A curiosidade sempre me foi inata, o fascínio pela primeira pedra na inovação, quer seja ela o simples ato de bater uma clara e transformá-la num pitoresco castelo ou a busca incessável pela descoberta de novos caminhos na ciência. Enquanto Millenials e GenZ, é-nos apresentado um mundo em esteróides, cujo tempo para ação e mudança parece cada vez mais escasso.
Em vez de detalhar uma lista extensa das fagulhas da razão e porquês que me assolam ao deitar, gostaria de vos guiar pela minha mente usando uma referência musical que irá certamente ajudar a compor o meu cenário enquanto designer humanista. Se ouvirem atentamente o primeiro andamento da 2ª Sinfonia de Mahler, mesmo que não sejam fãs de música clássica, vão conectar-se instantaneamente com o movimento e a imagem visual que vos vou descrever.
Imaginem que estão numa sala com cinco pessoas desconhecidas e querem descobrir mais sobre cada uma delas, mas para que isso aconteça têm que analisar o seu comportamento. A primeira pessoa, à vossa direita, carrega a herança de gerações de emigrantes que, apesar dos obstáculos de idioma, classe e instrução, ultrapassaram todas as adversidades para que a noção do privilégio pudesse ganhar outro sentido de missão na construção de uma sociedade mais equitativa com as mesmas oportunidades de acesso à educação, justiça e saúde.
A segunda pessoa, através dos seus largos óculos, observa um planeta de cortar a respiração, ofegante com um misto de beleza e mágoa por aquilo que os seus antecessores destruíram e que agora tem em mãos a obrigação de sustentar. Tudo isto para que o testemunho a passar não seja tão pesado como o que encontrou.
A terceira pessoa está a tentar explicar como uma pêra se pode tornar numa lâmpada e uma ideia se pode transformar num molde para a criatividade e cultura enquanto memória coletiva de um país que insiste em ignorá-la.
A quarta pessoa está sentada numa cadeira com um lápis na mão, desenhando uma linha. Essa linha cresce, evoluindo para formar uma mesa na qual ela reclama um lugar para que as suas ideias não sejam alvo de vieses de género ou idadismos. Por fim, a quinta pessoa está a olhar para todas as anteriores como componentes de si mesma.
Acabei de vos descrever diferentes realidades internas que caracterizam a forma como vejo a importância do pensamento jovem para impactar as decisões de uma comunidade 2.0. Acredito que as nossas perspectivas se fortalecem quando interagimos com outras disciplinas do conhecimento gerando um continuum do processo de aprendizagem.
Na espuma dos dias, é fácil perdermos o foco e o sentido de missão que norteia o nosso propósito e é por isso que tento sempre plantar sementes para que cada pessoa com quem me cruzo possa também tornar-se num agente de mudança.
BIO
Nascida na ilha de São Miguel, nos Açores e residente em Nova Iorque, Inês Ayer é uma jovem designer humanista com uma abordagem 360º à resolução de problemas. É licenciada em Design de Comunicação, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, tem uma Pós-Graduação em Gestão Aplicada e Economia, da NOVA Business School, um mestrado em Design for Distributed Innovation pela Fab Academy + Institute of Advanced Architecture of Catalonia e um MFA em Design e Empreendedorismo pela School of Visual Arts. Em 2019, fundou o seu próprio estúdio de design: o Studio Ayer. O atelier, que existe apenas há quatro anos, já colaborou com 12 países na elaboração de mais de 80 projetos. Além do studio, é Senior Designer na Pentagram – o maior estúdio de design independente do mundo. Os seus interesses focam-se no âmbito da justiça social, inovação e sustentabilidade. Dos quais destaca o projeto Aliquoti, com ênfase na redução da taxa de mortalidade neonatal em mulheres BIPOC (Black, Indigenous and People of Color), nos EUA.
Este artigo faz parte do Repto ‘Quais são as tuas causas?’, lançado aos jovens da Comunidade Global Shapers.
Leia todos os artigos aqui:
A Voz do Silêncio: o jornalismo como ferramenta de mudança
Desenvolvimento sustentável: Uma visão de longo prazo
