A Web 3.0 já não é uma tendência, mas o caminho inevitável para as marcas na atualidade, permitindo reunir o que de melhor aprendemos nos últimos anos sobre os benefícios do digital na qualidade da experiência de contacto com os nossos públicos.

Ao aumentar a capacidade das marcas interagirem com diferentes audiências, em simultâneo e sem a barreira da distância física, o Metaverso promove um contacto que gera constantemente dados, permitindo às marcas conhecerem melhor os seus públicos num ambiente que é dinâmico e quase infinito nas possibilidades de personalização. Este canal digital promove também a inclusão e a diversidade ao permitir que os seus utilizadores participem de qualquer lugar com acesso à Internet e se expressem livremente em avatares personalizáveis. Na Abreu Advogados a Web 3.0 foi, este ano, um dos motores de inovação em comunicação. Enquanto testámos e avaliámos internamente o lugar do Metaverso nos nossos eventos e canais de informação, fomos também promotores de um debate sobre os seus desafios».

 

Por TitiAna Amorim Barroso

Este artigo foi publicado na edição de inverno da revista Líder

Subscreva a Líder AQUI.

Arquivado em:Leading Brands

Paula do Espírito Santo diz o que espera para Portugal em 2023

20 Janeiro, 2023 by Denise Calado

Vivemos tempos de exceção, de uma “tempestade perfeita”, entre a guerra na Europa, a pressão económica, uma crise sanitária que persiste e a fúria da natureza sempre sábia. Mas também vivemos dias extraordinários, em que a tecnologia se uniu ao Homem, a ciência e a medicina trouxeram esperança e as novas gerações levantam vozes e colocam o dedo nas feridas da discriminação e do estigma.

Neste início de 2023, colocámos o desafio a vários líderes: Que mundo queremos ter? Qual o caminho para um novo renascimento? Que lideranças precisamos? Como nos reerguemos do caos?

Paula do Espírito Santo, Professora Associada com Agregação do ISCSP/CAPP/Universidade de Lisboa, responde.

 

 

A entrada do Ano Novo vem, por regra, carregada de esperança, desejos, promessas individuais e coletivas de superação, renovação, resiliência, força para mais e melhor. São os votos normais. Contudo, a renovação do Ano também se faz, para além das suas dimensões aspiracionais, com a reflexão sobre em que medida podemos efetivamente alcançar metas, horizontes e patamares de exceção quando temos de partir do ponto em que estávamos e estamos.

Afinal são o presente e o passado que nos alavancam o futuro.

Ou seja, a questão que se coloca é: como fazer mais e melhor com o que temos e somos, aqui e agora?

Com a bitola do presente fazem-se contas privadas e públicas para remediar prejuízos. E com a esperança no horizonte, à entrada de 2023, entre o mundo que queremos ter e aquele que desejamos, parece haver um hiato gigantesco. Este hiato gera-se quando o tempo, à escala europeia e global, é de insegurança, incerteza política e económica, acentuados por um aparente final de pandemia, logo coadjuvado pelo tremendo choque e incredulidade pública, que se arrasta com uma guerra, sem fim à vista, que vem acompanhada de caos e devastação. Num plano de incertezas e com o cálculo e previsões possíveis, a nível financeiro, as medidas adotadas parecem panaceias de curto espetro, com resoluções do Banco Central Europeu. Estas são sustentadas em cálculos com vista a serem atenuantes dos impatos da crise, suportados, no nível imediato, no aumento de taxas de júri e no travão nas compras de dívida pública, com efeitos esperados de maior liquidez mas também de responsabilização das capacidades económicas e financeiras das economias soberanas da zona euro. Entre uma crise humanitária derivada de uma guerra que é condenada, genericamente, pela comunidade internacional, com uma escalada imprevisível de um conflito, que acentua fragilidades energéticas e económicas, sobretudo nos países fortemente dependentes do mercado russo, incluindo algumas das economias fortes da União Europeia, o inverno europeu promete trazer um dos piores infernos dos últimos anos, também e sobretudo no plano humanitário.

E o fim à vista da guerra simplesmente não parece vislumbrar-se.

E o espaço político alcança novos horizontes de promessas e panaceias que prometem a superação e resolução rápida e eficaz dos males que a democracia e as suas ferramentas centenárias, não parecem conseguir alcançar, no prazo de tempo que a urgência impõe. Estas soluções acabam por questionar e aproveitar-se, de forma pragmática política e eleitoralmente, das vulnerabilidades das ferramentas centenárias do Estado de Direito democrático, baseadas no respeito de liberdades individuais, coletivas e de imprensa, na igualdade, na separação de poderes, sustentadas estas últimas em pilares fortes que Montesquieu (1748), no seu L’ Esprit des Lois, preconizou. Soluções politicamente demagógicas alcançam espaço nas brechas institucionais que as imperfeições democráticas deixam à luz e em público, muitas vezes derivadas da intervenção de escrutínio de um quarto poder vigilante e quase atuante, o poder da informação e da liberdade de imprensa, em democracia.

E os vãos de erosão democráticos dão espaço ao fortalecimento dos novos poderes políticos e eleitoralistas e colocam sob tensão a resistência e a vitalidade dos alicerces do Estado de Direito democrático.

E o fosso entre ricos e pobres cresce, e crescem e expõem-se fraquezas sociais, sobretudo, aquelas que estão na base das desigualdades materiais que acentuam as fragilidades dos mais pobres, dos mais jovens, dos mais velhos, mas também das classes médias, fraquezas que são acompanhadas pelo afundar de esperança no alcançar de condições dignas de acesso a direitos essenciais como os direitos à habitação ou à saúde.

Perante um cenário politicamente desafiante, a resposta à questão sobre qual o caminho para um novo Renascimento, tendo em conta o aparente esgotamento e esvaimento de recursos e propostas democráticos, deve ser encarada de um ponto de vista cívico e político.

Ou seja, a resposta passa pelo amadurecimento do processo democrático, por via das instituições, das lideranças mais exigentes, da participação cívica assertiva, conhecedora, na linha da qual Dalton e Welzel (2014), na obra From Allegiant to Assertive. Citizens, preconizaram. Ou seja, a passagem de um conjunto de Nações relativamente passivas, do ponto de vista cívico, para a uma cultura política assertiva, baseada no conhecimento e na educação constitui um dado que as democracias ocidentais e a ciência política têm vindo a explorar, com demandas e exigências distintas, consoantes os níveis nacionais de maturação democrática. A resposta à questão acima (qual o caminho para um novo Renascimento?) passa, como passou no passado, pelo aprofundamento dos pilares que a Ciência, a Educação e a História da cultura política democrática tem apontado mas que, por vicissitudes também democráticas, nem sempre são devidamente aproveitadas e exploradas.

Ou seja, a reinvenção da democracia faz-se à medida que os processos de democratização se ajustam às novas necessidades e às novas exigências cívicas e políticas.

Aos maiores níveis de assertividade acoplam-se ou deviam acoplar-se lideranças públicas e políticas suficientemente esclarecidas e conhecedoras da importância das necessidades de transparência, da nobreza e entrega ao serviço público, pelo serviço público e eticamente ancorado. Assim podemos erguer-nos do caos, ou pelo menos ter os instrumentos necessários para avançar sobre bases e caminhos mais estáveis e convergentes com os interesses nacionais, das populações, das instituições, convergindo nos principais centros de decisão política, democraticamente eleitos, as decisões que são erigidas pelo povo e para o povo.

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