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Marcelo Teixeira

Chefs portugueses conquistam Tóquio e Osaka com sabor e alma

9 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Portugal está a dar nas vistas no Japão, não só pelo vinho ou pela simpatia, mas sobretudo pelo sabor. No âmbito do projeto The Art of Tasting Portugal, o Turismo de Portugal lançou em Tóquio uma ofensiva de sedução gastronómica, dirigida a críticos, operadores turísticos e líderes de opinião japoneses. A iniciativa, que cruza tradição, inovação e sustentabilidade, vai prolongar-se até outubro, com várias ações protagonizadas por alguns dos nomes mais sonantes da cozinha nacional.

O arranque aconteceu no passado dia 2 de maio, no restaurante Noda Harajuku, onde o chef Diogo Rocha – Estrela MICHELIN e Estrela Verde – levou os sabores do Centro de Portugal até ao coração da capital japonesa. Ao seu lado esteve o chef Yuki Noda, defensor da cozinha regional nipónica. Juntos, criaram um menu que fundiu o rigor técnico da gastronomia japonesa com a autenticidade dos produtos portugueses.

Mas o sabor não ficou por Tóquio. A 7 de maio, o palco foi em Osaka, no restaurante Origin. Desta vez, coube ao chef Vítor Sobral, um dos embaixadores maiores da cozinha portuguesa contemporânea, cozinhar lado a lado com o chef Tetsu Yoshida (uma Estrela MICHELIN). Juntos, reinventaram clássicos como os pezinhos de coentrada ou o polvo, num cruzamento criativo entre a tradição portuguesa e o requinte técnico franco-japonês de Yoshida.

Os pratos foram acompanhados por uma seleção de vinhos nacionais, escolhidos por Sobral, num pairing pensado para conquistar um mercado japonês cada vez mais atento ao universo vínico português.

Durante a sua estadia no Japão, Vítor Sobral também foi o rosto do jantar oficial do Dia de Portugal na Expo Osaka 2025, servindo uma degustação para mais de 100 convidados no Pavilhão de Portugal.

Carlos Abade, presidente do Turismo de Portugal, explica que esta aposta na gastronomia «faz parte de uma estratégia maior de afirmação internacional da marca Portugal, valorizando o território, promovendo a autenticidade cultural e posicionando o país como um destino gastronómico de excelência.»

Estas ações reforçam ainda a nova campanha do VisitPortugal, ‘Portugal, uma receita por escrever’, que convida o mundo a descobrir o país através de ingredientes simples: frescura, criatividade, generosidade e alma.

Portugal, afinal, também se prova.

Arquivado em:Cultura e Lifestyle, Lazer, Notícias

Argentina em sete minutos: onde o coração dança fora do peito

8 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Por entre os pampas que se estendem como lençóis de saudade e os bairros incandescentes de Buenos Aires, onde o coração dança fora do peito, a Argentina baila consigo mesma. É tango de faca e beijo, de grito e de silêncio. É pátria que sonha ser universal, mas tropeça no próprio compasso — reinventa-se, cai, levanta, desafina e encanta. Um país de mil passos cruzados, que ora se exalta, ora se entristece, sempre com a alma à flor da pele.

Em 2025, a Argentina ocupa o 42.º lugar no Global Soft Power Index da Brand Finance, uma queda de quatro posições face ao ano anterior. A descida reflete fragilidades em pilares como Governação, Educação, Ciência e Futuro Sustentável. Ainda assim, resiste com garra no campo da Familiaridade — onde figura entre os 20 primeiros —, sinal de que o mundo continua a reconhecê-la, a ouvi-la, a senti-la.

Já no Índice de Democracia da Economist Intelligence Unit, o país ocupa o 54.º lugar, com uma pontuação de 6,51. Classificada como uma ‘democracia com falhas’, a Argentina permanece num limbo entre promessas e desilusões — como se esperasse, sempre à meia-luz, a próxima melodia que a salve.

Este é o sétimo artigo da rubrica da Líder, ‘O estado de uma nação em sete minutos’. Todas as quintas-feiras, traremos um retrato de um país, explorando sucintamente quatro dimensões: cultural, política, económica e social.

 

Cultura

A Argentina é um recheio cultural que pulsa em contratempo. Buenos Aires, com o seu Teatro Colón e cafés onde ainda se discute o mundo entre livros gastos e vozes ardentes, é tanto catedral da memória como laboratório do porvir. O tango, nascido nas margens portuárias e nos becos da classe trabalhadora, transformou-se em linguagem universal de paixão, exílio e resistência.

Na literatura, a Argentina é útero e trincheira — deu ao mundo Borges, mestre dos labirintos e dos espelhos, e também Cortázar, Piglia, Schweblin, Enríquez: autores que ergueram bibliotecas feitas de crítica, sonho e desassossego. A sua escrita é húmus de inquietação, política subtil, fantasia com feridas abertas.

A gastronomia é também uma afirmação — o asado, as empanadas, o mate partilhado como um ritual de irmandade e pertença. É cozinha do povo, fogo lento de identidade. No futebol, Maradona e Messi tornaram-se mais do que ídolos: são metáforas vivas de um país feito de talento e tumulto, onde a glória é sempre conquistada com os dentes cerrados e o coração ao alto.

 

Política

Desde a sua eleição em novembro de 2023, Javier Milei, líder da coligação La Libertad Avanza (LLA), tem promovido uma agenda de reformas radicais na Argentina. Apesar de não deter a maioria no Congresso — com 38 dos 257 deputados e 7 dos 72 senadores—Milei tem avançado com medidas significativas, muitas vezes com o apoio de partidos de centro-direita.

Em julho de 2024, o Congresso aprovou a ‘Ley Bases’, um pacote legislativo que concede ao presidente poderes especiais para legislar por decreto em áreas económicas, administrativas, financeiras e energéticas por um ano. A lei também permite a privatização de empresas estatais e introduz reformas fiscais e laborais.

Manifestações contra essa lei resultaram em confrontos com a polícia, detenções arbitrárias e acusações de uso excessivo da força. Organizações de direitos humanos denunciaram a repressão como uma ameaça às liberdades civis.

Além disso, o governo tem adotado medidas que afetam a liberdade de imprensa, como o fechamento da agência de notícias estatal Télam, justificado por Milei como uma tentativa de eliminar a propaganda estatal. A decisão foi criticada por sindicatos de jornalistas e organizações internacionais como um ataque à liberdade de expressão.

A oposição, liderada pela coligação peronista União pela Pátria (UP), mantém-se como a maior força no Congresso, com 99 deputados e 33 senadores. No entanto, enfrenta desafios internos e uma crescente polarização política, exacerbada pelas políticas e retórica confrontacional de Milei.

 

Economia

A economia argentina, sob a liderança do presidente Javier Milei, apresenta um cenário de contrastes marcantes. Enquanto indicadores macroeconómicos mostram sinais de recuperação, muitos argentinos continuam a enfrentar dificuldades significativas no seu quotidiano.

Após uma contração de 1,7% em 2024, atribuída a uma severa seca e a desequilíbrios económicos acumulados, a economia argentina começou a mostrar sinais de recuperação no segundo semestre do ano. Em janeiro de 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) atingiu níveis próximos aos de março de 2023, superando o declínio registado desde o final desse ano. As projeções para 2025 indicam um crescimento entre 3,5% e 5,5%, impulsionado pelo consumo privado e pelo investimento.

A inflação, que atingiu quase 300% em abril de 2024, registou uma descida acentuada, situando-se em 66,9% em dezembro do mesmo ano. Esta redução é atribuída às políticas de austeridade implementadas pelo governo, incluindo cortes nos gastos públicos e a eliminação de controlos cambiais. Apesar desta melhoria, a inflação permanece elevada, afetando o poder de compra dos cidadãos.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), a taxa de pobreza na Argentina caiu de 52,9% no primeiro semestre de 2024 para 38,1% no segundo semestre. Esta melhoria é atribuída à estabilização da inflação e a uma recuperação parcial dos salários. No entanto, a pobreza extrema ainda afeta cerca de 2,5 milhões de pessoas, e quase 52% das crianças com menos de 14 anos vivem em situação de pobreza .

As reformas económicas implementadas pelo governo, embora tenham contribuído para a estabilização macroeconómica, tiveram um impacto significativo na população. Os cortes nos gastos públicos afetaram salários do setor público, pensões e programas sociais, levando a protestos e descontentamento. Além disso, a informalidade no mercado de trabalho aumentou, deixando muitos trabalhadores sem benefícios e mais vulneráveis à pobreza.

 

Sociedade

A taxa de fertilidade tem apresentado uma tendência de queda nas últimas décadas. Em 2022, situou-se em 1,88 filhos por mulher, abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1. Este declínio, aliado a uma esperança média de vida de 77,5 anos em 2024 — sendo 79,88 anos para mulheres e 74,81 anos para homens, contribui para o envelhecimento da população argentina.

Apesar de enfrentar desafios económicos, a Argentina continua a atrair migrantes de países vizinhos, como Bolívia, Paraguai e Peru, enriquecendo sua diversidade cultural. Em 2023, o saldo migratório foi de 3.718 pessoas, uma ligeira queda em relação ao ano anterior.

O movimento feminista argentino é um dos mais ativos da América Latina. Em março de 2025, dezenas de milhares de mulheres e membros da comunidade LGBTQ+ protestaram em Buenos Aires contra políticas do governo de Javier Milei, incluindo o fechamento do Ministério da Mulher e cortes em programas sociais.

Essas manifestações refletem a resistência da sociedade civil frente a retrocessos em direitos conquistados, como a legalização do aborto em 2020.

Conclusão

A Argentina respira como dança: com pausas, voltas e tropeços que também são passos. Há luz nos números, mas sombra nas ruas — e é no meio deste chiaroscuro que a nação continua a reinventar-se. Sempre dramática, sempre viva.

 

O estado de uma nação em sete minutos: o peso da Rússia no mundo

O estado de uma nação em sete minutos: o samba infinito do Brasil

Brexit, imigração e tarifas: o estado do Reino Unido em sete minutos

Países Baixos em sete minutos: uma nação com verniz progressista

Espanha em sete minutos: tapeçaria viva, bordada a cores de terra, sangue e luz

França em sete minutos: plural, mestiça, inquieta

 

Arquivado em:Notícias, Sociedade

Data with Purpose Summit (Parte I) : «As habilidades críticas e criativas pertencem-nos», diz Martin Anthony

8 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Com a inteligência artificial a evoluir a passos largos, surgem questões inevitáveis: perderemos postos de trabalho? Como pode a IA melhorar a saúde pública? Estará a riqueza ainda mais concentrada? A democracia sairá reforçada ou fragilizada? E que papel terá a educação num mundo cada vez mais automatizado?

Para Martin Anthony, Diretor do Data Science Institute da London School of Economics and Political Science, «as transformações económicas são vitais» e o impacto da IA «na forma como trabalhamos» será profundo. Mas, como relembrou, «a transição não é simples».

Na sua visão, profissões irão desaparecer, outras serão criadas, e muitas serão transformadas. Mas é essencial preparar as sociedades para este momento — com políticas públicas informadas e decisões baseadas em dados. «A informação poderá ajudar a criar políticas essenciais», referiu, apontando também que a IA poderá ser útil na governação, por exemplo na deteção de fraudes ou no reforço da transparência.

O Diretor subiu ao palco da Data with Purpose Summit, iniciativa da Nova IMS, em parceria com o Jornal Expresso e produção da Líder Events, realizou-se ontem no campus da reitoria da Universidade Nova em Campolide.

Sob o mote Mindshifting – for Better Lives, a edição deste ano reuniu cerca de 30 oradores nacionais e internacionais para refletir o papel dos dados na construção de um Mundo mais inteligente, ético e sustentável.

Da Inteligência Artificial aplicada à saúde, aos grandes desafios ambientais e económicos, o foco esteve nas decisões que moldam o presente e influenciam o futuro. A Ciência de Dados foi abordada em todas as suas vertentes: desde a capacitação de pessoas à promoção da inovação, passando pela necessidade de garantir que a tecnologia permaneça ao serviço da Humanidade – e não o contrário.

Com Madalena Lourenço (hostess e jornalista da SIC) a encaminhar os destinos do programa, o futuro foi o tema central. Pensado com propósito, construído com dados e em constante transformação.

Madalena Lourenço, jornalista da SIC

 

Uma transformação que pode mudar as democracias

Sob o tema The Future with AI and Data Science: Some Social Science Perspectives, Martin Anthony trouxe para o centro do debate não apenas algoritmos, mas também inquietações profundamente humanas.

Na sua visão, profissões irão desaparecer, outras serão criadas, e muitas serão transformadas. Mas é essencial preparar as sociedades para este momento — com políticas públicas informadas e decisões baseadas em dados. «A informação poderá ajudar a criar políticas essenciais», referiu, apontando também que a IA poderá ser útil na governação, por exemplo na deteção de fraudes ou no reforço da transparência.

A tecnologia, acredita, pode até contribuir para democracias mais inclusivas e participativas: «poderá criar mais interesse nos cidadãos, suportando as democracias e tornando-as mais efetivas.»

No campo da educação, Martin Anthony foi claro: devemos cultivar aquilo que as máquinas ainda não conseguem replicar. «As habilidades críticas e criativas pertencem-nos. As máquinas podem gerar arte, mas essa capacidade tem origem humana.» Para ele, a IA deve funcionar como aliada do professor, como tutor personalizado e adaptativo, potenciando a aprendizagem ao ritmo e interesse de cada aluno.

 

Caminhos da educação e algumas perspetivas das Ciências Sociais  

Miguel de Castro Neto, Dean da NOVA IMS, acolheu a audiência e apresentou uma visão centrada na articulação entre conhecimento académico, prática real e governação inteligente.

Em Future of Education, o novo paradigma pedagógico rompe com o modelo tradicional de sala de aula. A aposta está em metodologias híbridas, na integração de learning analytics e na criação de dashboards personalizados para cada diretor de área e programa de ensino. «O objetivo é conseguir entregar informação útil e em tempo real aos diferentes stakeholders» sublinhou o Dean.

A inteligência aplicada à vida urbana surge como pilar central da estratégia. Através de uma plataforma dinâmica de conhecimento e da ligação entre os laboratórios da Nova IMS e a realidade das cidades, a escola posiciona-se como motor de inovação para a governação integrada dos dados. A decisão é data-driven — orientada por evidência e focada em resultados.

Com este modelo, «a Nova IMS quer liderar a transição para uma educação mais conectada, mais ágil e mais alinhada com as exigências do século XXI», concluiu Miguel de Castro Neto.

Miguel de Castro Neto, Dean da NOVA IMS

 

Cruzar histórias com dados

Na mesa-redonda sobre Data Driven Innovation, moderada por Rita Rugeroni Saldanha, diretora de conteúdos da revista Líder, cruzaram-se histórias, experiências e visões distintas sobre o papel dos dados no mundo real. Mais do que algoritmos, falou-se de pessoas. E de como a intuição, aliada à ciência, pode transformar negócios, cidades e comunidades.

Filip Petrovski, CEO da Data Masters, lançou a discussão num timbre certeiro: «Não importa tanto quanta informação temos, mas o que fazemos com aquela que já está nas nossas mãos.» Para Petrovski, a chave está na ação: menos acumular dados, mais pensar com eles. «O desafio é sempre o mesmo — transformar dados em impacto. E isso só se faz com as perguntas certas.»

Frederico Cruz Jesus, cofundador da Home Sweet Sushi, foi a personificação prática dessa ideia. «Não sei como explicar que a minha formação em data me levou a vender arroz com peixe», disse entre sorrisos. Mas por trás da frase estava uma reflexão séria: «Há uma rivalidade absurda entre quem vem do mundo técnico e quem vem do empresarial. Isso não faz sentido — as duas linguagens têm de se complementar.»

Frederico Cruz Jesus sublinhou que os sistemas de dados, quando bem pensados, podem criar proximidade com o cliente e gerar decisões mais afinadas. «Claro que há espaço para intuição, mas também há limites — é preciso cuidado com os exageros.»

Callie Wentling, fundadora da Rede Rua, trouxe uma perspetiva de proximidade social: «Queremos ser um espelho do que acontece nas ruas, nos bairros — fazer o balanço entre o que é perceção e o que é definitivamente real.» A sua iniciativa usa dados em tempo real, notícias geolocalizadas e um trabalho de campo com comunidades locais para combater a desinformação e democratizar o acesso à informação. «Há responsabilidade em trazer informação às pessoas. E também em dar luz a quem decide localmente.»

Ivo Bernardo, presidente da NOVA IMS Alumni Association e cofundador da DareData, reforçou a importância de entender que dados relevantes variam de negócio para negócio. «Desenvolvemos soluções para outras empresas. A primeira pergunta é sempre: que dados interessam mesmo ao teu desafio?».

Para Ivo Bernardo, a intuição é também uma ferramenta técnica: «É assim que se encontram as particularidades mais raras de cada empresa.» E, claro, o lado humano continua central: «A velocidade de aprendizagem, a curiosidade e a capacidade de ligar os pontos – isso é que faz um engenheiro ser extraordinário.»

A conversa fechou com Filip Petrovski a regressar à ideia de ligação entre técnica e estratégia. «Um verdadeiro master of data não é só alguém que domina os números — é alguém que os transforma em decisões, com intuição e visão.» E deu um exemplo: «Como o Francisco ali sentado» — apontando para o público. «Fez as perguntas certas, conectou mundos distintos e percebeu que os dados só contam quando contam mesmo para alguém.»

Rita Rugeroni Saldanha (Líder), Filip Petrovski, CEO da Data Masters, Frederico Cruz Jesus, cofundador da Home Sweet Sushi, Callie Wentling, fundadora da Rede Rua, Ivo Bernardo, presidente da NOVA IMS Alumni Association e cofundador da DareData

 

Políticas públicas e privadas guiadas com ciência, não com fé

A seguir, uma flash talk curta, mas carregada de implicações. Pedro Simões Coelho, Professor Catedrático da NOVA IMS, apresentou o Data-Driven Public Policies Lab — um laboratório criado para cruzar políticas públicas com ciência de dados. Não por moda, mas por necessidade. «Se queremos cumprir os objetivos europeus, temos de decidir com base em evidência», resumiu.

A inteligência artificial já alimenta os projetos do laboratório, que colabora com entidades como o Turismo de Portugal, a Autoridade da Auditoria ou a Direção-Geral do Consumidor. O foco é claro: trazer eficácia à administração, melhorar o desempenho e otimizar os recursos humanos. Ou, como disse o professor: «a quadratura do círculo é reduzir o esforço administrativo e melhorar a qualidade dos resultados».

 Pedro Simões Coelho, Professor Catedrático da NOVA IMS

Logo depois, Bruno Damásio, também professor da NOVA IMS, trouxe para o palco outro ponto de fricção entre tecnologia e Estado. A flash talk chamou-se AI in Public Procurement: a New Era of Risk Intelligence, mas podia resumir-se numa pergunta: como tornar a contratação pública — que pesa no PIB e atravessa quase todos os setores — mais inteligente?

O docente trouxe o exemplo da colaboração com o Tribunal de Contas e deixou a frase que ficou a ecoar: «Ou o futuro do Estado é guiado pela evidência, ou será apenas um conjunto de boas intenções.» Mais do que fiscalizar, o objetivo agora é capacitar. «Transformar a avalanche de dados em conhecimento útil. Beneficiar os stakeholders. E, sobretudo, a sociedade».

Na reta final, uma síntese que também serve de aviso: «Os dados são o sangue da tomada de decisão e a matéria-prima da responsabilização.»

 Bruno Damásio, professor da NOVA IMS

Na keynote talk AI Revolutionizing Service Excellence,  Anna Mattila, professora na Pennsylvania State University e especialista em gestão hoteleira, trouxe um olhar cirúrgico sobre o impacto da IA na excelência do serviço ao cliente — ou, nas suas palavras, «o potencial da IA para aumentar a satisfação dos consumidores». Mas sem romantismos.

A professora apresentou três níveis de inteligência no serviço: mecânica, cognitiva e emocional. E deixou claro: a inteligência artificial já sabe recolher dados em tempo real, ajustar respostas, prever padrões de consumo, mas ainda falha quando a conversa muda de lógica para ética.

«A personalização é o caminho», diz, mas nem sempre é o suficiente. Os consumidores esperam experiências sob medida, mas também reagem com desconfiança quando percebem que estão a ser manipulados — sobretudo quando há valores sociais ou decisões sensíveis em jogo.

«Os consumidores podem resistir aos algoritmos, rejeitar interações automatizadas ou até criar expetativas ambíguas em relação às máquinas», explicou. Há um hiato crescente entre o que a IA consegue oferecer e o que os consumidores esperam dela — e isso exige afinação constante.

 Anna Mattila, professora na Pennsylvania State University

A linha entre utilidade e invasão é ténue. A IA também já compila e sumariza reviews, por exemplo de hotéis, para poupar tempo ao consumidor. Os chatbots evoluíram, estão mais rápidos, mais eficazes. E surgem até hologramas, prontos a receber-nos num átrio ou recepção de hotel.

Mas, como alertou a investigadora, «as máquinas não têm moral. Apenas processam padrões.» Se os algoritmos começam a aplicar preçários discriminatórios, ajustando preços com base em localização, histórico ou perfil, o que nos resta? O desafio, conclui Anna Mattila, está em encontrar o equilíbrio: «usar a IA para servir melhor. Não para decidir por nós.»

 

Mesa-Redonda – AI for Healthcare and Well-Being

A inteligência artificial promete transformar a saúde. Mas será que o setor está preparado para isso? Foi essa a questão que abriu a mesa-redonda AI for Healthcare and Well-Being, com moderação de Paulo Ferreira, jornalista. No painel, Miguel Arriaga, Diretor da Direção de Prevenção de Doenças e Promoção da Saúde, Ricardo Baptista Leite, CEO da HealthAI, e Sónia Dias, Dean da NOVA National School of Public Health.

Para Ricardo Baptista Leite, o impacto da IA começa no topo. «Temos uma oportunidade clara de usar o machine learning como um facilitador da transformação, mas isso exige liderança e visão estratégica. Os líderes precisam de saber onde querem chegar.» O caminho não pode ser improvisado — deve ser pensado de forma coordenada, com objetivos claros.

Sónia Dias reforçou que «é urgente que a saúde pública utilize todas as ferramentas que a IA e os dados colocam à disposição». Não se trata apenas de inovação — trata-se de equidade. A IA pode ajudar a combater uma das maiores injustiças do sistema: a desigualdade. «A pobreza continua a ser o maior fator de risco em saúde. A tecnologia permite fazer mais com menos — mais eficiência, menos desperdício e menos desigualdade.»

Miguel Arriaga foi direto: «As novas tecnologias têm de chegar primeiro a quem mais precisa. Quem tem dinheiro, resolve. Mas o Estado tem de garantir soluções para quem não tem.»

O Diretor sublinhou que a aposta está na prevenção. E que a tríade ideal para o futuro do setor passa por IA, capacidade preditiva e, acima de tudo, uma dimensão humana. A relação com os profissionais de saúde e a proximidade com as populações são pilares que não podem ser esquecidos. Afinal, nenhuma tecnologia substitui o toque humano — mas pode ajudar a que ele chegue mais longe.

Moderação de Paulo Ferreira, jornalista. No painel, Miguel Arriaga, Diretor da Direção de Prevenção de Doenças e Promoção da Saúde, Ricardo Baptista Leite, CEO da HealthAI, e Sónia Dias, Dean da NOVA National School of Public Health.

 

FLASH TALK – Silent AI, Loud Impact

Por vezes, o mais revolucionário é invisível. Vítor Manita, responsável por GenAI e Machine Learning na Loka, «a melhor inteligência artificial é aquela que o utilizador não vê». É a IA silenciosa — que atua nos bastidores, sem pompa nem espetáculo — que está a transformar radicalmente a eficiência dos sistemas, sobretudo na saúde.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a administração representa 38% dos custos totais com saúde. Um número gritante. «Antes, o humano estava preso num loop», explicou. Era necessário sair desse círculo vicioso onde a tecnologia ocupava o lugar errado: surgia primeiro, e só depois se pensava no problema a resolver.

 Vítor Manita, responsável por GenAI e Machine Learning na Loka

A chave, diz Vítor Manita, está em inverter essa lógica. «Começar com o problema, não com a tecnologia.» E foi isso que mostrou com três casos concretos, aplicados à área da saúde:

  1. AI Scribe Environment – Um ambiente automatizado de transcrição, libertando os médicos do registo exaustivo das consultas.
  2. Medical Invoice Processing – Uma tarefa que consumia mil horas em modo manual e que, com IA, passou a ser feita em apenas 250 horas — quatro vezes mais rápido.
  3. Field-Tested Playbook – Um guia prático, validado no terreno, que defende uma abordagem iterativa: começar pequeno, escolher o modelo certo e melhorar os resultados com chain of thought prompting — ou seja, técnicas que ajudam a IA a estruturar raciocínios mais robustos.

Vítor Manita defende uma filosofia clara: «Investir primeiro numa IA aborrecida, mas que resolve, e só depois numa IA espetacular.» A inovação, afinal, não precisa de fazer barulho. Precisa de funcionar.

 

Aceda à galeria de imagens do evento aqui.

Todos os momentos da ‘Data with Purpose Summit’ estarão disponíveis na Líder TV – em www.lidertv.pt e nos canais 165 do MEO e 560 da NOS.

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Ecossistema de inovação regressa a Lisboa num tempo de incerteza global

8 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Num tempo em que a ordem mundial está em reconfiguração e as fronteiras entre inovação civil e tecnológica de defesa se esbatem, a Investors Portugal prepara-se para juntar novamente o núcleo duro do ecossistema early stage nacional.

A 4.ª edição do Investors Dinner acontece a 29 de maio, em Lisboa, sob o mote Investing Under a New World Order, e promete combinar celebração, reflexão estratégica e reconhecimento dos principais atores do setor.

Mais de uma centena de investidores, fundadores e líderes de fundo já confirmaram presença num jantar que será tudo menos apenas social. Ao centro da noite estará a discussão sobre o papel de Portugal no desenvolvimento de tecnologias emergentes em defesa, inteligência artificial e deeptech — incluindo soluções dual-purpose, com aplicações civis e militares.

«Ao investir em inovação de forma sustentada e com visão, estamos a preparar o país para responder aos desafios globais. Mas para isso precisamos de políticas públicas estáveis e espaços como este, onde se reconhece quem arrisca e se fomenta a ambição coletiva», afirma Lurdes Gramaxo, presidente da Investors Portugal.

 

Lurdes Gramaxo, presidente da Investors Portugal

Geopolítica no centro do debate

O evento contará com a intervenção de Ana Maria Evans, especialista em geopolítica e estratégia internacional, que abrirá a noite com a keynote Geopolitics and Investment Ecosystems in the Transition to a New Global Order. A palestra servirá de base para o painel que se segue, com vozes experientes do setor como Ana Barbosa (Tekever), Eduardo Piedade (BrightPixel), Rita Branco (3xp), João Fonseca Santos (BEI), Milana Dovzhenko (Business Angel) e Rui Metelo Marques (NATO Innovation Fund).

Entre discursos e reflexões, haverá também espaço para dados. A Nova SBE apresentará os primeiros resultados do estudo ‘Capital de Risco e o SIFIDE em Portugal – Avaliação do Impacto Económico’, realizado em colaboração com a associação.

Os prémios do ano para quem faz acontecer

À semelhança das edições anteriores, a noite culmina com a entrega de quatro distinções que querem deixar marca no setor:

  • Angel of the Year: para o business angel com impacto notável junto das startups;
  • Early Stage Investor of the Year: que reconhece o maior investimento realizado por um investidor português;
  • Investment of the Year: prémio para a maior ronda levantada por uma startup nacional;
  • ESG Award of the Year: destinado ao player com as melhores práticas ambientais, sociais e de governance em 2024.

A edição deste ano volta a reunir figuras de peso e pretende reforçar a importância do capital early stage como motor de inovação, num contexto onde a incerteza já não é exceção — é regra.

Os interessados em participar podem registar-se aqui.

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A instrumentalização do medo em tempo eleitoral

8 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

A poucos dias das eleições legislativas, o Governo português anunciou que vai notificar cerca de 4.500 imigrantes em situação irregular para abandonarem voluntariamente o país. Esta medida, que poderia ter sido aplicada em qualquer outro momento, surge justamente no auge da campanha eleitoral — num contexto em que o discurso sobre imigração tem sido manipulado por determinados sectores políticos que associam, de forma sistemática, imigração e criminalidade. Torna-se inevitável perguntar: estará o Governo a ceder à lógica da extrema-direita, replicando a sua retórica para conquistar terreno eleitoral?
O que está em causa não é apenas a legalidade ou ilegalidade da permanência de determinados cidadãos estrangeiros no país. É o discurso que acompanha essa decisão, e a forma como ele alimenta uma visão distorcida e perigosa da imigração. Teorias conspirativas como a da “substituição populacional”, completamente infundadas, ou falácias recorrentes — como a ideia de que os imigrantes têm prioridade no acesso a apoios sociais, saúde ou habitação — são hoje repetidas até à exaustão, sem qualquer base factual. Mas quantos se questionam sobre quem está por trás desta narrativa? Quem constrói estas mentiras? E com que objetivo?
Estas ideias não surgem do nada. São alimentadas por sectores da sociedade que ocupam cargos públicos, que têm tempo de antena, que influenciam decisões políticas. E mais do que ignorância, o que se vê é estratégia: ao disseminar desinformação, desvia-se o olhar do essencial. Ao transformar os imigrantes em bodes expiatórios, o foco desloca-se dos verdadeiros responsáveis pelos problemas estruturais do país — a desigualdade, a especulação imobiliária, a degradação dos serviços públicos, a precariedade laboral.
Não é legítimo perguntar, então: quem tem como objetivo privatizar gradualmente serviços públicos essenciais para o povo, como por exemplo a saúde? Quem permite que a habitação se torne um bem de luxo? Quem promove políticas laborais que esmagam os salários e precarizam a vida? Certamente não são os imigrantes. E, no entanto, são eles o alvo fácil, o elo mais fraco, a distração conveniente.
Ao propagar um discurso de medo e desinformação, o que se constrói é um ambiente de hostilidade e exclusão. Cria-se a ilusão de que há cidadãos com direitos plenos e outros com direitos condicionais. Promove-se a ideia de que a solidariedade é uma ameaça e que a empatia é sinal de fraqueza. Mas será possível construir uma sociedade coesa quando se lança uns contra os outros? E que futuro pode ter uma democracia que normaliza a linguagem do ódio?
É fundamental perguntar: quem lucra com este clima de tensão social? Quem se serve da demonização do “outro” para ganhar votos? E, sobretudo: que tipo de sociedade estamos a tornar-nos quando aceitamos, em silêncio, que a exclusão e o medo sejam ferramentas políticas?
Portugal é, historicamente, uma nação de emigrantes. Milhões de portugueses partiram — e continuam a partir — em busca de uma vida melhor noutros países. Os portugueses sabem, na pele, o que significa ser imigrante, ser estrangeiro, ser “o outro”. Não será uma profunda contradição negarem, hoje, aos que aqui chegam, a dignidade que sempre exigimos para os seus ?
A dignidade humana não pode ser usada como trunfo político. As leis devem ser justas e respeitadas, sim — mas os discursos que moldam essas leis não podem ser construídos sobre o medo, a mentira e o ressentimento. A pergunta impõe-se: o que resta da democracia quando o preconceito se torna programa político?
A democracia enfraquece quando se deixa capturar pelo populismo. E o país perde quando troca a convivência pela perseguição. Em vez de procurar votos à custa dos mais vulneráveis, os nossos responsáveis políticos deveriam concentrar-se em construir soluções reais e inclusivas.
Porque quando o ódio se torna estratégia, a liberdade torna-se frágil. E a justiça, uma promessa por cumprir.

Arquivado em:Opinião

Empresas com bússola na mão: novo simulador aproxima fundos europeus das PME

7 Maio, 2025 by Marcelo Teixeira

Durante anos, muitos empresários olharam para os fundos europeus como um puzzle complexo, longe da realidade das pequenas e médias empresas. Agora, uma parceria entre o Santander Portugal e a Yunit Consulting quer mudar isso. O novo Simulador PT2030, lançado hoje, promete colocar nas mãos dos gestores uma ferramenta que calcula, com uma margem de precisão de 97%, a elegibilidade dos seus projetos e os apoios a fundo perdido a que podem aceder.

A lógica é simples: responder a algumas perguntas sobre o projeto, setor, localização e dimensão da empresa. Em menos de seis minutos, o simulador devolve estimativas do apoio disponível e sugere caminhos para a candidatura. Tudo gratuito. Tudo digital.

«O Simulador PT2030 não é apenas uma ferramenta tecnológica, é um verdadeiro instrumento de empoderamento empresarial», afirma Bernardo Maciel, CEO da Yunit Consulting. «Representa uma mudança de paradigma. O acesso aos fundos deixa de ser um labirinto burocrático e passa a estar nas mãos dos empresários.»

A plataforma cobre, nesta fase inicial, os principais sistemas de incentivo do Portugal 2030: Inovação Produtiva (SICE), Investigação e Desenvolvimento (SIID), Qualificação e Internacionalização das PME. Está preparada para simular mais de 1 milhão de combinações de investimento, respeitando os critérios dos avisos oficiais já em vigor.

Uma nova porta de entrada

A promessa é clara: autonomia, rapidez e decisões informadas. Mas há mais. Para os que quiserem seguir adiante com o processo, a ferramenta permite solicitar acompanhamento direto da Yunit Consulting, com contacto em até 48 horas úteis. O próprio Santander já está a usar o simulador no enquadramento dos seus clientes empresariais.

Amílcar Lourenço, administrador executivo do banco, sublinha: «Queremos transformar a experiência de acesso aos fundos europeus. Quando se tem uma bússola informativa clara, o risco diminui, a confiança aumenta e as empresas crescem com mais solidez.»

A aposta vai além da tecnologia. O Simulador PT2030 será atualizado à medida que novos avisos sejam publicados e novas funcionalidades se revelem necessárias. É, dizem os responsáveis, uma plataforma ‘viva’, que escuta quem a usa.

Para um país onde grande parte do tecido económico vive assente em PME, a ferramenta poderá ser um primeiro passo para corrigir um dos paradoxos crónicos da economia portuguesa: os fundos existem, mas nem sempre chegam a quem deles mais precisa.

O Simulador PT2030 está disponível em: https://simuladores.yunit.pt/origin/santander

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