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Leonor Wicke

Diversidade nos ‘boards’ traz vantagens, mas só funciona com inclusão real, alertam especialistas

21 Maio, 2026 by Leonor Wicke

A diversidade nos conselhos de administração é hoje vista como um fator essencial para melhorar a tomada de decisão, estimular inovação e evitar fenómenos de groupthink. No entanto, sem uma cultura verdadeiramente inclusiva, essa diversidade pode transformar-se em tensão, exclusão e perda de talento.

A conclusão é de um artigo publicado na Harvard Business Review, assinado por Linda A. Hill, Lynn S. Paine e James I. Cash Jr., académicos da Harvard Business School.

Os autores defendem que conselhos mais diversos só conseguem gerar valor quando todos os membros se sentem verdadeiramente ouvidos, respeitados e envolvidos nas decisões estratégicas. Caso contrário, as diferenças de perspetiva podem gerar conflitos, mal-entendidos e até silenciamento de vozes menos dominantes.

Para explorar este tema, os investigadores entrevistaram 30 administradores experientes, responsáveis por integrar conselhos de empresas com um valor de mercado combinado de 18 biliões de dólares. Quase metade dos participantes eram negros e 40% eram mulheres. Todas as empresas, com exceção de quatro, estão cotadas nos Estados Unidos, e cerca de 60% fazem parte do Índice S&P 500.

Inclusão não acontece automaticamente

Uma das principais conclusões do artigo é que a inclusão exige intenção, liderança e trabalho contínuo. «Inclusão não é um número, é um espírito», refere um dos administradores citados na investigação.

Os autores alertam que pequenas atitudes aparentemente insignificantes podem ter um impacto profundo na dinâmica dos conselhos. Interromper colegas, ignorar comentários, consultar o telemóvel enquanto alguém fala ou não reconhecer determinadas intervenções pode transmitir desrespeito e fazer com que alguns administradores sintam que as suas opiniões têm menos peso.

Por outro lado, práticas simples – como incentivar alguém a aprofundar uma ideia, promover conversas informais antes das reuniões ou integrar deliberadamente novos membros nas dinâmicas do grupo – podem fortalecer a confiança e melhorar a qualidade das discussões estratégicas.

Experiência já não é o único critério

O artigo mostra também que as empresas estão a adotar uma visão mais abrangente na escolha de administradores. Para além dos cargos tradicionalmente valorizados, como CEO ou CFO, cresce a procura por perfis com experiência em tecnologia, inovação, transformação digital ou mercados internacionais.

Mais do que experiência formal em conselhos de administração, os autores sublinham a importância de competências interpessoais, capacidade de escuta, humildade, inteligência emocional e coragem para levantar questões difíceis.

Os investigadores defendem ainda que os conselhos devem estar mais abertos a administradores sem experiência prévia neste tipo de funções, desde que tragam perspetivas relevantes e capacidade de contribuir estrategicamente para a organização.

Liderança define a cultura do conselho

Segundo o artigo, os presidentes dos conselhos e líderes de comité desempenham um papel determinante na construção de culturas inclusivas. Não basta garantir diversidade formal; é necessário criar ambientes onde todas as vozes tenham espaço para participar de forma efetiva.

Os melhores líderes, defendem os autores, são aqueles que conseguem facilitar discussões equilibradas, desenvolver novos líderes dentro do conselho e perceber quando determinados membros se sentem excluídos ou pouco valorizados.

A investigação destaca ainda a importância dos momentos presenciais e informais. Jantares, visitas conjuntas e reuniões face-to-face ajudam a construir relações de confiança e fortalecem o sentimento de pertença — algo particularmente relevante num contexto empresarial cada vez mais digital e remoto.

Onboarding e integração são decisivos

Os primeiros meses de um administrador dentro de um conselho podem ter um impacto desproporcional na forma como será percecionado ao longo do tempo. Os autores alertam que membros provenientes de grupos minoritários enfrentam frequentemente expectativas implícitas para representarem apenas determinadas causas ou comunidades.

Para contrariar esse risco, recomendam programas de integração mais personalizados, sistemas de mentoria e um esforço mais ativo por parte dos administradores mais antigos na criação de relações com os novos membros.

O risco dos ‘conselhos dentro do conselho’

Outro dos alertas deixados pela investigação prende-se com a criação de grupos internos de influência – aquilo a que os autores chamam board-within-a-board.

Este fenómeno acontece quando alguns administradores se tornam interlocutores privilegiados da gestão executiva, enquanto outros permanecem afastados das decisões informais mais relevantes. Embora estas dinâmicas possam parecer inofensivas, acabam por criar culturas de insiders e outsiders, enfraquecendo a confiança e reduzindo a diversidade de pensamento dentro do conselho.

A principal conclusão do artigo sublinha que diversidade sem inclusão não gera verdadeira vantagem competitiva. Para os autores, as organizações mais fortes serão aquelas capazes de criar ambientes onde diferentes perspetivas coexistem, contribuem e influenciam efetivamente a tomada de decisão.

Arquivado em:Diversidade e Inclusão, Notícias

Cyberbullying continua a ser desvalorizado em Portugal apesar de 95% o considerarem um problema grave

21 Maio, 2026 by Leonor Wicke

A utilização intensiva da Internet e das redes sociais está a aumentar a exposição dos portugueses ao cyberbullying, um fenómeno que continua a ter forte impacto emocional e psicológico, mas que muitos consideram ainda insuficientemente combatido. A conclusão é de um novo estudo da ConsumerChoice, que revela que 95% dos portugueses consideram o cyberbullying um problema sério em Portugal.

Segundo o estudo, embora o tema seja amplamente reconhecido pela população, persistem falhas ao nível da prevenção, da formação e da resposta das plataformas digitais e da sociedade.

Portugueses passam cada vez mais tempo online

A crescente digitalização da sociedade portuguesa trouxe novas oportunidades, mas também novos riscos. Atualmente, 79% dos portugueses utilizam a Internet várias vezes por dia, sobretudo para redes sociais (82%), entretenimento, como videojogos (73%), e acesso à informação (72%).

No entanto, esta utilização intensiva também aumenta a exposição a comportamentos abusivos no ambiente digital.

De acordo com o estudo, 93% dos inquiridos já ouviu falar de cyberbullying, demonstrando um elevado nível de reconhecimento do fenómeno.

Mais de metade dos portugueses já testemunhou cyberbullying

Os dados mostram que o problema continua presente no quotidiano digital dos portugueses. Cerca de 50% dos inquiridos considera o cyberbullying um problema muito sério, enquanto 45% o classifica como algo sério.

Além disso, 56% afirma já ter testemunhado situações de cyberbullying e 18% admite já ter sido vítima deste tipo de comportamento online.

Entre os casos mais frequentes destacam-se:

  • Comentários ofensivos (83%);
  • Partilha de conteúdos sem consentimento (41%);
  • Ameaças (38%);
  • Humilhação pública (32%).

Apesar da dimensão do problema, continua a existir uma tendência para a sua desvalorização, dificultando a prevenção e o combate eficaz.

Falta de ação continua a ser um problema

Embora 76% dos utilizadores se considerem informados sobre segurança online, o estudo identifica um desfasamento entre conhecimento e ação. Perante situações de cyberbullying, 10% admite não saber como reagir enquanto que 5% opta por ignorar o problema.

Ainda assim, muitos consumidores já recorrem a ferramentas de proteção digital, como:

  • Bloquear utilizadores (68%);
  • Controlar o acesso a dados pessoais (58%);
  • Denunciar conteúdos (53%);
  • Manter perfis privados (44%).

No entanto, a utilização destas ferramentas continua a ser inconsistente.

Portugueses defendem mais educação digital e sensibilização

Para os participantes no estudo, a prevenção do cyberbullying deve começar nos comportamentos individuais e numa utilização mais responsável da Internet.

Controlar a privacidade dos conteúdos, evitar a partilha de informação sensível e adotar uma postura respeitosa online são algumas das atitudes apontadas como fundamentais para reduzir riscos digitais.

Mais do que depender apenas de tecnologia, 81% dos inquiridos considera muito importante desenvolver uma verdadeira consciência digital.

Falta formação sobre cyberbullying e segurança online

O estudo evidencia também fragilidades ao nível da formação e da informação disponível. Apenas 38% dos inquiridos recebeu formação sobre segurança online e 61% considera que falta informação sobre como agir em situações de cyberbullying.

A responsabilidade pelo combate ao problema é vista como partilhada entre vários agentes da sociedade: família (72%), escola (62%), empresas tecnológicas (36%), estado (31%) e utilizadores (22%).

Além disso, 84% afirma que a informação atualmente disponível sobre cyberbullying não é suficientemente clara.

Mais ferramentas, apoio psicológico e campanhas de sensibilização

Entre as principais medidas defendidas pelos consumidores para combater o cyberbullying estão:

  • Ferramentas mais eficazes nas plataformas digitais (64%);
  • Mais campanhas de sensibilização (58%);
  • Maior investimento em formação (54%);
  • Mais apoio psicológico às vítimas (53%).

No geral, 62% dos portugueses acredita que o cyberbullying continua a ser desvalorizado em Portugal, enquanto 31% considera que é parcialmente desvalorizado.

A maioria defende ainda mais educação sobre o tema, sobretudo nas escolas (88%) e nos meios de comunicação social (67%).

Ansiedade, depressão e isolamento estão entre os principais impactos

O estudo conclui que o impacto do cyberbullying é considerado profundo e transversal pela maioria dos portugueses.

Entre as consequências mais referidas surgem:

  • Ansiedade e depressão (92%);
  • Isolamento social (81%);
  • Problemas de autoestima (81%);
  • Impacto no desempenho escolar ou profissional (67%).

Arquivado em:Nacional, Notícias, Sociedade

Acelerar o potencial humano é acelerar a Transição Energética

21 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Nós acreditamos verdadeiramente que esta transformação só se torna real quando começa nas pessoas com quem trabalhamos todos os dias. É por isso que procuramos contribuir ao colocar as pessoas no centro: não apenas do negócio, mas também da conversa.

Os colaboradores podem, de facto, ser os maiores embaixadores de uma organização. Mas isso não acontece por acaso. Resulta da construção de equipas que não são apenas competentes, mas genuinamente motivadas e envolvidas com a mudança que temos pela frente.

Essa preparação vai muito além das competências técnicas. Trata-se de criar um ambiente onde as pessoas sintam que pertencem, onde exista equilíbrio e onde a cultura desempenhe um papel ativo na forma como o trabalho é realizado.

Hoje, o bem-estar deixou de ser um nice to have para passar a ser uma prioridade estratégica. As organizações que investem na qualidade de vida dos seus colaboradores não estão apenas a fazer o que é certo; estão a construir negócios mais fortes, mais inovadores e mais sustentáveis.

Ainda assim, o bem-estar não é um conceito unidimensional. É emocional, mental, social, físico e financeiro e manifesta-se na experiência diária de cada pessoa. Quando uma destas dimensões falha, isso impacta a colaboração, o desempenho e, em última análise, os resultados.

É por isso que a cultura, o talento e o mindset não são ideias abstratas. São o resultado de decisões muito reais e intencionais, e é aqui que a liderança faz a diferença.

Criar ambientes inclusivos, fomentar a colaboração, reconhecer contributos; estas não são apenas práticas de gestão, são as bases que permitem às pessoas dar o seu melhor.

Num setor tão dinâmico e orientado por propósito como o nosso, esse sentido de propósito é ainda mais relevante. Podemos ter a melhor tecnologia e os planos mais ambiciosos, mas sem equipas alinhadas e comprometidas, a transformação ficará sempre aquém.

Na minha perspetiva, o verdadeiro desafio não é apenas atrair talento, mas criar as condições para que esse talento cresça, contribua e permaneça.E isso constrói-se no dia a dia: na forma como ouvimos, como damos feedback, como tomamos decisões e como cuidamos dos pequenos detalhes que moldam a experiência das pessoas no trabalho.

Porque, no fim, a cultura não se constrói em grandes declarações, mas em ações quotidianas. Está nas conversas que temos, na confiança que potenciamos e na consistência entre o que dizemos e o que fazemos.

Acredito verdadeiramente que, quando as pessoas se sentem valorizadas, compreendidas e parte de algo com significado, tudo muda: a forma como colaboram, a energia que trazem e o impacto que criam. E, se queremos avançar mais rapidamente como indústria, precisamos de criar esses ambientes, lugares onde as pessoas não só contribuem, mas onde querem genuinamente ficar e crescer.

Hoje vale a pena recordar algo simples mas poderoso: quando aceleramos o potencial humano, aceleramos a transição energética.

Arquivado em:Opinião

Juliana Aguiar é a nova Business Director da Talenter

21 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Juliana Aguiar construiu a sua carreira através de diferentes funções e desafios em várias marcas do grupo, desenvolvendo uma visão transversal das operações e uma forte ligação às vertentes comercial e operacional, nomeadamente no acompanhamento de clientes e na gestão de equipas.

Licenciada e mestre em Psicologia, a nova Business Director destaca a importância da proximidade humana, da gestão emocional e da construção de relações de confiança como pilares fundamentais no contexto profissional.

«Integrar agora a direção da área de negócio da logística representa para mim um grande desafio que encaro com entusiasmo e motivação e, ao mesmo tempo, o reconhecimento de um percurso construído com dedicação, proximidade e compromisso. É uma área muito dinâmica e exigente, onde acredito que o acompanhamento próximo, a capacidade de resposta e o trabalho em equipa fazem toda a diferença», afirma Juliana Aguiar.

A experiência mais recente na Knower, empresa do grupo especializada em outsourcing, permitiu-lhe consolidar competências de gestão operacional e liderança em contextos de elevada exigência e proximidade ao cliente.

Para Nuno Cochicho, Chief Operations Officer da Talenter, esta nomeação representa uma aposta natural e estratégica: «A decisão de desafiar a Juliana para a função de Business Director Logística teve em conta a vasta experiência na área do trabalho temporário, a forte orientação para o cliente e a capacidade de gestão humanizada das equipas de trabalho. A experiência recente da Juliana na Knower permitiu-lhe consolidar o seu percurso profissional e dar-lhe as ferramentas necessárias para o mundo desafiante da Logística».

A área de Logística da Talenter tem vindo a assumir um papel estratégico no apoio às operações dos seus clientes, num contexto de crescente procura por soluções flexíveis, capacidade de resposta operacional e gestão eficiente de talento em setores críticos para a economia nacional. Atualmente, esta unidade de negócio apresenta um volume de negócios anual de cerca de 9 milhões de euros, prevendo alcançar os 15 milhões de euros em 2026.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Catarina Peleja é a nova Diretora Financeira da Cofidis

20 Maio, 2026 by Leonor Wicke

Com esta reestruturação, Catarina Peleja passa a liderar uma equipa de cerca de 85 pessoas, distribuídas por cinco serviços (Conformidade operacional, Controlo de gestão, Serviço jurídico, Risco cliente, Gestão de fraude e Contabilidade). A sua principal missão será garantir o alinhamento estratégico entre a gestão financeira, a supervisão de risco e a garantia da qualidade em todos os serviços.

Antes de regressar à Cofidis em 2020 como Diretora de Risco, consolidou a sua experiência na área da consultoria e também no setor bancário. É licenciada em Matemática Aplicada à Economia e Gestão e concluiu um MBA em 2023, ambos pelo ISEG.

«É com um enorme sentido de responsabilidade e entusiasmo que aceito este novo desafio na Cofidis», afirma Catarina Peleja, nova Diretora Financeira, Risco e Qualidade da Cofidis Portugal. «Agradeço a confiança e reafirmo o meu compromisso com o crescimento sustentável e a solidez que caracterizam a Cofidis e que nos permitem continuar a ser um pilar de confiança.»

Catarina Peleja sucede a Pavlina Borovkova, que transita para o cargo de Diretora Central de Risco na sede global do Grupo Cofidis.

Arquivado em:Notícias, Pessoas

Uma empresa pode ser eficiente e «estar a jogar o jogo errado», explica Adrián Caldart

20 Maio, 2026 by Leonor Wicke

A obsessão pela eficiência operacional está a fazer com que muitas empresas se tornem excelentes «a jogar o jogo errado». A ideia é defendida por Adrián Caldart, Professor de Práticas de Gestão da AESE Business School e coordenador do livro A Direção Geral como Política de Empresa.

Em entrevista à Líder, o académico argentino alerta para os riscos de uma gestão excessivamente focada no curto prazo e defende que liderança, ética, visão de futuro e cultura organizacional continuam a ser fatores decisivos numa era dominada pela IA e pela transformação tecnológica. Para o especialista, as empresas que sobreviverão não serão necessariamente as mais eficientes, mas as que conseguirem construir valor, propósito e diferenciação a longo prazo.

O livro defende essencialmente que a direção geral deve ir além da gestão operacional. O que é que isso significa, na prática?

Na prática, quando estamos a gerir uma organização, existe uma classificação clássica com três níveis de gestão. Há uma gestão operacional, que é o mundo das soluções técnicas, das soluções algorítmicas – e aqui não falo apenas de algoritmos digitais, porque este é um conceito que já vem dos anos 50. É um nível heurístico, ou de gestão intermédia, que mistura soluções técnicas com soluções mais humanas e intuitivas. Aqui já são necessários conhecimentos de comunicação, trabalho em equipa, liderança, entre outros.

E por fim temos o nível da direção geral, que já é um nível mais político. É aí que lidamos com problemas muito mais abertos, com várias dimensões interdependentes e com vontades que reagem às nossas decisões. Por exemplo, quando lançamos um novo produto e a concorrência responde, ou quando alteramos preços e os consumidores reagem de formas pouco previsíveis.

No livro defendemos que a direção geral se baseia em três grandes áreas de governação. A primeira é a estratégia, ou seja, o “quê” da empresa: em que negócio atua e qual é o seu posicionamento.

A segunda é a organização, o “como”: como se desenvolvem capacidades, sistemas de gestão e, também, tudo o que está ligado à gestão de pessoas, cultura organizacional, liderança e motivação das equipas.

E a terceira área é aquilo a que chamamos configuração institucional, mais conhecida como corporate governance. Aqui entram todas as questões relacionadas com quem toma as últimas decisões dentro da organização e quais são os interesses e objetivos de quem detém o poder. Pode ser uma família empresária, gestores de topo, fundos de investimento ou até o Estado.

Defendemos que esta terceira dimensão é fundamental porque é ela que determina até onde certas estratégias são possíveis. Um fundo de private equity, por exemplo, pode querer maximizar valor em quatro ou cinco anos para vender a empresa. Já uma empresa familiar pode privilegiar continuidade, legado e reputação, sacrificando ganhos de curto prazo em favor da sustentabilidade a longo prazo.

Sem compreender esta dimensão política e institucional, torna-se difícil perceber quais são as estratégias verdadeiramente viáveis.

Que riscos existem quando uma liderança se reduz apenas à eficiência operacional? O que é que pode correr mal?

O grande risco é perder visão de longo prazo. Quando uma organização está demasiado focada na operação diária, assume implicitamente que o mundo não muda e que basta fazer o dia a dia de forma eficiente.

Mas os fatores externos mudam constantemente: guerras, inflação, crises geopolíticas, pandemias ou até mudanças geracionais e culturais na forma como os consumidores e os colaboradores encaram as empresas.

Se estivermos “sufocados” na operação, estamos cegos perante estas mudanças. E isso leva-nos a jogar muito bem o jogo errado.

Há uma diferença importante entre eficiência e eficácia. Eficiência é fazer bem as coisas. Eficácia é fazer as coisas certas. Uma empresa pode ser muito eficiente operacionalmente e, ainda assim, estar completamente desalinhada com aquilo que o mercado realmente precisa.

Num contexto empresarial marcado por pressão, resultados e transformação tecnológica acelerada, ainda há espaço para princípios filosóficos, éticos e humanos?

Quando há muita pressão de curto prazo, as organizações tendem a correr atrás das urgências e a dar respostas sintomáticas.

Mas, precisamente em momentos de grande incerteza, é fundamental saber qual é o propósito da empresa. Pode parecer um conceito repetido, mas é essencial perguntar: «Para que existimos?» e «Qual é a nossa missão?».

É impossível exercer bem a função de diretor-geral sem ter uma visão de onde se quer estar daqui a três ou cinco anos. Claro que o mundo muda e obriga a rever planos, acelerar ou travar decisões, mas não podemos viver numa lógica de adaptação total ao curto prazo.

Qualquer organização respeitada e admirada construiu-se ao longo do tempo através de uma visão consistente. Nenhuma empresa sólida foi criada com improvisações diferentes a cada trimestre.

Quando uma organização vive apenas a apagar fogos, cinco anos depois continua exatamente no mesmo sítio: sem tecnologia diferenciadora, sem marca forte e sem uma cultura organizacional sólida.

Como é que se abre espaço para estas questões mais humanas no dia a dia das empresas?

Muitas empresas tratam temas como missão, valores ou propósito como meras ferramentas de comunicação e relações públicas. Mas isso só funciona quando existe verdadeira convicção por parte da liderança. Se quem detém o poder acredita genuinamente nesses valores e os vive no dia a dia, as pessoas percebem. E valorizam.

As empresas que cuidam das pessoas em momentos difíceis, indo além do que a lei obriga, acabam por criar relações de confiança muito fortes. E quando a empresa precisa dos colaboradores, esses colaboradores lembram-se disso.

Pelo contrário, se uma organização fala de valores mas, perante uma crise, reage de forma brutal e contraditória, destrói completamente a sua credibilidade.

A cultura constrói-se através do exemplo e da consistência ao longo do tempo. Não se cria em seis meses.

Que competências relacionadas com a inteligência artificial vão ser diferenciadoras nos líderes dos próximos anos?

Hoje um líder empresarial não precisa de ser especialista em inteligência artificial, mas tem obrigação de compreender profundamente o seu potencial.

Vejo três grandes dimensões. A primeira é a IA como ajuda pessoal, algo que já todos utilizamos de alguma forma no trabalho individual.

A segunda dimensão é a otimização dos workflows e processos das empresas. Há um enorme potencial em áreas como recrutamento, análise de dados ou automatização de tarefas.

E a terceira é estratégica. A IA permite analisar tendências macroeconómicas, dados setoriais e cenários futuros com uma velocidade e profundidade que antes exigiam muito mais tempo e recursos.

Claro que a experiência humana continua a ser essencial para interpretar criticamente essas análises. Mas ignorar esta transformação tecnológica representa um risco muito sério para qualquer líder.

O que permanece do outro lado da balança e continua a depender exclusivamente da liderança humana?

As grandes decisões políticas devem continuar nas mãos das pessoas. A inteligência artificial pode apoiar tecnicamente a tomada de decisão, mas não substitui valores, cultura, sensibilidade ou visão humana.

Os valores da IA são os valores implícitos nos dados com que foi treinada. Mas cada organização tem a sua identidade própria, os seus princípios, a sua forma de estar e de liderar. Há coisas que têm a ver com o nosso estilo e gosto pessoal pelas coisas. Isso não pode ser totalmente delegado à tecnologia. Pelo menos por agora.

Dito isto, já há empresas que têm CEO’s de IA. Boa sorte com isso, eu nunca trabalharia numa dessas empresas (risos).

Existe alguma tendência ou preocupação comum entre todos os autores do livro?

É interessante ler os três primeiros capítulos do livro, porque são os mais filosóficos, e diria que todos os autores partilham essa mesma perspetiva.

Os capítulos seguintes são mais instrumentais e abordam temas clássicos da gestão, como estratégia competitiva, estratégia corporativa, inovação ou gestão de risco. Ainda assim, mesmo sendo capítulos mais técnicos e práticos, estão todos enquadrados pelo mesmo framework conceptual definido nos primeiros capítulos.

Diria que essa é precisamente a razão de ser do livro: é uma obra com uma visão do mundo. Muitas vezes, sobretudo na literatura internacional, evita-se assumir um ponto de vista mais filosófico, talvez por uma preocupação excessiva com a neutralidade ou com uma lógica puramente empírica.

Nós assumimos claramente uma perspetiva filosófica e humanista, e penso que isso é um dos grandes pontos fortes do livro.

O que distingue um bom gestor de um líder de direção geral?

Um diretor-geral precisa, antes de mais, de capacidade de foresight, ou seja, visão de futuro. Precisa de compreender profundamente o contexto onde a organização atua, diagnosticar tendências e projetar racionalmente a empresa no futuro.

Também precisa de ter visão de conjunto. Muitos gestores funcionais chegam à direção geral, mas continuam a olhar para a empresa apenas através da lente da sua área — marketing, finanças ou operações.

A direção geral exige capacidade para integrar todas as dimensões do negócio e ponderar simultaneamente fatores estratégicos, humanos, financeiros e operacionais.

Essa visão global não é automática. Desenvolve-se através da experiência, formação e exposição a diferentes áreas da organização.

Que desafios específicos enfrentam hoje as empresas portuguesas?

As empresas portuguesas têm uma particularidade: para crescerem verdadeiramente, precisam de se internacionalizar. O mercado interno é demasiado pequeno.

Mas, ao contrário de grandes multinacionais americanas ou chinesas, as empresas portuguesas têm de sair para o exterior antes de atingirem grande escala.

Isso significa que não podem competir apenas pelo custo. Precisam de competir através de diferenciação, inovação, marca, qualidade ou posicionamento estratégico.

Portugal dificilmente ganhará uma guerra de preços. O seu caminho está na criação de valor.

Ao mesmo tempo, existe uma vantagem cultural importante: os portugueses têm uma grande abertura ao internacional e uma naturalidade em trabalhar com outros mercados que nem sempre existe noutros países europeus, como em Espanha, por exemplo.

Como é que estas dimensões mais humanistas estão a ser integradas nos programas de formação da AESE?

Há duas formas principais. A primeira passa pela existência de disciplinas específicas ligadas à ética, direção de pessoas e tomada de decisão prudencial.

Mas a segunda é talvez ainda mais importante: independentemente do tema — estratégia, marketing ou finanças — procuramos que a dimensão humanista esteja sempre presente na discussão.

Quando analisamos um caso empresarial, procuramos sempre introduzir questões éticas, humanas e de impacto nas pessoas. Ao longo do tempo, os alunos acabam por naturalizar esta forma de pensar a gestão.

Além disso, tentamos trabalhar os participantes de forma integrada. Não acreditamos que exista uma vida profissional separada da vida pessoal. Existe apenas uma vida. E quando alguém não está bem pessoalmente, isso acaba inevitavelmente por afetar todas as outras dimensões.

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